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Biografia de Madre Teresa de Calcutá ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Mas Deus não pediria mais? Não seria talvez necessários ir ter com as superioras e com as autoridades eclesiásticas e expor-lhes frontalmente o problema, pedir-lhes até autorização para fazer a experiência de se colocar totalmente ao serviço dos mais pobres? Foi assim, com todas estas interrogações que a Irmã Teresa viveu o seu retiro daquele ano. Na oração e na meditação daqueles dias, mais se confirmou que a aspiração que lhe brotava do fundo da alma não era um capricho mas manifestação da vontade de Deus. Tendo regressado a Calcutá, foi ter com o arcebispo Mons. Fernando Périer a quem expôs o seu plano. Ele ouviu atentamente e, no fim, calmo, frio, disse um não absoluto que não deixou hipóteses para qualquer dúvida. A Irmã Teresa aceitou humildemente a recusa. Mais tarde comentá-la-á assim: "Não podia ter sido outra a sua resposta. Um bispo não pode autorizar a primeira religiosa que se lhe apresenta com projectos raros sob pretexto de que essa parece ser a vontade de Deus". Voltou às lides diárias que cumpria cada vez com maior dedicação e entusiasmo. O carinho das alunas demonstrado de tantas maneiras e a amizade das companheiras não lhe fizeram esquecer a imagem horrorosa dos doentes e dos famintos que morriam pelas ruas de Calcutá. Mas por vezes, apresentava-se-lhe angustiosa esta pergunta: não será tudo isto uma tentação do demónio? Um ano depois, foi ter novamente com o arcebispo. Levava nos lábios o mesmo pedido e no coração a mesma disposição para aceitar, com humildade e alegria, a resposta qualquer que ela fosse. Mons. Périer escutou, mais uma vez, as razões da Ir. Teresa. A sua simplicidade, fervor e persistência convenceram-no de que estava perante uma manifestação da vontade de Deus. Por isso, desta vez, mais afável, aconselhou: - Peça primeiro autorização à Madre Superiora. A Irmã Teresa escreveu prontamente uma carta expondo o seu plano. A Superiora viu nessas linhas a expressão da vontade de Deus. O que aquela religiosa pedia era algo muito sério e exigente. Por isso, respondeu-lhe nestes termos: "Se essa é a vontade de Deus, autorizo-te de todo o coração. De qualquer maneira, lembra-te sempre da amizade que todas nós te consagramos. Se algum dia, por qualquer razão, quiseres voltar para o meio de nós, fica sabendo que te receberemos com amor de irmãs." Mons. Périer pediu autorização a Roma para Irmã Teresa deixar as Irmãs de Loreto, "para viver só, fora do claustro tendo Deus como único protector e guia, no meio dos mais pobres de Calcutá." A resposta de Pio XII chegou no dia 12 de Abril de 1948. Nela se concedia a desejada autorização sublinhando-se que, embora deixando a congregação de Nossa Senhora de Loreto, a Irmã Teresa continuava religiosa sob a obediência do arcebispo de Calcutá. Só em 08 de Agosto de 1948 ela deixou o colégio de Santa Maria. Custou imenso: a ela, às companheiras, às alunas. Depois dirigiu-se para Patna, para fazer um breve curso de enfermagem que julgava de imensa utilidade para a sua actividade futura.
