Descrição de imagem na imprensa

Ana Martins*

Ter sido orientanda da Professora Fernanda Irene Fonseca constituiu uma lição de longo curso inestimável sobre como aliar o entusiasmo espontâneo pelo estudo a procedimentos fundamentais em investigação: o dever de apresentar contributos teóricos originais, a liberdade de errar e a responsabilidade de chegar a conclusões válidas e correctas.

Resumo

Uma análise prévia de cerca de 60 legendas de fotografias do Público - fotografias com espaço autónomo de edição, pelo factor noticiabilidade e pelo valor técnico e estético-dramático que patenteiam - permite confirmar a instabilidade tipológica da sequência descritiva.

À luz desta verificação geral, e com base na síntese da análise de quatro legendas, são passados em revista os procedimentos textuais que conjugam tempo da observação da imagem, tempo do discurso do jornal e atemporalidade. Para tal, são visados os recursos gramaticais que viabilizam duas ancoragens enunciativas numa mesma legenda. Recebem especial focagem as formas de presente, as formas de captação cursiva do processo e as formas da deixis temporal e espacial.
 

1. É prática recente a imprensa escrita reservar espaço autónomo de edição a uma fotografia. Isso acontece nas edições do Público, do Expresso e do Sol, pelo menos. A fotografia seleccionada tem manifestamente valor técnico, estético e dramático e dá uma incidência visual a um dado tema da actualidade noticiosa. Por sua vez, a legenda que a acompanha não se limita à notação do espaço e identificação de objectos ou pessoas. Pelo contrário, a legenda constitui, nestes casos, um discurso unitário, completo, ao qual preside um título, que, simultaneamente, é título da fotografia, atendendo a que a legenda deve ser lida em articulação com a observação da imagem.

Nesta exposição farei uma síntese da análise deste tipo de legendas - legendas alargadas.

Analisei cerca de 60 legendas de fotografias do Público editadas de Janeiro a Maio deste ano (2007), para saber quais os recursos gramaticais activados na captação verbal da imagem e, depois, qual a pertinência de descrever espaços e objectos que podem ser observados directamente na fotografia.

Tal exige passar inevitavelmente pelas questões de tempo e deixis.

Constatei, em primeiro lugar, que é possível apurar claramente duas sequências:

A primeira sequência é de recorrência homogénea. Mas a segunda cumpre uma destas duas estruturações textuais: ou o segundo e terceiro enunciados operam, por diversos meios, uma expansão temática do tópico; ou, então, realizam um núcleo eventivo e, nessa altura, a legenda torna-se uma micro-notícia.
 

2. Quero mostrar que assim é através da apresentação de quatro breves análises de legendas.

Anexo 1 - Recordar o 11 Março

A legenda centra-se sobre acção "observar". No primeiro enunciado procede-se à identificação dos agentes da acção, do espaço, do objecto, assim como à localização do objecto no espaço.

No segundo e terceiro enunciados ocorre a assunção da perspectiva dos observadores e, a partir deste artifício - que é o artifício da própria fotografia porque houve tomada de ângulo -, o tema-objecto é alvo de atribuições.

Traça-se um movimento discursivo que é comum a todas as legendas e que é inerente à própria função metonímica da descrição. Trata-se do movimento de generalização que ocorre na transição de uma para outra parte da legenda.

Vejamos como se opera essa generalização.

No segundo enunciado, o SN, "os visitantes", uma descrição definida plural, não co-referencia apenas "familiares das vítimas", mas também, genericamente, todos os que acedem àquele espaço. A referência de "os visitantes" inclui a de "familiares das vítimas". A este dado de ordem referencial/de determinação alia-se a construção modal: "podem recordar": temos "os visitantes podem recordar os 191 mortos nos ataques" e não "os visitantes recordam". Esta leitura de co-referenciação abrangente está fundada no facto de a acção ser projectada como uma acção eventual e durativa/habitual, integrando intervalos de tempo que ainda estão para tomar lugar.

O terceiro enunciado dá a acção de ler as mensagens deixadas em Atocha nos dias subsequentes aos atentados em consubstanciação com acção "recordar".

Completa-se assim a descrição do objecto com a atribuição de função - o que reafirma e alarga a identificação desse objecto: trata-se de um memorial às vítimas do 11 de Março.

Esta legenda realiza de modo bastante homogéneo a tipologia descritiva: verificamos aí as operações nomear - situar - qualificar; verificamos também a presença da estrutura em ramificação temática e até a tradicional "mise en scène" do acto de descrever, pela projecção do olhar das personagens.

Por outro lado, a legenda acolhe e enforma uma situação fixa. Esta fixidez está inscrita nos três valores do Presente simples (PRS) que aqui é activado:

A análise da legenda seguinte permite apurar a índole deste PRS de atestação.

Anexo 2 - Às portas da "Porta sem Regresso"

Para que objecto aponta o deíctico espacial "esta"?

Em co-ocorrência com o deíctico espacial, para que tempo aponta o PRS?

