Currelos

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Currelos ( extinto concelho)

    Currelos era concelho muito antigo, que segundo o estudioso e investigador Afonso Pais de Sousa Santos, teria tido o seu primitivo núcleo, de origem romana, no local hoje designado por São Sebastião.

    Denominado, depois Oliveira de Currelos - evolução etimológica de «Ulveira» (terra funda, de lameiro), talvez por afinidade sónica com oliveira, assim veio a escrever-se - as suas terras férteis, e, portanto, muito cobiçadas, foram cedidas pelo Conde Dom Henrique ao Mosteiro de Lorvão, e por este doadas, em 15 de Novembro de 1105, a Garcia Vanding e mulher Elvira Goding, para que eles e seus sucessores, as povoassem, reedificassem e cultivassem sob o Senhorio do Mosteiro.

    Currelos, com as terras produtivas que a nobreza punha em sua mira, foi mais tarde pertença dos Condes de Sortelha e dos Condes de Vila Nova de Portimão. E este concelho tinha como povoações, Carregal, Casal da Torre (ou, simplesmente, a Torre, onde existiu o lendário Torreão ou Castelo de Dona Branca, a Vila da Cal, anteriormente denominada apenas «Cal», vinda de «canalle» (carneiro), e que teria sido a sede do antigo concelho, e Casal Mendo, em princípio, Casal do Mendo (do antigo senhorio Mendo Sanches).

 

    Do Torreão ou Castelo de Dona Branca, construção, segundo se julga, da primeira metade do século XII, e que, em 1758, se erguia, ainda com os seus cinquenta pés de altura («Memórias Paroquiais da Freguesia de Currelos»), sendo, por velhos testemunhos, de torres, primitivamente, ameiadas e portões em arco, já nada hoje existe.

    Nos fins do século passado, parte do que então ainda restava foi demolida, e alguma pedra serviu, para a edificação da Capela de Nossa Senhora das Febres, à entrada poente do Carregal do Sal.

    Do velho Torreão ou Castelo de Dona Branca, não se sabe, ao certo, a sua origem. Pensa-se, porém, que teriam sido os donatários, Garcia Vanding e mulher, que o teriam  edificado, entre 1105 e 1137, e à sua construção, ter-se-ia, para sempre, ligado o nome de Casal Torre.

 A lenda de Dona Branca veio imortalizar o velho Torreão, constituindo uma das mais belas lendas portuguesas. Pinho Leal conta-a no seu «Portugal Antigo e Moderno» e Fernanda Frasão consagrou-a no seu livro «Lendas Portuguesas», volume III, págs. 35. e que a seguir se transcreve.

 

 Lenda de Dona Branca

 

Em Currelos, no concelho de Carregal do Sal, há um antigo castelo quadrangular com janelas ogivais, ao qual o povo chama Castelo de Dona Branca.

    Conta  a lenda que esta se chamava, de seu nome completo, Dona Branca de Vilhena. Era fidalga e vivia feliz com seu marido no castelo das janelas ogivais até ao dia em que pariu um par de gémeos.

    Não podendo acreditar que eram ambos filhos do mesmo pai e, por outro lado, tendo consciência absoluta de não ter conhecido outro homem, Dona Branca entrou em pânico. Que diria de si aquele marido tão amigo? Certamente ia escorraçá-la de casa mais os filhos, ou mandá-la expor no pelourinho para vergonha pública! Não, antes mandar matar uma das crianças e viver em paz o resto da vida!

    Mandou chamar um pajem de sua muita confiança, entregou-lhe o menino que nascera em segundo lugar e ordenou que o fizesse desaparecer para todo o sempre. E como prova de que a sua ordem fora executada, disse ao rapaz que lhe trouxesse a língua da criança.

    O pajem lá partiu para cumprir a sua ordem, sentindo um nó na garganta e o estômago revolto com a crueldade. Seguia Mondego abaixo quando encontrou o seu senhor e decidiu contar-lhe tudo.

    O fidalgo mandou arrancar a língua a um cão e levá-la a Dona Branca, para que descansasse. Depois pegou no menino e foi entregá-lo a um moleiro, muito em segredo, para que o criassem sem que nada lhe faltasse, trazendo-o sempre vestido como andava o irmão.

    Passou-se o tempo, e um dia, pela festa do Espírito Santo, o menino do moleiro veio à romaria. O fidalgo, Dona Branca e a outra criança saíram também do seu castelo, para irem à festa. No caminho encontraram-se todos e o fidalgo, apontando a criança que o  moleiro trazia em cima do burro, vestida como o seu filho, disse a Dona Branca:

- Ora aqui está um menino que se parece com o nosso! Era digno de viver com ele e de ser  nosso filho!

    Dona Branca empalideceu e não disse palavra. Dentro de si estalaram todas as certezas laboriosamente construídas ao longo daqueles anos de remorsos e saudade. Percebendo que o marido sabia de tudo, pegou no menino, levou-o para casa e sentou-o à mesa, onde pela primeira vez comeu coma sua família. Deitou-o depois na cama com o irmão e aconchegou-lhes a roupa.

    Era noite fechada quando Dona Branca se aproximou como que distraída de uma das janelas do castelo. Só quando o fidalgo, sentado de costas para as janelas, em frente da lareira, ficou sem resposta a uma sua pergunta, se apercebeu de que Dona Branca desaparecera.

    Lá em baixo brilhava ao luar o seu corpo, de costas para a vida.

    Dali por diante, todas as noites andava pela margem do Mondego o fantasma branco e brilhante de Dona Branca, penando no local em que mandara afogar o seu filho. Diz-se que a acompanhava o Diabo, branco e brilhante como ala, em forma de mastim.

 

Segundo outra versão «dali por diante andava, de noite, um fantasma correndo estes sítios em uma carruagem, com grande séquito, e ia dizendo: ' Aqui vai Dona Branca de Vilhena, acompanhada por quantos diabos há no inferno».

 

    Ainda na freguesia de Currelos, em que se integra Carregal do Sal, poderemos admirar na Vila da Cal, a antiga casa da Câmara e Cadeia do concelho de Currelos, e também o seu Pelourinho, que, embora construído há cinquenta anos, é como que uma reprodução, pela semelhança, do primitivo, destruído no século passado, e que já existia em 1548. Esta obra de substituição, foi concebida pelo saudoso Professor. Dr. José Antunes Vaz Serra, que ali tinha residência, na sua  bonita e imponente moradia, hoje dos seus ilustres familiares.