Aproximações a uma pequena história do Ensino da Matemática em Portugal

Versão 1.0

 

1772 - Estatutos da Universidade de Coimbra

 “haverá todos os Mezes hum Exercicio Geral. Para elle determinaráõ os Lentes hum assumpto tal, que peça discussão, e dê materia a huma breve Dissertação.” (Liv. III, Part. II, Tit. V, Cap. IV)

 

"Cuidaraõ tambem muitos os Lentes, em que os Discipulos se ponham no caminho dos Inventores: Presentando-lhes para isso algumas materias pelos passos, que se deram, ou podiam dar, até se chegar ao descubrimento das verdades, que nellas se contém: Mostrando-lhes os indicios, por onde se suspeita, e conjectura primeiro o que se poderá achar; e os meios, e tentativas, que se applicam para o descubrir: E dando-lhes huma idéa circumstanciada da evolução dos descubrimentos Mathematicos, e de como por degráos se passou de huns aos outros: Porque este assumpto merece particulares reflexões; em razão de servir de exemplo a quem pretende empregar-se utilmente nestas Sciencias" (Liv. III, Parte II, tít. V, Cap. II, § 12.)

 

1772 - Estatutos da Universidade de Coimbra

Sobre as aulas da cadeira do primeiro ano, Geometria:

“1 Para que as Lições do Curso Mathematico se façam com boa ordem, e com aproveitamento dos Estudantes: O Lente de Geometria, a quem pertencem as Disciplinas do Primeiro Anno, antes de entrar nas Lições proprias da sua Cadeira, lerá os Prolegomenos Geraes das Sciencias Mathematicas.

2 Nelles fará uma Introducção breve, e substanciada ao Estudo destas Sciencias: Mostrando o objecto, divisão, e prospecto geral delas: Explicando o Methodo, de que se servem; a utilidade, e excelencia delle: E fazendo hum Resumo dos sucessos principaes da sua Historia pelas Epocas mais notaveis della. Taes são: Desde a origem da Mathematica, até o Seculo de Thales, e Pythagoras: Deste até a fundação da Escola Alexandrina: Della até a Era Christã: Desta até a destruição do Imperio Grego: Della até Cartesio: E de Cartesio até o presente tempo.

3 Este Resumo será proporcionado á capacidade dos Estudantes: De sorte, que os disponha, e anime para entrarem no estudo com gosto. Por isso não entrará o Lente na relação circumstanciada dos descubrimentos, que se fizeram nas ditas Sciencias em differentes tempos, e lugares; porque não póde ser entendida, senão por quem tiver já estudado as mesmas Sciencias; e então não lhe será necessaria a voz do Mestre, para se instruir na Historia. Recommendará porém muito aos seus Discipulos, que á medida, que forem caminhando no Curso Mathematico, se vão instruindo particularmente nella: Mostrando-lhes, que a primeira cousa, que deve fazer quem se dedica a entender no progresso das Mathematicas, he instruir-se nos descubrimentos antecedentemente feitos; para não perder o tempo em descubrir segunda vez as mesmas cousas; nem trabalhar em tarefas, e emprezas já executadas.”

 

1772 - Estatutos da Universidade de Coimbra

Sobre as aulas da cadeira do segundo ano, Álgebra:

“3 Para facilitar melhor a entrada nella, e segurar o fruto das Lições: Principiará o Professor pelos Prolegomenos respectivos: Dando huma idéa circumstanciada do seu objecto, e dos meios, que applica para conseguir o fim, que se propõe: Mostrando a sua origem, e progressos: E fazendo hum Resumo da historia da mesma Algebra pelas Epocas mais notaveis della.

4 Em particular mostrará a razão, por que os Antigos, sem embargo de terem conhecido as Regras Fundamentaes da Analyse, e de serem dotados de tão grande engenho, não tiráram della as vantagens prodigiosas, que decubríram os Modernos; faltando-lhes o Instrumento da Analysis, que he a Algebra.”

