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Teorizações para uma Sala de Estudo Virtual. Um estudo de caso: Sala de Estudo Autónomo - Jaime Magalhães Lima


Comunicação apresentada no I Congresso Internacional: Las TIC en el Mundo Educativo, Zamora - 9, 10 e 11 de Maio de 2002.

Na apresentação da Sala de Estudo Autónomo – Jaime Magalhães Lima (sea-jml) começaremos por situar o projecto de modo a podermos compreender, simultaneamente, a ideia geral que lhe dá corpo, o contexto de enquadramento e os intervenientes.
Assim, numa primeira abordagem, diremos que a sea-jml é um espaço virtual em articulação directa com um espaço real – numa relação de interdependência, que tentaremos demonstrar, destacando os seus aspectos mais relevantes.


1. Enquadramento

A ideia da sea-jml nasceu em 2001, como resultado de uma acção de formação destinada a líderes de escola Prof2000 (1) – subordinada ao tema Novas Tecnologias de Informação e Comunicação e animação de espaços escolares de ensino-aprendizagem –, em que se pretendia que o líder de escola promovesse a utilização das TIC na animação de espaços escolares específicos, envolvendo professores com atribuições lectivas para acompanhamento de alunos em actividades de apoio ao estudo autónomo, ou implicados, de algum modo, na animação de espaços escolares como Bibliotecas, Centros de Recursos, Mediatecas, Salas de Estudo, etc. (2)

É esta a ideia base e o ponto de partida da sala de estudo autónomo (sea-jml), mas não o único factor de decisão. Outros há, igualmente influentes, de cuja articulação resulta o impulso para o nascimento do espaço virtual de que falamos.

Em primeiro lugar, a sea-jml surge como uma necessidade sentida pela escola – expressa no Projecto Educativo – e concretizada pelos seus órgãos de gestão no suporte institucional à iniciativa, afectando recursos humanos e equipamento informático, de modo a promover e integrar de forma equilibrada a utilização das TIC nos planos curriculares e no apoio ao processo de ensino-aprendizagem.

Por outro lado, e em paralelo, a sea-jml beneficia da iniciativa de formação C.A.S.C.O. (Comunidade de Aprendizes na Sociedade do Conhecimento) promovida pelo Centro de Formação da Associação de Escolas do Concelho de Aveiro, desde 2001, e que estabelece como meta para 2006 a formação de todos os professores das escolas associadas na utilização em TIC (3). Já que, admita-se, se uma boa parte dos professores não tiver formação na utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação – na óptica do utilizador e produção de conteúdos – não será possível dinamizar um projecto que assenta a sua estratégia de intervenção junto dos alunos na disponibilização on-line de materiais didácticos interactivos.

E, depois, uma escola com um corpo docente incapaz de utilizar os equipamentos tecnológicos de que dispõe representa um enorme desperdício de recursos e uma oportunidade perdida, por não saber tirar partido de meios potencialmente facilitadores da aprendizagem, e não adaptar as práticas pedagógicas ao ritmo dos alunos no seu próprio tempo. Tanto mais que às escolas se exige, hoje, capacidade para promover o acesso universal à info-alfabetização e à info-competência (4).

Nesta perspectiva, é fundamental que a escola saiba promover e integrar de forma equilibrada a utilização das TIC nos planos curriculares e no apoio ao processo de ensino-aprendizagem.

E esta última ideia é fundamental. Deve, por isso, ser destacada, enquanto pressuposto de intervenção clara na definição de estratégias de implementação das TIC na escola.

As actuais gerações de alunos revelam uma natural predisposição e apetência pela utilização das TIC – premissa que aceitamos bem –, mas esta apetência requer orientação e apoio, sob pena de se perderem na infinidade de recursos e na enorme dispersão de conteúdos existentes na internet.

