ALMADA E DANTAS A NU

Fernando Dacosta "Almada e Dantas a Nu", Público Magazine, 4/4/93 (adapt.)

O "Manifesto Anti-Dantas e por Extenso", escrito por Almada em 1915, foi uma pedrada no charco da vida literária e social da época. Hoje, à distância de décadas, o choque entre ambos assume novos contornos e permite outras leituras.

O primeiro acto que chamou as atenções do público para José Almada Negreiros, um jovem em começo de carreira no ano de 1915, não foi de natureza cultural, mas social, não teve intenções criativas, mas destrutivas. Tratou-se do lançamento de um manifesto de várias páginas e vários insultos dirigido contra o, então, expoente máximo das letras portuguesas: Júlio Dantas.

Com irreverências nunca vistas, Almada achincalha-o (e ao que ele representa) gravemente, abrindo espaço para si e para a sua geração, a do "Orpheu", que Dantas apelidara de "paranóica".

Fulminado de espanto, por indignação uma parte, por regozijo outra, o país divide-se, radicaliza-se. Almada passa a ter nome. E pressa.

Decide jogar cada vez mais forte. Não tem a paciência, a intemporalidade de Pessoa. Quer o presente e quere-o sem medida, sem espera.

Sabe que a maneira mais fácil, mais rápida, de se ganhar evidência nos círculos culturais é utilizar a violência, o escândalo, o terrorismo contra os, neles, famosos.

Júlio Dantas - poeta, dramaturgo, cronista, jornalista, conferencista, médico, deputado, militar, ministro, glória das instituições, da política, da literatura, do teatro, da sociedade da época, académico de dezenas de academias, referência para o Prémio Nobel e para a Presidência da República - era-lhe uma tentação; até porque não iria reagir, não iria contra-atacar. As figuras proeminentes encontram-se, em situações dessas, muito expostas, quase indefesas.

"Morra o Dantas, morra! Pim! O Dantas é o escárneo da consciência! O Dantas é a vergonha da intelectualidade portugueza!

O Dantas é a meta da decadência mental! E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas! E ainda há quem lhe estenda a mão! E quem tenha dó do Dantas! Morra o Dantas! Morra! Pim!", grita Almada.

Dantas sofre a afronta em silêncio. "Não posso falar, eu próprio fiz coisas dessas na minha juventude", confidencia. E lembra, lembra-nos por ele Luís de Oliveira Guimarães, que para se vingar do crítico Fernandes Costa, general e académico, escreve o "Auto da Rainha Cláudia", em que o põe em intimidades no quarto com a amante, a escritora Cláudia de Campos.

Almada multiplica-se em provocações. Espera Dantas à porta de casa -residia na Rua Ivens (habitou em 22 prédios diferentes)- e, quando o vê, põe-se em sentido, faz-lhe um manguito e berra: "As armas, às áármas, às áááááármas!"

Feroz na amizade como na inimizade, Almada defende a murro (fizera-se razoável pugilista) Amadeo de Souza-Cardoso, quando um quadro seu é cuspido pelo público na abertura, em 1916, de uma exposição na Liga Naval. "É mais importante a descoberta da pintura de Amadeo do que a do caminho para a Índia, porque a Índia foi há quatro séculos", invectiva.

O ano seguinte excita Lisboa ao apresentar-se de fato-macaco no Teatro República (S. Luiz) a ler o "Ultimatum às Gerações Futuristas do Século XX"; a seguir actua como bailarino ao lado de Helena Castelo Melhor no bailado de Ruy Coelho "A Princesa dos Sapatos de Ferro".

Afronta convenções e tabus, pelo corpo, pelo vestuário, pela violência, pela bizarria, pela "chantagem" verbal. "Ergo-me pederasta apupado d'imbecis", entoa, "as mulheres portuguesas são a minha impotência!"

Desce o Chiado de cabeça rapada e pintada, à "skinhead". Faz-se fotografar nu por Vitoriano Braga em poses de discóbolo. Ginasta de mérito, introduz o futebol amador entre nós. Faz moda. É a moda.

Apercebendo-se dos riscos que corre, salvaguarda: "Eu não pertenço a nenhuma das gerações revolucionárias. Eu pertenço a uma geração construtiva".

A partir dos anos 20, conquistada a celebridade (e o temor), muda de comportamento. Vê-se solicitado pelo poder, pelas instituições, pela imprensa, pela igreja. É um sedutor. Jornalistas e jornais ("Século", "Século da Noite", "Diário de Notícias", "Diário de Lisboa", "Diário Popular") estão do seu lado, têm-no do seu lado.