 

 

1786 - José Anastácio da Cunha

 “O meu modo de ensinar era o que a minha consciencia e intelligencia (...) me dictavam. Expunha o objecto das proposições, a sua connexão e dependencia; o artifício com que Euclides consegue quasi sempre unir a facilidade ao rigor geometrico; e d’este procurava dar aos estudantes o conhecimento necessario.  Não me demorava em ler ou repetir litteralmente (como os meus companheiros costumavam) as proposições que por faceis nem carecem de explicação (...) só para poder empregar tempo sufficiente em indicar aos estudantes as verdadeiras difficuldades da lição, e facilitar-lh’as quanto as minhas tenues forças o permitiam. (...) Porém queria que tambem os estudantes trabalhassem e os obrigava  a resolver problemas.

(...) Compellido pois por força superior, conformei-me ao tal methodo estabelecido, e serenou a tempestade. O tal methodo era certamente suave e commodo para os estudantes e mestres. O mestre repetia ou pelo livro ou de cór litteralmente as proposições da lição; e no dia seguinte cada estudante satisfazia repetindo de cór a proposição que lhe perguntavam. Nem se mostrava o uso das prtoposições, nem se resolviam problemas; ninguem viu ainda o lente do 1º anno no campo ensinado as praxes, que os Estatutos mandam. Debalde solicitei os instrumentos para isso necessarios: não me consta que a Universidade tenha ainda nem uma prancheta. Mas similhantes lições dão trabalho aos mestres e luzes aos estudantes; e isso é justamente o que não convém.”

 

 

Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra

até 1861:

Primeiro Anno

1ª Cadeira

Arithmetica; Geometria de Euclides; Algebra até ás equações do 2º gráu inclusivamente; Trigonometria plana.

Segundo Anno

2ª Cadeira

Continuação da Algebra; Algebra Superior; Series — principios elementares de calculo differencial e integral.

 

até 1852:

Terceiro Anno

3ª Cadeira

Calculo integral transcendente, de variações, e equações differenciaes até á 3ª ordem; e na 2ª parte do anno Mechanica dos solidos.

 

de 1852 até 1861:

Terceiro Anno

3ª Cadeira

Calculo superior, differenças finitas; Geometria descriptiva.

 

de 1861 até 1902:

Primeiro Anno

1ª Cadeira

Algebra Superior - principios de theoria dos numeros - geometria analytica a duas e a tres dimensões - theoria das funcções circulares - trigonometria espherica.

Segundo Anno

2ª Cadeira  

Calculo differencial e integral; das differenças, directo e inverso; das variações e das probabilidades.

 

 

1864 – Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra

(proposta feita pela Faculdade ao Governo – e não aprovada por este)

“...que se déssem no 1º anno, como preliminares ao estudo da Algebra superior, algumas doutrinas mais elevadas de Arithmetica, Algebra e Geometria plana e dos solidos, que ou não entravam no programma mais elementar e practico dos lyceus, ou que alli se não estudavam debaixo do systema e com o desinvolvimento que deviam ter na Universidade; e em passar para o 3º anno as partes do calculo differencial e integral que estão em mais intima ligação com a mechanica racional.”

 

 

Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra

de 1902 até 1911:

 

Primeiro Anno

1ª Cadeira

Álgebra Superior; geometria analytica a duas e a tres dimensões; trigonometria esphérica.

2ª Cadeira

Geometria descriptiva.

Segundo Anno

3ª Cadeira

Cálculo differencial e integral.

Terceiro Anno

4ª Cadeira

Anályse superior.

 

 

1913 – Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra

“A Faculdade de Sciências de 1911 a 1913”

Relatório aprovado em Congregação de 11 de novembro de 1913

 

“É, em geral, nos primeiros anos, que mais se fazem sentir as reprovações; o que resulta em grande parte, da deficiente preparação que os alunos trazem do ensino secundário, e que só pouco a pouco vão compensando. (...) O actual estado de coisas só pode evidentemente melhorar com o aperfeiçoamento do ensino secundário, impossível de realizar emquanto não fôr convenientemente reduzido o número dos liceus. ”

 

 

1908 - Sidónio Pais (Universidade de Coimbra)

(Oração de Sapiência, Abertura Solene das aulas do ano lectivo 1908-1909)

“O melhor professor entre nós é o que explica melhor. Fazer a lição, é expor com clareza um assumpto de maneira que o alumno o comprehenda sem o menor esforço. (...) se este [o professor] é pouco claro — recurso a um explicador supplementar. Ás vezes ha ainda a explicação escripta — a sebenta. E á porta da aula ha novos explicadores — os ursos.