Em 21 de dezembro obtém a nacionalidade indiana. Data que reunia um grupo de cinco crianças, num bairro imundo, a quem começou a dar escola. Pouco a pouco, o grupo foi aumentando. Dez dias depois eram cerca de cinquenta. Tendo abandonado o hábito da Congregação de Loreto, a Irmã Teresa comprou um sari branco, debruado de azul e colocou-lhe no ombro uma pequena cruz. Será o seu novo hábito, o vestido duma modesta mulher indiana. Com o alfabeto a irmã dava lições de higiene (muitas vezes iniciava a aula lavando a cara aos alunos) e de moral. Depois ia de abrigo em abrigo levando, mais que donativos, palavras amigas e as mãos sempre prestáveis para qualquer trabalho. Não foi preciso muito tempo para que todos a conhecessem. Quando ela passava, crianças famintas e sujas, deficientes, enfermos de todas a espécie gritavam por ela com os olhos inundados de esperança: Madre Teresa! Madre Teresa! Mas o início foi duro. Ela sentiu a angústia terrível da solidão. Um dia, depois de dar voltas e mais voltas, à procurada duma casa, era preciso um teto para acolher os abandonados, pus-me a caminho para achá-lo. Caminhei e caminhei ininterruptamente, até que já não pude mais. Então compreendi até que ponto de esgotamento têm que chegar os verdadeiros pobres, sempre em busca de um pouco de alimento, de remédio, de tudo. A lembrança da tranquilidade material de que gozava no convento de Loreto e por teu amor, desejo permanecer aqui e fazer o que a tua vontade exige de mim. Não! Não voltarei atrás. A minha comunidade são os pobres. A sua segurança é a minha. A sua saúde é a minha. A minha casa é a casa dos pobres. A sua segurança é a minha. A sua saúde é a minha. A minha casa é a casa dos pobres; não apenas dos pobres mas dos mais pobres dos pobres. Daqueles de quem as pessoas já não querem aproximar-se com medo contágio e da porcaria porque estão cobertos de micróbios e vermes. Daqueles que não vão rezar, porque não podem sair nus de casa. Daqueles que já não comem porque não têm força para comer. Daqueles que se deixam cair pelas ruas, conscientes de que vão morrer, e ao lado dos quais os vivos passam sem lhes prestar atenção. Daqueles que já não choram, porque se lhes esgotaram as lágrimas; Dos intocáveis. Há fatos curiosos na vida de Madre Teresa em que podemos ver um sinal da aprovação de Deus à sua obra. Ela mesma conta: "Era a minha primeira volta pelas ruas de Calcutá depois de ter deixado Loreto e ter regressado de Patna. A certa altura aproximou-se mim um sacerdote pedindo-me um donativo para uma colecta que estava a realizar-se a favor da boa imprensa. Tinha saído de casa com cinco rúpias. Já tinha dado quatro aos pobres. Entreguei-lhe a única rúpia que me restava. ao entardecer, o mesmo sacerdote veio ao meu encontro com um envelope. disse-me que lhe tinha sido dado por um senhor desconhecido que ouvira falar dos meus projectos e me queria ajudar. No envelope vinham cinquenta rúpias. Naquele momento tive a sensação de que Deus começava a abençoar a minha obra e que nunca me abandonaria." Em 19 de março de 1949 uma outra benção de Deus foram as vocações que começaram a surgir precisamente entre as suas antigas alunas. A primeira foi Shubashini Das. Era uma linda jovem, dotada de bastante inteligência, filha de uma boa família. Disse-lhe: - Madre Teresa, se me aceitar, estou disposta a ficar consigo e a colocar a minha vida ao serviço dos pobres. - Minha filha, pensa melhor, reza mais e, daqui a a algum tempo, vem ter novamente comigo. Era quase o mesmo conselho que Mons. Périer lhe tinha dado, tempos atrás. a jovem foi, prensou, rezou e no dia 19 de Março de 1949, dia de São José, era aceita na nova Congregação, que começava a surgir, escolhendo como nome para vida religiosa o nome de baptismo da sua antiga professora: Agnes. A esta outras se seguiram. Sem qualquer propaganda. Apenas atraídas pelo testemunho daquelas que se chamariam, mais tarde, Missionárias da Caridade. Madre Teresa conta assim o início da congregação: "Uma a uma, a partir de 1949, vi chegar jovens que tinham sido minhas alunas. Vinham com o desejo de dar tudo a Deus e tinham pressa em fazê-lo. Despojavam-se, com íntima satisfação, dos seus saris luxuosos para revestir-se do nosso humilde sari de algodão. Vinham sabendo que se tratava de algo difícil. Quando uma filha das velhas castas se coloca ao serviço dos párias, trata-se de ma revolução. A maior. A mais difícil de todas: a revolução do amor! Uma vida mais regular começou então para a nossa pequena comunidade. Abrimos escolas enquanto continuávamos a visita aos bairros de lata. As vocações afluíam e a nossa casa tornou-se muito pequena. Ainda em 1949, começa a escrever as constituições das Missionárias da Caridade, nome que dá à sua Congregação. ...
