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O CONHECIMENTO
COMO PROCESSO
ADAPTATIVO:
ASSIMILAÇÃO E ACOMODAÇÃO
Como todo o conhecimento é uma
acção
e um aspecto essencial da acção em geral, os conceitos mais básicos pelos
quais é abordado são os conceitos básicos pelos quais a biologia aborda
toda a acção. Ora toda a conduta de um ser vivo é um processo de
adaptação. Esta adaptação é simultaneamente
assimilação, isto é, o trabalho do ser vivo
para modificar o meio de acordo com as suas necessidades e de
acomodação -- as modificações do ser vivo
para melhor se adequar ao ambiente e responder aos seus desafios.
Todos os seres vivos nascem
equipados com uma série de respostas instintivas a certos estímulos. Tais
instintos não só são necessários à sobrevivência do indivíduo como são a
base do conhecimento; primeiro porque, como todo o conhecimento, são um
modo de abordar e reagir ao meio, ou seja, constituem uma espécie de
"perspectiva inconsciente" sobre o que é a realidade e o que se pode
esperar dela, uma "interpretação" dos acontecimentos, e uma espécie de
conjectura sobre o que seja uma resposta adequada; em segundo lugar, se
seguirmos o exercício dessas respostas instintivas, descobrimos, com
Piaget, todo o processo que origina as formas de conhecimento mais
complexo.
Os instintos ou reflexos
inatos (mas não todos) dão origem, em primeiro lugar, aos esquemas.
Os esquemas são as
unidades básicas do intelecto. Definem-se como sendo padrões de acção,
padrões de resposta às situações, e portanto, organizam a nossa relação
com o meio. Nas suas primeiras semanas de vida, por exemplo, a criança
dispõe de vários esquemas baseados em reflexos inatos como o chuchar e o
agarrar. Enquanto se trata de reflexos, o chuchar e o agarrar são apenas
respostas maquinais e executadas sempre do mesmo modo. Porém, o exercício
gera modificações visando adaptações cada vez mais bem conseguidas. Os
esquemas não deixarão de existir, evoluirão em complexidade e darão lugar
aos conceitos. Os conceitos são os padrões de resposta mas agora
transpostos, mediante a linguagem, ao nível do pensamento.
Os esquemas ocorrem no
processo de assimilação, que consiste na aplicação dos esquemas já
adquiridos [o meio é apreendido e integrado pelos esquemas e estruturas do
sujeito]. Por exemplo: a criança não chucha apenas o mamilo, mas também a
chucha, o cobertor, o dedo, qualquer objecto. Tudo se passa, como diz
Piaget, como se o bebé tivesse uma teoria — o mundo é uma realidade a
chuchar — e a aplicasse continuamente. Vai assim, através dessa "prática",
adquirindo informação sobre os objectos do seu ambiente, assimilando
essa informação ao seu esquema.
Mas esta aplicação dos
esquemas é também um espécie de "teste" a esses mesmos esquemas originando
a acomodação, isto é, a modificação e diversificação dos esquemas
existentes para tentar resolver os problemas postos pelo meio [as
estruturas do sujeito são modificadas em função das situações
particulares].
(RODRIGUES, Luís.
Introdução à Filosofia: 11º ano, p. 214-215
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