(...) O ideal da nossa pedagogia é poupar o trabalho de compreensão ao estudante.

Em compensação avulta o trabalho de memoria. Explicada a lição, o estudante terá de a decorar para a expôr de novo.

Que elle não pense um segundo em questão alguma e passe annos inteiros, faça o curso sem resolver um problema, sem ter feito um unico esforço pessoal de investigação, apenas com o trabalho de decalque do que outros pensam.

(...)

Temos de modificar totalmente os nossos processos de ensino e os nossos criterios de julgamento.

A preocupação do professor deve ser crear o gosto do alumno pelo trabalho, desenvolver-lhe o espirito de iniciativa, a curiosidade de descobrir, a originalidade.

(...) No estudo da sciencia feita, empregar o metodo da redescoberta (...)”

 

 

1923 - Diogo Pacheco de Amorim (Universidade de Coimbra)

(Oração de Sapiência, Abertura Solene das aulas do ano lectivo 1923-1924)

“O primeiro obstáculo que se opõe ao progresso dos estudos matemáticos nas nossas Universidades e ao bom aproveitamento dos seus alunos, é a falta de preparação com que êstes saem do curso dos Liceus.

(...) Apesar do saber, do tino e da boa vontade de muitos dos seus mestres, de tal modo está organizado o ensino nos liceus, que os alunos saiem de lá sem saber nada de nada (...) Após sete anos de matemática elementar, os alunos chegam ás Universidades num estado de desesperadora ignorância.

Da Aritmética, cujo ensino, como já dissemos, está todo confiado aos liceus, muitos ignoram as quatro operações com quebrados e decimais; raros sabem extrair uma raiz quadrada; raríssimos se entendem com a táboa dos logarítimos!

De Algebra, trazem só ideias confusas. Poucos resolvem um sistema de equações com desembaraço e pouquíssimos conhecem o cálculo combinatório.

Do binomio de Newton, só os privilegiados teem ouvido falar.

E que dizer da Geometria, cujo ensino, as mais das vezes, nem sequer é começado nos liceus por falta de tempo? Na Trigonometria Plana, como aliás na Geometria no Espaço, a ignorância então é total, absoluta.

(...) o estatuto universitário (...) torna facultativa a frequência das aulas teóricas e obrigatória a das práticas; proscreve o uso de compendios; proíbe a prática da chamada diária. Não é precizo mais para impossibilitar a aprendizagem e o ensino das matemáticas entre nós.

(...) Para que o aluno se desenvolva não basta que ouça, é preciso que fale, que tire conclusões, que relacione as consequências com os princípios, que procure as ligações ocultas que aproximam matérias por vezes na aparência bem distantes. É preciso que faça a síntese das doutrinas, a análise das lições, que discuta os problemas, que varie as hipóteses, numa palavra, que tome uma parte activa nas aulas que é precizamente o contrário do que os Estatutos preceituam e nas Universidades se pratica.

(...) O estudante não fala, ouve; não pensa, vê pensar.

Na economia das aulas, o aluno entra apenas como parte integrante do mobiliário indispensável ao seu funcionamento.

Nada mais.”

 

 

1940 - Diogo Pacheco de Amorim

Compêndio de Geometria, vol. 2º, Anos 4º, 5º e 6º

(8ª edição, 1940 - Aprovado oficialmente por despacho de 9 de Dezembro de 1939)

“E se as matemáticas não teem no ensino liceal aquela importância e lugar que deviam ter, a Geometria por sua vez também não tem, dentro do ensino matemático, o lugar que lhe compete.

Os alunos do 2º ciclo liceal passam a maior parte do tempo a fazer contas com polinómios muito compridos, com radicais, logarítmos e outras matérias de pouca ou nenhuma utilidade para êles; e muitas vezes só depois das férias da Páscoa passam para a Geometria que estudam de afogadilho.