Se quiserem, numa abordagem simplista da questão, o aluno-tipo, de 12-15 anos, faz a sua aproximação ao computador e à internet pelos jogos de natureza diversa, as salas de conversa (Chats), as mensagens e aplicações para telemóvel, os sites apelativos com animações de imagem, som e video, os downloads freeware ou shareware de toda a natureza, a visita a sites de informação generalista e de conteúdos informais e os sites de conteúdos específicos, mas não necessariamente educativos.

Ora, é com base neste pressuposto que a escola, que disponibiliza computadores de acesso geralmente livre aos alunos (e que entende nesta prática um princípio de generalização e democratização na política de acessos às TIC), procura que eles tenham, para além das suas motivações naturais – próprias, poderemos dizê-lo, do processo de crescimento –, acesso a outro tipo de informação e dados de carácter pedagógico, organizados de acordo com as aprendizagens curriculares, de modo a integrar nas suas práticas diárias a utilização formativa das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (5).

2. O que é e a quem se destina

A sea-jml, dirigida prioritariamente aos alunos da Escola Secundária Dr. Jaime Magalhães Lima, enquanto espaço virtual dela podem beneficiar, também, os estudantes em geral (do 3º ciclo e secundário), uma vez que o acesso aos materiais on-line se faz de modo totalmente livre.

No entanto, e temos insistido neste aspecto, enquanto espaço virtual é apenas complemento de um espaço real, combinando a existência de recursos humanos e técnicos de que a escola dispõe – imputados ao acompanhamento e apoio da sala de estudo (real), onde estão representadas uma boa parte das disciplinas, num horário que vai do 1º tempo lectivo (08:30), ininterruptamente, até aos últimos tempos do período diurno (17:30/18:30), de Segunda a Sexta-feira.

E é apenas porque assenta neste binómio de complementaridade que o espaço virtual existe. De outro modo, seria insustentável enquanto projecto não dotado de recursos próprios. No plano da aplicação concreta, seria totalmente impensável pretender que algum professor na sua própria escola, por si só, garantisse a manutenção, actualização e qualidade dos conteúdos, que se pretende que a sea-jml disponibilize. Já que, bem entendido, eles se supõem coincidentes com os currículos disciplinares e acompanhando em paralelo as aprendizagens formais.

É, pois, na combinação destes dois espaços/recursos que assenta a razão de ser e a sustentabilidade do projecto, já que os recursos humanos e técnicos que lhe estão afectados não representam mais um encargo para escola. A sala de estudo enquanto espaço real já existe na escola, independentemente do espaço virtual, tem um horário de funcionamento alargado e tem uma equipa de professores com horas específicas marcadas no seu horário lectivo. Mais, trabalham já com materiais didácticos de apoio ao estudo autónomo, ainda que em suportes tradicionais (ou não necessariamente digitais).

Tudo quanto o espaço virtual (e o seu responsável) têm de fazer é, tão só, a articulação destes recursos – tarefa nem sempre fácil... porque se acrescenta, necessariamente, a componente técnica da utilização de ferramentas adequadas à produção e/ou conversão de materiais didácticos em formato digital; e, com ela, os tempos e disponibilidade necessários para a sua aprendizagem que (queiramos, ou não) sempre se traduz em algum acréscimo de trabalho.

3. O espaço virtual sea-jml

A sea-jml, enquanto espaço virtual, procura fornecer, essencialmente, materiais interactivos, organizados de acordo com os conteúdos curriculares e disciplinares, como se disse antes.

Por um lado, partindo de alguns pressupostos considerados como condicionantes, os materiais disponibilizados visam atingir um aluno que procura na internet uma constante de actividade e interacção. Em nossa opinião, o perfil do aluno das gerações actuais tem uma relação com o computador e a internet de utilizador, digamos, impulsivo...(6) Se os elementos disponibilizados tiverem índices de interacção relativamente baixos desinteressa-se deles e procura outros, que sabe estarem ao alcance de um clic. Numa espécie de cultura de substituição, que o caracteriza.

Daí as fichas e exercícios de auto-correcção, as actividades de pesquisa organizada, ou os jogos didácticos. E a menor incidência por conteúdos de carácter estático, de leitura, ou actividades de índole mais ou menos passiva.

