Edição 7
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Uma disciplina específica para as TIC ?

A escola, hoje, não pode ser considerada como a única responsável pela formação do indivíduo, mas antes o ponto de partida num processo contínuo de formação ao longo da vida, regulador das aprendizagens do cidadão nas sociedades actuais. 

E como ponto de partida, mais que fornecer um acumulado de conhecimentos, os seus objectivos devem centrar-se no desenvolvimento de capacidades, competências e saberes, na formação de cidadãos activos, autónomos e participativos. (1)

 
Por outras palavras, à escola de hoje são pedidas novas tarefas para que tem de preparar-se, sob pena de não ser capaz de responder aos desafios que lhe são cometidos na missão de formar cidadãos que assumam o conhecimento e a aprendizagem como valores inerentes ao modelo de Sociedade da Informação e do Conhecimento, que aceitamos como dominante.

Na sequência, aliás, do que se diz no capítulo 4º do Livro Verde para a Sociedade da Informação, de 1997, texto de referência para a escola informada do século XXI:

"[A escola] tem de passar a ser encarada como um lugar de aprendizagem em vez de um espaço onde o professor se limita a transmitir o saber ao aluno; deve tornar-se num espaço onde são facultados os meios para construir o conhecimento, atitudes e valores e adquirir competências. Só assim a Escola será um dos pilares da sociedade do conhecimento."

E acrescenta:

"A educação articula-se com a sociedade de informação, uma vez que se baseia na aquisição, actualização e utilização dos conhecimentos. Nesta sociedade emergente multiplicam-se as possibilidades de acesso a dados e a factos. Assim, a educação deve facultar a todos a possibilidade de terem ao seu dispor, recolherem, seleccionarem, ordenarem, gerirem e utilizarem essa mesma informação."

 
Posto isto, e se aceitarmos os postulados acima referidos - que atribuem à escola a missão de "facultar a todos a possibilidade de terem ao seu dispor, recolherem, seleccionarem, ordenarem, gerirem e utilizarem (..) a informação" - cabe, então, perguntar como operacionalizar no terreno tais princípios orientadores.

E aqui, é nossa convicção, que a perspectiva integradora e transversal das TIC em contexto escolar poderá cumprir melhor a missão de que está incumbida a escola, ao atribuir a todos professores e áreas disciplinares a responsabilidade de uma formação em que as TIC sejam um recurso e meio facilitador da aprendizagem e do desenvolvimento de competências de pesquisa, recolha, selecção, ordenação, gestão e utilização da informação, e não um fim em si mesmo, se transformadas em objecto de estudo.

Não cremos que uma disciplina específica de TIC incluída num currículo de formação geral inicial (como previsto para os 9º e 10º anos a partir de 2004-05) possa garantir o desenvolvimento de todas estas competências enunciadas. Não cremos porque, necessariamente, os alunos terão de trabalhar em função de um programa específico e a disciplina, legitimamente, irá centrar as suas preocupações no ensino de conteúdos (mais ou menos) técnicos, programáticos e curriculares. Em suma, as TIC não serão já um meio para acesso ao conhecimento e à informação serão, isso sim, elas mesmas o objecto de estudo...

A ideia que defendemos para as TIC em contexto escolar não é tanto a da aprendizagem de conteúdos técnicos específicos de manipulação de hardware e software, ou programação, mas antes a da utilização das TIC nas mais diversas situações e contextos de aprendizagem de modo a que possam conduzir a uma formação inicial sólida, ao desenvolvimento de competências na utilização das TIC e à autonomia do aluno na pesquisa, recolha, tratamento e gestão da informação - bases para a aprendizagem ao longo da vida e pilares da Sociedade da Informação e do Conhecimento.

E a responsabilidade do desenvolvimento destas competências - finalidades de uma escola informada - dificilmente poderá exigir-se a uma só disciplina, mesmo que específica de TIC... 

