Faculdade de Letras
Universidade do Porto
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Língua Portuguesa Escrita

Texto Utilitário

CARTA

A carta é um tipo de produção discursiva em que um "eu" específico se dirige a um "tu", também específico, através de um canal que não é o ar, mas o papel. Neste sentido, dizemos que a carta corresponde a uma interacção comunicativa escrita, radicada numa situação de enunciação lata: o "aqui" e o "agora" da escrita dilata-se até ao "aqui" e "agora" da recepção. Assim, as coordenadas de tempo e espaço têm de ser dadas explicitamente no discurso, sob pena de este se tornar indecifrável por parte do alocutário.

 

A carta nunca é, portanto, um monólogo. Muitas vezes:


— o emissor pode introduzir questões que pensa que o receptor poderá vir a fazer;
— o emissor pode fingir uma sequência de perguntas-respostas inventadas, mas que acha que podem contecer entre ele e o receptor;
— o emissor pode reproduzir na sua carta fragmentos da carta do outro.

1. Carta comercial:

2. Carta privada:

 


CARTAS DO PERÚ DO OLIVAIS
 
 
I

 

Adorada perua:

Há dias que, diante do patrão,

ando de rua em rua

não sei por que razão.

Como tu viste, o homem resolveu

fazermos em Lisboa a consoada,

para me divertir, suponho eu.

Porém, se adivinhasse esta estopada,

tinha-lhe dito logo que não vinha,

tanto mais, tanto mais, não vindo tu,

minha peruazinha,

por quem morre de amor o teu perú.

É para ver a terra? Não percebo,

pois mal ergo a cabeça para o ar

trabalha logo a cana do mancebo

e continuo a andar, a andar, a andar...

Às vezes lá paramos, mas estranho

também estas paragens,

porque me agarram certas personagens,

tomam-me o peso, notam-me o tamanho

e até (Deus me perdoe se ouço mal!)

discutem o valor,

como se eu fosse, amor,

uma coisa venal!

Adeus. Com isto não te enfado mais.

Havendo novidades

escrevo. Mil saudades

e beijos do

 

Perú dos Olivais
 
 


II

 

Meu anjo... Escrevo agora na cozinha

duma senhora muito delicada,

que me tem dado esplêndida papinha

assim como a criada.

Há pouco ainda (ora imagina, filha!)

deram-me até um copo de Bucelas

que me adoçou muitíssimo as goelas

e é uma verdadeira maravilha,

mas Deus queira, Deus queira

como só bebo água lá em casa,

que não me faça mal à mioleira

e que eu não fique com um grão na asa.

Amanhã te direi o que é passado.

Recebe mil bicadas cordiais

do teu apaixonado

 

Perú dos Olivais
 
 


III

 

Querida. Água a ferver... Uma panela

ao pé dum alguidar... tenho receio...

Fala-se em cabidela

e em perú de recheio...

Afia-se uma faca... Ó céus! Que horror!

O monco já me cai... Nunca supus...

Que é isto meu amor?

Ai Jesus! Ai Jesus!

Já tenho as pernas presas...

Tolda-se a vista... Engasgo-me... Agonizo...

Tremem-me as miudezas...

Turva-se-me o juízo...

Adeus: Recebe o último glu-glu

e os corais

do in... fe... liz

Pe... rú... dos O... li...vais

 

Acácio de Paiva — Poemas

 

Exercício:

1. Redija uma carta dirigida a um amigo pessoal, relatando a impressão geral que tem sobre o curso que está a frequentar.

 

2. Redija uma carta dirigida ao Presidente do Conselho Directivo da FLUP, em que proceda à avaliação do mesmo curso.