Edição 2 
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Tema desta edição: O Insucesso Escolar

O número 2

Tudo parece justificar que se fale de insucesso, tantas são as suas manifestações e as queixas que lhe são atribuídas. Tantos são também os domínios relativamente aos quais se refere o insucesso.

A razão de ser da escola são os alunos e se, com ou sem fundamento, eles são marcados com o sinal negativo do "insucesso", é por eles que temos que começar a conhecer a realidade que o tema "insucesso" traduz.

"Ágora", querendo estudar e debater este tema,  dedica-lhe esta edição, reflectindo algumas das suas facetas e apontando alguns caminhos de mudança.



 

Índice:


Sondagem:

Como professor ou como profissional ligado à educação, qual é que entende
ser a área prioritária onde se deve agir para se favorecer o sucesso
educativo e escolar dos alunos?

A ÁGORA destina-se a ser um espaço de partilha, reflexão e informação feita por Professores para a comunidade de professores, em particular, e para as comunidades educativas em geral. Esta noção de espaço virtual projectado das diversas realidades geográficas, educativas e humanas constitui o património de uma teia de relações que se tornarão visíveis em suporte telemático. Do ponto de vista prático, a animação deste espaço estará a cargo das escolas Prof 2000 que definirão periodicamente um tema, razoavelmente oportuno e polémico, em torno do qual se explorarão diversas visões. Para sustentar esta ideia estarão disponíveis serviços permanentes criados especificamente para este efeito que permitirão:
* a publicação de artigos, entrevistas, referências, etc.
* conversas e debates em Forum
* trocas de opiniões com especialistas convidados em directo (Canal de irc)
* "medir" as sensibilidades na Sondagem sobre o tema em destaque
* a partilha de Percursos na rede sobre os assuntos abordados neste número 
Além desta base temática a ÁGORA terá um Observatório de educação como um "espaço" de actualidades aberto à participação das comunidades educativas (Associações de pais, Órgãos de gestão de escolas, Associações de professores, etc.)


A ÁGORA electrónica será sustentada por "nós", grupos de 3 escolas, a quem caberá a tarefa de a tornar num espaço vivo. Cada "nó" será responsável pela ÁGORA sendo substituído no período seguinte por um novo grupo de escolas.

"Cada momento de busca é um momento de encontro - disse o rapaz ao seu coração. Enquanto procurei o meu tesouro, todos os dias foram luminosos, porque eu sabia que cada hora fazia parte do sonho do encontro. Enquanto procurei o meu tesouro, descobri, no caminho, coisas que jamais teria sonhado encontrar, se não tivesse tido a coragem de tentar coisas impossíveis aos pastores."Paulo Coelho (1995), O Alquimista





Agenda:

  • XVIII Encontro de Professores de História da Região Centro

  • Escolas editoras:

    E. S. Dr. João C. C. Gomes - Ílhavo 

    E. S. Stª Maria do Olival - Tomar 
    E. S. de Valadares 


    Contacto:


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    O sucesso e o insucesso escolar em debate

    Excertos de um debate sobre o insucesso escolar com Ana Benavente (AB),  Isabel Valente Pires (VP), Raul Iturra (RI),  Teresa Pais (TP) e  Mercês Relva (MR)
    Insucesso tem a ver com repetência, mas tem a ver com outra coisa mais grave do que a repetência que é o abandono. Não considero que uma criança que repita um ano é uma criança de insucesso. Essa é aquela que repete sucessivamente vários anos sem uma progressão e que acaba por abandonar. (VP)

     O insucesso tem de ser definido de maneira diferente no primário, no secundário ou no universitário. De qualquer maneira, quanto a mim, o aluno que fica para trás, já está em insucesso. Ele não atingiu alguma coisa que é suposto ser atingida por todos os alunos. (AB)

     O insucesso é um facto derivado de um processo histórico onde um conhecimento passa a ser dominante num determinado grupo social. É um conhecimento dominante onde ficam vários conhecimentos que eu chamo culturais. (RI)