O primeiro trabalho com os doentes e moribundos recolhidos na rua era lavar-lhes o rosto e o corpo. A maior parte não conhecia sequer o sabão e a espuma metia-lhes medo. Se as Irmãs não vissem nestes infelizes o rosto de Cristo, o trabalho tornar-se-lhes-ia impossível. Nós queremos que eles saibam que há pessoas que os amam verdadeiramente. Aqui eles encontram a sua dignidade de homens e morem num silêncio impressionante... Deus ama o silêncio. Os pobres não merecem só que os sirvamos, merecem também a alegria e as Irmãs oferecem-na em abundância. O próprio espírito da nossa congregação é de abandono total, de amor confiante e de alegria... É a nossa regra, para procurarmos "fazer alguma coisa de belo por Deus!" A lista dos bens das Irmãs é pequena: um prato esmaltado e coberto, dois saris baratíssimos, um jogo de roupa interior grosseira, um par de sandálias, um pedaço de sabão guardado numa caixa de cigarros, um travesseiro e um colchão extremamente delgado, acompanhado de um par de lençóis e, para completar tudo, um balde metálico com o respectivo número. Assim, com o colchão enrolado debaixo do braço e as restantes coisas colocadas no balde, a Irmã que viaja leva todos os bens consigo. Ao menor sinal, as Irmãs estão preparadas para partir: "Com um pouco de treino, diz uma delas consigo estar pronta para partir em trinta minutos." A Congregação de Madre Teresa, foi aprovada pela Santa Sé em 7 de outubro de 1950. Em agosto de 1952, abre o lar infantil Sishi Bavan (Casa da Esperança) e inaugura o seu famoso "Lar para Moribundos", em Kalighat, ao qual dedica as suas melhores energias físicas e espirituais. A partir dessa data, a sua Congregação começa a expandir-se de maneira irresistível pela Índia e por todo o mundo. Na Índia, principia por Ranchi e continua depois por Nova Delhi e Bombaim; nesta cidade, será recebida pelo papa Paulo VI em 1964. A obra de Madre Teresa cresceu rapidamente. Não trazia esquemas pré-fabricados. O ritmo e as iniciativas eram marcadas pelo inesperado de cada dia.
No ano de 1952 percorria, como de costume,
as ruas prestando ajuda aos mais necessitados. de repente, parou diante de
um espectáculo horripilante: uma mulher agonizava no meio de escombros,
roída pelos ratos pelas formigas. Madre Teresa aproximou-se e ouviu um
queixume em voz muito ténue: E dizer que foi o meu próprio filho que me
lançou para aqui! Recolheu-a e levou-a ao hospital mais próximo. Quando
viram aquele semi-cadáver responderam a Madre Teresa: - Aqui não há
lugar para estes casos! Não podemos aceitar essa mulher! - Pois eu não
sairei daqui enquanto vós a não receberdes. A mulher entrou mas morreu
pouco depois. De regresso a casa, Madre Teresa pensou na sorte dos
moribundos que todos dias morrem pelas ruas de Calcutá sem ninguém lhes
prestar assistência. A imprensa tinha abordado este problema precisamente
naqueles dias. Madre Teresa aproveitou a oportunidade e disse à
autoridades: - Dêem-me um local que eu encarrego-me de tratar dos
moribundos. Deram-lhe duas grandes salas de um edifício contíguo ao
templo da deusa Kali denominado "Casa do Peregrino" porque
servia de dormitório aos peregrinos. ela mudou-lhe o nome. Chamou-lhe
"Casa do Moribundo." Os bonzos não levaram a bem esta entrega
duma dependência sagrada a uma mulher católica. Consideraram-na uma
