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   DEBATE “O QUE É A VIDA?”
 

Da esquerda para a direita: o Sacerdote Francisco Melo; a Professora Rosa Irene, orientadora de estágio de Biologia; o Moderador Professor Vitor Oliveira, docente de Filosofia; o Professor Doutor Carlos Fiolháis da Universidade de Coimbra; o Professor Doutor Alfredo Dinis da Faculdade de Filosofia de Braga; o Pastor Armando da Igreja Metodista 

 


     Vivemos um período de crise, sendo que a noção de crise deve tomada num sentido positivo, isto é, como um momento que permitirá o próprio desenvolvimento da ciência. Este momento de crise caracteriza-se fundamentalmente pela incerteza que resulta da encruzilhada em que nos encontramos. Com efeito, vivemos numa época em que, como alguém disse, “os velhos deuses ainda não morreram e os novos deuses ainda não nasceram”!

 

 
 
 
 
 
 
 
     Seja como for, a nossa compreensão do mundo assenta num conjunto de conceitos fundamentais, cuja hermenêutica deve ser interdisciplinar pelo simples facto de os saberes não puderem mais ser perspectivados na sua solidão nem sequer dentro de fronteiras rígidas que claramente estabelecem o dentro e o fora de uma determinada área de investigação. Caíram definitivamente os muros!

     Foram estes os pressupostos que motivaram o debate “O que é a vida?”. Não foi a pretensão que deste debate, deste encontro de saberes, iria sair a resolução dos enigmas que envolvem o problema, embora fosse legítimo esperar que possibilitasse uma abordagem para além do senso comum e contribuísse para a compreensão mais adequada de um conceito e de um fenómeno fundamental – a vida. Esta compreensão para além de essencial em si mesma é útil porque preparatória de outras problemáticas em que a vida é uma categoria interpretativa básica.
 

 


     Começou-se pelo Biólogo. Pediu-se-lhe que nos explicasse o que é um gene, depois que nos explicasse o que é um replicador, e finalmente que analisasse a relação entre gene e organismo, pois ouvimos dizer que a base da vida é molecular, que a base da vida é um tipo particular de moléculas que têm a capacidade de fazer com que determinado ambiente produza cópias dessas mesmas moléculas, que se denominam de replicadores. Na altura ressalvou-se a ideia de que nem todas as moléculas replicadoras são biológicas e, às que são, dá-se o nome de genes.

     Depois ao Físico pediu-se para explicar o significado da afirmação de Frymann Dyson, a partir do trabalho seminal de Shrödinger, de que a vida precisa de duas coisas: um sistema metabólico auto-suficiente e material genético.
 





     Quis-se também ouvir o Filósofo. Questionamo-lo a respeito das razões que teria o geneticista americano Hermann Müller para afirmar que as explicações aristotélicas sobre a vida, embora sem serem literalmente verdadeiras, seriam merecedoras do Prémio Nobel? E depois, que significado e potencial explicativo ainda teria a velha divisão entre matéria inanimada e matéria animada?

     Ao Físico, outra vez, pediu-se mais explicações sobre o facto de Richard Dawkins afirmar em “The selfish gene”, em português, “O gene egoísta”, que a vida seria um efeito colateral na extremidade de uma longa cadeia de efeitos colaterais e que os genes, a base da vida, seriam moléculas [vivas] que obedecem às mesmas leis da física e da química que as moléculas não vivas obedecem. A este respeito ouviu-se ainda o Padre Católico e o Evangelista. Quis-se saber como interpretavam esta ideia da vida como efeito colateral, sabendo-se que no projecto divino das diferentes religiões, o homem é o elemento central – para os cristãos, ele é mesmo Imago Dei –, e, por outro lado, como se poderia ainda aceitar, tendo em conta os desenvolvimentos da ciência, que fosse possível ensinar nas catequeses que Deus é o criador de tudo?

     Ao Físico e ao Filósofo perguntou-se ainda qual seria a origem da vida. Se seria divina ou cósmica como sugeriu no século passado o físico sueco Arrhenius na sua Teoria da panspermia, ou ainda como o sugeriu Francis Crick, co-vencedor do Prémio Nobel da Medicina e da Fisiologia em 1962, pela descoberta da estrutura molecular do ADN numa variante desta teoria.

     A todos perguntou-se por que se valoriza diferentemente a vida e em particular a vida humana, por que se permanece indiferente em relação, por exemplo, a extinção das espécies e à destruição dos ecossistemas, ou ainda em relação à clonagem de ovelhas, e cresce a indignação com a possibilidade de clonar um ser humano, se, como diz Richard Dawkins, as moléculas [vivas] obedecem às mesmas leis da física e da química que as moléculas não vivas obedecem.
 


     Finalmente e por que a teoria da evolução de Charles Darwin explicou a origem da vida em termos que não requeriam uma física especial, questionou-se o Físico e o Filósofo a propósito de uma explicação da vida que integre hoje teoria da evolução, teoria do conhecimento, física quântica e ciência da computação.

     No final, os convidados, figuras reputadas, os presentes, ouvintes atentos e perturbados, congratularam-se com tão ousada iniciativa. Sabia-se que para o futuro ficava a recordação de um momento ímpar na cultura de uma escola secundária e, claro, a estranheza do epifenómeno.
 



   Conferência "O que é a Vida"
 

 

      Esta iniciativa teve a participação do núcleo de estágio das ciências físico químicas e do professor de e.r.m.c.

 

 

 

 
   

 

 

 


® Última modificação: Junho, 2002  ®
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