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24 Nov 2002

OPINIÃO

Alguém (O Nico de seu nome António Albano Baptista Moreira)  que reside actualmente no Brasil sobressalta-me com a notícia de um site, aonde a diáspora  benguelense cruza lembranças  revivendo em tempo real  pequenos nadas que tornaram a nossa infância e adolescência tão mítica para nós.

Num primeiro relance encontro-me com alguém que vive no Canadá, um outro na Austrália, irmanados no mesmo sentimento de apego aquele solo africano aonde os seculus sempre foram respeitados; comprazo-se nas recordações perenes daquele tempo onde a televisão, ainda não tinha inquinado os relacionamentos, nem estabelecido definitivamente a rígida  hierarquização da actual Aldeia Global   

Ao longo desta quase três décadas tenho comparecido com regularidade aos encontros anuais de benguelenses em Portugal, porque embora os nossos círculos se tenham estendido e ampliado, aqueles que nós conhecemos quando nos formamos como pessoas, são um elo importante da nossa personalidade; nem sempre partilho da melancolia generalizada que perpassa esses encontros porquanto entendo não ser esta a melhor forma de “curtir” o nosso passado; a recordação dessa nossa memória colectiva só é saudável se  a entendermos como tal, i.e. os “bons velhos tempos” na S. Filipe de Benguela, com toda  a sua atmosfera e respectiva envolvência.

No acelerado processo de envelhecimento  a que inevitàvelmente estamos ligados, cumpre-nos dar testemunho dessa realidade que foi a nossa, no sentido de a partilhar, agora que não sendo possível faze-lo no passeio da Praia Morena, no Paraíso dos Macacos ou na Avenida 5 de Outubro, dispomos da Internet.

As matinés (e seus intervalos) do Monumental, o fim de tarde de Domingo na 5 de Outubro, as camisas mil flores executadas a preceito e por medida pela D. Libânea, a roupa fardex made in USA, a intelectualidade do Tan Tan, a romaria ao aeroporto em hora de chegada, o kino do Benguela e Benfica,  as acácias rubras e o cacimbo são outras tantas recordações desse tempo em que o “plástico” e os seus estereotipos eram a excepção, regra geral taxados de sanguitos.   

Talvez por volta do ano1960, então com 5 anos e pela mão de um dos meus irmãos mais velhos assisti a um episódio que me marcou indelevelmente para sempre: foi quando o mulato Kaluanda que era meu vizinho, estando a assistir a uma corrida de touros na velhinha Praça, aceitou o repto lançado para as bancadas e,  a troco de um punhado de angolares, pegou de caras um touro.

È óbvio que a generalidade das pessoas que porventura leiam estes apontamentos, não me reconhecerão, primeiramente porque já decorreram três décadas, mas também  porque Benguela não era o kimbo onde quando chegava um portuga todos comentavam.

Sou o terceiro de quatro irmãos de apelido Miranda dos quais o primogénito  - Agostinho – foi durante uns tempos o vocalista do R. Boys;  a seguir, o Mirandinha, médio do Sporting  e Portugal de Benguela, e o mais novo o Fernando frequentador assíduo dos bairros mais afro; no que me toca, o que penso  me distinguiu (dos outros irmãos, claro) foi uma razoável discrição, apenas quebrada pelo hóquei patins (ai essa sensacional equipa do Benguela e Benfica, com Coreano, Viegas, Branco, Juca, Terleira e Faim) minha paixão maior e uma certa tendência para enamoramentos por vizinhas.

Todos, á excepção  do Fernando, frequentamos o Liceu, cada um de nós com um círculo próprio de amizades; como todos sabemos, cedo a  vida encarregou-se de nos dispersar, não só aos manos como aqueles a quem agora me dirijo.

Sou engenheiro civil, profissionalmente ligado à banca e uma vez que a prosa já vai longa, envio um longo abraço, mantendo-me  inteiramente disponível para dialogar com todos quanto, em nome da velha tradição benguelense, curtem a nostalgia de um modo saudável e despreconceituoso.

                                                                                                               Jaime Miranda

 

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