Jornal Escolar

          

             Sophie, Thomas, Dvir, Joe e Jonathan desconhecem-se, levam vidas literalmente distintas, são oriundos de países diferentes, porém, mantêm entre si uma forte ligação, que os perturba profundamente: todos parecem ter perdido a capacidade de sonhar. E as suas vidas entrecruzam-se quando o destino os apela através de uma força inexplicável, despertada na sequência da recepção de um postal da lendária cidadela de Machu Pichu que contém uma mensagem enigmática: “numa letra redonda , quase infantil: “O sonho do Inca continua um segredo bem guardado” . Este é o ponto de partida da viagem para as fabulosas montanhas dos Andes que cada um vai apreender, com os seus próprios objectivos. É então que, reunidos, penetram locais míticos e descobrem alguns dos mistérios da fantástica civilização Inca. Mas desvendar um deles tornar-se-á o sonho de todo o grupo: existirá realmente a cidade perdida dos Incas, na qual repousa o segredo do grande disco solar? Ao longo do seu percurso, confrontam-se com a realidade da construção da Humanidade e os preceitos de cada civilização…

 

 

Romance maravilhoso, Quando o Sol se põe em Machu Pichu transporta-nos num tempo ilimitado, alternando entre o mundo antigo e mágico Inca e o mundo contemporâneo, e onde o leitor tem o poder de transparecer a mente das personagens, através das recordações do passado de cada uma delas, as quais aparecem clara e espontaneamente como autênticas “flash-backs”, sendo assim fulcrais para o desenvolvimento da acção. É de salientar, também, o prodigioso estilo do autor: numa linguagem simples descreve-nos paisagens complexas, bem como apresenta um desfecho puramente metafórico, com elevada carga de simbolismo, que acompanhou sempre, ao longo do enredo, um certo ponto de vista filosófico no modo de ver o mundo.

Fanny Lima

 

Quando o Sol se põe em Machu Pichu

“ - Diga-me: o que são as trevas? (…) talvez concluirmos  que  o mundo é irracional e rendermo-nos à sua irracionalidade? (…) E a luz? (…) não nos rendermos à irracionalidade. Acharmos que enquanto humanos somos a aristocracia  da natureza e portanto com  o direito a ter poder sobre ela.

Muitas coisas que um povo considera boas são para outro apenas vergonha e irrisão. (…) A humanidade ainda não tem uma finalidade...Mas se a humanidade sofre por não ter uma finalidade, não será porque não existe humanidade. (…)

 

 

 

 

 

Quando o Sol se põe em Machu Pichu

de Luís Novais

Editora: Esfera do Caos

 

 

 

 

 

 

              Jesus Cristo precipitava-se para a morte. Monte acima, sabia o que o esperava, o que ia encontrar. Muitos se aproximavam d’Ele, para uma última conversa, para uma última prece ou bênção. Alberto Caeiro não esperava nem prece nem bênção, nem sequer uma palavra de conforto. A curiosidade sobre Este homem que diziam ser o filho de Deus, levou-o também a aproximar-se: Antes de irdes, sois feliz?

              A estranheza da pergunta veio tão depressa como a resposta: Sou porque me vou. E vós?

Caeiro não estava à espera que a sua pergunta fosse a resposta que não queria dar: Sou feliz assim porque não penso. Serei feliz? Não sei. É inútil pensar. Mas acho que sim, que se poderá chamar isso.

              Jesus parecia não estar convencido: Onde a vês?

              A impertinência de Jesus parecia envolver Caeiro num monte de dúvidas. Conseguiria Ele quebrar o descanso do pensamento? O quê?, perguntou.

              A felicidade.

              Ah! Essa Caeiro sabia-a! Ora, onde haveria de estar a felicidade? Em tudo, respondeu. No pôr-do-sol, na nuvem que passa a mão por cima da luz, no silêncio que corre pela erva fora, no meu rebanho, em vós. Mas afinal que interessa isso? Sou feliz e desejo a felicidade aos outros.

              Havia, no entanto, uma questão que ainda atormentava Caeiro. Seria aquele homem filho de Deus, como diziam? Porque iria então, de livre vontade, para a cruz?

              Dizeis-vos filho de Deus…

              Sim, porque ele é o meu Pai.

              O Paraíso não será mais do que o que vivo na Terra, opinou Caeiro, crente na sua plena felicidade.

              Porque o dizeis? Achais que não iria para um sítio melhor se não o quisesse?

              Caeiro não sabia responder a esta pergunta: Não sei. Mas encontrarei resposta na Natureza, garanto-vos. É aí que sempre as procuro.

              A cara de Jesus iluminou-se: Bem sei. Porque Deus nela está. Compreendeis o que quero dizer? Mas e o mistério das coisas, não pensais nele?

              Não!, para Caeiro não havia nada a compreender. A incompreensão era o melhor que tinha.

              Jesus ficou apreensivo. A sua cruz aproximava-se e a alegria de ir ter com o Pai transformava-se agora em desassossego de deixar este mundo. Mas então, quis saber, porque me perguntastes se sou feliz?

              Caeiro lançou uma gargalhada: Não porque queria desvendar esse mistério. Não! Apenas porque tudo o que tem existência é o presente, onde vivo, que conheço.               E se ides, não é mais do que o ciclo da Natureza, o planeado por Deus, seja lá o que isso signifique.

              Amais Deus?

              Amo. Não porque o saiba, nem porque saiba o que é amar. Mas amo.

              Sereis feliz então… Porque sabeis a verdade. Ide, porque me vou.

              E dito isto, Jesus lançou o seu último suspiro.

 

 

Joana Mendes, 12º H

(Des)Encontros