A carta é um tipo de produção discursiva em que um "eu" específico se dirige a um "tu", também específico, através de um canal que não é o ar, mas o papel. Neste sentido, dizemos que a carta corresponde a uma interacção comunicativa escrita, radicada numa situação de enunciação lata: o "aqui" e o "agora" da escrita dilata-se até ao "aqui" e "agora" da recepção. Assim, as coordenadas de tempo e espaço têm de ser dadas explicitamente no discurso, sob pena de este se tornar indecifrável por parte do alocutário.
A carta nunca é, portanto, um monólogo. Muitas vezes:
— o emissor pode introduzir questões que pensa que o receptor poderá vir a fazer;
— o emissor pode fingir uma sequência de perguntas-respostas inventadas, mas que acha que podem contecer entre ele e o receptor;
— o emissor pode reproduzir na sua carta fragmentos da carta do outro.
Adorada perua:
Há dias que, diante do patrão,
ando de rua em rua
não sei por que razão.
Como tu viste, o homem resolveu
fazermos em Lisboa a consoada,
para me divertir, suponho eu.
Porém, se adivinhasse esta estopada,
tinha-lhe dito logo que não vinha,
tanto mais, tanto mais, não vindo tu,
minha peruazinha,
por quem morre de amor o teu perú.
É para ver a terra? Não percebo,
pois mal ergo a cabeça para o ar
trabalha logo a cana do mancebo
e continuo a andar, a andar, a andar...
Às vezes lá paramos, mas estranho
também estas paragens,
porque me agarram certas personagens,
tomam-me o peso, notam-me o tamanho
e até (Deus me perdoe se ouço mal!)
discutem o valor,
como se eu fosse, amor,
uma coisa venal!
Adeus. Com isto não te enfado mais.
Havendo novidades
escrevo. Mil saudades
e beijos do
Perú dos Olivais
II
Meu anjo... Escrevo agora na cozinha
duma senhora muito delicada,
que me tem dado esplêndida papinha
assim como a criada.
Há pouco ainda (ora imagina, filha!)
deram-me até um copo de Bucelas
que me adoçou muitíssimo as goelas
e é uma verdadeira maravilha,
mas Deus queira, Deus queira
como só bebo água lá em casa,
que não me faça mal à mioleira
e que eu não fique com um grão na asa.
Amanhã te direi o que é passado.
Recebe mil bicadas cordiais
do teu apaixonado
Perú dos Olivais
III
Querida. Água a ferver... Uma panela
ao pé dum alguidar... tenho receio...
Fala-se em cabidela
e em perú de recheio...
Afia-se uma faca... Ó céus! Que horror!
O monco já me cai... Nunca supus...
Que é isto meu amor?
Ai Jesus! Ai Jesus!
Já tenho as pernas presas...
Tolda-se a vista... Engasgo-me... Agonizo...
Tremem-me as miudezas...
Turva-se-me o juízo...
Adeus: Recebe o último glu-glu
e os corais
do in... fe... liz
Pe... rú... dos O... li...vais
Acácio de Paiva — Poemas
1. Redija uma carta dirigida a um amigo pessoal, relatando a impressão geral que tem sobre o curso que está a frequentar.
2. Redija uma carta dirigida ao Presidente do Conselho Directivo da FLUP, em que proceda à avaliação do mesmo curso.