ANÁLISE DESCRITIVA DAS TÉCNICAS DE NATAÇÃO

 

 

 

 

 

 

TÉCNICA DE CROL

 

            O Crol é uma técnica de nado ventral, alternada e simétrica, no curso da qual as acções motoras realizadas pelos membros superiores e pelos membros inferiores tendem a assegurar uma propulsão contínua.

 

            A técnica de Crol é a mais eficiente do ponto de vista mecânico. Este facto deve-se, em primeiro lugar, a ser alternada evitando-se, deste modo, grandes oscilações da velocidade intracíclica. Depois, porque a posição do corpo que lhe é inerente permite trajectos subaquáticos bem orientados, criando resultantes propulsivas com sentidos muito próximos da linha de deslocamento do corpo.

 

Condicionantes regulamentares.

 

            Não existe uma regulamentação oficial, por parte da FINA (Federação Internacional de Natação Amadora), para a técnica de Crol. É a única técnica da natação desportiva que depende apenas das leis da hidrodinâmica e das potencialidades do movimento humano. Assim se explica que as provas em “estilo livre” ou em Livres sejam universalmente, salvo raríssimas excepções, nadadas em Crol.

 

            Nas provas de competição em Livres, segundo os regulamentos da FINA, o nadador pode utilizar quaisquer movimentos, na sequência que bem entender, para se deslocar na água. Pode, inclusive, nadar qualquer uma das outras técnicas desportivas regulamentadas (Costas, Bruços ou Mariposa) e mudar de técnica em qualquer altura. É a superioridade do Crol, do ponto de vista de rendimento mecânico e velocidade máxima, quando comparada com qualquer outra estrutura de movimentos propulsivos, que condiciona a sua escolha para as provas de Livres.

 

            Para a viragem ou na chegada, o nadador pode tocar na parede com qualquer parte do corpo. Naturalmente, ao procurar a situação que lhe seja mais vantajosa, o nadador, na viragem, toca apenas com os pés (viragem de “cambalhota”, única utilizada na técnica de Crol, desde a década de sessenta) e, na chegada, toca apenas com a mão mais avançada.

 

Posição do corpo

 

            A posição do corpo deve manter-se, ao longo do ciclo gestual, o mais próxima possível da posição hidrodinâmica fundamental.

 

Alinhamento lateral

 

            Sendo o Crol uma técnica alternada, os desvios mais frequentes e mais importantes ocorrem em relação ao alinhamento lateral do corpo. Com efeito, quando um nadador está na água, está como que suspenso no fluido e qualquer movimento segmentar que crie forças com linhas de acção laterais (em relação ao sentido de deslocamento do corpo), conduzirá a uma reacção aplicada noutro segmento corporal, que o desvia do alinhamento corporal. Deste modo, a resistência de forma e a resistência de onda aumentarão, já que será mais vasta a superfície frontal de contacto quando a bacia e os membros inferiores oscilam lateralmente.

 

            O papel equilibrador básico cabe ao batimento dos membros inferiores que exerce ciclicamente pressão sobre a água em direcções laterais, acompanhando o rolamento do tronco e, consequentemente, a acção dos membros superiores.

 

Alinhamento lateral: faltas mais comuns

 

            As faltas técnicas que mais impacto têm no alinhamento lateral do corpo são:

 

            Recuperação baixa (membro superior pouco flectido) e, em consequência, com trajectória lateral;

 

            Entrada do membro superior ultrapassando a linha média do corpo – relacionado com a anterior ;

 

            Virar o rosto para trás ao realizar a inspiração. A cabeça deve ser mantida em alinhamento com o corpo, ligeiramente elevada mas rodando para a inspiração segundo o eixo longitudinal comum ao tronco.

 

Alinhamento horizontal

 

            O corpo deve manter-se, em Crol, muito próximo da horizontal, sendo de evitar todas as tentativas de obter uma posição “alta” na água (imagem do hidroplano), através da elevação forçada dos ombros e da cabeça.

 

            A cabeça deve estar ligeiramente elevada, a linha de água situada entre o topo e o início do coiro cabeludo, com o olhar dirigido para o fundo da piscina, para uma zona localizada uns metros à frente do nadador.