     Há uma escola que hoje até é para todos e essa escola é que vai dizer quais são os saberes válidos e reconhecidos e que, por vezes, têm pouco a ver com os saberes sociais e pertinentes na comunidade. A escola é uma instância de uniformidade que valoriza uns saberes em detrimento de outros numa sociedade feita de diversidades e de diferenças. (AB)

     Quando falamos de insucesso estamos a remetermo-nos para a experiência de um conjunto de intelectuais que produz um discurso que é transmitido para toda a população. Mas a pedagogia com que é transmitido é que tem um falhanço que obriga a criança a ficar mais tempo na escola. (RI)

     Na minha escola, temos alunos caboverdianos que têm resultados muito melhores do que alguns filhos de licenciados. (MR)

     Quando se aborda a questão do insucesso escolar, o que tem de ser discutido é tudo isto: é a política educativa, são as questões de aprendizagem, são os conteúdos, são os modos e a pedagogia através dos quais isso é feito, é o tipo de relação que se estabelece, é tudo isso que está em causa. (AB)

     Tivemos alguns problemas este ano lectivo com 33 miúdos que não tinham qualquer comportamento social, vivendo uma situação de vida de rua .... É óbvio que estes meninos vão repetir o ano, porque alguns só sabem escrever o nome. (TP)

     E quem diz que só escrever o nome não chega? ... A escola, em nome de supostos critérios normais de uma suposta homogeneidade, vai-lhes negar qualquer coisa a que têm direito. Eles vão-se “desenrascar”, vão vender para a feira, mas ao negar-lhe o diploma de escolaridade, a escola está a fechá-los num ciclo vicioso, porque os diplomas, na nossa sociedade, também contam. (AB)

     Para o insucesso eu penso que há causas exteriores e interiores ao sistema escolar. As exteriores são, normalmente, os bodes expiatórios. O que é um facto é que é dentro do sistema escolar que se gere essencialmente o sucesso. .... Na nossa escola, na luta contra o insucesso, temos actuado essencialmente dentro da sala de aula e apenas com o professor: formação, fundamentação de propostas, modelos alternativos, estratégias alternativas. ... Temos obtido bons resultados, mesmo na Matemática. Continuo a considerar que o “pivot” é o professor. (VP)

     As práticas não dependem só do professor, mas da realidade escola, em termos institucionais, e em termos locais. Consoante as condições e meios que possuir, assim o professor irá induzir um certo tipo de pedagogia em detrimento de outra. ... No entanto, são os professores que fazem trabalho de investigação constante, pondo em prática, modificando e avaliando estratégias.  (AB)

    (In “Noesis”, 18)
    PROGRAMA 15-18
    Uma leitura do despacho normativo
    Muitos jovens não conseguem ultrapassar as dificuldades de ordem variada que todos nós já detectamos num ou outro caso. Acabam, assim, por se desmotivar perante as ofe5rtas tradicionais de ensino a nível de escolaridade obrigatória, atingindo idades de frequência para além daquela considerada na legislação. No entanto, um facto persiste, a iliteracia mantém-se numa crescente camada de jovens, traduzida em formas de comunicação oral e escrita deficitárias, suporte insuficiente face à constante inovação cultural e tecnológica, insatisfação e dificuldades de integração social como cidadãos com verdadeira liberdade de escolha.

    Algumas medidas têm sido tomadas no sentido de colmatar esta situação. A criação do Ensino Recorrente foi uma delas. Contudo, parece não ter respondido cabalmente à realidade, verificando-se problemas que se relacionam com desinteresse, manifestado em baixos níveis de assiduidade, e/ou exigência curricular desadequada. Este tipo de programa não parece capaz de responder às verdadeiras aspirações daqueles que o frequentam, nomeadamente no que se refere à preparação para o mundo do trabalho.

    Surge, agora, através do Despacho 19 971/99 de 20/10/99, uma nova proposta: o programa 15-18.

    Porquê um novo tipo de programa?

    Prestemos atenção ao próprio documento regulamentador:

    -Há que dar resposta à “situação das crianças e jovens em idade escolar que se encontrem em risco de exclusão”.

