A escrita de viagem em publicações periódicas: para uma caracterização enunciativa/argumentativa

Ana Cristina Sousa Martins
Centro de Linguística da Universidade do Porto

0.

Nesta exposição apresento o resumo de uma análise comparativa de dois grupos de textos de viagens que integram publicações periódicas: um grupo constituído por textos publicados em revistas especializadas em matéria de viagens e o grupo de textos que aparecem em publicações de informação geral. Designo os textos do primeiro grupo por "reportagens turísticas" e os textos do segundo grupo, por "crónicas ou reportagens de viagem". A recolha das "reportagens turísticas" foi feita a partir das revistas Rotas e Destinos e Volta ao Mundo, enquanto que as crónicas e reportagens de viagem analisadas foram retiradas do Expresso e da Grande Reportagem.

O objectivo central desta apresentação é mostrar que a distinção entre reportagens turísticas, publicadas em revistas de viagens, e crónicas ou reportagens de viagem, publicadas na imprensa generalista, sendo uma distinção facilmente apurável atendendo aos programas editoriais envolventes e aos propósitos comunicacionais visados, tem projecção na distinção concernente à organização e funcionamento discursivo dos textos de um e outro grupo, de que assinalo as dimensões enunciativa e argumentativa.

 

Importa neste fase deixar claras algumas ressalvas quanto às designações utilizadas - "reportagem turística", de um lado, e "crónicas/reportagens de viagem" do outro e, implicadamente, quanto à limitação da classificação que essas designações transportam.

Sob a designação de "reportagem turística" poderemos encontrar textos estilisticamente diferentes entre si, como, aliás, são diferentes as opções redaccionais e editoriais entre as revistas Volta ao Mundo e Rotas e Destinos. A outra ressalva prende-se com o termo "reportagem" aplicado a "reportagem turística": de facto, estou apenas a fazer eco da auto-classificação que figura na secção paratextual da revista respectiva. Esta é, no entanto, uma classificação que, como veremos ao longo desta exposição, deve ser rejeitada.

No que toca ao segundo grupo, há também que fazer uma reserva relativamente à designações "reportagem de viagem" e "jornalismo de viagem" e dizer que elas não cobrem nenhum género jornalístico reconhecido e que em boa verdade toda a reportagem, que não a reportagem de investigação, é uma reportagem de viagem, não apenas no sentido em que pressupõe a deslocação do jornalista aos sítios dos factos em notícia, mas na medida em que faz parte da reportagem o retrato das situações e pessoas que ocupam esses sítios.

1.

Antes de entrar propriamente na caracterização genérica das "reportagens turísticas", interessa traçar um breve perfil das publicações em que estas surgem.

1.1.

A revista especializada em matéria de viagens tem por objectivo promover a compra de viagens a destinos turísticos. Entende-se por "destino turístico" um lugar onde se desenvolveu uma indústria de férias, uma estrutura comercial que inclui alojamentos, refeições, compras, actividades de lazer e serviços afins.

Este objectivo é definido nos editoriais por perífrases eufóricas como "estimular o sonho", "despertar a vontade de alargar fronteiras", "conduzir os leitores ao prazer da descoberta".

De facto, atendendo à composicionalidade global da revista, é de confirmar este propósito comunicacional. Aí encontramos rubricas em que se dá notícia de abertura de novas cadeias de hotéis, novos programas de viagens e se actualizam as campanhas de promoções das companhias de aviação; noutras rubricas temos um alinhamento temático de anúncios às melhores piscinas, aos melhores campos de golf, aos melhores safaris, aos melhores SPAs; outras rubricas ainda são montras de artigos de viagem (material fotográfico, malas, óculos de sol, etc).

A comprovação cabal de que há um propósito de divulgação comercial de locais turísticos está no facto de a revista receber apoios financeiros de agências de viagens, transportadoras aéreas e cadeias de hotéis, conforme ficamos a saber pelos agradecimentos que acompanham os textos centrais da revista.

1.2.

