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"Tenho fome da vida que se me foge rápida e desejo imenso adiantar-me antes que venha a noite".

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2º Volume

Vou continuar o meu Diário. Preciso de papel para desabafar! E tão bom ter um amigo silencioso no tempo de silêncio...O amigo que me ouve que me compreende como ninguém. Sim, como ninguém...

E tão difícil encontrar um amigo...

8 de Fevereiro de 1962

É de noite: 10.25h. 0 vento geme nas fisgas das janelas do corredor. Os outros irmãos dormem ou vão dormir! Eu também tenho sono mas o vento faz‑me lembrar que a vida é correr...Amanhã já não estarei...Nesta mesma mesa onde escrevo, possivelmente outro, daqui a alguns anos, corrigirá exercícios, escreverá cartas, lerá algum livro...no silêncio que a minha sombra deixou.... É por isso que tenho a necessidade de escrever... dar testemunho da minha ausência....

É como quem tem medo da partida e deseja ficar....Não é que eu tenha medo de ir. Apetece-me tantas vezes partir...ir para longe, para outro lugar onde as coisas são boas e lindas.

           Mas não sei: ainda hoje quando fui rezar missa à Parede, pela estrada fora sentia a chuva a tamborilar no guarda‑chuva. E sentia‑me com gosto de ir assim, indefinidamente pelo mundo, numa viagem com ocaso distante.

A fome da vida, de pertencer à vida, aos que andam na vida... É o que o vento me faz lembrar nesta noite de silêncio. E tenho que escrever, Sinto saudades de uma terra de longe, que nunca vi mas donde vim inconscientemente no sangue de meus pais.

0 meu amigo...X... já há muito que não me escreve. Tinha-me prometido correspondência amiúde. Eu fi-lo, mas ele não!

Falta de tempo? Talvez! Mas creio que deve ser como sempre: é tão difícil encontrar um amigo na vida! tão difícil!

A amizade é como tudo o que o mundo gera: desgasta‑a o tempo. Creio que foi a ultima vez! Não tentarei mais! Para quê?... Ao menos vive‑se mais livre. É talvez esta liberdade para não dizer desilusão que se aprecia melhor a esperança!

Sabe tão bem dizer que será depois...sim depois... A vida é uma espera. 0 vento que sopra nas frinchas do corredor diz‑me que, a vida é uma espera.... a viagem de regresso para a Pátria onde tudo é bom.

9 de Fevereiro

São 9h20. Os filósofos estão a ver televisão. Eu também gostaria mas o tempo não dá para mais. Amanhã, domingo, terei três missas na Parede e terei que descansar o suficiente. As forças não são muitas. Tenho à minha frente os pontos de exames semestrais para corrigir. Uma pilha deles! Tenho que os corrigir, mas gostaria mais de escrever, escrever contos, poesia, meditações...Tanta coisa que gostaria de escrever! Tanta coisa que me passa pela cabeça.

Esta tarde fui dar um pequeno passeio ao cabeço. Andam lá em obras: abrir valas para deitar os canos. A tardei era linda: azul e morna. Um rebanho com cordeirinhos novos, brancos, a contrastarem com a lã suja, das mães; espinheiros brancos, cheirando a mel; campainhas amarelas a abertas para o sul a diluir o verde; lençóis de margaridas frescas, lírios roxos que o Pimentel cortou para trazer para a capela...O Lobato lá andava com a companhia dos 5 a rasgar a terra. Depois chegou o Arsénio com um chapéu à lavrador e botas de cano.

Agora é que vejo tudo! A tarde que me deixou saudades... Uma tarde tão simples: havia sol e ar! Agora é de noite. Há no silêncio cães a ladrar ao longe e passou agora mesmo um avião que se perdeu no céu sem estradas.

‑ Pronto. Não pode ser mais; o tempo não dá para mais. E eu que gosto tanto de escrever...

Jesus, é só por Ti. Sei que me estás a pedir um pedacinho da Tua Cruz renovada também nisto. Pois seja!

Ter um ideal e não o poder conseguir! Ter jeito e vontade e não o poder fazer.

Sinto que Jesus me deu qualidades para as imolar com o único proveito: a renúncia.

É o melhor afinal. Mas custa imenso!  Estou pronto! É por Ele!

11 de Fevereiro

       Domingo. Andei todo o dia com uma grande dor de cabeça. A cada passo ando. Custou‑me o trabalho dominical. Três missas e confissões. Agora vou deitar-me. Apetece‑me a cama.

A dor de cabeça aliviou mais. Ofereci-a Jesus, também pela eficácia do meu ministério. Deu‑me mais de uma vez vontade de revolta, protestar. Não bastava o sacrifício das três missas, e do breviário que me tem custado imenso a rezar? Mas, graças a Deus, venci.

