MESTRE MALHO

  O POETA DO FERRO

“ Aos vinte e seis dias do mez de Dezembro do ano de mil oitocentos e oitenta , n’esta Sé Cattedral de Viseu baptisei solemnemente um indivíduo do sexo masculino a quem dei o nome de Arnaldo - primeiro d’este nome, que nasceu  na rua do Arco, freguesia Oriental d’esta Sé à uma hora da tarde do dia  vinte e seis do mez de Novembro do dito ano...”

Foi com estas palavras,  que o pároco  José Marques Dias iniciou o registo nº 259, do ano de 1880, e no qual seria lavrado  o nascimento e  baptismo de um dos grandes  vultos da História de Viseu - MESTRE ARNALDO MALHO.

Filho legítimo de João dos Santos e de Maria Rita  e neto paterno de António dos Santos e de Ana Rosa e materno de António Ferreira e de Maria Jerónima  foi com o pai, pregueiro de profissão,  que teria aprendido a arte de trabalhar o ferro.

Da sua infância pouco se sabe, mas sigamos o grande escritor Aquilino Ribeiro na sua obra “Arcas Encoiradas”  que a  dada altura afirma “Arnaldo Malho, como salta aos olhos do entendimento, herdou um nome que era já uma auspiciação. De facto, começou de novinho a malhar o ferro. Começou de resto por onde começavam antigamente os artífices , aprendendo o abcedário do mester ... . Lá reza o ditado: en forgeant on devient forgeron ou na paráfrase portuguesa: filho de peixe sabe nadar, Malho aprendeu com o pai o rude e nobre ofício. Ainda pequeno celebravam-lhe já a mestria com que sabia arrancar ao fogo uma chave de broca  sem necessidade de proceder à perfuração...”.

Foram os professores, ainda segundo Aquilino Ribeiro, da Escola Industrial  José Pereira e Almeida e Silva, que lhe incutiram o gosto pelas belas coisas e ensinaram os segredos do desenho e da modulação. Foi aqui também, que durante cerca de trinta anos ensinou a sua arte aos mais jovens.

Em 31 de Dezembro de 1911, casou com Evangelina Loureiro,  filha de António Rodrigues Loureiro  e de Augusta de Campos  e de quem vem a ter uma filha - Sara Malho, continuando a viver na rua do Arco onde nasceu e onde tinha a sua oficina  e que durante muitos anos manteve o seu nome.

Viúvo em 1938, e fruto de uma ligação amorosa com Augusta Costa  viria a nascer uma segunda filha a quem deu o nome de Maria Alice Malho.

Faleceu  no dia 21 de Abril de 1960, na freguesia de São José e encontra-se sepultado em campa rasa  da família no cemitério da cidade.

Sendo um homem muito popular na cidade de Viseu, era  reconhecido como um homem íntegro, de trato fácil , mas implacável  com  falsos e hipócritas. Acerca desta  faceta da  sua personalidade conta-nos Álvaro de Meneses num artigo publicado no Jornal “ NOTÍCIAS DE VISEU “  de 2 de Novembro de 1994  com o título “ ABRA-O O SENHOR PRIOR ! “  a seguinte história :

“ Arnaldo Malho, que foi mestre de Serralharia na antiga Escola Comercial e Industrial de Viseu , além de exímio artista do ferro forjado, era também um talentoso  arrombador de cofres. Nada porém, de precipitadas e erróneas conjecturas. O ilustre Mestre arrombava cofres honestamente, e não como um Àrsene Lupin, ou, sequer, como um Palma Inácio. Se alguém não conseguia abrir a caixa de segredo onde guardava dinheiro, jóias ou documentos de  valor, pedia socorro a Arnaldo Malho  e este, em dois tempos, resolvia o problema. Vi-o, com estes olhos que a terra um dia há-de comer, em plena acção. Minha mãe esquecera-se das chaves do cofre dentro dele e o remédio foi chamar o Sr Arnaldo Malho.

Utilizando um gancho do cabelo, de ouvido encostado ao segredo, rodou com o arame para um lado e para o outro e, enquanto o Diabo esfrega um olho, zás, a porta do cofre abriu-se! Ficámos todos de boca aberta, e o leitor se lá estivesse, também  ficaria, que aquilo até parecia bruxedo, oh se não parecia!