    -São necessárias medidas que permit(a)m a flexibilização das ofertas curriculares”, para cumprimento da escolaridade obrigatória.

    -Torna-se evidente a necessidade de “reorganizar o Ensino Recorrente”, nomeadamente se atendermos “à diversidade etária dos públicos”.

    -É necessário “assegurar (...) a aquisição de competências nucleares que permitam um(a) efectivo(a) (...):

    o “Integração no mundo do trabalho”.

    o “Acesso a outros percursos de educação e formação, na perspectiva de educação ao longo da vida”.

    A quem se destina, então, este novo projecto?

    Lançado, actualmente, em regime de experiência pedagógica, nele se podem incluir jovens com idades entre os 15 e 18 anos, os quais não concluíram na idade legal prevista o 3º ciclo do Ensino Básico.

    Como se organiza este tipo de programa?

    A escola tem a responsabilidade de organizar a estrutura do programa a levar a cabo, nomeadamente no que se refere:

    -À definição dos objectivos a alcançar face à população-alvo que se quer abranger.

    -Ao plano curricular a desenvolver dentro dos parâmetros legais definidos pelo Despacho.

    -Aos horários a cumprir, dentro da distribuição de carga horária definida na lei.

    -Aos protocolos a estabelecer com parceiros sociais e económicos da comunidade educativa em que se insere a escola.

    -Ao regime de assiduidade e avaliação, tendo em conta as orientações legais.

    De facto, cada escola envolvida, teve de apresentar um projecto, devidamente fundamentado, que incluiu a articulação necessária da actividade educativa dentro da escola e fora dela, em conjunto com entidades que, depois de estabelecido o respectivo protocolo, asseguram a aprendizagem durante período de estágio.

    De um modo geral, o Despacho aponta para uma organização do tipo seguinte:

    -O curso decorre em 3 fases, de acordo com as habilitações de cada aluno:

    -O plano curricular inclui: 

    Fase Destinatários
    Alunos com o 2º ciclo ou com frequência do 7º ano
    Alunos que concluíram o 7º ano ou frequentaram o 8º
    Alunos que concluíram o 8º ano ou frequentaram o 9º


    Fase  Destinatários
    1ª  Alunos com o 2º ciclo ou com frequência do 7º ano
    2ª  Alunos que concluíram o 7º ano ou frequentaram o 8º
    3ª  Alunos que concluíram o 8º ano ou frequentaram o 9º

    o Disciplinas: Língua Portuguesa; Língua Estrangeira; Matemática; Educação Física.

    o Áreas disciplinares: de carácter transdisciplinar – Tecnologias de Informação e de Comunicação; Conhecimento do Mundo. De carácter prático – Técnica, a qual deve ter em conta o contexto local e permitirá a aquisição de competências consideradas pertinentes para o exercício profissional de determinada actividade.

    o Áreas curriculares não disciplinares: Estudo Acompanhado, que visa a aquisição de métodos de estudo e de trabalho. Tutoria, que deve incluir uma reflexão sobre assuntos de interesse dos alunos.

    Do plano consta, ainda, um Estágio com um mínimo de 120 horas, numa carga horária total mínima de 2780 horas.

    Numa primeira análise, este programa, valoriza a aquisição de saberes relevantes e preocupa-se com factores importantes relacionados com o tipo de população a que se dirige:

    -A orientação no sentido de ultrapassar dificuldades que advém muitas vezes de níveis de organização, atenção e métodos de trabalho inadequados;

    -A ligação ao meio socio-económico circundante, e uma verdadeira aproximação/integração em futuras actividades profissionais.

    Esta experiência decorre no presente ano lectivo nas escolas seguintes:

    -Escola Secundária Tomaz Pelayo, Santo Tirso.

    -Escola Secundária de Mira;

    -Escola Básica 2/3 Ana de Castro Osório, Setúbal;

    -Escola Básica 2/3 de Évora;

    -Escola Básica 2/3 de  Montenegro, Faro.

    Prevê-se o alargamento desta experiência a outras escolas em 2000/2001.