Agora estou contente Um dia a mais na balança do Deus, creio que com, um saldo positivo...Resta‑me neste momento (quase 11 da noite) a satisfação de pensar que Jesus gosta de mim, apesar de tudo, porque me faz sofrer,

A minha pequenina cruz que deve ter ajudado a remir o mundo de meus irmãos neste dia do Senhor...

14 de Fevereiro

Há um vento norte que sopra rijo. Gosto de o ouvir a fazer barulho como de ondas nos ramos. É neste embalo que me sinto desligado das amarras do cais e lançado para o alto mar onde as coisas são universais e há gosto de paragens desconhecidas do encontro que está para cima de todas as circunstâncias.

Tenho fome da vida que se me foge rápida e desejo imenso adiantar‑me antes que venha a noite. A sede imensa de Deus que me tortura, o amor que me divide em átomos pelo mundo, a fome de fazer alguma coisa de bom para que a minha vida seja útil aos meus irmãos, um saldo positivo nas contas do Senhor.

Que será isto senão o Espírito do Senhor que habitue em mim e que me quer bem, muito bem? Tenho que corresponder.

Fui escolhido e sou amado.... Há predilecção sobre mim. Tem que ser! Vamos para a frente! A cruz é pesada, mas há o gosto de a levar. Que mais pretendo?!...

16 de Fevereiro

A pena que tenho: ir embora cheio de sonhos que nunca realizei porque os tive?...

Tinha razão Agostinho ao apontar o bêbado da praça como mais feliz do que ele.

             É doloroso ter sonhos, muitos sonhos e levá‑los connosco na potência duma flor que nunca se abrirá. Nunca! E ter possibilidade na vida de os realizar. Há tantos que realizam os sonhos que tiveram e morrem com a fronte coroada. ...mas eu estou destinado a ver chegar o dia do meu fim e, de levar os sonhos comigo.....

Quando eu gostava tanto de ficar com flores que os meus sonhos abriram para os outros.. para tantos que hão-de vir depois de mim...

Paciência! É o Senhor que pede a renúncia! Foi Ele que me quis neste Caminho! Para alguma coisa foi. Vamos para a frente!

Só agora sinto a pesada cruz a que me abracei com o idealismo dos meus l6 anos. A Congregação religiosa a que dei o nome havia de ser o meu Calvário. Sinto-lhe bem o fel.

E, apesar de tudo, creio que, se tivesse que voltar às vésperas da minha profissão, teria coragem para saber dizer outra vez que sim.

Fiz‑me religioso para amar e não pode haver amor sem o sofrimento. Que mais desejo que a força para aceitar a cruz?

           Vamos para a frente, Cassiano. Toda a sombra que cai no teu caminho são as mãos d’Ele, do teu Amigo que a fazem!

1 de Maio

Decidi hoje continuar a escrever. Tenho sido indolente, ou melhor, tenho os minutos contados...

Paciência. Gosto do meu querido amigo - o papel branco que recebe  com carinho todos os beijos e lágrimas que lhe dou.

Fui pregar à missa da festa do sr. Pe.Moisés, Director dos Teólogos....

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Agora estou a escrever mesmo deitado na cama. Os outros devem estar a dormir...Para mim a festa, afinal, consiste em comer meia dúzia de ervilhas insossas com pedacinhos de cenoura.

Quando à noite cheguei um pouco cansado por causa do alimento, fui à cozinha.

A minha sopa sem sal não existia. O cozinheiro não teve culpa. Não me importa saber quem a teve e se realmente alguém a teve.

Só sei dizer que me apetecia uma sopinha quente, que até um pobre tem e não a encontrei. Pedi o prato para ver se me apetecia. Sim: duas batatas cozidas, como de costume, mau aspecto e mau gosto, e umas favas duras, pretas e secas do calor do fogão...Agradeci à fui‑me embora para o refeitório comer um pouco de alfaces que topei num prato. Foi a minha ceia.

Fiquei com fome, como tantas vezes. Mas...paciência. É tudo por Ele.

Passei um dia quase de total abandono. Quero dizer que me apetecia ser só que me encontrava bem sem a necessidade dos outros; andar com eles sem o mínimo interesse da sua companhia...

Amigos? Para quê? As vezes dão a impressão que são amigos só para serem amados...

Pronto. Acabou‑se. São horas de dormir, Cassiano!

16 de Maio

Um amigo pediu‑me para rezar por ele que ia, fazer exame. Precisava de 14 para subir de posto. Tomei a coisa a sério, como sempre, quando me pedem. Deito‑me ao sacrifício que é a melhor oração que encontro. Pelo menos é o que o Senhor exige de mim. Tem que haver sofrimento para haver amor. Gosto de amar os outros, sofrendo. Fiz três vias‑sacras e rezei três terços, além de outras lembranças a Deus. Tive a impressão que o Senhor ia ouvir‑me.

Cheguei a pedir-lhe para o meu amigo. Ao fim da tarde telefonou‑me: 13,5. Não chegara. Ficara em metade da graça. Sofri uma desilusão. Olhei para Ele e agradeci. Seria melhor assim? Ele lá sabe. Nós também o saberemos depois. O que é certo é que Ele é bom demais para não nos ouvir.