Ora, quer atendamos ao valor informativo, quer ao educativo, a doutrina dos programas de Geometria dêstes três anos é muito mais valiosa do que a dos correspondentes programas de Álgebra.”

 

 

1943 - Bento de Jesus Caraça

Algumas reflexões sobre os exames de aptidão

(“Gazeta de Matemática”, nº 17, 1943)

“Julho        Liceus                 Aprovações 74 (66%)  Reprovações 38 (34%)

                  Ensino Técnico   Aprovações 18 (51%)  Reprovações 17 (49%)

 

«polígonos são figuras planas de um número ilimitado de lados» (Liceu)

«o logar geométrico dos lados dum ângulo é a bissectriz» (Liceu)

«são chamadas superfícies de revolução às figuras do espaço que são geradas por sólidos» (Liceu)

 

É frequentíssimo encontrar entre os candidatos um desprezo total pelos resultados e seu possível enquadramento dentro do problema a que dizem respeito. É hoje limitadíssimo o número de candidatos que faz uma idéia clara do que seja a discussão dos resultados dum problema. Mas a coisa vai ainda mais longe e verifica-se em muitos casos uma completa indiferença, até, pela verosimilhança dos resultados. (...) Um candidato (Liceu) encontra para a altura dum cone 7,2 metros e para geratriz do mesmo cone 3 metros e continua imperturbàvelmente o cálculo do volume do cone. Outro (ens. tec.) encontra para altura do mesmo cone o número 6‑3π e continua imperturbàvelmente!

(...) Tôdas estas insuficiências, se reduzem, creio eu, fundamentalmente a duas: falta de espírito crítico e automatismo. Diante do problema, a primeira reacção do candidato é procurar a fórmula que se aplica (...) e atirar-nos com o resultado, não do problema, mas da aplicação da fórmula.”

 

 

1945 - Bento de Jesus Caraça

Em guisa de continuação de um debate

(“Gazeta de Matemática”, nº 23, 1945)

“Por muito estranho que pareça, é freqüente um aluno chegar ao fim do seu curso médio no ensino técnico comercial sem ter aprendido uma palavra de geometria elementar. E como não parece possível que sem ela se ensinem os rudimentos da Geometria Analítica ou do Cálculo Diferencial, incluem-se habitualmente perguntas de geometria elementar sintética nos pontos de resposta obrigatória do exame de aptidão ao I.S.C.E.F. Atribuo a esse facto a elevada percentagem de reprovações nessa classe de candidatos.

(...) sem discutir agora a orgânica da licenciatura em Ciências Matemáticas, é de perguntar se ela, tal como existe, é a mais própria preparação para um futuro professor de Matemática no ensino médio. A resposta parece-nos dever ser redondamente negativa. Encontram-se no quadro de estudos dessa licenciatura, muitas matérias de que o futuro professor do ensino médio nem de perto nem de longe terá que vir a lançar mão e faltam-lhe, em compensação, as coisas mais urgentes e essenciais. Para dar apenas um exemplo, ¿Com que conhecimentos de Matemáticas Elementares — aquelas que mais tarde tem de manejar todos os dias, (e ensinar!) — está apetrechado um licenciado à saída da sua escola? os mesmos que possuía quando para lá entrou!”

 

 

1942 - Bento de Jesus Caraça

(“Gazeta de Matemática”, 1942, nº 11, pp. 16, e nº 12, pp. 14-17.)

“O ensino secundário deve ser para todos e não se deve submeter às necessidades de nenhuma futura profissão em particular.”

Vários temas ausentes dos programas deviam estar aí presentes porque “na vida contemporânea têm uma importância tal que devem ser ensinados a todos”; dentre esses temas cita: a noção de probabilidade, rudimentos da estatística, tábuas de mortalidade.

Outros assuntos que considera muito importantes e estavam então ausentes dos programas: o manejo da régua de cálculo e da máquina de calcular, as aproximações no cálculo numérico, a resolução de triângulos não rectângulos.

Outros assuntos também então ausentes mas a que atribui essencialmente valor cultural como a Geometria Analítica e a teoria dos complexos.