Passa a ser tratado por "Mestre". E como mestre se posiciona. "Dava-se na alegria de fruir a dádiva. Apenas era rigoroso", anotará Natália Correia, "na escolha daqueles a quem se dava. Uma generosidade selectiva, timbre dos grandes espíritos."

Nascido em S. Tomé, Almada dizia-se, no entanto, natural de Lisboa. Amulatado e com apelido de Negreiros, costuma chamar, depreciativamente "pretos" e "ciganos" aos que queria ofender.

"Portugal é um pais de pretos", escrevia. "Dantas é um cigano, um ciganão. Escrevia: "Portugal, uma resultante de todas as raças do mundo, nunca conseguiu vantagem de um cruzamento útil porque as raças belas isolaram-se por completo". É preciso criar a adoração dos músculos", é preciso educar a mulher portugueza na sua verdadeira missão de fêmea para fazer homens". "Fazei a Apotheoze dos Vencedores, seja qual for o sentido, basta que sejam Vencedores. Ajudai a morrer os vencidos". "Portugal não tem ódios e uma raça sem ódios é uma raça desvirilizada".

Dantas ouve-o e entristece. Numa tarde de calor, à porta da Bertrand, está de conversa com Luís de Oliveira Guimarães. Almada desce a rua, pára na sua frente por instantes, tira o chapéu, inclina-se prossegue. Dantas segue-o com o olhar.

"Este Almada, sempre tão velho, coitado!", exclama.

Lidos hoje, os seus manifestos fazem sorrir. São de uma linearidade, de um agressividade enternecedoras. Tantos insultos acabam por voltar-se, pela sua obsessão de chocar, pelo seu delírio de excessos, mais contra quem os desfere do que contra quem os recebe.

Daí que Albino Forjaz Sampaio, perante a afirmação, no anti-Dantas, de que "Dantas nu é horroroso", haja perguntado num "suelto" da "Luta": "E o que é que nós temos a ver com as decepções sexuais do senhor Almada Negreiros?"

 

Dizer que Dantas, um dos nossos maiores autores, "nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever não passa de pilhéria; dizer que ele "cheira mal da boca" e admirar-se por haver "quem lhe lave a roupa", isto de um homem que, na sua época, é um modelo da elegância, não colhe convencimento.

Dantas veste-se sempre com esmero ("uma pessoa que se sente bem arranjada tem mais confiança em si própria"), gravata, chapéu, água-de-colónia, anel de safira, e comporta-se sempre com afabilidade. "Saber sorrir é saber viver", enfatiza. "Na vida, como no jogo, o primeiro prazer é ganhar, o segundo é perder!".

A um autor desancado pela crítica, que o procura, responde: "Não responda. Não há nada que valha a dignidade do silêncio. Quanto mais você subir mais detestado, mais insultado será. Eduque o seu espírito na lição da serenidade, que tudo vence; da generosidade, que tudo perdoa".

Não é verdade, como se fez crer, que Almada e Dantas não se falassem. Embora a incomodidade se tivesse instalado entre um e outro, num, Almada, por irritação, noutro, Dantas, por mágoa (os ataques do primeiro magoaram-no mais do que ofenderam), cumprimentavam-se quando se viam, interessavam-se pelos trajectos de ambos e tinham amigos comuns.

Quando Salazar escolhe Júlio Dantas para a Exposição do Mundo Português, uma das primeiras pessoas que ele chama para trabalhar é Almada Negreiros. "A luta pela originalidade", dirá, "é uma corrida vertiginosa aos assuntos novos, às imagens novas. E, afinal, há uma maneira fácil de ser original: é ser sincero".

 

Júlio Dantas nasceu e faleceu no mês de Maio ("uma Primavera o trouxe, uma Primavera o levou", comenta Luís de Oliveira Guimarães). Maios separados por 86 anos de uma vida, de uma obra, de uma postura, de uma perspectiva singularíssimas.

"Entre outros talentos teve o prodígio da versatilidade política. Gostava de estar", evoca-nos António Valdemar, escritor e jornalista, "sempre perto do poder". Para se aproximar do Paço e da Rainha escreve a "Ceia dos Cardeais". Não recebendo os cargos e as honrarias a que julgava ter direito, aproveita-se da crise do regime monárquico e faz "Um Serão nas Laranjeiras", denúncia da decomposição da corte. Mas não se afasta dela.