Depois de um sacrifício não tive a consolação da resposta. Foi um dar sem consolação nenhuma de receber. Soube bem na mesma. Temos que nos habituar a todos os pratos. São todos confeccionados pelas mãos do Senhor.

No outro dia apeteceu‑me imenso ver a final de futebol entre o Real Madrid e o Benfica Os filósofos foram à televisão. Valia a pena. Um jogo formidável. E depois era Benfica‑Portugal. Fiz um esforço e não fui. Contentei‑me com ouvir, ao outro dia, as impressões do jogo. Fora estupendo: 5-3 a favor do Benfica.

Perdera uma oportunidade, fantástica de ver um jogo de mestres. Mas foi preciso assim: una pessoa aí pediu-me que rezasse por ela. Recorri ao sacrifício. Acho que o que custa é que tem valor.

Fiz o mesmo quando do Benfica‑Tottenham, por outra pessoa amiga com dores de cabeça. Agora estou contente porque o mal parece ter passado.

Sabe tão bem contribuir para a felicidade dos outros, mesmo que nos sejam exigidas algumas lágrimas....

24 de Maio

É quase noite. Tenho os pés muito inchados da doença. Fui ao Estoril com a comunidade assistir à procissão de Nossa Senhora.

Gostei. Falei um pouco com o meu amigo X . Tenho a impressão de que gosta de mim. É possível. Mas às vezes apetece‑me mais não ter ninguém; independentes e sós. No fundo, também pode ser orgulho. Por vezes tenho medo e agradeço a consolação duma amizade.

O dia passou. Festa para mim? Se não sinto gosto nenhum na vida a não ser o de viver. Parece um paradoxo. Mas é assim: apesar de tudo, quero viver. Medo à morte? Sofrimento? Talvez não. Antes o saber que tudo teria acabado. E eu que ainda gosto de estar no alto,  a contemplar a solidão do mar, a sofrer o abandono do vento, o misterioso gosto de sofrer...

Os outros tiveram galinha e jantar melhorado. Não é proibido ter prazeres de comida, moderados. O Senhor deu‑nos o gosto para alguma coisa. Eu, vai para dois ano que não sei o que é ter gosto em me sentar à mesa. Para cúmulo de tudo, à dieta sem sal juntou‑se uma carência irritante de fantasia e parece que de boa vontade, do cozinheiro.

Paciência. Vai tocar a campainha para a ceia. Estou com fome, sinto‑me cansado, mas não tenho vontade de ir para a mesa. Fazer o quê? A engolir o que vier seja como for.

Ao meio‑dia deu-me vontade de chorar. Pus os olhos no quadro da ceia do Senhor e ofereci por Ele, pela minha mãe. No fundo também isso foi uma consolação ‑ ter alguma para poder dar.

.... São 11 e 40 da noite. Cheguei há pouco do Murtal onde fui pregar o mês de Maio. Devem estar todos a dormir. Eu escrevo estas linhas. Há vento forte a dar gemidos nos buracos do corredor. Lá fora, os ramos murmuram a monotonia das ondas.

Para que me revoltar? O que tenho lutado para me conter e ver nesta vida sem prazer e enjoativa o caminho de Deus. Para quê vire a este mundo? Gozar? Não! Sofrer!

Tenho que me convencer que estou de viagem e que, se sofro, é porque talvez Ele me quis marcar, já no ventre de minha mãe, com um sinal de predilecção.

O crucifixo calado do meu quarto, de cabeça tombada sobre o ombro direito, quieto, manso e resignado diz‑me que tem que ser assim. Está bem, meu Jesus!

25 de Maio

A tarde vai a desaparecer. Da minha janela ouço os pardais a piar, a recolher. A ventoinha do moinho de vento anda apressada e os auto‑giros vão enchendo a horta de frescura. Além, na estrada, carros que passam levam um destino, como a mulher que vai lá adiante, com um molho de erva à cabeça...E eu?

Vazio, sem nada que me interesse, sem outro gosto que a simples euforia da natureza com que me sinto irmão. Não era melhor cantar por instinto, como o melro que oiço, agora mesmo, baloiçando nos cedros?

Mas os fins da tarde, para mim, são um mundo de sentimentos. Apetece-me fechar os olhos e ficar inconsciente...

Senhor, aceita a monotonia, o vácuo destas horas lentas. No fundo, têm um sentido ‑ vou caminhando para Ti.

O caminho da Cruz não tinha consolações, senão a do fim, que está para além dela.

O fim que está para além desta minha tarde lenta, com nuvens e vento do oeste, a noite que vem caindo, o pó do candeeiro que dormiu todo o dia...