 

 

1968 - José Sebastião e Silva

Problemas da Universidade

(“A Capital”, 4 de Dezembro de 1968)

“(...) um sistema que tem vindo a agravar-se por todo um conjunto de factores (entre os quais avulta o da explosão escolar) que reduziram o ensino à preparação em massa para o exame, e, portanto, à degradação e à mecanização dos processos.

(...) além de ficarem pelo caminho cerca de 80% dos alunos, consta que há numerosos casos de esgotamento! Tenho conhecimento de um caso de suicídio, e quem sabe se não haverá outros. Pergunto: É assim, com uma geração de frustrados e de nevróticos, que se poderá construir o Portugal de amanhã?

(...) estamos em presença de um sistema educacional que não ensina a observar nem a experimentar, nem a reflectir, nem a raciocinar, nem a escrever, nem a falar: ensina apenas a repetir mecânicamente, a imitar e, por conseguinte, a não ter personalidade. É um sistema que reprime o espírito de autonomia e todas a possíveis qualidades criadoras do aluno, na idades decisivas em que essas qualidades deveriam ser estimuladas ao máximo: um sistema feito à medida da mediocridade obediente, que acerta o passo enquadrada em legiões de explicadores. É, portanto, um ensino em regime de desdobramento: professor-explicador (e o mais grave é que o professor já conta com o explicador).

(...) Depois na Universidade, o drama atinge o ápice. (...) Em certas cadeiras, a percentagem de reprovações atinge 90%.

(...) haveria que facultar aos alunos mal preparados — que são quase todos — a frequência de um ano pré-universitário, a funcionar na Universidade ou em alguns liceus (...) teria essencialmente carácter de transição, de orientação e de recuperação — à semelhança do que se faz em outros países.

(...) verifica-se um divórcio quase total entre o ensino secundário e o ensino universitário (...).

 

 

1966 - José Sebastião e Silva

Guia para a utilização do compêndio de Matemática

(1º volume, ed. GEP 1975)

“(...) Deste modo se chega à síntese:

Toda a recta não vertical tem uma equação da forma

 

y = m x + b,

 

em que m é o declive da recta e b a ordenada na origem.

O aluno deverá chegar a estas sínteses como resultados dum processo indutivo, tal como nas ciências experimentais, indo do particular para o geral. Só depois notará que o raciocínio no caso geral é essencialmente o mesmo, bastando substituir os símbolos numéricos por letras. Quanto às figuras, essas terão de corresponder sempre a casos particulares, evidentemente, mas é preciso notar que não intervêm essencialmente nas demonstrações: o seu papel é apenas o de apoiar a intuição.

(...) É preciso errar para aprender! Os grandes génios erram inúmeras vezes quando tentam descobrir algo de novo...

(...) O professor não deve forçar a conclusão: deve deixá-la formar-se espontaneamente no espírito do aluno.

(...) O nº 43 do livro, que vem marcado com um asterisco por não ser obrigatório, é agora, pelo contrário, da máxima importância, pelas suas aplicações em problemas de programação linear. A programação, linear ou não linear, é um dos tipos de problemas que se apresentam hoje com maior frequência em INVESTIGAÇÂO OPERACIONAL, no domínio da economia. A sua inclusão no ensino liceal, com carácter elementar, está a tornar-se cada vez mais imperiosa.”

 

 

1966 - José Sebastião e Silva

Guia para a utilização do compêndio de Matemática

(2º/3º volume, 1965-66, ed. GEP 1975, p. 93)

“Há um mínimo de elementos de estatística que se impõe dar no ensino secundário, em anos futuros, se não quisermos ficar lamentavelmente atrasados em relação a outros países. Aliás, esses elementos deverão ser introduzidos progressivamente, desde muito cedo, logo a partir do 1º ciclo, juntamente com aplicações da matemática à vida corrente, à economia, etc. Tal introdução pressupõe, evidentemente, um aumento do número de tempos lectivos de matemática, no 1º e no 2º ciclos, elevando-o, se possível, até seis horas por semana, à semelhança do que se verifica em vários países estrangeiros. Observe-se entretanto que, há uns 35 anos, o programa de matemática do 2º ciclo incluía juros compostos, anuidades, etc., além do estudo dos logaritmos. A pouco e pouco, pelas razões atrás expostas, o ensino da matemática nos nossos liceus foi-se esvaziando de todo o conteúdo concreto, até se reduzir a um formalismo quase inteiramente oco, que o aluno não consegue dominar, em grande parte porque esse jogo de símbolos não lhe diz nada. É tempo de começar a remar contra a corrente.