O deíctico espacial aponta não para a porta, mas para a imagem da porta. O PRS refere a simultaneidade entre o momento da enunciação e o momento da observação da imagem da porta. Então, a observação da fotografia participa na criação do espaço enunciativo da legenda; ou, pelo menos, o marco temporal do primeiro enunciado define-se em função do eu-tu-agora a observarmos isto. Ou se quisermos ainda: este primeiro enunciado toma como ponto de orientação um facto que não está explicitado, que é: tu estás agora a observar esta imagem. Se esta leitura está correcta, e se o PRS exprime a coincidência cabal do acto enunciativo com uma acção, então temos/teríamos aqui um caso de PRS indicial, o PRS dos relatos desportivos e das demonstrações culinárias, por exemplo.

Mas então qualquer acto de observação da imagem se torna eixo de orientação temporal… E se temos um "agora" sempre renovado a cada leitura da legenda e a cada observação da imagem, parece que há mais imobilidade temporal do que instanciação enunciativa.

Vou deixar esta questão suspensa até à análise da próxima legenda.

No segundo enunciado muda o quadro de radicação temporal. A quantificação instaura uma situação durativa-habitual que cobre um intervalo de tempo desligado da actualidade; um intervalo de tempo com fronteira final situada num marco objectivo - o início do século XIX -, atendendo ao conhecimento enciclopédico e à activação do lexema "bicentenário" no terceiro enunciado.

Este terceiro enunciado tem radicação no plano da actualidade; a ancoragem tem a data do jornal como ponto de referência - em conformidade com o adverbial deíctico "no próximo dia 25". Daqui advém, justamente, a pertinência do dito, no contexto da comunicação instalada pelo texto de imprensa.

Portanto: uma mesma legenda, três enunciados, três ancoragens enunciativas distintas.

Mas podemos dizer que esta legenda corresponde a uma unidade textual descritiva?

A legenda inicia-se com as operações de identificação e localização de objecto e avança para a derivação metonímica porta - forte; a qualificação do objecto mostrado é inferida, mais uma vez, da revelação da sua função. Faço notar que a mostração deíctica continua no segundo enunciado em "deste forte".

O terceiro enunciado realiza um anúncio de um evento público a ter lugar num futuro próximo.

Verifica-se, pois, que a descrição é, pelo menos, a estrutura textual dominante - tendo em conta que as propriedades diferenciadoras da tipologia descritiva face a outras tipologias é a colocação em relação e o carácter subsidiário.

Anexo 3 - Voar sobre a pista

Nos exemplos anteriores, o PRS era activado com situações estativas.

Aqui temos o PRS com situação pontual "tirar uma fotografia" (pensemos numa duração objectiva de 1/4 000 s de exposição da película, ou, agora, do sensor nas máquinas digitais). Vemos que a leitura de PRS indicial que fizemos para a legenda anterior não tem validade: a acção que é designada é a acção representada na fotografia, mas o acto de observar a imagem não é pontual

O que acontece é que a predicação "Franck Montagny tira um auto-retrato" não tem relevância temporal; o PRS exprime apenas o facto do processo; não tem orientação para nenhum ponto de ancoragem. Há apenas a consideração da acção na sua globalidade inanalisável. Mesmo o intervalo referenciado pelo PRS em "enquanto passa por cima do circuito de Melbourne", se é certo que cobre a acção pontual "tirar um auto-retrato", a verdade é que não tem valor secante.

Vemos confirmada esta leitura se atendermos ao facto de o PRS não comutar nem co-ocorrer com o Presente progressivo (PR PROG), como acontece com o PRS indicial dos relatos instantâneos - e isso não acontece nem nesta legenda, nem em nenhuma das 60 legendas analisadas. Ou seja, em nenhum momento temos nas legendas construções como:

"Frank está a tirar um auto-retrato"... "Frank está a passar por cima do circuito"... ou "Os familiares das vítimas dos atentados estão a observar o interior do monumento..." 1

Tal deve-se a que o PR PROG refere situações temporárias e imprime-lhes transicionalidade: por um lado, atende a uma fase da acção que ainda está por realizar e, por outro lado, dá a situação como resultante de uma mudança, implicitando que no passado a situação não tinha lugar.

Opostamente, o PRS é capaz de exprimir a acção como um todo completo e inanalisável.

Outro factor que autoriza uma leitura de atemporalidade deste PRS é a co-ocorrência com o Infinitivo dos títulos: "Recordar o 11 de Março" - "Voar sobre a pista".

Veremos na legenda seguinte que a acção no infinitivo é co-referencialmente conversiva à do PRS.

Anexo 4: Tentar passar

Nesta legenda, a demarcação entre a primeira e a segunda sequência, constituídas, neste caso, respectivamente pelo primeiro e segundo enunciados, é clara: à referenciação do processo representado na fotografia opõe-se um evento complexo, composto nuclearmente por uma motivação ("forma como o Kremelin exerce o poder") e uma reacção ("decidiu [e levou] a cabo a manifestação").

Novamente a pergunta: será que esta legenda corresponde a uma descrição?