É então razoável encarar estes textos centrais, as reportagens turísticas, como textos publicitários dirigidos a um público de classe média-alta. E tal como acontece em qualquer discurso publicitário, aquilo que é apresentado não é apenas um produto com características benéficas para o comprador, mas algo que vai transformar o comprador num ser distinto e singular. Este movimento argumentativo resulta num paradoxo: os locais que anunciam são apresentados como destinos conhecidos por muito poucos, ou seja, não são turísticos, aí residindo o seu valor de venda:


(1) "as vilas retêm o ritmo de vida pacífica anterior à invasão turística"
(2) "as praias encontram-se sempre desertas", "as areias intocadas"
(3) "sítios que mantêm o mundo à distância"
(4) "fugas às 'hordas'"
(5) "'legiões' de turistas"

São acolhidos os valores da "tranquilidade", "privacidade", "singularidade" dos locais e da "identidade inalienável" da paisagem.

No entanto, o fim desse estado de coisas é directamente potenciado pela acção publicitária: ou seja, diferentemente do que acontece com a publicitação de um outro qualquer produto, aqui, a publicidade ao local precariza a qualidade do produto-destino turístico.

O local descrito é um objecto ideológico, na definição de Van Dijk (1995: 246) uma "self-serving truth of a social group". Trata-se de locais que, tal como são descritos, são capazes de se fazer desejar por um grupo de indivíduos e passam assim imediatamente a ser um símbolo de uma dada cognição social da realidade. Os termos que demarcam essa cognição são profusamente activados nestas "reportagens turísticas". Refiro-me a termos ideologicamente marcados, como: "requinte", "charme", "palaciano", "sofisticado", "chique", em expressões tão raras como "toque etnico-chique", ou ainda o adjectivo "francês", em expressões como "toque francês" ou "ambiente francês".

1.3.

Assim, enquanto texto publicitário que é, a "reportagem turística" poderá estar desobrigada de dizer a verdade factual sobre os lugares:

— as qualidades do espaço em descrição são hiperbolizadas e encarecidas através de:
- adjectivos sintéticos euforizantes, como "incrível", "incomparável", "inacreditável", "vertiginoso";
- expressões fixas de preterição, como "de cortar a respiração"; "ficar boquiaberto"
- construções consecutivas: "o espanto é tanto que...";
- construções gradativas: "Mas se a flora impressiona, a fauna essa..."

— concorre para esta leitura o tipo de formulação dos títulos, muito próximo do do slogan:

(6) "Austrália, Blue Mountains, a beleza mora ao lado"
(Volta ao Mundo nº69, Julho 2000)

(7) "Modena- Porta aberta para o mundo"
(Volta ao Mundo nº 70, Agosto 2000)

(8) "Timor Leste - Ilha de encantos mil"
(Volta ao Mundo nº100, Fevereiro 2003)
— os espaços socais estão depurados de qualquer conflito ou tensão e oferece-se uma visão do mundo insustentavelmente optimista:

(9) "Felizmente, o despertar de uma nova consciência possibilita hoje a preservação de vastas áreas da Amazónia." (Rotas e Destinos, Junho 2004: 62)

A informação veiculada neste segmento é incorrecta: como é abundantemente noticiado e divulgado de várias formas pelos media, os índices de deflorestação da Amazónia têm aumentado nos últimos dois anos.

1.4.

Compatibiliza-se com a constatação destes aspectos, o facto de estes textos não manifestarem uma preocupação testemunhal.

1.4.1.

A entidade de que emana o discurso é omitida em largas sequências:

Outra forma de apagar a presença do locutor está em recorrer a predicações em que a propriedade predicada é a expressão do efeito emotivo provocado genericamente pela paisagem sobre qualquer indivíduo:

(14) "O cenário envolvente é compensador" (Volta ao Mundo, Junho 2004:65)
(15) "O verde da vegetação é esmagador" (ibidem: 59)
 

A neutralidade enunciativa é plena nos encadeamentos de enunciados em que o sujeito é preenchido por SNs do tipo:

(16) "os hóspedes";
(17) "os passageiros";
(18) "os visitantes"
(19) "os mais devotos adoradores do pôr-do-sol"
(20) "o recém-chegado";
(21) "qualquer europeu";
 

ou por relativas livres:

(22) "quem se interesse por romarias..."

1.4.2.