 

 

José Sebastião e Silva e a Modernização do Ensino da Matemática

 “A modernização do ensino da Matemática terá de ser feita não só quanto a programas, mas também quanto a métodos de ensino.” (Guia para a utilização do compêndio de Matemática)

 

“É preciso combater o excesso de exercícios que, como um cancro, acaba por destruir o que pode haver de nobre e vital no ensino. É preciso evitar certos exercícios artificiosos ou complicados, especialmente em assuntos simples.(...) É mais importante reflectir sobre o mesmo exercício que tenha interesse, do que resolver vários exercícios diferentes, que não tenham interesse nenhum.(...) Entre os exercícios que podem ter mais interesse figu-ram aqueles que se aplicam a situações reais, concretas. ("Guia para a utilização do compêndio de Matemática")

 

“Chegou-se a fazer crescer os rapazes numa planície matemática esterilizada e esterilizadora, capaz de sufocar qualquer objecção, qualquer diálogo. Porque se quisermos que o ensino da matemática seja autenticamente vivo e fecundo, deveremos apresentar uma ciência que se faz e não uma ciência já feita. A matemática não deve desprezar o concreto, a matemática deve estar ligada à realidade física em que o pensamento matemá-tico mergulha as suas raízes. E é sobretudo a geometria que serve de modo natural para a ligação entre o mundo físico e a abstracção (carta a Emma Castelnuovo, cit. em Ens. da Mat. Anos 80, SPM, Lisboa, 1982)

 

Sebastião e Silva preconizava a introdução da Estatística desde muito cedo, mas avisava: "Tal introdução pressupõe, evidentemente, um aumento do número de tempos lectivos de matemática, no 1º e no 2º ciclos, elevando-o, se possível, até seis horas por semana, à semelhança do que se verifica em vários países estrangeiros. (Guia para a utilização do compêndio de Mat., 2º/3º vol, pg 93)

 

“É este um momento oportuno para um diálogo importante, relativo à existência de entes geométricos no mundo físico. O diálogo poderá fazer-se noutra ocasião, mais cedo ou mais tarde, com diversas variantes, ao sabor das circunstâncias. Mas é necessário que o assunto seja debatido alguma vez com os alunos (...)” ("Guia para a utilização do compêndio de Matemática", 1º vol, pg 46, 2º/3º vol, pg 125)

 

“Se eu tivesse hoje que voltar a escrever esse Curso [Curso de Análise Superior], fá-lo-ia ainda em termos de maior simplicidade, multiplicando muito os exemplos e, sobretudo, intensificando muito mais a motivação dos conceitos.” (cit. em "Vida e obra do Prof. Sebastião e Silva", pg 58, por António Guimarães", Porto, 1972, não publicado)

 

 

José Sebastião e Silva e os Objectivos do Ensino da Matemática

 “A meu ver são principalmente o sentido crítico e a autonomia mental as qualidades que um professor de matemática se deve esforçar por desenvolver nos seus alunos.” (Texto sobre Bento de Jesus Caraça, DL, 25/6/1968)

 

“Os alunos não precisam, em geral, de ser investigadores, mas precisam de ter espírito de investigação. Intuição, experiência, lógica indutiva, lógica dedutiva - todos estes meios se alternam constantemente na investigação científica, numa cadeia sem fim em que é difícil destrinçar uns dos outros.” ("Guia para a utilização do compêndio de Matemática", 2º/3º vol, pg 107-111)

 

“Ensinar matemática sem mostrar a origem e a finalidade dos conceitos é como falar de cores a um daltónico: é construir no vazio. Especulações matemáticas que, pelo menos de início, não estejam solidamente ancoradas em intuições, resultam inoperantes, não falam ao espírito, não o iluminam.” (Guia para a utilização do compêndio de Matemática)

 