profanação. Resolveram, por isso, encarregar um de espiar todos os
movimentos da religiosa e de, no momento oportuno, desfazer-se dela. Tendo
conhecimento deste plano, Madre Teresa apresentou-se ao chefe e disse-lhe:
- Se querem matar-me, matem-me agora mesmo, mas não façam mal aos meus
pobres moribundos. Ele ficou surpreendido com a atitude valorosa desta
mulher que veio confirmar as boas informações já dadas pelo espião: -
Observei com todo o cuidado a acção daquela mulher e a minha impressão
foi de que, ao olhar para ela, me pareceu ver a própria deusa Kali em
acção. Não façais, portanto, mal a essa mulher. Pouco a pouco, os
bonzos tornaram-se seus amigos. Para isso contribuiu muito um fato que a
própria Madre Teresa conta assim: "Um desses bonzos contraiu a
tuberculose. Nenhum hospital o teria recebido. Nós fizemos todo o
possível para o curar. Os seus companheiros vinham vê-lo. Ao princípio
blasfemava contra Deus levado pelo desespero da sua doença. Da nossa
parte não nos poupávamos a esforços para lhe sermos agradáveis e
minorar a suas dores. Pouco a pouco, a sua atitude foi mudando. Chegou
até a pedir a benção antes da morte que foi muito serena. os seus
companheiros não conseguiam explicar o que tinha acontecido. Depois
disto, os sacerdotes da deusa Kali nunca deixaram de demonstrar-nos a sua
amizade e até de dar-nos a sua colaboração, em muitos Na catedral do
Santíssimo Rosário, em abril de 1953, as primeiras Missionárias da
Caridade fazem os seu votos religiosos. A ordem é aprovada pela Santa sé
a 1º de fevereiro de 1965 e, com a procteção da aprovação
pontifícia, estende-se por toda a Índia. Ainda em 1965, funda no dia 26
de Julho a sua primeira casa na América Latina, concretamente na
Venezuela, na arquidiocese de Barquisimeto, em 1967, abre outra no
próprio coração da cristandade, em Roma, por desejo expresso de Paulo
VI; mais adiante, João Paulo II dar-lhe-á de presente uma casa dentro do
próprio Vaticano. A partir de 22 de agosto de 1968, a Congregação
estende-se por outras regiões: Ceilão, Itália, Austrália, Bangladesh,
Ilhas Maurícias, Peru, Canadá, etc. 8 de Dezembro de 1970. As
Missionárias da caridade abrem a sua primeira casa em Londres e fixam aí
o aspirantado e noviciado para a Europa e América. Em 1973, abre uma casa
em Gaza, na Palestina, para atender os refugiados, e e celebra a primeira
Assembleia Internacional dos colaboradores das Missionárias da caridade,
instituição cujos estatutos tinha sido aprovados em 1969, e que reúne
centenas de milhares de pessoas de todo o mundo: 50.000 leigos, aos quais
é preciso acrescentar todos os doentes e todos os que sofrem e oferecem a
sua dor pelas intenções da Madre Teresa. 15 de junho de 1976 Em 15 de
junho de 1976, precisamente em Nova York, que era, no entender dela, o
lugar mais necessitado de oração, funda o ramo contemplativo das
Missionárias da Caridade. E em dezembro de 1976, inaugura centros de
assistência no México e Guatemala. Recebe o Prémio Nobel da Paz em 15
de outubro de 1979. Ainda no mesmo ano, João Paulo II recebe-a em
audiência privada e ela converte-se, sem nunca ter estudado diplomacia,
na melhor "embaixadora" do Papa em todas as nações, fóruns e
assembleias do universo. Skoplje nomeia-a "Cidadã Ilustre".