Quando toma assento a primeira pessoa é de admitir que essa opção corresponda à técnica de utilização da figura do autor do texto como a personalização do turista-viajante ideal que deve ser invejado pelo leitor, através da qual se procura obter um efeito de espelho. Nesta medida, arrisco a afirmação de que as formas "eu"/"nós" não são aqui verdadeiramente deícticos, mas formas que exprimem o viajante potencial em que se virá a transformar o leitor:

(23) "cansada, mal chego ao hotel sou premiada com uma massagem de aromaterapia(...)" (Rotas e Destinos Junho 2004:46)
(24) "Cá por mim, fui directamente para o jacuzzi da proa antes de me sentar para provar uma generosa posta de atum servida com legumes assados." (Volta ao Mundo Junho 2005:111)

Pensar nesta estratégia como uma prática de instrucionalidade fraca não é descabido se a integrarmos em contextos, como estes que estou a considerar, com constantes activações de actos directivos directos e indirectos:

(25) "Assista ao pôr-do-sol esticado numas das chaises longues..." (Rotas e Destinos Agosto 2005: 101)
(26) "Pois vá até Petrópolis e descubra os seus casarões coloniais (...) depois siga até Itaipava... " (Rotas e Destinos Junho 2004:67)
(27) "O resto do caminho é para apreciar..." (Volta ao Mundo Junho 2005:64)
(28) "Outros dois lugares merecem uma visita prolongada..." (Volta ao Mundo Junho 2005:108)
(29) "Mas vale a pena dar a volta mais longa..." (Volta ao Mundo Setembro 2005)

1.5.

Há outros dados que contribuem para a conclusão de que as questões de fidelidade ou precisão da informação veiculada estão fora da mira comunicacional instaurada nestes textos. Estes dados atêm-se ao estatuto do relato de discurso e à marcação da evidencialidade.

1.5.1.

Assim, a presença do discurso directo é muito reduzida e quando ocorre, o falante original, do discurso citado, raramente é identificado. As falas reportadas são breves e estilisticamente neutras; não ilustram nenhum registo de língua nem ajudam a caracterizar nenhum dos agentes das elocuções reportadas. De facto, o discurso directo, nestas reportagens turísticas, não cumpre realmente a função que genericamente todo o discurso directo cumpre, que é a de invocar toda a situação de enunciação em que a fala reportada teve lugar. A escassa presença de discurso directo nestes textos parece dever-se simplesmente a uma tentativa de quebrar o andamento sequencial puramente descritivo.

No que respeita ao uso do discurso indirecto, é lícito também dizer que este regime tem aqui um baixo valor citacional, pois, tal como acontece no discurso directo, o locutor relator menciona apenas um falante anónimo e não definido e absorve na sua voz a voz desse locutor anónimo - admitindo-se a partir daí (dentro do juridismo ilocutório que parece ser privativo destes textos) todas as intervenções do locutor relator no discurso do locutor relatado:


(30) "No entanto, como nos disseram alguns dos locais, mais vale agora que nunca...." (Rotas e Destinos Agosto 2005: 60.)
(31) "Até me garantem que, se vier lá para Setembro poderei ver o fundo, fazer mergulho (...)" (Rotas e Destinos Junho 2004)

1.5.2.

No que toca, de um modo geral, à marcação no discurso das fontes de informação veiculada, há a notar que, de facto, não temos dados textuais ou enunciativos inequívocos de que o falante tenha tido acesso directo aos objectos e situações que descreve. Resta a inferência de que o locutor obtém a informação que veicula porque acedeu a objectos ou situações que podem ser colocadas em analogia. Outras vezes fica claramente pressuposto que o locutor não viu aquilo que afirma:

(32) "(...) onde ainda encontramos as pegadas de um índio que acabou de pescar como o seu pai e o seu avô lhe ensinaram." (Rotas e Destinos Junho 2004)

Isto acontece ainda que sejam visadas impressões visuais:

(33) "Com muita sorte - e total ausência de barulhos alheios à vida selvagem - talvez consigamos pôr os olhos num ginete (...) ou até mesmo numa lontra (...) espécies autóctones que aqui vêm em nítida romaria." (Rotas e Destinos Setembro 2005)
 

Faço notar que em nem numa nem noutra passagem que agora citei se asserta a experienciação, pelo locutor ou por outras pessoas, das acções referenciadas

Quero destacar, ainda nestas passagens, o uso do Presente (PR). Atendendo à indeterminação da referenciação das circunstâncias que envolvem as acções, é muito forçado identificar este PR com um PR indicial, que vise um efeito de presentificação da acção. Antes se aproxima mais facilmente do PR atemporal, ou seja, o PR que indica apenas o facto ou processo, alheio a qualquer tipo de localização no tempo. O recurso ao PR, nestes contextos, é talvez a marca mais forte da atitude neutral do locutor em relação à fidedignidade da informação que transmite.