 

Aguarda, por exemplo, a chegada da família real de Vila Viçosa, no fatídico dia 1 de Fevereiro de 1908 e oferece a D. Amélia um ramo de flores. O mesmo ramo de flores que ela arremessou, conta Aquilino Ribeiro, à cara do Buiça, quando apontava e disparava a carabina. Proclamada a República, Dantas adere-lhe e publica na "Capital", em folhetins, Cruz de Sangue", reunida depois em livro sob o título "Pátria Portuguesa", uma exaltação do povo e uma condenação da nobreza. Perante o conflito desencadeado com a Igreja pela Lei da Separação de Afonso Costa, redige a peça "A Santa Inquisição", em que condena violentamente o Santo Oficio. Com o advento do salazarismo, dá-nos "Frei António das Chagas" elogio de quem se sacrifica, se imola pela Pátria. O abalo provocado pelo MUNAF pelo MUD, que faz estremecer a posição de Salazar, leva-o a reformular a "Antígona' com que se estreou Mariana Rey Monteiro, uma crítica ao velho ditador através da personagem de Creonte.

Há quem, ironizando, goste de dizer que, se Dantas continuasse vivo, teríamos tido peças sobre o 25 de Abril, o PREC, Mário Soares, Cavaco Silva - a favor e contra.

Almada Negreiros mostrou-se mais transparente. Apoiou o salazarismo e o catolicismo, fez vitrais para a igreja e murais para o regime. Aceitou denegrir figuras da oposição (caso de Norton de Matos) e propagandear grupos do regime (caso da Legião Portuguesa).

Morreu crente, com funeral católico e pompa religiosa. Era amigo de Cerejeira, admirador de Salazar.

Quando este vai à antestreia do "Auto da Alma", no Teatro S. Carlos, com cenários seus e interpretação de Maria Lalande, ambos se precipitam, no final, para o então presidente do Conselho.

- Posso dar-lhe um beijinho?, pergunta a actriz.

Salazar, indiferente:

- Se isso lhe dá prazer...

Ela beija-o.

Almada avança:

- Posso cumprimentar Vossa Excelência?

Salazar fita-o:

- É o senhor Almada?

Almada curva-se respeitosamente:

 

- Sim, senhor Presidente, sou eu. Tenho muita, muita honra em cumprimentá-lo!

À distância, Vitorino Nemésio cicia para um amigo, que nos conta o episódio:

- O Dantas está vingado!

 

À pergunta sobre o que pensava de Deus, Dantas respondia sempre: "Como sabem, sou acima de tudo um homem de teatro. Ora Deus para mim é um elemento essencialmente cénico.

Dantas, a quem Augusto de Castro chamava o Quarto Cardeal, em alusão à "Ceia dos Cardeais", que eram três, e aos inúmeros bispos, frades, freiras, abades que povoam as sua obras ("são figuras eminentemente teatrais", repetia), recusa-se a casar religiosamente e exige que o seu funeral seja civil.

"Isso causou uma grande perturbação nos meios católicos, dado o seu prestígio", destaca-nos António Valdemar, presente no funeral. "Para salvar as aparências, Cerejeira pediu ao padre Moreira das Neves que se deslocasse à Academia das Ciências, onde o corpo estava em câmara ardente, e que permanecesse junto da urna, de joelhos, a rezar, sobretudo nas alturas em que a sala tivesse mais gente. Moreira da Neves assim fez".

Vitorino Nemésio, que sucedeu a Júlio Dantas na Academia, fez, ao ocupar-lhe o lugar (a cadeira número 13), a evocação oficial. Com talento, com desassombro, sublinha ("não me cansarei de o elogiar!") a sua alta qualidade literária e a sua invulgar mestria dramatúrgica - que lhe dão lugar cimeiro nas letras portuguesas.

Carlos Malheiro Dias vai mais longe:

"Ninguém como Dantas deu tanta plasticidade, tanta riqueza verbal, tanto ímpeto à nossa língua. Nem o Eça, nem o Fialho".

 

Hoje, 100 anos volvidos sobre o seu nascimento, Almada Negreiros é, como Júlio Dantas, uma instituição da nossa cultura. Ambos têm as contradições, os excessos, os sonhos, as jactâncias, as perversidades dos excepcionais. Noutras circunstâncias, noutra época, poderiam ter sido talvez cúmplices e assumido posições diferentes - inversas?

Eram demasiado grandes para ficarem alheios um ao outro. Mereceram-se um ao outro.