26 de Maio

O professor César, meu amigo, disse-me que, afinal a Sá da Costa não imprime poesia. Tinha-se interessado pelos meus originais. Gostou muito deles. Tem encontrado coisas muito interessantes lá dentro. A opinião dele satisfez‑me porque é entendido e artista (declamador e actor).

Já outros me têm elogiado...Apesar de tudo não consigo encontrar uma porta de saída para o público.

Tenho para aqui originais a encherem‑se de pó, enjoados da espera. Gostaria imenso de fazer carreira literária, dar aos outros a pequena mensagem da minha arte, a que o Senhor me deu; levar a fome de Deus nos meus livros, comunicar às almas de tantos outros irmãos este mundo interior onde todos os caminhos vão dar às portas de Deus, a este outro mundo que está nas margens de lá.

Paciência. Até a esta satisfação de escrever tenho de renunciar...Escrever para quê? Se ao menos publicassem depois da minha morte...seria a maior consolação que me dariam.

Por enquanto, mais este sacrifício que não é pequeno.... Quando me custa...

Se fosse livre e dispusesse do dinheiro que ganho...Mas dei tudo a Ele. Agora é que vou sentir a aspereza da cruz a que me preguei. Mas não volto atrás. É por amor d’Ele. Ele assim permitiu. Mais um sacrifício e bem penoso que a vida. Religiosa me deu. Gosto de sofrer. Ele bem sabia tudo.

Puxou‑me e fui atrás d’Ele. Só me resta dizer como sempre:

‑Aceito, Jesus!

31 de Maio

Tenho imensas saudades do mês que passou.

Tanto desejei este mês com a frescura dos jardins e o aroma das roseiras, as sebes orvalhadas com ninhos e ovos, passarinhos a tentar os primeiros voos, tardes de papoilas e searas, melros a  cantarem o despertar das manhãs, ou o cair das noites....Tanto  desejei este mês! E o mês passou. Não cheguei a gozar o que esperei. Nunca cheguei a gozar o que esperei. É por isso e por outras tantas coisas que a minha pena se faz triste e olha para a vida como para a ausência do bem... Que culpa tenho eu?

Sei só que ficarei a esperar outro mês de Maio com a mesma doce ilusão... Sempre com a mesma doce ilusão...É a melhor maneira de O amar, porque O desejo – a Fonte de toda a Verdade, aquela que projecta sombras nas tardes e nas manhãs para dizer que a realidade existe, mas está longe...

Será imensamente belo o Maio da Eternidade. Terei tudo quanto os meus olhos sonharam...e encontrarei as rosas que o meu jardim nunca chegou a ter... Maria, Maria. Doce nome dos meus dias e noites, encanto inexprimível da beleza criada que os homens procuram...que o meu coração ama.....

8 de Junho

Sofrer porque tendo que sofrer. Vem‑me tantas vezes a tentação da ironia, do cepticismo, do estoicismo orgulhoso perante o sofrimento. Por vezes, quase blasfemo.

Que lucro tira Deus do sofrimento dos homens? Não basta o sofrimento dos prazeres da vida não chegarem a satisfazer?...Porquê mais? E porquê eu e não outros...

Tantas vezes tenho curvado a cabeça num acto de fé! É tudo o amor ‑ a coisa mais complicada que há neste e no outro mundo.

Sinto-o no fundo, quando uma voz me sussurra no íntimo da alma que estou a ser objecto de predilecção. Foi Ele que quis. É Ele que quero: o Amor.

 Vamos para a frente. Custa, mas tem que ser. Há bocado, na visita, só Lhe pedi em voz alta que me ajudasse a dizer que sim!

Estou muito magro: já abati uns 15Kg. Esta dieta sem sal, monótona, mal preparada, por vezes bem insuficiente, causa‑me fastio, revolta.

Vem‑me uma tristeza grande, um aborrecimento à vida, nenhum gosto de viver, inclinações ou desejos frustrados a encher tudo de negro, de inútil, de sei lá o quê.

Mas no fundo, no meio das antíteses que se entrechocam em mim, há ainda o gosto esquisito de viver sofrendo, o pensamento de que, afinal, nada é em vão. O que interessa é aguentar a cruz. É o Amor!

Tenho a impressão que, se o Senhor me dissesse que chegaria aos 90 anos e me desse a escolher dois caminhos: o da dor e aborrecimento que levo e outro da alegria e bem‑estar ‑ não hesitaria um segundo em escolher o primeiro, se isso fosse prova de maior amor.

É noite de Junho. Amanhã, será Véspera de Pentecostes! Veni, Sancte Spiritus!....

9 de Junho

Vigília de Pentecostes. Em todas as visitas que fiz, bastantes como de costume, rezei o Veni Creator. Amanhã será o grande dia da visita. É necessário que Ele me encontre de boa vontade, com as portas da alma abertas. É o grande Amigo que vem.

Doeu‑me a cabeça de tarde. Foi o complemento da oração.

Sinto que preciso mais conformidade com a vontade de Deus, mais pronta e amorosa, alegre, como um presente de amor que se dá. Tem que ser.

