Faculdade de Letras
Universidade do Porto
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Língua Portuguesa Oral

Ler em voz alta

Estranho desaparecimento o da leitura em voz alta. O que teria Dostoievski pensado disto? E Flaubert? E o direito de se colocar as palavras na boca antes de as introduzir na cabeça? Mais, no ouvidos? Mais, na música? Mais, no gosto pelas palavras? E depois, ainda que mais? Será que Flaubert não berrou contra isso até furar os tímpanos da sua Bovary? Será que ele não está definitivamente mais bem colocado que qualquer outro para saber que a inteligibilidade do texto passa pelo som das palavras, as quais fundem todo o seu sentido?... O quê, textos mudos por puros espíritos? Socorro Rabelais! Socorro Flaubert! Dosto! Kafka! Michaux! Socorro! Gigantescos vociferadores de sentido, aqui, imediatamente! Vinde soprar nos nossos livros! Os vossos livros necessitam de corpos! Os vossos livros necessitam de vida!

 

PENNAC, Daniel — Como um Romance Asa

 

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie — nem sequer mental ou de sonho —, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo.

(Data presumível de 1931)

 

PESSOA, Fernando — Livro do Desassossego, Por Bernardo Soares, Europa - América

 

Aos relatos improvisados passei a preferir os relatos pré-fabricados; tornei-me sensível à sucessão rigorosa das palavras: a cada leitura voltavam, sempre as mesmas e na mesma ordem, e eu esperava-as. Nos contos de Anne-Marie as personagens viviam ao deus-dará como ela própria vivia: adquriam destinos. Eu estava na Missa: assistia ao eterno retorno dos nomes e dos eventos.

Tive então ciúmes de minha mãe e resolvi tomar-lhe o papel. Apossei-me de um livro intitulado Atribulações de um Chinês na China e levei-o para um quarto de arrumações; aí, empoleirado numa cama de armar, fiz de conta que estava a ler: seguia com os olhos as linhas negras sem saltar uma única e contava-me uma história em voz alta, tendo o cuidado de pronunciar todas as sílabas. Surpreenderam-me — ou melhor, fiz com que me surpreendessem —, gritaram admirados e decidiram que era tempo de me ensinar o alfabeto. Fui zeloso como um catecúmeno; até cheguei a dar aulas particulares a mim próprio: subia para a minha cama de armar com o Sem Família, de Hector Malot, que conhecia de cor, e, em parte recitando, em parte decifrando, percorri-lhe todas as páginas, uma após outra: quando foi virada a última, eu sabia ler.

 

SARTRE, Jean-Paul — AS Palavras, Ed. Associados

Concurso de leitura em voz alta

Tarefas:

1. Seleccionar um dos textos abaixo transcritos.

2. Dividi-lo em momentos.

3. Destacar e reler os momentos de maior tensão.

4. Destacar e reler as palavras mais difíceis de pronunciar.

5. Ler o texto em voz alta três vezes.

 

Avaliação:

— audibilidade;

— articulação;

— respeito pela pontuação;

— entoação;

— ritmo.

Texto 1.

Sexa

 

— Pai...

— Hmmm?

— Como é o feminino de sexo?

— O quê?

— O feminino de sexo.

— Não tem.

— Sexo não tem feminino?

— Não.

— Só tem sexo masculino?

— É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e feminino.

— E como é o feminino de sexo?

— Não tem feminino. Sexo é sempre masculino.

— Mas tu mesmo disse que tem sexo masculino e feminino.

— O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra "sexo" é masculina. O sexo masculino, o sexo feminino.

— Não devia ser "a sexa"?

— Não.

— Porque não?

— Porque não! Desculpe. Porque não. "Sexo" é sempre masculino.

— O sexo da mulher é masculino?

— É. Não! O sexo da mulher é feminino.

— E como é o feminino?

— Sexo mesmo. Igual ao do homem.

— O sexo da mulher é igual ao do homem?

— É. Quer dizer... Olha aqui. Tem o sexo masculino e o sexo feminino, certo?

— Certo.

— São duas coisas diferentes.

— Então como é o feminino de sexo?

— É igual ao masculino.

— Mas não são diferentes?

— Não. Ou, são! Mas a palavra é a mesma. Muda o sexo, não muda a palavra.

— Mas então não muda o sexo. É sempre masculino.

— A palavra é masculina.

— Não. "A palavra" é feminino. Se fosse masculina seria "o pal..."

— Chega! Vai brincar, vai.

O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta:

— Temos que ficar de olho nesse guri...

— Por quê?

— Ele só pensa em gramática.

 

VERÍSSIMO, Luís Fernando — Comédias para se ler na escola, Dom Quixote.

Texto 2.

