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KANT: APRIORISMO e CRITICISMO
Mª Alba Martínez Amorós
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Iniciación a la filosofía,
p. 111-112 |
O sistema filosófico de
Immanuel Kant
(séc. XVIII) é conhecido pelo nome geral de criticismo e encontra-se
exposto, sobretudo, na Crítica da razão pura. Kant diz desenvolver
uma "filosofia transcendental" na qual expõe a crítica a que há que
submeter a razão humana a fim de indagar as condições que tornam possível
o conhecimento
a priori.
Com a sua filosofia Kant conciliava as disputas entre empiristas e
racionalistas. Para isso considera que existem duas faculdades que operam
na aquisição de conhecimentos: a sensibilidade e o entendimento.
Hume
defendeu que não era possível conhecer mais do que aquilo que os sentidos
e a memória nos oferecem e que não é possível um conhecimento universal e
necessário das coisas, porque tal necessidade e universalidade não nos são
dadas pela experiência. Kant opõe a esta ideia a suposição de que,
se esta necessidade e universalidade não podem vir da experiência mas se,
por outro lado, são condições necessárias de um verdadeiro conhecimento,
então terão de ser um elemento a priori do mesmo.
Considera que, para
entender a experiência (conhecimento
a
posteriori), é necessário ter conhecimentos que
não provenham da experiência (conhecimentos a priori): "embora todo o
nosso conhecimento comece com a experiência, isso não significa que
proceda todo da experiência". Só assim é que o conhecimento empírico
pode ter as condições exigidas pelo verdadeiro conhecimento
(universalidade e necessidade) -- características que a experiência por si
só não pode outorgar. Esta posição opera uma mudança de método, tal como a
afirmação de que não é o entendimento que se deixa governar pelos
objectos, mas são estes que se submetem às leis do conhecimento impostas
pelo entendimento humano. Trata-se de uma "revolução copernicana"
um salto radical em relação ao
empirismo.
Kant observa que, para que
se dê o conhecimento, são precisos dois tipos de condições: empíricas
e a priori. As primeiras são particulares e contingentes, quer
dizer, dizem respeito a um sujeito e podem ser modificadas (por exemplo,
para ver uma coisa intervém a agudeza visual e o tamanho do objecto); mas
há outras a priori, universais e necessárias: o espaço e o tempo,
que estão sempre presentes e não procedem da experiência mas a antecedem
(para ver algo, primeiro é preciso um lugar e um tempo no qual se ordenam
as impressões recebidas pela vista). Portanto, se existem condições a
priori, isto implica que o sujeito desempenha um papel activo no processo
do conhecimento, traz algo para esse conhecimento e, portanto, não se
limita a receber passivamente o que percebe.
Por outro lado, os
juízos podem ser analíticos ou sintéticos. Os
juízos analíticos
são aqueles cujo predicado está compreendido no conceito do sujeito e,
portanto, não são extensivos, não trazem nada de novo ao conhecimento; por
exemplo, "o quadrado tem quatro lados iguais". Os juízos sintéticos,
esses sim, ampliam o nosso conhecimento porque o predicado não faz parte
do sujeito; por exemplo, "este livro é de Filosofia". Nestes exemplos
verificamos que o primeiro também é um juízo a priori, porque o
facto de um quadrado ter quatro lados é uma característica essencial do
mesmo e não precisamos da experiência para o comprovar. No segundo caso,
trata-se de um juízo a posteriori, pois necessitamos de recorrer à
realidade para o emitir: é necessária a experiência.
Mas a grande descoberta é
afirmar que há juízos sintéticos a priori: aumentam o nosso
conhecimento (são sintéticos) e são universais e necessários (a priori), e
além disso são próprios das ciências. Assim, um juízo como "os objectos
caem devido à lei da gravidade", é sintético porque o predicado nos traz
uma informação que não está incluída no sujeito "os objectos", e é a
priori porque, se é certo que o comprovámos pela experiência e pelo
hábito, as coisas caem necessariamente e a experiência não mostra ligações
necessárias, mas apenas contingentes.
Deste modo, […Kant]
desenvolve uma teoria que concilia os empiristas e os
racionalistas. Face aos racionalistas, afirma
que é verdade que o sujeito traz algo de si -- o espaço, o tempo e as
categorias -- mas isso sem a experiência nada é. Em relação aos
empiristas, também defende que o conhecimento deve ater-se à experiência,
mas esta não consiste em meras impressões: estas impressões são ordenadas
pelo sujeito (no espaço e no tempo). Esta ordem é comum a toda a
experiência, pelo que o conhecimento desta ordem tem carácter universal e
necessário.
Kant (na Crítica da razão pura) chama
sensibilidade à "capacidade de receber representações (receptividade),
graças à maneira como somos afectados pelos objectos"; por intermédio dela
são-nos, pois, dados objectos, fornecidas intuições. No entanto, é
o entendimento que pensa esses objectos, sendo dele que provêm os
conceitos. Kant não atribui primazia a nenhuma das duas capacidades: "sem
a sensibilidade, nenhum objecto nos seria dado; sem o entendimento, nenhum
seria pensado"
É o próprio Kant quem compara a revolução
operada por Copérnico (quando propôs substituir a teoria de que os
astros giravam pela suposição de que os astros se mantinham imóveis, sendo
antes o espectador quem girava) com a revolução operada na filosofia,
ao substituir-se a ideia de que os nossos conhecimentos devem regular-se
pelos objectos pela ideia de que são os objectos que se regulam pelo nosso
conhecimento.]
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