Muitas universidades lhe conferiram o título "Honoris Causa". E
ainda em 1980, recebe a Ordem "Distinguished Public Service Award"
nos EUA. Em 1981, inaugura em Berlim oriental a primeira das suas
fundações em países submetidos ao marxismo. Anos mais tarde, será
recebida por Mikhail Gorbachov e abrirá uma casa na Rússia. E o mesmo
fará em Cuba. Em 1983, estando em Roma, sofre o primeiro grave ataque do
coração. Tinha 73 anos. Foi muito bem atendida e o médico disse-lhe:
"A senhora tem coração para mais trinta anos" Tomou isso ao
pé da letra e nem febre alta a fazia descansar. Em setembro de 1985, é
reeleita Superiora das Missionárias da Caridade pelo Capítulo geral da
Congregação. Só outra Irmã, Sor Josepha Michael, viu o seu nome
escrito num dos votos: o que fora depositado na urna eleitoral pela Madre
Teresa... Os outros 66 foram unânimes. Nesse mesmo ano, recebe do
Presidente Reagan, na Casa Branca, a Medalha presidencial da Liberdade, a
mais alta condecoração do país mais poderoso da terra . Participa de
Sínodos, como o de 1986, e dos actos do Ano Mariano de 1987 e do Ano
Santo da Redenção, bem como das viagens papais. Em agosto de 1987, vai
à União Soviética e é condecorada com a Medalha de ouro do Comité
soviético da Paz. Pouco depois, visita a China e a Coreia. Em agosto de
1989, realiza um dos seus sonhos: abrir uma casa na sua Albânia natal
que, apesar de ser um dos países mais pobres, injustos e atrasados do
planeta, até há pouco fazia gala de ser o país mais ateu do mundo, o
único em cuja Constituição figurava paradoxalmente o ateísmo como
"religião do estado". Em setembro de 1989, sofre o seu segundo
ataque do coração e corre sério risco de vida, mas recupera-se e retoma
o seu incrível trabalho com mais ardor e vigor do que antes, apesar do
marcapasso. Em 1990, pede ao Papa para ser substituída no seu cargo, mas
volta ser reeleita por outros seis anos, até 1996, e o Papa torna a
confirmá-la - Já o fizera outra vez antes - como Superiora das
Missionárias da Caridade. A Madre Teresa nunca perdia uma oportunidade
para levar todos aqueles com quem se cruzava, independentemente da sua
origem, da sua posição social ou da sua religião, a encontrar-se com
Cristo. - "Vamos, primeiro, cumprimentar o dono da casa". Era
com essa frase simples que costumava receber a maior parte das
personalidades - por exemplo, o então Primeiro-Ministro Nehru -, que
vinham conhecer a casa das Missionárias da Caridade, dirigindo-as
resolutamente à capela do Santíssimo Sacramento. No dia 05 de setembro
de 1997, depois de sofrer uma última parada cardíaca, foi a vez de ela
poder encontrar-se, desta vez definitivamente, com o Dono e Senhor da sua
alma. Uma fila de quilómetros formou-se durante dias a fio, diante da
igreja de São Tomé, em Calcutá, onde o seu corpo estava sendo velado.
Ao fim de uma semana, como muitos milhares de pessoas ainda queriam
dizer-lhe o último adeus, o corpo da Madre foi transladado ao Estádio
Netaji, onde o cardeal Ângelo Sodano, Secretário de Estado do Vaticano,
celebrou a Missa de corpo presente. O mesmo veículo que, em 1948,
transportara o corpo do Mahatma Gandhi foi utilizado para realizar o
cortejo fúnebre da Mãe dos pobres. (Entrevista com Madre Teresa de Calcutá) A fundadora das Missionárias da Caridade
fala sobre o serviço que a sua congregação presta aos "mais pobres
dos pobres". São mais de 4 mil religiosas, em 119 países. Santa, sim, mas um tanto ingénua, que se deixa facilmente seduzir por um sorriso, um cumprimento, uma esmola de algum rico empresário ou fazendeiro? Madre Teresa de Calcutá é uma figura
controvertida. Radicais hinduístas prefeririam tê-la longe, o mais
possível, das ruas de Calcutá. Para eles, essa religiosa católica de
origem albanesa, rosto enrugado pelos 86 anos de vida, corpo frágil e
saúde precária, não passa de alguém interessado, pura e simplesmente,
em fazer proselitismo religioso. Cristãos engajados nos mais diferentes
tipos de luta pela transformação social sentem-se pouco à vontade com o
testemunho dela. Não criticam nela o amor sem medidas pelos últimos, os
marginalizados, os excluídos. Reclamam da falta de uma consciência que
saiba enxergar as estruturas injustas que produzem e mantêm a pobreza e a
miséria, na Índia e no mundo inteiro. É cobrar demais. Madre Teresa parece
distante dessa discussão. "Não se pode fazer tudo", responde.