Pois, um dia, idêntico descuido com as chaves ocorreu com um senhor prior de uma freguesia aqui da região. O sacerdote, aflito da vida, pois dentro do cofre guardava os seus dinheiritos, bem pedia a santo António o favor de um milagre, mas o Santo, se era especialista em consertar bilhas rachadas, em matéria de arrombamentos nada percebia. Consultou o ferrador da aldeia , o ferreiro da vila e nicles! Chame o senhor Prior o Malho de Viseu, aconselhou-o alguém. Pois não é tarde nem é cedo. Recado para Viseu e, uns dias depois , apeia-se da camioneta da carreira , mesmo à porta da casa do Prior, mestre Arnaldo. Zás - catrapás  e aí está a porta do cofre aberta. Então quanto lhe devo? Contando com a despesa da deslocação, deve-me V. Exª  duzentos mil reis. O quê? Tanto dinheiro para um trabalho tão simples! Mestre Malho, que não era pessoa para cócegas, bate com força a porta do cofre, onde ainda se encontravam as chaves, e exclama: Abra-o o senhor Prior! E voltando costas, pôs-se a andar. “

Considerado um homem inteligente e sabedor,  vejamos mais uma vez,  o que Aquilino Ribeiro nos diz na obra atrás referida :

“ Reparem com que argúcia não discorre a propósito de uma exposição que houve de ferro forjado: “ Em Coimbra foi o saudoso mestre António Augusto Gonçalves que fez renascer o gosto pela arte do ferro educando os artífices, mas alindando tanto os trabalhos que deixou de ser a arte do ferro forjado para ser a ourivesaria do ferro forjado. Em meu entender o ferro deve ser trabalhado tanto quanto possível com o martelo e o cinzel, apenas se lhe mostrando aqui e além a lima quando de todo não possa deixar de ser. Exceptuam-se os trabalhos em branco, em que a lima e a lixa têm uma função bem marcada. Todavia há maravilhosos objectos de ferro, quase sem neles ter sido empregada a  lima. Está neste caso  a linda porta  da Sé de Lisboa, notável trabalho que, por mais que se analise , nos dá sempre motivos de encantamento pela ingenuidade que se respira da feitura do artista. (...) Escrevo em plena sinfonia dos martelos e das limas com que a malta está laborando. Resta-me a consolação de que ao ler as presentes linhas se há-de  julgar metido na barulheira infernal de uma oficina de ferreiro e que estas letras sejam restos de ferro, destinados  a sucata, ou escórias do carvão que incandescesse o mesmo ferro”.

Homenageado em 1950, por concidadãos, colegas e alunos da Escola Comercial e Industrial, onde durante mais de trinta anos exerceu  o seu mester, a sua obra foi sempre alvo das maiores distinções em todas as exposições em que participou . Aquilino Ribeiro refere-se a ele como aquele que “ tão bem torce uma verga de aço às linhas esgalgadas de um candelabro, como levanta em alto relevo numa chapa cabeça de homem ou qualquer figura. “.

As suas obras encontram-se espalhadas, um pouco por toda a parte, desde a casa de familiares como o candeeiro que na actual Rua do Arco ilumina a entrada da sua porta  até aos lustres do átrio do  Governo Civil de Lisboa e da Câmara Municipal de Viseu.

O Museu Grão - Vasco reconheceu-lhe o valor, e hoje podem ser admiradas nas suas salas, saídas da sua oficina, peças  como um gato de lareira, um cata - vento, um braseiro, uma lanterna com  suporte, e ainda uma flor decorativa entre outras peças reproduzidas em edição postal pela Câmara Municipal de Viseu e Comissão da Feira de São Mateus.

 As suas peças, algumas de beleza impar, apresentam  nas de maior vulto, elementos decorativos  como  a Flor de Liz, o Escudo com as Cinco Quinas ou a simples Cruz de Cristo e vão da simples aldraba da porta finamente “esculpida“  aos   quadros mais realistas de pessoas (algumas representando figuras do regime),  passando por dobradiças, fechaduras, portões  de entrada, candeeiros  de sala ou de quarto,  mesas, passe-partout, cinzeiros, lanternas de alpendre ou simples objectos decorativos como flores. 

Olhando as suas obras,  temos a certeza que poetas  não são só aqueles que conhecem as  palavras,  mas também  e sobretudo aqueles que  amam o que fazem.

Como ele próprio dizia :

 

Se eu tivesse duas vidas,

Voltaria a ser ferreiro;

Para trabalhar no ferro,

Mais por gosto que dinheiro.