“O que é preciso é não confundir cultura com erudição e sobretudo com o enciclopedismo desconexo, imensa manta de retalhos mal cerzidos, que vão desde as guerras púnicas até ao sistema nervoso da mosca. É esse, a bem dizer, o tipo de cultura que tende a produzir o ensino tradicional, baseado num sistema de exames que só permite apreciar memorizações e automatismos superficiais, mais ou menos próximos do psitacismo.” (Guia para a utilização do compêndio de Matemática)

 

“Um dos objectivos fundamentais da educação é, sem dúvida, criar no aluno hábitos e automatismos úteis, como, por exemplo, os automatismos de leitura, de escrita e de cálculo. Mas trata-se aí, manifestamente, de meios, não de fins.” ("Guia para a utilização do compêndio de Matemática", 2º/3º vol, pg 10-11)

 

“Um ensino das ciências, que não seja acompanhado de uma boa educação estética e que não fale à imaginação dos alunos, está condenado a priori, pela sua própria aridez, a afastar muitos dos melhores talentos.” ("Guia para a utilização do compêndio de Matemática", 1º vol, pg 46, 2º/3º vol, pg 125)

 

“Se não houver tempo - o que é bem provável - podem-se omitir as demonstrações. O que importa, por enquanto, são as intuições: essas de modo nenhum devem faltar, (...)” ("Guia para a utilização do compêndio de Matemática", 2º/3º vol, pg 81)

 

 

José Sebastião e Silva e a reforma da formação dos professores de Matemática

“Também o sistema de exames carece de profundas alterações: Nas nossa Universidades chega a consumir-se mais tempo e energia a examinar e a ser examinado, do que propriamente a ensinar e a aprender.(...) Os exames finais por cadeiras e cursos individuais serão abolidos e substituídos (com elevação do nível) por exames de carácter global realizáveis a meio do curso e no final (...) Com esta e outras medidas, a tendência para a fraude infelizmente tão generalizada entre nós em provas escritas, diminuirá consideravelmente: (...) Por idênticas razões são abolidos os exames de aptidão, cuja inutilidade tem sido demonstrada à saciedade, e que só contribuem para extremar professores e assistentes (além dos alunos), afastando-os dos grandes objectivos essenciais do ensino.

Finalmente é instituída a obrigatoriedade duma dissertação nos exames de licenciatura, à semelhança do que já se faz em outras Escolas superiores do País. Será este mais um meio de elevar o nível dos estudos matemáticos nas nossas Universidades e, em particular, o nível dos doutoramentos em matemática, nos quais se tornarão supérfluos e sem sentido, os interrogatórios ou lições mais próprios dum exame de licenciatura.”

 

“1. TRABALHOS PRÁTICOS

As aulas práticas são destinadas não só à resolução de exercícios e problemas relacionados com assuntos expostos nas aulas teóricas mas também à discussão de alguns desses assuntos, e de outros afins, para seu completo esclarecimento. Este trabalho de discussão e esclarecimento, em que participarão os alunos, deverá acentuar-se no biénio especial, tendendo para a forma de trabalho em seminário.

No fim de cada semestre, os alunos deverão apresentar cadernos em que tenham resolvidos pelo menos dois terços das questões propostas durante as aulas.

Devem igualmente apresentar antes do exame de licenciatura ou bacharelato relatórios de trabalhos de laboratório e de observatório executados.

 

2. EXAMES DE FREQUÊNCIA

(...)

Os exames de frequência (...) deverão ser efectuados no prazo de uma semana (de preferência em dias alternados) para evitar que os alunos se habituem a estudar unicamente na semana que precede cada exame.”

 

“17. Fundamentos da Matemática Complementos de lógica matemática. Paradoxos da teoria dos conjuntos; teoria dos tipos; números transfinitos. Generalidades sobre axiomáticas e sobre a construção duma teoria dedutiva. Fundamentos da aritmética: estudo comparativo de diversas axiomáticas; teoria das operações a partir da axiomática de Peano; funções recorrentes e sua aplicação no cálculo mecânico. A teoria da probabilidade e dos números primos à luz da álgebra moderna. Problemas da não-contradição e da decisão. As grandes correntes da filosofia matemática: logicismo, formalismo intuicionismo; alusão ao teorema de Gödel e de Gentzen. Lógicas polivalentes: lógica probabilista contínua, lógica trivalente topológica, relações com a mecânica quântica; discussão. Fundamentos da geometria elementar: estudo comparativo de várias axiomáticas; teoria da igualdade e semelhança a partir da axiomática preferida. Axiomática de geometria projectiva; geometrias projectivas finitas. Classificação das geometrias; noções sobre geometrias não euclidianas. O problema do ensino da geometria elementar: passagem do intuitivo ao racional.