Chuva. Os faróis do carro encontram um muro: fim da estrada. Terá de ser aqui. Hotel do Facho. A porta já está fechada. É tarde. E agora? Todo o lugar parece dormir — excepto os cães e as ondas. Damos mais uns passos pelo terraço (os cães estão presos, as ondas tão-pouco nos alcançam). Ainda há luz nas janelas da sala. É Jorge — saberemos a seguir. Está sentado à lareira. Sozinho.

Jorge lê.

Batemos no vidro. Ele pousa os óculos e vem abrir.

— Boa noite. Desculpe, saímos muito tarde de Lisboa... Reservámos dois quartos. Mendes e Vilhena...

No problem... Entrem!

— De quem é aquele palacete ali? Parece entaipado, sem parecer abandonado.

— Isso é uma longa história...

Jorge, o dono do Hotel do Facho, não é um hoteleiro. É um sonhador. Conhece muitas histórias. São longas. Demoram todas o mesmo a contar: uma noite branca. Exigem combustível (lenha fóssil, águas de fogo). Ele viveu muito e ouviu bastante. São histórias de travessia. Linhas de mar. Linhas de vida. Tangentes entre sítios, sabedorias, omissões, perdas, nomes, hipóteses. Linhas. Jorge tem uma grande paixão pela vela. Correu mundo. Confesso: espanta-me esta gente que corre na solidão da água em vez de viajar na espessura humana da terra. Em terra há caminhos. Há gente. Nós vamos até ela e ela vem até nós. Jorge inflama-se com tanta ignorância:

— O mar é aquilo que está cheio!

Cheio de linhas que dão volume à água. Um tear delirado, entre margens, portos, tempestades, correntes. Cheio de passagens, acumulações, regressos. Naufrágios. Cheio de ondas escritas por quem esteve — mais alteradas, nas palavras de fúria, ou planícies, para dizer calmarias. O mar é aquilo que está cheio.

 

MENDES, Pedro Rosa 2003 — Atlântico, Temas e Debates

Texto 3.

Dos perigos do riso

 

Só quando parámos o jipe é que os vi. Estavam ali, à beira da estrada, meio escondidos pelo fragor do crepúsculo — o velho e os seus lagartos. Eram lagartos enormes e tinham o pescoço enrugado como o do velho e os mesmos olhos miúdos e misteriosos. Ele reparou no meu interesse e disse o preço:

— Cinco milhões, paizinho. Cada um.

Pareceu-me um preço justo. Valia a pena discutir:

— Cinco milhões?! Por cinco milhões só se eles falassem...

O velho olhou-me muito sério:

— Falar falam pouco, sim, meu pai. Mas riem muito.

Riam, os lagartos?! Riam de quê? O velho encolheu os ombros. Ele não sabia. Riam à toa, como os malucos, riam uns dos outros enquanto tomavam sol. Achei que só por causa daquela resposta o velho merecia o dinheiro. Dei-lhe as cinco notas, que ele alisou cuidadosamente antes de as guardar no bolso. Depois entregou-me o maior dos lagartos:

— Chama-se Leopoldino, este, e é o mais espertíssimo.

Quis saber o que ele comia. O velho explicou-me que o bicho sabia tratar de si. Alimentava-se de moscas, baratas, mosquitos, mantinha a casa livre de insectos. Tentei brincar:

— E além disso podemos contar-lhe anedotas, não é?

O velho não respondeu. Debruçou-se sobre os lagartos e disse-lhes qualquer coisa. Pareceu-me que falava uma língua trazida de outro mundo. Falava uma brisa, um sopro, um rumorzinho vegetal e húmido. Entrei no jipe e fiquei a vê-lo desaparecer, uma sombra dentro da noite escura, com a sensação de que era ele que tinha feito troça de mim.

Porém, quando estávamos quase a chegar ao Sumbe, o lagarto começou a rir. Sei que parece estranho, mas é a pura verdade: Leopoldino ria. Não ria exactamente como um pessoa, claro, ria como uma pessoa semelhante a um lagarto, mas ria. Eram gargalhadas secas, cínicas, que estalavam dentro do jipe de uma forma vagamente assustadora. Eu ouvi-o e não tive vontade de rir. O meu amigo, que conduzia o jipe, ficou ainda mais inquieto:

— Esta besta está-se a rir de quê?

Encolhi os ombros (como fizera o velho). E eu sabia? Talvez ele fosse de rir à toa, como os malucos. Disse-lhe que os lagartos daquela espécie comunicam uns com os outros, às gargalhadas, enquanto tomam sol. O meu amigo, no entanto, tinha outra opinião:

— Não! — disse —. É óbvio que está a rir-se de nós!...

 

AGUALUSA, José Eduardo 1998 — Fronteiras Perdidas. Contos para Viajar, Dom Quixote