Alcino Simões 4fev2006 |
Entrevista passo-a-passo |
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O inquérito por entrevista
Um inquérito consiste em suscitar um conjunto de discursos individuais, em interpretá-los e generalizá-los (Ghiglione & Matalon, 1995: 2). A recolha de informações pode ser do tipo: não directiva (ou livre) em que o inquirido desenvolve um tema à sua vontade; semi-directiva (ou clínica ou estruturada) em que o inquiridor determina previamente os temas sobre os quais inquire, com uma ordem e forma deixada ao seu critério; questionário aberto em que a formulação e a ordem das questões são fixas e o inquirido pode dar uma resposta tão longa quanto queira; questionário fechado em que a formulação das perguntas, a sua ordem e a gama de respostas estão previamente definidas (Ghiglione & Matalon, 1995: 70). A selecção do tipo de inquérito deve ter em consideração os problemas inerentes ao ambiente onde decorre, ao tempo disponível, ao meio de comunicação, à directividade das questões, à influência do entrevistador, a qualidade das respostas, ao seu registo e ao previsível tratamento dos dados.
“A entrevista é um método de recolha de informações que consiste em conversas orais, individuais ou de grupos, com várias pessoas seleccionadas cuidadosamente, cujo grau de pertinência, validade e fiabilidade é analisado na perspectiva dos objectivos da recolha de informações (Ketele, 1999: 18). Através de um questionamento oral ou de uma conversa, um indivíduo ou um informante-chave pode ser interrogado sobre os seus actos, as suas ideias ou os seus projectos. Previamente, a entrevista carece de um propósito (tema, objectivos e dimensões) bem definido e é essencial ter uma imagem do entrevistado, procurando caracterizar sucintamente a sua pessoa. De seguida, seleccionam-se a amostra dos indivíduos a entrevistar segundo um método representativo da população ou de oportunidade.
O guião de entrevista é um instrumento para a recolha de informações na forma de texto que serve de base à realização de uma entrevista propriamente dita. O guião é constituído por um conjunto (ordenado ou não) de questões abertas (resposta livre), semi-abertas (parte da resposta fixa e outra livre) ou fechadas (resposta fixa). Deve incluir uma indicação da entidade e/ou pessoa, data, local e título. Um texto inicial apresenta a entrevista e os seus objectivos, devendo ser lido ao entrevistado. O guião ainda pode conter notações que auxiliam a condução da entrevista (tempo previsível de resposta, palavras-chave de resposta, questões para aprofundamento do tipo “pode dizer-me mais acerca deste assunto?”, etc.).
É necessário proceder à formação dos entrevistadores no caso deles não serem os investigadores do estudo. A condução da entrevista deve obedecer a critérios de respeito pelo entrevistado e a sua cultura, bem como garantir a finalidade do estudo e dos dados recolhidos.
Considerando a entrevista como um acontecimento social não se deve desprezar as características onde decorre e a influência no entrevistado. Tem-se em consideração diversos factores que podem interferir com as respostas: situação (recompensa, lugar, tempo, …); características intrínsecas do entrevistado (memória, motivação, …); características do entrevistado (grupo étnico, aspecto, …); entrevistador (vocabulário, papel, mensagens corporais, …); mensagem (compreendida, invocação, …) (adaptado de Ghiglione & Matalon, 1995: 76).
Antes da realização da entrevista, deve-se efectuar um pré-teste, podendo, eventualmente, ajustar o guião da entrevista. Depois de registada em papel ou em suporte magnético ou digital, a informação recolhida pela entrevista é tratada com vista à sua análise e à redacção das conclusões.
