(Luandino,
o logoteca)
Pode considerar-se uma obra de transição porque nela a grande finalidade já não é narrar, como acontecia numa primeira fase de Luandino. O narrar passa a ser apenas pretexto para escrever, isto é, a escrita submete a função narrativa, que deixa de ser primordial. É nesta obra que ele se vai libertar dos cânones; há aí indícios de que a escrita está a tomar a iniciativa.
Pretende-se, de certo modo, “ferir” a sintaxe do português – padrão com um sentido político (objectivo não só de Luandino): há uma intenção de destruir ou subverter a língua do colonizador , o que implicava o ataque ao sistema que era veiculado por essa mesma língua.
O autor, enquanto criador, inventa a sua própria escrita, mas não uma língua. As transformações e violentações que impõe ao sistema em que se encontra integrado constituem, por um lado, derivações das potencialidades do sistema português e , por outro lado, das estruturas herdadas das línguas autóctones e dos empréstimos das línguas que vieram depois (superstractos).
Se fizermos uma análise (por mais incompleta que seja, como é o caso) da sintaxe, da semântica e do léxico do seu discurso, verificamos estar perante a transformação do sistema português, assumindo os processos da língua subjacente – Bantu. A aparente “miscelânea” na escrita de Luandino fundamenta-se no facto de Angola ser servida por várias línguas do ramo Bantu ( kimbundu, umbundo,etc.) que vão interferir e desestruturar o português – padrão, servindo , no entanto, para uma reestruturação de um novo discurso, baseando-se nas línguas já existentes , nomeadamente o kimbundo.
Luandino acreditava que era possível exprimir a língua e a problemática do homem negro numa língua africana. O Português, em particular, ofereceu a vantagem de se deixar moldar mais facilmente, permitindo a sua africanização progressiva.
Luuanda foi um prenúncio do que viria a ser a autêntica literatura angolana.