A jarrinha de flores da minha mesa está litúrgica: todas vermelhas.

O meu sangue que precisa duma hematose de fogo. Amanhã será o dia...

13 de Junho

      Sto. António. Há tantos anos que morreu e continua vivo: nos cantos e nas fogueiras, na devoção do povo português e de todo o mundo. O humilde frade franciscano. Os grandes amores que Deus torna imortais na Terra. Porque muito amou, continuará vivo para sempre. Os santos não morrem. O grande amor que tiveram a Deus e aos homens, fá-los da Terra e do Céu, de Deus e de toda a parte.  A manhã está com chuva e silêncio. Uma leve aragem apenas. Os trigos loiros esperam a foice. Só uma ânsia me prende nesta manhã abafada e húmida: ser santo, amar a Deus, meu Pai, e aos homens, meus irmãos. Ser útil e bom. Nada mais. Nunca é tarde, quando há ainda caminho para andar. Só quando a noite cair....

14 de Junho

Um dia terrível: indisposto que eu sei lá, sem saber o que sinto. Não sei o que sinto no corpo. Uma indisposição geral. Chuva? Humidade? Um conjunto de coisas que me torna os dias amargos. Depois como se não bastasse o sofrimento físico e até moral, a tentação de revolta, a sensação de bancarrota em tudo.

Cansado da doença, cheio de tédio e a sensação de que estou a sofrer inutilmente, que Deus não devia agir assim permitir assim....Um desejo surdo de vingança contra Ele como o escravo que tem que se vergar e calar. O desejar a morte como um desafio. E depois a abstenção de tudo isso por medo ao inferno, porque Ele é o Todo Poderoso.

Jesus que continua a pedir, Ele ou o hábito, não sei, sacrifícios e mais sacrifícios...Eu que continuo a dar‑lhos não sei se por amor, se por medo, se por interesse.

No fundo, caio em mim e grito‑lhe que é por amor, que seja tudo por amor. Não sei se é por amor, ou se não é. Sei que continuo a sofrer e os dias passam monótonos, cruéis.

Às vezes só a noite me apetece ‑ deitar‑me e dormir. Mas é um prazer estúpido ‑matar o tempo, passá‑lo inconsciente, gozar o que?

...Estou a pensar no candeeiro do meu quarto que ilumina esta página morta. Depois de tudo só. Estou só. Uma vida de tédio com humidade de campa.

Pronto. Uma das tantas coisas repetidas há milhões de anos: silencio, tédio e humidade. O meu último beijo vai para a estampa do meu Jesus crucificado, com as pálpebras cerradas sobre o mais doloroso dos abandonos....Os lábios abertos no último ofertório da sua dor.

É sempre esse silêncio, sempre esse silêncio, que me dá a chave do mistério.

Seja feita a tua vontade e não a minha.....

25 de Junho

Estou no meu quarto. É o primeiro turno de Retiro. Os irmãos cantam na capela o Tantum ergo. É uma melodia em tom menor: um dos Tantum ergo que mais me sugere. Não sei: há músicas fantásticas que arrastam.

Sinto-me em coro com quem quiser vir ter comigo pelas restolhas abandonadas, onde há pó a dormir, caminhos de renúncia que levam para Deus, na redenção do mundo que está para além da tarde...

26 de Junho

               26 de Junho - Sagrado Coração de Jesus.

               Tu e mais ninguém. Só tu a fonte: aberto no Calvário para todas as direcções e tempos. Quem "beber desta água nunca mais terá sede”. Sede de outras fontes, as que se estendem pelos caminhos da vida. O paradoxo do teu encontro; matamos a sede e ficamos com outra sede maior - a vida que está para além da vida; a fonte que está para além de todas as fontes.

                E olhamos para o horizonte onde acaba a tarde quente e o cansaço do caminho: a noite que vai cair orvalhada e com lua, ceia farta, abraços de amigos e beijos de irmãos. A casa do Pai. A fonte da colina que todos buscaram. Só tu, Coração do meu Jesus, e mais ninguém. Só tu a fonte de todo o amor. Só em ti os homens podem beber para se encontrarem puros e generosos.

                O amor esquecido! Entregou-se todo e só o querem em pedacinhos! Por isso são tão mesquinhas as retribuições dos homens: dão-se com tantas reservas, a ti. Tantas vezes em 2.ª e 3.ª mão. Por isso o nosso amor aos outros  é tão fraco e inconstante, tão egoísta e ciumento! Muitas vezes tão criminoso!

                Tradidit semetipsum pro me! Entregou-se por mim! A meditação  de S. Paulo que o levou à loucura das suas viagens.

                Por mim, Jesus. Foi por mim. Aqui estou também: todo! Possui-me todo. Aos outros dou-me contigo. Seremos dois: a dádiva será maior e o amor mais fundo. 