O que está a ser focado não é apenas o que está a acontecer dentro da fotografia, mas também o contexto mais vasto, que vai para além dos limites captados na imagem.

É pelo menos seguro concluir que esta legenda obedece a uma intenção descritiva. Por outro lado, sabemos que a descrição não versa apenas sobre estados, mas que pode configurar acções, singulares ou plurais. Numa descrição de acções, as acções estabelecem entre elas uma relação paratáctica e são captadas na sua imobilidade ou eterna recorrência; têm carácter tabulário.

Nesta legenda, as acções "tentar passar" - "tentar travar" são nocionalmente opostas, anulam-se uma à outra: constroem, portanto, uma situação suspensa, imóvel, não resultativa.

Mas, como referi, a legenda acolhe também uma estrutura eventiva complexa: com agentes, causa e consequência.

Nesta medida, a descrição da imagem figura como ponto de partida, mote, pretexto para veiculação sintética de uma notícia que está em destaque no plano da actualidade.
 

3. Em face destas breves análises é possível apontar algumas conclusões.

A análise discursiva não tem - não pode ter - por objectivo principal confirmar se um dado discurso manifesta mais ou menos prototipicamente uma dada tipologia textual. A detecção de um formato discursivo é ponto de partida ou é corolário de desmontagens da articulação funcional entre diferentes itens gramaticais que se co-determinam: os tempos verbais, as construções modais, os deícticos, os processos de determinação e quantificação e as selecções lexicais.

A legenda está incorporada num macro-texto que é o jornal. Institucionalmente, o jornal está preocupado com aspectos de referencialidade, verdade, fidelidade. Neste quadro genológico, a representação verbal da imagem da fotografia, considerando o fenómeno abstractamente, seria de índole icónica, isomórfica, reprodutiva relativamente à imagem. Mas não é isso que acontece. O discurso da legenda está fundado numa falácia, numa simulação: a simulação de que, apesar de se tratar de um texto escrito, há imediatismo experiencial, há evidência testemunhal da acção: o leitor não assiste à acção em referência - na fotografia e na legenda - mas à imagem dessa acção. Há imediatismo sensorial, de facto, mas ele dá-se sobre a imagem da acção e não sobre a própria acção.

Afinal, o que acontece nas construções discursivas em geral não difere disto mesmo, pois, em certa medida, também estão fundadas em falácias, que, tecnicamente, costumamos designar por configuração, construção, representação discursiva de estados de coisas.

Uma última conclusão: há que tomar as construções verbais e discursivas de entidades e situações em estatismo, em fixidez, em suspensão temporal, como fazendo parte do esforço do Homem, ser efémero, em se apoderar e guardar em memória factos e espaços e pessoas. Porque o Homem é só o que ele sabe e o que ele recorda. O trabalho do fotojornalista e o trabalho do redactor das legendas é feito com a plena consciência e propósito de constantemente, dia-a-dia, construir o álbum de recordações da história mundial.

*Centro de Linguística da Universidade do Porto
acsmartins@mail.telepac.pt

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Williams, Christopher, 2002, "Non-progressive aspect in English in commentaries and demonstrations using the present tense", Journal of Pragmatics 34, pp. 1235-1256.

ANEXOS

Anexo 1

Recordar o 11 Março

Recordar o 11 Março

11-03-2007

Familiares das vítimas dos atentados terroristas de 11 de Março de 2004, em Madrid, observam o interior do monumento erguido em frente à estação de Atocha. A torre de vidro cilíndrica tem dez metros de altura e dá claridade a uma estrutura subterrânea, onde os visitantes podem recordar os 191 mortos dos ataques. No interior da torre estão inscritas milhares de mensagens deixadas em Atocha nos dias que se seguiram aos atentados.

Foto: Sergio Perez/Reuters

Anexo 2

Porta sem Regresso

Às portas da "Porta sem Regresso"

19-03-2007

Esta é a "Porta sem Regresso" da Casa dos Escravos, na ilha de Goree, no Senegal. Milhões de africanos foram transportados a partir deste forte para uma vida de escravatura no Brasil, nas Caraíbas e na América do Norte. O mundo marca o bicentenário do fim da escravatura atlântica no próximo dia 25.

Foto: Finbarr O'Reilly/Reuters

Anexo 3

Voar sobre a pista

Voar sobre a pista

14-03-2007 - 09:48

O piloto francês de Fórmula 1 Franck Montagny tira um auto-retrato no banco de trás de um avião de acrobacias quando passa por cima do circuito de Melbourne, na Austrália. O Grande Prémio da Austrália está agendado para este fim-de-semana.

Foto: Reuters/Australian Defence Force

Anexo 4

Tentar passar

Tentar passar

03-03-2007

A polícia russa tenta travar manifestantes da oposição durante um protesto em São Petersburgo, a segunda maior cidade do país. Desafiando uma proibição das autoridades, uma coligação de partidos da oposição liberal decidiu levar a cabo aquilo a que chamou "Marcha do Descontentamento" em protesto contra a forma como o Kremelin exerce o poder.

Foto: Alexander Demianchuk/Reuters

 

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