Das notações efectuadas até aqui é legítimo concluir que estas reportagens não são verdadeiramente reportagens. Nenhum dos valores centrais de uma verdadeira reportagem - especificamente, a factualidade e responsabilização pelo dito - constituem uma preocupação nestas "reportagens turísticas". Não se verifica a estrita necessidade de persuadir o leitor da correcção daquilo que é dito. Inclusivamente, em alguns destes textos, é possível encontrar processos enunciativos próprios da ficção (refiro-me, especificamente, ao recurso a verbos de acção interna na 3º pessoa), com a emergência de um locutor omnisciente:

(34) "Os portugueses não correm pela marginal de Díli. Preferem ficar a beber cerveja gelada, recuam 30 anos e sentem-se leves, mais novos." (Volta ao Mundo Setembro 2005: 67)

Mas aqui encontramos o cerne do paradoxo deste género de escrita de viagem: é que se, enquanto textos de publicidade, aceitamos que eles possam secundarizar as fontes e não reafirmar a referencialidade do mundo extralinguístico, enquanto textos de viagem, há uma exigência quanto à marcação de testemunho e quanto à marcação de evidenciação e de experienciação directa das situações. Por outras palavras, a estas reportagens, porque estão publicadas em revistas especializadas em matéria de viagem, está associada a crença prévia de que o autor (que recorre à 1ª pessoa ou não) foi aos locais de que fala, mas, depois, enunciativamente, esses textos não nos fazem acreditar nisso, porque o discurso é neutral quanto à assunção da responsabilidade por aquilo que é dito.

Francisco José Viegas reflecte justamente esta descrença, quando se dá como acreditador do valor testemunhal dos textos publicados na revista. Assim, depois de invocar uma personagem de Moravia que escreve uma bela reportagem de viagem sem fazer a dita viagem, Francisco José Viegas pergunta:

(35) "Os leitores teriam acreditado nele e na sua reportagem? Claro que isso não acontece na Volta ao Mundo. Aqui as pessoas gostam de viajar e de escrever sobre o que lhes acontece. Eu conheço-os." (Volta ao Mundo Setembro 05:10)

1.6.

A individualidade de cada sítio retratado nas reportagens turísticas também não tem correspondência numa eventual especificidade de estruturação semântica, como poderíamos esperar que acontecesse de uma reportagem para outra. Pelo contrário, de uma maneira geral, estas reportagens são textos descritivos fortemente rotinizados. Há de facto uma homogeneidade estrutural muito evidente, que se mantém independentemente dos objectos, acções e locais descritos.

Assim, ao nível da organização geral do texto, é facilmente detectável um macrotópico, preenchido por um topónimo ou por uma expressão designativa da totalidade da viagem, como "cruzeiro" ou "aventura", por exemplo. Por sua vez, o macro-comentário pode ser preenchido por predicações estativas de função qualificativa ou predicações de processo em que globalmente se apresenta a acção benéfica (física, cognitiva e social) que um dado destino turístico é capaz de desencadear no leitor.

Ao nível da organização de estruturas intermédias, é possível detectar duas estratégias.

Uma dessas estratégias é procurar dispor os objectos e acções por ordem cronotópica: o texto começa com as acções de preparação da viagem; no corpo da reportagem, a textualização segue a ordem do tempo e espaço de um percurso e é quando os verbos de percepção visual surgem conjugados impessoalmente; os verbos de movimento/deslocação espacial ("atravessar", "cruzar", "chegar", "seguir", etc), frequentemente desacompanhados de qualquer indicador circunstancial, cumprem apenas a função de assinalar a transição para uma nova sequência descritiva.

A outra modalidade de textualização segue uma ordem temática: as possibilidades de abertura do texto são um pouco mais diversificadas (pode começar com uma referência biográfica de uma celebridade associada a um dado local; ou com a reconstrução de uma imagem pré-concebida que o leitor terá em relação ao local de que se vai falar); o texto evolui através de agregados subtemáticos, graficamente destacados ou não: monumentos, restaurantes, hotéis, sítios emblemáticos, etc...

Ao nível da composicionalidade de microestruturas, vamos encontrar em posição de tema nomes abstractos, como "cenário", "atmosfera", "ambiente" a par de nomes comuns designativos de espaço como "praia", "cidade", "aldeia", "praça". Como alternativa estilística à abundante adjectivação, encontramos metáforas recorrentes, do género, "esta pérola", "este refúgio". É muito frequente também a nominalização de processos configuradores dos efeitos potenciados pela paisagem sobre o visitante, como por exemplo: "o encanto", "a descontracção", etc.