E diz que reza todo dia pelas pessoas que se ocupam com essas questões
maiores. Diz isso, com a mesma simplicidade de quem sorri ao afirmar que
fez um trato com Deus: uma alma a menos no Purgatório, para cada
fotografia que dela tiram. Prémios e títulos de reconhecimento não
lhe faltam, nem mesmo o Nobel da Paz, que ganhou em 1979. Há dois meses,
recebeu do presidente Bill Clinton o título de Cidadã de Honra dos
Estados Unidos da América. Uma homenagem só concedida antes a quatro
pessoas, dentre elas Winston Churchill, estadista inglês (1874-1965), um
dos mais importantes chefes de Estado do século 20. Instrumentalização, em vista das
eleições dos Estados Unidos? Outra vez, parece que seria exigir demais
de Madre Teresa que se colocasse o problema. "É cansativo e
duro", ela reconhece na entrevista. Diz que utiliza tudo o que se lhe
apresenta "para a glória de Deus e o serviço aos mais pobres".
Porque "é preciso que alguém pague esse preço". A congregação que fundou - as
Missionárias da Caridade - é um sucesso absoluto. O segredo? As jovens
apreciam, sobretudo, a vida de oração: "Rezamos quatro horas por
dia". E também "conhecem e vêem o que fazemos pelos
pobres". É tão simples... Por que "tabernáculos"? - Porque Jesus está presente nessas casas. São casas de Jesus. A nossa congregação quer contribuir para
que as pessoas sejam saciadas da sua sede de Jesus. Fazemos isso, tentando
resgatar e santificar os mais pobres dos pobres. Como as outras
congregações, fazemos os votos de castidade, pobreza e obediência.
Recebemos a autorização especial de fazer um quarto voto: o de nos
colocarmos a serviço dos mais pobres dos pobres. Como a senhora vê o tema do celibato? - O celibato não é para quem se sente
chamado ao matrimónio. O sacramento do matrimónio é maravilhoso. Desde
o momento em que um homem e uma mulher se amam verdadeiramente e rezam
juntos, Deus transmite a eles o seu amor. A vida familiar merece muita atenção, é
um dom de Deus. Não obstante, nós religiosas renunciamos a esse dom.
Consagramos a nossa vida a Deus na castidade e no amor, sem divisão. Nada
nem ninguém nos poderá separar desse amor, como diz São Paulo. A senhora costuma dizer que não há amor
sem sofrimento... - Sim, o verdadeiro amor faz sofrer. Cada
vida, e cada vida familiar, deve ser vivida honestamente. Isso supõe
muitos sacrifícios e muito amor. Porém, ao mesmo tempo, esses
sofrimentos vêm sempre acompanhados de muita paz. Quando a paz reina em um lar, ali se encontram também a alegria, a unidade e o amor. Como se pode levar uma vida familiar normal sem paz e sem unidade? Nesse sentido, a oração de São Francisco
é muito atual. Não vivemos nas mesmas circunstâncias, mas o que
Francisco pedia responde perfeitamente às necessidades da nossa época.
Em Calcutá, rezamos essa oração todos os dias, depois da comunhão.