Por outro lado, dada a dispersão de conteúdos existentes na internet, procura-se, também, que os alunos encontrem páginas organizadas por disciplina e áreas temáticas, como catálogos, roteiros virtuais e webquests. Mas também páginas de áreas disciplinares, próximas dos conteúdos curriculares, dicionários on-line e enciclopédias, entre outras.

É nesta diversidade de elementos de apoio ao auto-estudo, mais ou menos apelativos, mas sobretudo interactivos que, espera-se, o aluno encontre a motivação suplementar que o leve a procurar neles um complemento virtual, facilitador da aprendizagem e uma orientação que, à partida, a web por si só não oferece.

Em última análise, e potenciando a consulta das páginas on-line e o auto-estudo em horários não lectivos, a equipa de professores que apoia a sea-jml está ainda disponível para responder a questões colocadas pelos alunos, em serviços interactivos criados para o efeito: uma sala de reuniões (ChatRoom), um Fórum e um formulário para colocar dúvidas on-line, com resposta por correio electrónico.

De um modo sucinto, é este o ambiente criado pela sala de estudo autónomo (sea-jml), de que destacamos as Fichas de auto-avaliação, a que temos dado maior relevo nesta fase inicial do projecto e na qual procuramos envolver todas as áreas disciplinares.

4. Entidades influentes no projecto

Finalmente, e porque a sea-jml é parte de um projecto mais amplo e surge como resultado de uma combinação e articulação de projectos, destaquem-se, numa análise sucinta, as áreas de intervenção de cada uma das entidades envolvidas, consideradas fundamentais.

À partida, os órgãos de gestão da escola, pelas prioridades definidas no Projecto Educativo. É a visão estratégica da criação e animação de um espaço como a sala de estudo (real), dotado de recursos humanos e equipamentos informáticos, aliado à perspectiva de integração das TIC nas aprendizagens curriculares e prática pedagógicas, que permite ensaiar a construção de uma sala virtual.

Em paralelo, o Centro de Formação (CFAECA), pela dinamização de um ambicioso projecto de formação de professores e funcionários – o projecto CASCO – que facilita e promove a aproximação do corpo docente aos equipamentos informáticos, potenciando a sua utilização no processo de ensino-aprendizagem.

Por fim, o Programa Prof2000, pela intervenção directa do seu representante na escola – o lider de escola Prof2000 – e, no plano concreto da sala de estudo virtual, a animação de um círculo de estudos sobre a temática das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação, bem assim como pelo seu envolvimento em actividades de acompanhamento da formação de professores em geral e dinamização das TIC, propondo, animando e acompanhando iniciativas da escola, mas também nacionais ou internacionais.

5. O futuro: validação do projecto

Tracemos, por último, algumas estratégias para o futuro, numa perspectiva de consolidação e validação do projecto.

Isto é, para que o projecto possa ser validado, além das garantias de sustentabilidade, que pensamos lhe são inerentes, será necessário consolidar a componente dos recursos humanos envolvidos e alargar a construção de materiais a todas as área disciplinares, considerando-se aqui como fundamental a melhoria da qualidade dos materiais produzidos.

Para isso, será necessário garantir a fixação ao projecto dos professores mais sensíveis à problemática da produção de materiais interactivos. Já que, a passagem da concepção de uma ficha de trabalho que sempre se imaginou para suporte papel e que, posteriormente, se pretende adaptar ao formato digital é, por vezes, tarefa complexa dada a especificidade dos recursos, as finalidades e suportes considerados.

Resta ainda um último ponto, de que dependerá o futuro da sala de estudo virtual: a avaliação do projecto junto dos seus destinatários, os alunos. É fundamental saber se o que fazemos tem interesse, que relevância e que sucesso; ou se falha, onde e porquê. Para podermos corrigir e reformular o que, de todo, venha a mostrar-se desadequado aos fins a que nos propomos, ou cimentar e reforçar os caminhos para o futuro, conscientes de que trabalhamos para uma escola melhor e informada.