2 de Agosto

Encontro‑me em casa de meus pais a passar uns dias...Fui pregar a missa nova do P. Águeda, a Alijó. O P. Barroso Jorge foi muito meu amigo, simpático. Não me queria deixar partir. Gentileza que me impressionou. O Senhor lhe retribua tão generosa e consoladora simpatia. Agora ficarei aqui, à beira do Douro, nesta quinta de tão saudosas recordações, até 16 de Agosto. Terei que pregar 2 sermões no dia 15 em Canelas. Vim com desejo de escrever muito, penetrar na alma das fragas do rio...mas não tenho disposição. Uma depressão física e moral. Limito-me a ler, a recordar, a adormecer em mim tudo o que os olhos vêem... Pode ser que depois, longe, entenda melhor, sinta melhor.

2 de Agosto

             Dormi no velho seminário de Poiares. Gosto imenso do abandono e do silêncio dessas semi-ruínas. Tenho cada gosto! Mas é assim. Ao longe o Marão, de caras, ar diáfano, leve. O vento pelos canos e buracos. A mesma capela, fresca, recolhida, só. Os 5 irmãos, cheios de saúde, e o ti Luís, a vendê-la, aferrado ao fogão de uma boca, na cozinha velha. O ti Francisco, sempre o mesmo, a lavar louça na copa de lajes antigas e a regar o pequeno Jardim com flores para o altar...

              A imensa ternura que me invadiu, o gosto imenso de lá ficar, a ver correr as estações e os dias... a escrever as horas da minha alma, em horas mortas...

               Mas tive que vir embora, a arrastar as minhas pernas inchadas da doença, a saborear uma esperança muito triste...

                São gostos que vejo nos outros, que gozo dos outros, que pressinto e nunca possuo. É terrível...

               Tanta coisa que gostava de ter, a vida com tantas aparências de prazer... e que nada me dá: as horas do meu relógio vazias e áridas,.. E a morte a meter-me medo, porque, no fundo, gosto da vida... Que coisa! O Senhor que me leve, como Ele foi, ao encontro do dia, onde teremos tudo, seremos tudo, eu e os outros, os que vivem na vida como eu.

Tenho cada gosto! Mas é assim...

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Vão construir um seminário novo, Gozo de antemão o ar resinoso dos pinheirais

 Eu lá, professor com as minhas aulas e os meus rapazes. As primaveras com todos os montes em flor e os verões com uvas... Mas talvez nunca chegarei a ter o que desejo. Tenho esperanças no Senhor, mas a Cruz é sempre de luta...a alegria de preto...

19 de Agosto

Regressei da companhia de meus pais. À partida da minha saudosa quinta, à beira‑Douro entrei no quarto onde minha mãe tem um pequeno altar com o Sagrado Coração. De joelhos, pedi a Jesus que conservasse os meus pais e a mim me desse o prazer de ainda muitos anos os visitar. Antes que a morte fizesse silêncio de tantas recordações.

Vi‑me embora mas trouxe a alma imensamente dolorida... Custa‑me tanto a separação. Sou profundamente sensível e o meu coração entrega‑se todo. Tenho sofrido tanto!... É o melhor caminho que me leva para lá, onde está Ele, à espera de todos os homens, como o Pai que alegra o regresso dos filhos, como encontro de todas as esperanças que os caminhos semeiam.

É tão bom ter pessoas que nos amam! Mas é tão angustioso. A vida que nos foi dada assim frágil com ausências que doem. Amar....Como o rio que abraça a margem, num pedaço da manhã azul. Mas depois desce a tarde e já vai longe...O destino que o leva a soluçar, mas leva. Vou para o mar, como o meu Douro que ficou lá para cima, esmagado entre taludes a pique, esboroado em cachões distantes....

Tem que haver o mar - o céu onde as separações serão impossíveis, o  abraço, o beijo que nos unirá à felicidade imóvel. O oásis de descanso, onde vão acordar os sonhos de minhas noites...

Há uma coisa que nos prende: o amor que nasce (sabe‑se lá porquê) e que nos amarra. Pessoas queridas: lábios que nos beijaram, corações que nos lembram. É tão bom, mas gostaria mais de ser livre, completamente livre. Ninguém que me conhecesse, que me lembrasse.

Sonhar um mundo de amor, todo de esperança, na aridez dum deserto só. A morte como estrada na noite que leva para as colinas do dia, sem lágrimas por ninguém, sem cordas a partir... Paciência!...O Senhor quis assim: é melhor. O cálice das oliveiras é mais semelhante ao d'Ele. Ele que viveu a vida na sua plenitude.

             Vou daqui como o peregrino que saboreou todos os frutos da viagem; todo o amargor das areias. E apesar de tudo, tenho pena de me ir, porque até as noites ásperas têm a poesia do sofrimento... (...) 

A vida, o que é, meu Deus! E eu que me enterrei profundamente na vida, que tenho raízes espalhada por todos os cantos, por todos os continentes e climas...