Penso em todos os homens e mulheres que necessitam de amor: "Senhor,
fazei-nos dignos de ser instrumentos da verdadeira paz, que é a vossa
paz". A sua congregação abriu casas para
pessoas com Aids em várias partes do mundo... - Sim, entre outros lugares, nos Estados
Unidos, na Itália, no Zaire e, evidentemente, na Índia. Até pouco tempo
atrás, não era raro que pessoas se suicidassem quando ficavam sabendo
que tinham o vírus da Aids. Hoje, nenhum enfermo acolhido em nossas casas
morre no desespero e na amargura. Todos, inclusive os não-católicos,
morrem na paz do Senhor. Isso não é maravilhoso? As regras da sua congregação falam do
trabalho em favor dos "mais pobres dos pobres, tanto no plano
espiritual quanto no plano material". O que a senhora entende por
"pobreza espiritual"? Alguns dizem que se ocupa apenas com gente
que vive na rua... - Os pobres espirituais são os que ainda
não descobriram Jesus Cristo, ou que estão separados dele por causa do
pecado. Os que vivem na rua também precisam ser ajudados nesse sentido. Por outro lado, fico muito contente de ver
que, em nosso trabalho, podemos contar também com a ajuda de gente
acomodada, a quem oferecemos a oportunidade de fazer algo de bom para
Deus. É desse modo que conseguimos abrir um centro onde acolhemos e
assistimos a jovens que saem da prisão. Essa gente nos oferece material e dinheiro.
Nesses dias chegou uma carta dos Estados Unidos. Pela letra dava para ver
que era de uma criança. Ela me dizia: "Madre Teresa, eu gosto muito
de você". O envelope continha um cheque de 3 dólares. Para essa
criança, tratava-se de um grande sacrifício. Vocês também recebem ajuda de gente de
outras religiões? - Sim, de muçulmanos, hinduístas,
budistas e outros. Alguns meses atrás, um grupo de budistas japoneses
veio conversar comigo sobre espiritualidade. Eu disse a eles que jejuamos
todas as primeiras sextas-feiras do mês e que o dinheiro economizado vai
para os pobres. Quanto regressaram ao seu país, os monges pediram às
famílias e comunidades budistas que fizessem o mesmo. O dinheiro que
recolheram nos permitiu construir o primeiro andar do nosso centro "Shanti
Dan" ("Dom de Paz") para as "jailgirls" (meninas
da prisão). Cento e dez dessas meninas já saíram da
prisão. São jovens, quase sempre adolescentes. Muitas delas são
deficientes psíquicas. Saem das favelas e, de repente, se vêem metidas
na prostituição. A maior parte, assim que renuncia a esse tipo de vida,
é denunciada à polícia pelos proxenetas. Acaba na prisão, onde vive em
condições desumanas. Madre Teresa, alguns a criticam, dizendo
que só tem um objectivo: converter os não-cristãos... - Ninguém pode forçar ou impor a
conversão, que só acontece por graça de Deus. A melhor conversão é a
que consiste em ajudar as pessoas a se amarem umas às outras. Nós, que
somos pecadores, formos criados para ser filhos de Deus, e temos que nos
ajudar a chegarmos o mais perto possível dele. Todos somos chamados a
amá-lo. A senhora diz que as suas Irmãs não são
assistentes sociais. Por quê? - Somos contemplativas no coração do
mundo, porque "rezamos" o nosso trabalho. Realizamos um trabalho
social, certamente, mas somos mulheres consagradas a Deus no mundo de
hoje. Entregamos a nossa vida a Jesus, com uma renúncia total e a
serviço dos pobres, tal como Jesus nos deu a sua vida na eucaristia. O
trabalho que fazemos é importante, mas não é tanto a pessoa que o faz
que é importante. Fazemos esse trabalho por Jesus Cristo, porque o
amamos. É tão simples. Não temos condições de fazer tudo. Eu
sempre rezo muito por todos aqueles que se preocupam com as necessidades e
misérias dos povos. Muitas personalidades e gente rica se
associaram à nossa acção. Pessoalmente, não possuímos nada. Não
ganhamos dinheiro. Vivemos da caridade e para a caridade. E da Providência... - Isso mesmo. Normalmente, sempre temos que
enfrentar necessidades imprevistas. Em nossa casa "Sishu Bevan",
temos mais de duzentos bebés que necessitam de um tipo especial de leite.