_________________________

Notas:

(1) Elemento de ligação do Programa Prof2000 à escola – «potenciador da utilização das novas tecnologias na escola. (...) responsável pela rede, pela sua configuração e pela dinamização de actividades de introdução das TIC.» José Manuel Pais Martins, 2002, O Líder de Escola – elemento fundamental de um processo integrador das novas tecnologias no ensino – Projecto Prof2000, artigo publicado em http://www.prof2000.pt

(2) Conferir em Razões justificativas da acção e Metodologias de realização da acção, documentos publicados em http://www.prof2000.pt/users/cfaeca/2002/a33/ntic/

(3) Conferir em Descrição do Projecto, Julho, 2000, publicado em http://www.prof2000.ptusers/cfaeca/ CASCO.htm

(4) De acordo, aliás, com o Livro Verde para a Sociedade da Informação em Portugal. Entre outros, leia-se o capítulo 4. A Escola Informada: aprender na Sociedade da Informação. 4.4. Qualificação do professor para a Sociedade da Informação. «Para habilitar o professor a assumir este novo papel, é indispensável que a formação inicial e a formação contínua lhes confira um verdadeiro domínio destes novos instrumentos pedagógicos. A experiência tem demonstrado que a tecnologia mais avançada não tem qualquer utilidade para o meio educativo se o ensino não estiver adaptado à sua utilização.»

(5) Uma vez mais, de acordo com o Livro Verde para a Sociedade da Informação em Portugal. Capítulo 4. «A escola pode contribuir de um modo fundamental para a garantia do princípio de democraticidade no acesso às novas tecnologias de informação e comunicação e pode tirar partido da revolução profunda no mundo da comunicação operada pela digitalização da informação, pelo aparecimento do multimédia e pela difusão das redes telemáticas.»

(6) Isto é, age e reage numa constante de actividade sugestionada pelos mais diversos apelos sensoriais e não tanto como resultado de uma análise criteriosa dos conteúdos disponíveis.

Bibliografia:

Projecto CASCO - Comunidade de Aprendizes na Sociedade do Conhecimento, Julho 2001, Centro de Formação da Associação de Escolas do Concelho de Aveiro.

Livro Verde para a Sociedade da Informação em Portugal, Missão para a Sociedade da Informação, aprovado pelo Conselho de Ministros, no dia 17 de Abril de 1997.

Lacerda, Fernando Alberto, 2001, Novas Tecnologias de Informação e Comunicação e animação de espaços escolares de ensino-aprendizagem, círculo de estudos.

Martins, José Manuel Pais, 2002, O Líder de Escola – elemento fundamental de um processo integrador das novas tecnologias no ensino – Projecto Prof2000.


Fernando Alberto Lacerda

 

               Comentários (4)

de Cristina Calado, em 06-07-2007

Esta é exactamente a minha perspectiva e o que procuro concretizar no meu agrupamento desde o 1º ano ao 9º. Como implementar é a questão. São bem vindas as sugestões.

de Jorge Edgar, em 30-11-2002

Gostei de ler!
Revejo-me e revejo a minha escola em muito do que foi dito.
A ideia da vossa sala de estudo autónomo já deu frutos, nem que seja pela inspiração que criou ao germinar projectos similares noutras escolas.
Parabéns!

de Margrit Guenther, em 05-07-2002

Acho que é mesmo do que estamos a precisar aqui na nossa escola, num momento em que o nosso centro de aprendizagem auto-dirigida e a nossa sala de estudo estão a precisar de actualização, ou melhor, de revitalização!
Eu penso que iremos entrar em contacto convosco! Aliás, já o fizémos há alguns anos, antes de iniciarmos o nosso projecto de Sala de Estudo. Lembram-se?
Até breve.

de Carla Miguel, em 15-06-2002

Julgo que está muito bem redigido. Era bom que em todas as escolas houvesse projectos deste tipo.
Parabéns.