Aspectualmente, dominam as representações de estado e de actividade, assistidas por construções de habitualidade e construções perifrásticas de visão continuativa do processo - justamente porque o valor de venda da paisagem reside na sua imutabilidade, no estado garantido de perenidade:


(36) "As casas térreas frequentemente dotadas de pátios interiores, continuam a ser pintadas em tons alegres." (Rotas e Destinos Setembro 2005:60)

Esse valor pode ser projectado lexicalmente, em epítetos como:

(37) "encanto colonial"
(38) "beleza colonial"

Não é invulgar verificarmos, nos textos que seguem uma organização cronotópica, que as longas séries de descrições de objecto são interrompidas por advérbios de pontualidade, por exemplo:

(39) "Num ápice, aparece uma estrada de pó..."
(40) "De repente, começa o declive..."

Mas não restam dúvidas de que os valores aspectuais de transicionalidade e culminação assim conseguidos estão a ser artificialmente introduzidos no discurso, visto que são sustentados por verbos cujo sentido, neste contexto, resulta numa dada percepção visual: não há um "fazer" ou acção desenvolvida por um agente.

2.

De outra ordem são as crónicas ou as reportagem de viagem - o segundo grupo de textos que delimitei no início desta exposição.

2.1.

As publicações em que aparecem - Expresso e Grande Reportagem - são publicações de informação generalista, com uma secção dedicada ao tema da viagem. Seleccionei do Expresso, crónicas de Gonçalo Cadilhe, que foram publicadas semanalmente durante 19 meses - o tempo de uma viagem pelo mundo sem recurso a transporte aéreo; e seleccionei da Grande Reportagem, textos de Isabel Mineiro, Henrique Burnay, Rita Jardim e Helena Marques.

Até Setembro de 2003, enquanto publicação mensal, a revista Grande Reportagem continha textos sobre locais que o leitor comum estará disposto visitar, podendo esses textos ser seguidos de um pequeno guia de viagem. Mas a revista publicou também muitos textos sobre locais definitivamente inacessíveis ao cidadão comum, como o deserto do Namibe ou o Cabo Norte, na Noruega. Ao contrário do que se passava com as reportagens turísticas, o jornalista vai onde ninguém pode ir ou quer ir. Nesta medida, a leitura da reportagem é uma experiência vicária relativamente à viagem relatada.

2.2.

O objectivo comunicacional é oferecer uma interpretação pessoal de uma ordem alheia do mundo, sobre um fundo noticioso ou projecção informativa pertinente, procurando captar aquilo que é novo ou impensável para o leitor.

2.3.

Ao contrário das "reportagens turísticas", cada reportagem ou crónica de viagem é composicionalmente heterogénea e de texto para texto é bastante mais difícil apurar padrões. A descrição de objecto alterna com a descrição de acções; sequências digressivas (algumas metadiscursivas, sobre a elaboração de textos de viagem) podem derivar para segmentos de monólogo interior, onde se faça a rememoração de outras paisagens; por sua vez, os núcleos narrativos, que dão conta, por exemplo, da superação de obstáculos, de um facto insólito ocorrido na viagem ou que servem a invocação de um episódio, podem aparecer em contiguidade com sequências expositivas ou explicativas sobre a história política e social dos locais visitados, que podem respeitar a ordem passado-presente ou seguir uma cronologia invertida, mediante a qual eventos passados explicam as idiossincrasias das paisagens físicas e humanas defrontadas.

2.4.

A caracterização enunciativa das reportagens de viagem pode também ser polarizada em relação às reportagens turísticas. Nas reportagens ou crónicas de viagem a elocução na 1ª pessoa dá a percepção e a apreensão dos objectos e lugares como simultâneas ao dizer, através da activação da deixis primária de reinstanciação. Dou o exemplo de um início de uma reportagem de Henrique Burnay sobre Aran:

(41) "Uma, duas, três e mais outra lá ao fundo. Protegidas pela ondulação suave (...)". (Grande Reportagem Abril, 2001:93)


Noto que a pressuposição do posicionamento de defrontação do sujeito em relação aos objectos denotados é aqui servida quer pelo deíctico "lá" quer ao recurso descrições definidas sem antecedente.

