OS POEMAS QUE EU GOSTARIA DE TER ESCRITO

Sugerido por  José Barata

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO

ERA ELE que erguia as casas

Onde dantes só havia chão.

Como um pássaro sem asas

Ele subia com as casas

Que lhe brotavam da mão.

Mas tudo desconhecia

De sua nobre missão:

Não sabia, por exemplo

Que a casa de um homem é um templo

Um templo sem religião

Como tampouco sabia

Que a casa que ele fazia

Sendo a sua liberdade

Era a sua escravidão.

 

De facto, como podia

Um operário em construção

Compreender por que um tijolo

Valia mais do que um pão?

Tijolos ele empilhava

Com pá, cimento e esquadria

Quanto ao pão, ele o comia …

Mas fosse comer tijolo!

E assim o operário ia

Com suor e com cimento

Erguendo uma casa aqui

Adiante um apartamento

Além uma igreja, à frente

Um quartel e uma prisão:

Prisão de que sofreria

Não fosse, eventualmente

Um operário em construção

 

Mas ele desconhecia

Esse facto extraordinário:

Que o operário faz a coisa

E a coisa faz o operário.

De forma que certo dia

À mesa, ao cortar o pão

O operário foi tomado

De uma súbita emoção

Ao constatar assombrado

Que tudo, naquela mesa

- Garrafa, prato, facão –

Era ele quem os fazia

Ele um humilde operário

Um operário em construção.

Olhou em torno: gamela,

Banco, enxerga, caldeirão,

Vidro, parede, janela,

Casa, cidade, nação!

Tudo, tudo o que existia

Era ele quem o fazia

Ele, um humilde operário

Um operário que sabia

Exercer a profissão.

 

Ah, homens do pensamento

Não sabereis nunca o quanto

Aquele humilde operário

Soube naquele momento!

Naquela casa vazia

Que ele mesmo levantara

Um mundo novo nascia

De que sequer suspeitava.

O operário emocionado

Olhou sua própria mão

Sua rude mão de operário

De operário em construção

E olhando bem para ela

Teve um segundo a impressão

De que não havia no mundo

Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão

Desse instante solitário

Que, tal sua construção

Cresceu também o operário.

Cresceu em alto e profundo

Em largo e no coração

E como tudo que cresce

Ele não cresceu em vão

Pois além do que sabia

― Exercer a profissão ―

O operário adquiriu

Uma nova dimensão:

A dimensão da poesia.

 

E um facto novo se viu

Que a todos admirava:

O que o operário dizia

Outro operário escutava.

E foi assim que o operário

Do edifício em construção

Que sempre dizia sim

Começou a dizer não.

E aprendeu a notar coisas

A que não dava atenção:

Notou que a sua marmita

Era o prato do patrão

Que sua cerveja preta

Era o uísque do patrão

 

Que o seu macaco de zuarte

Era o terno do patrão

Que o casebre onde morava

Era a mansão do patrão

Que os seus dois pés andarilhos

Eram as rodas do patrão

Que a dureza do seu dia

Era a noite do patrão

Que sua imensa fadiga

Era a amiga do patrão.

E o operário disse: Não!

E o operário fez-se forte

Na sua resolução.

 

Como era de se esperar

As bocas da delação

Começaram a dizer coisas

Aos ouvidos do patrão.

Mas o patrão não queria

Nenhuma preocupação.

« … Convençam-no» do contrário

Disse ele sobre o operário

E ao dizer isso sorria.

 

Dia seguinte, o operário

Ao sair da construção

Viu-se súbito cercado

Dos homens da delação

E sofreu por destinado

 Sua primeira agressão.

Teve seu rosto cuspido

Teve seu braço quebrado

Mas quando foi perguntado

O operário disse: Não!

 

Em vão sofrera o operário

Sua primeira agressão

Muitas outras se seguiram

Muitas outras seguirão

Porém, por imprescindível

Ao edifício em construção

Seu trabalho prosseguia

E todo o seu sofrimento

Misturava-se ao cimento

Da construção que crescia.

 

            ………………….

 

(Vinicius de Moraes)

(poema incompleto)

Sugeridos por  Ana Gabriela Baptista                                                                   Sugeridos por  Ana Pina

Recreio

Chilreio de crianças numa escola.

Brincam no intervalo.

Largam da mão

O Pássaro da Ilusão,

E vão depois, felizes, agarrá-lo.

O mestre aquece os pés ao sol do Inverno.

Já foi também menino...

Mas cresceu,

Aprendeu,

E descobriu as manhas do destino...

 

Sabe que ele nos engana,

Seja qual for o oiro que nos dê.

O Pássaro da Ilusão

É uma ilusão:

Só a inocência o vê, porque não vê...

 

Miguel Torga, 1907 - 1995

 

 

Para ser grande…

 

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a Lua toda

Brilha, porque alta vive.