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Etapas na elaboração do guião de entrevista
1. Descrição do perfil do entrevistado (nível etário, escolaridade, nível socio-cultural, personalidade,...);
2. Selecção da população e da amostra de indivíduos a entrevistar;
3. Definição do propósito da entrevista (tema, objectivos e dimensões);
4. Estabelecimento do meio de comunicação (oral, escrito, telefone, e-mail, …), do espaço (sala, jardim, …) e do momento (manhã, duração, …);
5. Discriminação dos itens ou características para o guião;
5.1. Elaborar perguntas dos itens, de acordo com o definido nos pontos anteriores;
5.2. Considerar as expectativas do entrevistador;
5.3. Considerar as possíveis expectativas dos leitores/ouvintes;
5.4. Formular perguntas abertas (O que pensa de...?) e fechadas (Gosta de...?);
5.5. Evitar influenciar as respostas;
5.6. Apontar alternativas para eventuais fugas à pergunta;
5.7. Estabelecer o número de perguntas e proceder à sua ordenação, dentro de cada dimensão;
5.8. Adequar as perguntas ao entrevistado, seleccionando um vocabulário claro, acessível e rigoroso (sintaxe e semântica);
6. Produção do guião com boa apresentação gráfica;
6.1. Redigir o cabeçalho com identificação (instituição, proponentes, título, data)
6.2. Incluir uma apresentação sucinta da entrevista, incluindo os objectivos;
6.3. Alinhar as perguntas na vertical e com espaçamento ajustado;
6.4. Utilizar tipo de letra legível, parágrafo justificado, margens da página com 2 cm e, eventualmente, imagens à direita do texto;
7. Validação da entrevista pela análise e crítica de personalidades relevantes.
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5. Gestão do tempo de conversação;
5.1. Demorar até 25 minutos (?);
5.2. Parar antes do tempo previsto se o ambiente se tornar demasiado constrangedor;
6. Término da entrevista como começou, num ambiente de cordialidade para que o entrevistador possa voltar (se necessário) e obter novos dados.
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1. Verificação dos requisitos dos dados fornecidas pelo entrevistado: validade – comparar os dados com uma fonte externa; relevância – importância em relação aos objectivos; especificidade e clareza – referência com objectividade a dados, datas, nomes, locais, percentagens, prazos, etc.; profundidade – relacionado com sentimentos e lembranças do entrevistado, sua intensidade e intimidade; extensão – amplitude da resposta (Marconi & Lakatos, 2002: 97);
2. Análise das respostas às questões fechadas através de medidas estatísticas;
2.1. Determinar as percentagens das opções de resposta em cada item;
2.2. Calcular a moda das variáveis qualitativas;
2.3. Calcular as medidas estatísticas (média, mediana, desvio padrão, desvios, …) das variáveis quantitativas;
3. Determinação de um conjunto de categorias (temas, tópicos, …) das respostas às questões abertas;
3.1. Elaborar uma grelha de registo das categorias apontadas em cada entrevistado;
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Dimensões de análise Entrevistados |
Tema 1 |
Tema 2 |
Tema 3 |
Tema 4 |
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Entrevistado 1 |
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Entrevistado 2 |
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… |
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3.2. Descobrir padrões pela leitura dos dados da entrevista (comparação, ordenação, relação com características individuais - idade, sexo, …);
4. Elaboração do relatório;
4.1. Explicitar a metodologia do inquérito, incluindo a selecção da população e da amostra e a justificação, elaboração e a validação do instrumento da recolha de dados;
4.2. Descrever a recolha e o tratamento dos dados;
4.3. Apresentar a análise dos dados (tabelas, gráficos, resultados estatísticos, semelhanças e diferenças nas respostas dos entrevistados, padrões de declarações e correspondência com características individuais), acrescentando (porque acontece, quando acontece, quando não acontece, …);
4.4. Explicitação das conclusões da entrevista (síntese, resultados, reflexões, implicações, sugestões, …);
5. Disponibilização dos materiais utilizados (anexos, bibliografia, dados(?), …).
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Para saber mais
Foddy, William (1996 [1993]). Como Perguntar, teoria e prática da construção de perguntas em entrevistas e questionários. Oeiras: Celta Editora.
Fox, D. J. (1987). El processo de investigación en educación. Pamplona: Ediciones de la Universidad de Navarra.
Gall, M. D.; Borg, W. R. & Gall, J. P. (1996). Educational Research: an introduction. New York: Longman Publishers.
Ghiglione, Rodolphe & Matalon, Benjamin (1995 [1985]). O inquérito teoria e prática. (2ª ed.). Oeiras: Celta Editora.
http://www.cienciaviva.pt/rede/risco2004/entrevistas/#
http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/jponte/MEM-TG1.htm
http://www.netprof.pt/servlet/getDocumento?TemaID=NPL070103&id_versao=11895
Ketele, Jean-Marie De & Roegiers, Xavier (1999). Metodologia da recolha de dados. Lisboa: Instituto Piaget.