Quero ainda dar outro exemplo mediante o qual se percebe como o espaço aparece egocentricamente orientado:

(42) "Quando atravesso as portas da cidade fortificada de La Valletta e entro em Freedom Square, detenho-me sempre no grande espaço vazio, à direita, onde ainda permanecem as ruínas do edifício da ópera, destruído pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial. (...) Um pouco mais à direita, encontra-se a pequena igreja de Nossa Senhora da Vitória (...) E, do mesmo lado, logo abaixo, ergue-se a majestosa Auberge." (Grande Reportagem Abril 2002:113)

3.

Resta espaço para um esboço de uma análise comparativa de dois excertos representativos da caracterização global efectuada até este ponto.

3.1.

"Era uma vez em Marraquexe"

3.2.

"Um Promessa Quebrada"


Referências

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Van DIJK, Teun A.
(1995) "Discourse semantics and ideology", Discourse and Society, 6, 2, pp.245-275.

ANEXO 1

Era uma vez em Marraquexe

Contamos histórias de encantar de uma cidade das mil e uma noites, um lugar mítico e místico que se renova a cada instante e onde novas moradas - pequenos hotéis, restaurantes e clubes nocturnos - nos transportam para um atmosfera cosmopolita e sempre cheia de fantasia.

Texto de Miguel Satúrio Pires e Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro

(P1) A cada minuto que passa, os sentidos vão-se rendendo ao espectáculo. Estamos em Marraquexe, numa cidade que festeja a vida de uma forma muito singular e exótica, onde tudo e todos vibram a um ritmo das mil e uma noites.

(P2) Como terá dito Fernando Pessoa, "primeiro estranha-se e depois entranha-se", esta Marraquexe e as suas gentes, que nos invadem o espírito e a alma para nos emprestar por breves instantes a sua tão única maneira de viver. Respira-se aqui um ambiente rústico, mas também sofisticado, que habita paredes-meias com uma atmosfera cosmopolita, a fazer lembrar, uma ou outra vez, experiências vividas em Nova Iorque, Paris ou outra qualquer metrópole, agora transportadas para ruas de terra batida, paredes de adobe e mercados onde a animação é constante.

(P3) Todas as semanas novas moradas abrem portas nos quatro cantos da cidade. Desde restaurantes e discotecas até às inevitáveis maisons d'hôtes e mais uns tantos hotéis de charme, passando por lojas de marcas internacionais, pouco, ou mesmo nada falta nesta exótica cidade pintada de vermelho, a menos de duas horas de avião de Lisboa. São locais de estética apurada, look modernista ou de um irresistível charme arábico e sempre povoadas por beautiful people, os mesmo que se repetem e se reencontram com facilidade por estas e outras capelinhas.(...)

(P4) É assim a Marraquexe dos turistas que procuram ir além dos meros circuitos turísticos vendidos em excursão, uma cidade de requintes, que se descobre lentamente, a bebericar um chá de menta ora no terraço de um ryad exclusivo, ora no democrático Café de France.

(P5) Desde sempre mí(s)tica e uma verdadeira fonte de inspiração para as muitas gerações que por lá passaram - foram muitos os nomes ilustres que participaram na história recente da cidade, desde Churchill, que a considerava "um dos lugares mais bonitos do mundo", a Alfred Hitchcock, que aqui filmou a sua segunda versão de O Homem Que Sabia De mais - , nunca deixou de exercer fascínio com o correr dos tempos, renovando-se e acompanhando a par e passo, mas sem desvirtuar o seu passado, as novas tendências do Ocidente, que se cruzam a cada esquina com as tradições e os costumes locais.(...)

Mergulhe na confusão

(P6) O seu melhor cartão de visita é, sem dúvida alguma, a famosa praça de Jemaa el Fna, às portas dos souks, que agora está atapetada de novo para desgosto de muitos, pois perdeu o característico chão de terra batida e, com ele, parte da sua aura. Modernismo à parte, o certo é que, por enquanto, a tradição se mantém. Reminiscência do tempo em que os nómadas paravam no local, com os cofres cheios de preciosidades, todos os dias ao entardecer, milhares de pessoas juntam-se no local, numa verdadeira romaria de aromas e sons que não mais acaba. O ambiente é de delírio absoluto.