 

Ricardo Reis (1887 – 1935) heterónimo de Fernando Pessoa.

 

Tal vez no ser es ser sin que tú seas

 

Tal vez no ser es ser sin que tú seas,

sin que vayas cortando el mediodía

como una flor azul, sin que camines

más tarde por la niebla y los ladrillos,

sin esa luz que llevas en la mano

que tal vez otros no verán dorada,

que tal vez nadie supo que crecía

como el origen rojo de la rosa,

sin que sea, en fin, sin que vinieras

brusca, incitante, a conocer mi vida,

ráfaga de rosal, trigo del viento,

 

y desde entonces soy porque tú eres,

y desde entonces eres, soy y somos,

y por amor seré, serás, seremos.

 Pablo Neruda, 1904-1973    

Mole

Se me falam em mole, por associação,
posso pensar em macio, em massa informe,
mas posso pensar em rígido, isso conforme
pensar no significado ou na oposição.
Mas estranho é pensar em mole como quantidade,
a que corresponde aquela enormidade,
seis vezes dez elevado a vinte e três.
É estranho ou esotérico talvez,
mas é assim que o nosso mundo é feito.
Não deixaria ninguém satisfeito uma mole de pão
já que nos esmagaria e, de tal jeito,
nem poderíamos morrer de indigestão.
Mas se ao mundo chegasse uma mole de amor,
por certo o mundo desabrocharia em flor.
A exploração, a xenofobia,
a guerra, a fome, tudo acabaria
e um novo mundo, então, começaria.

Chama

Dançava a chama, voluptuosa,
espalhando em redor um tom vermelho-rosa
As achas ardiam na lareira
e a criança batendo as palmas, rindo,
dizia “lindo, lindo”, apontando a fogueira.
Era uma chama voluptuosa e ao mesmo tempo etérea,
por causa do plasma, o quarto estado da matéria.
Vibravam núcleos e iões, e em estranhas convulsões,
electrões davam saltos quânticos.
Era a energia que assim se emitia
em passos de dança, sensuais, românticos.
A criança que, batendo as palmas, rindo,
dizia “lindo, lindo”, adormeceu sorrindo.
E então a louca chama, pressentindo
que a criança já estava dormindo,
deu em esmorecer, foi-se extinguindo.

 Indicador

Indicador, oque indica,

pode ser dedo da mão,

mas também identifica

caráter de solução.

Pode ser o tornesol,

ou a fenolftaleína,

pode ser bromotimol,

ou também heliantina.

Há quem não encontre o rumo

e precise de um sinal,

talvez um fio de prumo

que lhe indique a vertical.

Há quem passe pela vida,

só entregue à sua sorte,

com a bússola perdida

jamais encontrando o norte,

deixando confusos rastos.

Há quem diga que os astros

no Universo em expansão

são grandes indicadores.

Há quem neles leia amores,

venturas e dissabores.

E há quem leia uma paixão

num simples ramo de flores.

 

Regina Gouveia, (1945 …), professora de Física

                                                         

 

 

Sugeridos por  Maria de Lurdes Figueira                                           AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU

PRANTO PELO DIA DE HOJE

 

Nunca choraremos bastante quando vemos

o gesto criador ser impedido

Nunca choraremos bastante quando vemos

que quem ousa lutar é destruído

por troças por insídias por venenos

e por outras maneiras que sabemos

tão sábias tão subtis e tão peritas

que não podem sequer ser bem descritas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, 1919 - 2004

 

 

 

 

«QUEM A TEM...»

 

 

Não hei-de morrer sem saber

 qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser

desta terra em que nasci.

Embora ao mundo pertença

e sempre a verdade vença,

qual será ser livre aqui,

não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,

é quase um crime viver.

Mas, embora escondam tudo

e me queiram cego e mudo,

não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.

Jorge de Sena, 1919 - 1978

 

Era uma vez um país

onde entre o mar e a guerra

vivia o mais infeliz

dos povos à beira-terra.

 

Onde entre vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

um povo se debruçava

como um vime de tristeza

sobre um rio onde mirava

a sua própria pobreza.

Era uma vez um país

onde o pão era contado

onde quem tinha a raiz

tinha o fruto arrecadado

onde quem tinha o dinheiro

tinha o operário algemado

onde suava o ceifeiro

que dormia com o gado

onde tossia o mineiro

em Aljustrel ajustado

onde morria primeiro

quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país

de tal maneira explorado

pelos consórcios fabris

pelo mando acumulado

pelas ideias nazis

pelo dinheiro estragado

pelo dobrar da cerviz

pelo trabalho amarrado

que até hoje já se diz

que nos tempos do passado

se chamava esse país

Portugal suicidado.

...

Ora passou-se porém

que dentro de um povo escravo

alguém que lhe queria bem

um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança

feita de força e vontade

era ainda uma criança

mas já era a liberdade.

...

Ary dos Santos, 1937 -1984