Marconi, Marina A. & Lakatos, Eva M. (2002). Técnicas de pesquisa: planejamento e execução de pesquisas, amostragens e técnicas de pesquisas, eleboração, análise e interpretação de dados. (5ª ed.). São Paulo: Editora Atlas.
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Daquilo que pensou ... O que apetece dizer? |
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Comentários
7) 16Jun2006
[Maria João
- diofanto@netcabo.pt]
Adorei a ideia.
Vou propor, que este estudo se realize na minha escola.
Haverá problema? Depois apresento os resultados.
Resposta: Obrigado pelo teu comentário.
Claro que podes utilizar livremente as informações do meu site.
Qual é a tua escola? Adorava saber as tuas conclusões.
6) 6Jun2006
[Maria João Costa
- mariajoaocosta@hotmail.com]
Ajudou imenso no meu trabalho de projecto de um estudo de audiências para uma
cadeira de psicossociologia da comunicação do 2º ano de comunicação social.
Muito bom!
5) 6Jun2006
[Ana Paula S.
B. Vicente
- paubavi32@yahoo.com.br]
Como elaborar um inquérito sobre a simpatia dos alunos da turma para com a
disciplina de português formulando primeiramente os objectivos a alcançar com
ele.
Tomando em consideração perguntas fechadas. Os meus cumprimentos a vós.
4) 7Abr2006 [Ana Gonçalves
-
wwwcrisor@sapo.pt]
Foi-me muito útil o que li, mas gostaria de saber se para realizar uma
entrevista é necessário o consentimento informado do entrevistado, ou só este
ter concordado em realizar a entrevista, sendo esta feita por gravação em fita
magnética?
Resposta: Deve existir uma autorização do entrevistado.
Para confirmação posterior, a autorização deve ser escrita.
Se o local da entrevista é uma instituição, terá de existir autorização desta.
Em caso do entrevistado ter idade inferior a 18 anos, a autorização deve ser
dada pelo seu encarregado de educação.
O registo de som ou imagem da entrevista deve ser autorizada por escrito.
3) 04Abr2006 [Carla Balbino -
carla.balbino@iol.pt]
Antes de mais queríamos agradecer pelo contributo que nos
ofereceu.
Somos alunas do 5º ano de Serviço Social. Estamos a elaborar um trabalho
de apoio domiciliário com um grupo de idosos.
O inquérito é um instrumento que faz parte da nossa recolha de informação. No
que respeita essencialmente no levantamento das principais necessidades destes
mesmos idosos, para futuramente intervir.
Resposta: Parece tão fácil fazer um inquérito.
No entanto, ... quando começamos a elaborar um, verificamos que há tantos
pormenores que devemos reflectir.
Espero que o vosso inquérito tenha sido bem sucedido.
2) 19Fev2006 [Vitor Domingues
- vdomingues2@portugalmail.pt]
Olá! Sou aluno do 4º Ano do curso de Trabalho Social.
Gostei muito do que foi escrito anteriormente, deste modo gostaria de pedir a
vossa ajuda para elaborar um guião de entrevista dirigido as pessoas que
trabalham num Lar de Idosos nomeadamente aos dierectores pessoal auxiliar e
administrativo sendo como principal ojecticvo de estudo e saber se a existência
de um Técnico Superior numa Instituição qualifica o nível de Serviços dos idosos
existentes no concelho, seja pelo seu atendimento aos candidatos em maior
precariedade económica social quer na prestação de serviços propriamente ditos?
Resposta: Eu não te posso nem devo ajudar na elaboração do guiao de
entrevista. pois é uma construção pessoal e, certamente, acompanhada e avaliada
pelo teu professor. Só te posso desejar bom trabalho!
1) 16Fev2006 [Elisa Ferreira -
elis_454@hotmail.com]
Muito bom, excelente. Estas indicações ajudaram-me muito no
trabalho que estou a fazer. Desde já, obrigado!
Resposta: Queres revelar qual é o teu trabalho?
Depois de fazeres a tua entrevista, tenta comentar, alterar, acrescentar este
meu texto sobre entrevista.
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Simões, Alcino. (1998-200?). Como
realizar uma entrevista passo-a-passo. Folha do alcino.
http://www.prof2000.pt/users/folhalcino/ideias/comunica/entrevista.htm
alcinosimoes@yahoo.com