Seja como for, a nossa compreensão do mundo assenta num
conjunto de conceitos fundamentais, cuja hermenêutica deve ser
interdisciplinar pelo simples facto de os saberes não puderem mais ser
perspectivados na sua solidão nem sequer dentro de fronteiras rígidas que
claramente estabelecem o dentro e o fora de uma determinada área de
investigação. Caíram definitivamente os muros!
Foram estes os pressupostos que motivaram o debate “O
que é a vida?”. Não foi a pretensão que deste debate, deste encontro de
saberes, iria sair a resolução dos enigmas que envolvem o problema, embora
fosse legítimo esperar que possibilitasse uma abordagem para além do senso
comum e contribuísse para a compreensão mais adequada de um conceito e de
um fenómeno fundamental – a vida. Esta compreensão para além de essencial
em si mesma é útil porque preparatória de outras problemáticas em que a
vida é uma categoria interpretativa básica.

Começou-se pelo Biólogo. Pediu-se-lhe que nos
explicasse o que é um gene, depois que nos explicasse o que é um
replicador, e finalmente que analisasse a relação entre gene e organismo,
pois ouvimos dizer que a base da vida é molecular, que a base da vida é um
tipo particular de moléculas que têm a capacidade de fazer com que
determinado ambiente produza cópias dessas mesmas moléculas, que se
denominam de replicadores. Na altura ressalvou-se a ideia de que nem todas
as moléculas replicadoras são biológicas e, às que são, dá-se o nome de
genes.
Depois ao Físico pediu-se para explicar o significado
da afirmação de Frymann Dyson, a partir do trabalho seminal de Shrödinger,
de que a vida precisa de duas coisas: um sistema metabólico
auto-suficiente e material genético.

Quis-se também ouvir o Filósofo. Questionamo-lo a
respeito das razões que teria o geneticista americano Hermann Müller para
afirmar que as explicações aristotélicas sobre a vida, embora sem serem
literalmente verdadeiras, seriam merecedoras do Prémio Nobel? E depois,
que significado e potencial explicativo ainda teria a velha divisão entre
matéria inanimada e matéria animada?
Ao Físico, outra vez, pediu-se mais explicações sobre o
facto de Richard Dawkins afirmar em “The selfish gene”, em português, “O
gene egoísta”, que a vida seria um efeito colateral na extremidade de uma
longa cadeia de efeitos colaterais e que os genes, a base da vida, seriam
moléculas [vivas] que obedecem às mesmas leis da física e da química que
as moléculas não vivas obedecem. A este respeito ouviu-se ainda o Padre
Católico e o Evangelista. Quis-se saber como interpretavam esta ideia da
vida como efeito colateral, sabendo-se que no projecto divino das
diferentes religiões, o homem é o elemento central – para os cristãos, ele
é mesmo Imago Dei –, e, por outro lado, como se poderia ainda aceitar,
tendo em conta os desenvolvimentos da ciência, que fosse possível ensinar
nas catequeses que Deus é o criador de tudo?
Ao Físico e ao Filósofo perguntou-se ainda qual seria a
origem da vida. Se seria divina ou cósmica como sugeriu no século passado
o físico sueco Arrhenius na sua Teoria da panspermia, ou ainda como o
sugeriu Francis Crick, co-vencedor do Prémio Nobel da Medicina e da
Fisiologia em 1962, pela descoberta da estrutura molecular do ADN numa
variante desta teoria.
A todos perguntou-se por que se valoriza diferentemente
a vida e em particular a vida humana, por que se permanece indiferente em
relação, por exemplo, a extinção das espécies e à destruição dos
ecossistemas, ou ainda em relação à clonagem de ovelhas, e cresce a
indignação com a possibilidade de clonar um ser humano, se, como diz
Richard Dawkins, as moléculas [vivas] obedecem às mesmas leis da física e
da química que as moléculas não vivas obedecem.

Finalmente e por que a teoria da evolução de Charles
Darwin explicou a origem da vida em termos que não requeriam uma física
especial, questionou-se o Físico e o Filósofo a propósito de uma
explicação da vida que integre hoje teoria da evolução, teoria do
conhecimento, física quântica e ciência da computação.
No final, os convidados, figuras reputadas, os
presentes, ouvintes atentos e perturbados, congratularam-se com tão ousada
iniciativa. Sabia-se que para o futuro ficava a recordação de um momento
ímpar na cultura de uma escola secundária e, claro, a estranheza do
epifenómeno.
Conferência "O que é a Vida"
Esta iniciativa
teve a participação do núcleo de estágio das ciências físico
químicas e do professor de e.r.m.c. |