(P7) Durante todo o dia, e até às tantas da manhã, milhares de pessoas acorrem a este ponto nevrálgico da cidade. Uns em busca de curas para as suas maleitas - sejam elas físicas ou psicológicas -, outros na senda de partilhar as suas memórias com quem passa e mais uns tantos a encantar serpentes. Aproximamo-nos de pequenos ajuntamentos que se multiplicam por toda a praça e assistimos a malabarismos e ilusionismos, mais à frente, outro aglomerado de gente atenta, desta feita, às palavras de um velho sábio que recorda, em voz alta, histórias de encantar. Ali adiante, por entre bancas de frutas, jovens ocidentais deixam marcar nas suas mãos, braços e pés a mestria das mulheres berberes com as suas pinturas com henna.

(P8) Charme é a palavra que ecoa repetidas vezes no nosso pensamento, enquanto admiramos a ruidosa e vistosa mole humana que invade as ruas, as praças e os recantos desta cidade imperial. São aos milhares. As pessoas e os cheiros, os sons, as cores, os cenários, uma envolvente que nos abraça sem cerimónias, que nos pede uma moeda, que nos oferece uma rosa como cadeau, que quer regatear um tapete, que nos faz ficar assim, especados, a apaixonarmo-nos lentamente por um quadro pintado de rosa-salmão e animado por sensações com sabor a fantasia. (...)

Rotas e Destinos, Abril 2005: 64-71

ANEXO 2

À volta do Mundo por terra e mar
Uma promessa quebrada
Adeus ao Afeganistão e ao companheiro de viagem Clifford, que voa para Londres

Texto e fotografias de Gonçalo Cadilhe

(P1) Olho para Abdel Ali e pergunto: "Problem?" O nosso motorista responde com a habitual gargalhada simples e dura: "No problem". Estamos na subida para o túnel de Salang e a estrada está cortada. Continua a nevar. O melhor é parar e procurar um sítio qualquer para dormir. Mas Abdel Ali deve ter outra ideia, porque tenta enfiar o jipe por entre as dezenas de carros e camiões estacionados na estrada.

(P2) Chegamos ao posto de controlo da polícia rodoviária. Como Abdel Ali não fala inglês, não percebemos o que quer fazer. Dirige-se ao posto e regressa com um oficial. Arrancamos para o túnel de Salang com o oficial a bordo. Imaginamos que a estrada está outra vez desimpedida. A realidade é outra.

(P3) O túnel de Salang fura as montanhas do Hindu Kush e liga o Norte ao Sul da Ásia. Na altura da sua inauguração, em 1956, era o túnel mais alto do mundo. Tentar a sua travessia em condições normais é já uma aventura: a estrada sobe em curva e contracurva, escavada na montanha, a pique, sem protecções, com neve durante a maior parte do ano, para finalmente chegar à entrada do túnel, a 3.360 metros de altitude. Começa outra aventura: três quilómetros sem luz, sem ventilação, sem manutenção, sem asfalto, com poças de gelo imprevistas. Depois, há que descer outra vez nas mesmas condições.

(P4) Mas tentar o Salang hoje, debaixo de uma tempestade de neve, não é uma aventura; é uma loucura. Abdel Ali quer impressionar-nos. A estrada está cortada, mas o seu amigo polícia vive do outro lado do túnel e não quer ficar a dormir do lado de cá. Abdel Ali oferece-lhe a boleia a troco da autorização para prosseguir. Os dois decidem arriscar.

(P5) Se tivéssemos percebido as maquinações de Abdel Ali, simplesmente proibíamos o nosso motorista de continuar. Mas por enquanto imaginamos apenas que a estrada já está desimpedida. Demoramos uma hora para percorrer cinco quilómetros varridos por ventos e remoinhos de neve até à entrada do túnel. Demoramos outros 40 minutos para atravessá-lo. Chegamos ao lado de lá, ao norte da Ásia, com os nervos em franja.

(P6) Abdel Ali despede-se do seu amigo polícia. São oito da noite e temos ainda duas horas de viagem até à cidade de Pul-e-Khumri. Uma cláusula do contrato de aluguer especificava: depois das 18h30 não estamos autorizados a circular. De dia, esta estrada é controlada pelas forças de segurança da ONU, mas de noite pertence a quem disparar primeiro. Em caso de acidente ou assalto da viatura depois desta hora, a responsabilidade é toda nossa. Clifford passa para o banco de trás: se alguém nos mandar parar, ele dá menos nas vistas ali. (...)

Expresso, 19.06.2004

 

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