Porém... está a escola dotada de recursos humanos e materiais capazes de tal missão?
 

Currículo Básico em TIC para Professores

Feita uma primeira abordagem, em que defendemos como estratégia a integração das TIC em contexto escolar, é obrigatório que se faça uma referência objectiva aos recursos humanos e materiais. Isto é, numa perspectiva integradora e transversal das TIC em contexto escolar, o apetrechamento da escola (salas de aula e espaços escolares em geral, tendo como meta a generalização e democratização dos acessos) e a formação de professores na utilização das tecnologias de informação e comunicação.

Uma e outra, como medidas de complemento para o sucesso da educação. Sem elas, não será possível à escola disponibilizar os meios para cumprir a missão da formação inicial sólida de que está incumbida e aos professores a concepção e planificação de estratégias de utilização das TIC em contexto educativo.


Se o professor não se sentir confortável na utilização dos meios, estes dificilmente serão equacionados enquanto recurso ou estratégia possível de utilização em sala de aula... Por isso, é fundamental que o professor utilize bem os recursos tecnológicos ao seu dispôr, compreenda a sua pertinência, conheça metodologias de utilização e os considere como estratégias de aprendizagem.

Daí que o Currículo Básico em TIC para professores, proposto pelo Departamento de Avaliação Prospectiva e Planeamento, em articulação com o Programa Nónio século XXI, na sequência do Projecto Europeu "Competências em TIC para o Professor Europeu", realizado em 2000-01, aponte para uma formação de professores definida em módulos sequenciais e progressivos de competências, com a seguinte formulação(3):

Módulo 

Título 

Horas

Módulo I O desafio das TIC 15 h
Módulo II Escrita criativa com o computador 12 h
Módulo III A apresentação de comunicações 15 h
Módulo IV A utilização da folha de cálculo 12 h
Módulo V A utilização das bases de dados 12 h
Módulo VI  Recursos Pedagógicos 09 h

Interacção a distância 

15 h

Total de horas

90 h


Em resumo, como estratégia de formação, o professor deve definir um percurso individual de formação, por etapas, que lhe permita, gradualmente, adquirir competências básicas de utilização das TIC para, finalmente, as poder integrar em contextos educativos.

No final do seu percurso de formação em TIC, o professor deve estar familiarizado com ferramentas que sirvam para:
Comunicar, Colaborar, Pesquisar, Explorar, Coligir dados, Processar dados, Armazenar dados, Expandir conhecimentos e Integrar ferramentas.


Enquanto não atingirmos estas metas - o apetrechamento adequado das escolas e a formação básica em TIC dos professores - não restam muitas alternativas senão considerar como adequada (se transitória) a inclusão de uma disciplina de TIC nos currículos do ensino básico e secundário (9º e 10º anos). 

Atingidas as metas acima definidas, esta medida deve ser corrigida e orientada para práticas de utilização efectiva das TIC em contexto escolar, mais de acordo com as características de uma geração user friendly das tecnologias.

 

Fernando Alberto Lacerda
lacerda@mail.prof2000.pt
CT - Prof2000


Bibliografia

(1) "The central importance of education, learning and the acquisition of knowledge and skills can never have been more widely recognised. It is now common to talk of OECD countries as 'knowledge economies'. With rapid change, and hence the continual requirement for new knowledge, few people now adhere to the old assumptions that an initial schooling or apprenticeship is an adequate preparation for working life. Life-long learning has come to be widely acknowledged as essential, not only in education, but in a wide armoury of economic and social policies; it forms a central plank, for instance, of the OECD Jobs Strategy."
Istance, David, Education and Social Exclusion, In The OECD OBSERVER No. 208 October/November 1997
(2) Livro Verde para a Sociedade da Informação em Portugal, 1997, Lisboa
(3) Perfil definido no âmbito do projecto europeu "Profiles in ICT for Teacher Education", em que o Programa Nónio-Século XXI participou, em 2000-2001