20 de Agosto

Minha mãe, coitadinha, fez uma promessa a Santa Eufémia, para que o inchaço das pernas me saísse. Confiou‑me lá, intima e carinhosamente, como segredo, naquela tarde de Agosto, à sombra duma oliveira no Amaral. Olhei para a capelinha da Santa, alva no sopé da elevação de S.Domingos.

Sei que lhe pedi (à mãe) que não atendesse a cura, mas que o Senhor me desse ainda vários anos de vida. Coitadinha...ela lá ficou na esperança da sua promessa: amor que me tem.

O Senhor quererá? Seja como for, não me interessa curar: gostaria de, viver, viver sofrendo. Mas o terrível é que sofro sem certeza de viver. Antes, afigura-se-me perto o fim, e tenho pena, uma pena imensa, momentos de uma desolação total, de uma tristeza de agonia. O Senhor me perdoe e me dê coragem.

No fundo, ainda tenho esperança.

20 de Agosto

À ceia esperava a minha sopinha quente, a minha sopa insípida do costume. Os outros tinham sopa boa. Confortaram-se.

Esperei uma porção de temo e o servente veio‑me dizer que não havia para mim ‑ tinham‑se enganado na distribuição ou sei lá o que ‑. Agradeci com o prato vazio. Comi duas batatas, mal fritas, e umas rodelas de tomate. O ovo que mandara cozer, também não apareceu. Não tiveram tempo na cozinha? Não sei. Sei que fiquei praticamente sem comer.

Dizem que ando amarelo, sem glóbulos vermelhos. Deve ser verdade. Já muitos repararam. Consequências de quê?

Custa tanto dobrar a cabeça a um certo número de coisas! Dizer ao Senhor que é por amor, quando nos apetece blasfemar, quando nos saltam à cabeça e à flor dos lábios tolices e revolta.

E o inferno como ameaça...Compreendo como nunca as blasfémias, como é fácil a revolta e virar as costas a Deus. O Senhor me perdoe e me ajude a aguenta a cruz....por amor!

Parece‑me que só sentiria prazer em levá‑la forçadamente resignado, rosnando injúrias, cuspindo ironias, dardejando olhares de besta que só teme o açoite.

Meu Deus, dai‑me forças. Aceitai tudo, tudo, por amor. Porquê eu e não outro? Porquê assim e não de outro modo? E porquê necessário assim? Sei lá: há tantos mistérios nos caminhos de Deus!

Só lá. Vamos para a frente! Esta noite de Agosto com vento forte na ramagem farta e bufos assobiados é que me sabe. Árida e triste, saudades imensas horizontes sem. Luz. É o Senhor que assim quer. Vamos, Cassiano.

Será ainda longo caminho?

21 de Agosto

Vi-me ao espelho. Gostei imenso dos meus olhos, grandes, bonitos, com tantas possibilidades de linguagem, com tanta riqueza de amor, de dar e de atrair a fartura do meu coração fecundo. Quantas possibilidades felizes.

E tantas outras hipóteses que a vida me tem oferecido, a minha, natureza rica, a estupenda floração das minhas raízes...Mas tudo, possibilidades, primaveras possíveis que vão em cada dia que passa...Dei tudo a Ele. Tudo.

As raízes do meu sangue que dão flores nos jardins dos outros. Poderiam dar no meu. Privei‑me por amor. É mais bonita a flor da renúncia que não se vê. Tem a corola além das nuvens: o perfume da Cruz que continua a pôr molhos de violetas à entrada do céu.

Fiz‑me padre. Talvez tivesse um coração demasiado universal para o casamento. Gosto de amar assim, sem possuir ‑universal e livre. Como será depois. Gozo na esperança: o Senhor não nos dava a fome, senão tivesse pão no celeiro.

            Há. tantos  que se  privam da imagem à espera e  por amor da realidade. Ela virá porque o Senhor não mente. Mas é terrível a renúncia quando se sente como eu sinto. Fica tudo na conta do Senhor. É Ele, afinal, ainda o mais digno do meu coração,dos meus lábios e dos meus olhos; o mais digno de mim.... 

Mas é terrível a renúncia quando se sente como ou sinto. Fica tudo na conta do Senhor. É Ele, afinal ainda o mais digno do meu coração, dos meus lábios e dos meus olhos; o mais digno de mim.

E o amor continua a ser a grande força que me arrasta para Deus. É por isso que eu sinto todo o meu gosto em me deitar todo na natureza, embeber‑me no silêncio dos planaltos, ou encostar‑me às árvores que o vento abana...

É assim, longe dos homens, que eu sinto a sua ausência, o silencio a recordar, o vento a gemer...Dramas que sofro, ânsias que bebo, corações que abrigo, almas que abraço, faces que beijo, cabelos que me acariciam.

É assim que eu gosto do vento e das solidões ‑ o galopar cansado desse romeiro sem casa, que anda pelo mundo, de dia e de noite, que dorme nos desertos e conhece o segredo de todos os corações...