     Nas aulas práticas: exercícios de lógica simbólica, estudo das axiomáticas, análise lógica de definições e demonstrações, problemas de aritmética, de geometria euclidiana e de geometria projectiva, estudo geral dos métodos de demonstração.

     Observação: Esta cadeira, que se deve hoje considerar indispensável à formação do matemático puro e do professor de matemática do liceu, é inteiramente nova nas nossas Universidades. Falta-nos portanto experiência do seu ensino, embora não faltem pessoas habilitadas para o fazer. O anterior programa poderá ser cumprido integralmente, desde que certos assuntos não sejam aprofundados.”

 

(in PROJECTO DE REFORMA DA LICENCIATURA EM CIÊNCIAS MATEMÁTICAS - manuscrito, sem data)

 

 

 

José Sebastião e Silva e o ensino da trigonometria

A introdução à trigonometria poderá e deverá ser feita com motivação concreta, apta a despertar interesse suficiente no espírito do aluno (cf. Algebra e Trigonometria, para os IV, V e VI anos liceais, Francisco Dias Agudo (1938). A introdução à trigonometria adoptada nesse livro é em parte semelhante à que aqui vamos preconizar, mas, que, como é de ver, não se coaduna com a orientação estatuída pelo actual programa clássico)” (Guia - 2º vol - pg 15)

 

“(Entre as célebres obras de ficção científica de Júlio Verne há uma, particularmente interessante, que vem muito a propósito citar aqui: “A ILHA MISTERIOSA”. Nesta obra, o autor descreve como um dos personagens - o Eng. Smith - consegue calcular a altura a que se encontra uma gruta escavada numa rocha junto ao mar por meio de medições efectuadas na praia).” (Guia - 2º vol - pg 18)

 

“Resta o problema das tábuas. Existem tabelas de fórmulas (chamadas ‘formulários’), como existem tabelas numéricas, listas telefónicas, catálogos ou enciclopédias. A finalidade é sempre a mesma: evitar um esforço inútil e mesmo incomportável de memória, dando maior grau de liberdade ao pensamento. Sem dúvida há fórmulas e tabelas numéricas que o aluno deverá ter sempre presentes, atendendo à frequência com que é preciso utilizá-las: por exemplo, as fórmulas trigonométricas da adição de ângulos e as tabuadas das operações elementares da aritmética. É tudo, afinal, uma questão de medida e de bom senso.” (Guia-2º vol - pg 12)

 

“Chegou agora o momento de dizer ao aluno que se encontram já construídas por tais processos tabelas numéricas, que fornecem, com certa aproximação (...) as tangentes dos ângulos agudos (...). E convirá resolver alguns problemas simples com tais tabelas (...) escolhendo o grau de aproximação conveniente em cada caso concreto (...) Convirá, agora, informar o aluno de que a sua régua de cálculo lhe permite resolver rapidamente muitos destes problemas, com aproximação suficiente, e adestrá-los no uso da régua para esse fim..” (Guia- 2º vol - pg 22)

 

“Os cálculos exigidos por este processo [valores aproximados por defeito e por excesso de sen 63˚ ] são laboriosos, mas, quando se dispõe de um bom computador, podem ser efectuados rapidamente. No entanto, mesmo quando se trabalhe com um bom computador, procura-se sempre, entre vários métodos de aproximação, aquele que seja mais expedito e mais fácil e programar (...)”  (Guia - 2º vol - pg 46)

 

“Todo o conceito é introduzido com uma determinada finalidade: quanto menos o conceito surgir ligado à sua finalidade, menos interesse poderá despertar. Qual é, por exemplo, o interesse das funções circulares inversas?”  (Guia - 2º vol - pg 47)