Um dia, as minhas Irmãs vieram me procurar para dizer: "Madre, tem
que fazer alguma coisa, porque não vemos nenhuma saída". No mesmo
dia, um hindu rico veio me ver e me disse: "Madre Teresa, esta
manhã, uma voz me disse que eu tinha que fazer alguma coisa pelos
pobres", e me deu o que necessitávamos. Deus é infinitamente bom.
Ele sempre se preocupa connosco. Por que tantas jovens entram para a sua
congregação? - Eu creio que elas apreciam, sobretudo, a
nossa vida de oração. Rezamos quatro horas por dia. Elas também
conhecem e vêem o que fazemos pelos pobres. Não se trata de trabalhos
importantes e impressionantes. O que fazemos é muito discreto, mas nós o
fazemos pelos mais pequenos. A senhora é uma pessoa muito
popular. Nunca se cansa de tanta gente, fotografias...? - Considero isso um sacrifício, e também
uma bênção para a sociedade. Eu e Deus fizemos um contrato: para cada
foto que tiram de mim, Ele liberta uma alma do Purgatório... (risos)...
Eu creio que, nesse ritmo, em breve, o Purgatório estará vazio... Viajar pelo mundo cercada de tanta
publicidade é cansativo e duro. Porém, eu utilizo tudo o que se me
apresenta para a glória de Deus e o serviço aos mais pobres. É preciso
que alguém pague esse preço. Que mensagem gostaria ainda de nos
deixar? - Amem-se uns aos outros, como Jesus ama a cada um de vocês. Não tenho nada que acrescentar à mensagem que Jesus nos transmitiu. Para poder amar, é preciso ter um coração puro e é preciso rezar. O fruto da oração é o aprofundamento da fé. O fruto da fé é o amor. E o fruto do amor é o serviço ao próximo. Isso nos conduz à paz. - "UMBRALES" Fonte: Sem Fronteiras Nº
247 - Dezembro 96 - pág. 05 ____________________ Pensamentos... Se você é gentil, as pessoas podem
acusá-lo de egoísta, interesseiro. Se você é um vencedor, terá alguns
falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros. Se você é honesto e franco as pessoas
podem enganá-lo. O que você levou anos para construir,
alguém pode destruir de uma hora para outra. Se você tem Paz, é Feliz, as pessoas
podem sentir inveja. Dê ao mundo o melhor de você, mas isso
pode nunca ser o bastante. Veja você que no final das contas, é
entre você e Deus.
Bibliografia
Religiosa católica recebeu o Nobel da Paz em 1979 pelo trabalho em favor dos pobres Morreu ontem na Índia madre Teresa de Calcutá, 87 anos, a religiosa católica que recebeu o Nobel da Paz por seu trabalho em favor dos pobres. A porta-voz das Missionárias da Caridade, ordem fundada por ela, disse que a morte ocorreu às 9h30 (13h30 do Brasil). Os médicos foram chamados assim que a religiosa se queixou de dor no peito, mas nem tiveram tempo de atendê-la. Na quinta-feira, um porta-voz das Missionárias da Caridade havia anunciado que Madre Teresa não compareceria ao funeral da princesa Diana, hoje, por estar debilitada. A religiosa afastou-se no começo do ano da função de superiora da ordem que fundou, por sentir-se sem forças para exercer o cargo. No ano passado, ela celebrou o aniversário numa cama de hospital, com graves problemas respiratórios. GERAL ![]() Madre Teresa de Calcutá e a princesa Diana in, http://www.an.com.br/1997/retro/06_09_97.htm http://www.an.com.br/ Jornal A Notícia Santa Catarina Brasil. |
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