O amor é a maior força que me aproxima de Deus...

14 de Outubro

Hoje, depois de tanto tempo, peguei na caneta para mais duas linhas. De optimismo? Naturalmente, não...Faz silêncio enorme no meu quarto. É a tarde de domingo que se pôs.

Há uns fios dispersos de zumbidos de moscas, restos de um verão, como a temperatura morna que pairou na tarde de Outono. Sinto-me cansado, humanamente acabrunhado e triste. Digo humanamente porque, no fundo, para além de todas as incompreensões e revoltas da natureza ferida, dorida, esforço-me por um sorriso... e digo, embora às vezes tanto me custe, que é por amor.

De quem? É este o terrível silêncio que nenhuma voz escuta. Esforço‑me por dizer que é por amor e procuro ter fé no que digo. O silêncio do crucifixo que ornamenta, solitário, a parede nua do meu quarto, nunca falou comigo. Tantas vezes, tantas, me deu vontade de pergunta‑lhe porque está assim, porque escolheu o caminho da dor para Ele e para mim e para tantos outros...Nunca partiu com um gesto o silêncio ritual da morte.... Nunca. Mas olho para Ele, trinco os lábios e...pronto.

Às vezes, umas lágrimas pela cara... e vamos para a frente. Quem sou eu? Quem é o homem? Encontraremos depois a explicação de tudo. Depois.

No fundo, como para além do silêncio que cai sobre a noite, há um mistério de amor. Louvado seja Deus!

24 de Novembro

           É uma manhã estupenda de sol. Diria que era uma manhã de Maio se pairasse no ar uma vaporosa respiração de Outono, que a noite cairá húmida e fria sobre as coisas.

            Só de longe em longe escrevo alguma coisa neste meu diário. Ê para o que me dá. Podia ser mais fiel neste retrato quotidiano que a vida me tira nos seus estúdios...

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Tantos dias, horas de pessimismo, outras de alento... É a vida! O estribilho fácil que resume tudo. Anda além no campo verde, um rebanho. Balem cordeirinhos e há vozes grossas de ovelhas. Um conjunto bucólico dos tempos bíblicos.

Não sei porquê, mas o balir das ovelhas é uma das coisas que mais me impressiona! Sinto uma vontade estupenda de transumar... Não sei para onde...para campos com boninas de Maio, para serras com musgos de Dezembro... Sei lá! Para onde fosse feliz! Onde encontrasse os panoramas que nasceram muito no fundo de minha alma, essa região donde vim...quando me agasalhei no ventre de minha mãe...

27 de Novembro

            Está uma tarde característica de Novembro. Tudo parou num silêncio húmido. Não houve sol em todo o dia e agora a tarde vai caindo numa neblina, cor de chumbo fria, calada. Uma nostalgia imensa pêlos campos desertos. Lembram paisagens do Norte, aconchegos de lareiras sob tectos pardos, enquanto o silêncio ronda nas florestas sob um cariz de gelo...

Está tudo em silêncio! Tudo. Só a roda do moinho vai girando calada com a, flecha para o Sul.... Vai girando como os ponteiros do relógio que nunca param. A tarde que vai indo, o dia passando, outra noite que vai chegar...

Gravam tão fundas impressões no meu peito, na minha carne, estas coisas que vejo! Gostaria de escrever, ao menos, gozar assim destas tardes frias e tristes, mas não tenho tempo. Só uns minutos à pedra da janela...Beber tudo, tudo, oferecer a cruz como ela vem, às vezes bem pesada, e ir para a frente como a pá  do moinho.

...Tardes tristes e tardes alegres, há sempre e para além do horizonte um dia à espera. Vamos para lá. Toca a andar...

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Hoje, para além do costume, pernas inchadas da albumina, ataques de bronquite asmática que me tortura desde o Verão passado,  dieta sem sal, mais uma dor de cabeça...

Dá-me vontade de revolta, de vingança, de blasfémia, sei lá o quê.

Porquê há‑de ser assim comigo? Que fiz para o Senhor mandar tudo isto? Eu que, afinal, me entreguei a Ele e me privei já de coisas que os outros gozam, por amor para o serviço d’Ele...

Mas tenho que me convencer que tem que ser assim por amor.

O tal mistério que os homens não entendem na sua lógica humana.

Pronto, meu Jesus, custa‑me imenso, mas ajuda‑me a concordar contigo, a dizer um sim definitivo, mesmo que a Natureza e a carne digam que não, que não ! . . .

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Este diário foi revisto em 17 de Fevereiro de 2008 e acrescentado de alguns parágrafos, graças à amabilidade

do senhor Coronel (aposentado) A.Marques Lopes que teve o privilégio de privar de um relacionamento muito próximo com o Pe. Cassiano Guimarães.

 

Agradece-se o envio de outros escritos do poeta que eventualmente venham a ser descobertos