 

            A eficácia do batimento dos membros inferiores é fundamental na manutenção do alinhamento horizontal do corpo. Um batimento dos membros inferiores demasiado profundo tem, no entanto, como efeito aumentar a resistência de forma, sem contribuir para a propulsão. Como referência, é normal a indicação de que o batimento dos membros inferiores não deve nunca ultrapassar uma linha imaginária que passe pelo ponto mais fundo do trajecto subaquático dos membros superiores.

 

Alinhamento horizontal: faltas mais comuns

 

            Posição alta de cabeça – pouco favorável do ponto de vista hidrodinâmico, conduzindo ao afundamento da região da bacia e dos membros inferiores.

 

            Posição muito baixa da cabeça – parece facilita as oscilações laterais do corpo, tornando, também, mais difícil a inspiração.

 

Rolamento do corpo

 

            A utilização alternada dos membros superiores provoca uma acção natural de rotação do tronco do seu eixo longitudinal (rolamento), de 35 a 45 graus em relação à horizontal, ao longo do ciclo gestual.

 

            O rolamento é indispensável para a manutenção do alinhamento do corpo e para e redução da resistência de forma (menos volume de corpo imerso). Por outro lado, facilita a recuperação aérea dos membros superiores e a inspiração. Deste modo, poderíamos descrever o rolamento do corpo como uma acção sequencial em que os ombros seguem o trajecto dos membros superiores, a bacia e os membros inferiores seguem o ombro, fazendo com que o batimento dos membros inferiores seja realizado em diferentes direcções, consoante a fase do ciclo gestual. A velocidade e a direcção do rolamento são, pois, controlados pela acção cíclica dos membros superiores.

 

Acção dos membros superiores

 

Trajecto subaquático

 

Entrada

 

            Deve ser realizada à frente da cabeça, num ponto situado entre a linha média do corpo e o ombro. A mão está virada para fora, 30º a 40º a partir da horizontal (rotação interna do membro superior) e o cotovelo ligeiramente flectido e em posição alta, de modo a que seja a ponta dos dedos a primeira parte do segmento a entrar na água.

 

Entrada: faltas mais comuns

 

            Mão em pronação (palma da mão virada para baixo), pulso flectido. Aumenta a resistência frontal, a face dorsal da mão empurra a água para a frente.

 

            Mão cruza a linha média do corpo. Perturba o alinhamento lateral, a reacção empurra os membros inferiores para o mesmo lado.

 

            Mão entra demasiado perto da cabeça. Aumenta a resistência de forma, o membro superior percorre uma maior distância no sentido do deslocamento.

            Mão entra violentamente na água, de cima para baixo. Aumenta a resistência de onda e prejudica o alinhamento horizontal, provocando reacção no corpo de direcção vertical (efeito observável: oscilações verticais dos ombros).

 

Deslize

 

            Depois da entrada da mão na água, o cotovelo estende completamente, projectando a mão directamente para a frente, em linha recta, em frente ao ombro. Ao longo desta fase, a mão permanece no prolongamento do antebraço ( posição anatómica fundamental – não há flexão nem extensão ao nível do pulso) e vai rodando até estar virada para baixo.

 

            O deslize é fundamental no que diz respeito à sincronização de um membro superior com o outro, pois é durante esta fase que o membro superior do lado contrário termina o trajecto propulsivo.-

 

Deslize: faltas mais comuns

 

            Execução demasiado rápida. Aumenta a resistência de forma;

 

            Extensão insuficiente do membro superior. Afecta a sincronização global da técnica.

 

            Trajecto descrito pela mão desvia-se da linha horizontal projectada a partir do ombro para os lados ou para baixo. Aumenta a resistência de forma, podendo condicionar um mau aproveitamento da acção propulsiva seguinte.

 

Acção descendente (AD)

 

            A mão, após o deslize, desloca-se para baixo e para fora numa trajectória curva. O movimento para fora não deve ser voluntariamente procurado: à medida que os ombros rodam acompanhando o ciclo dos membros superiores, a mão desloca-se naturalmente para fora. Na fase final do trajecto descendente o cotovelo começa a flectir, para manter o trajecto descendente da mão e preparar a fase seguinte. No início desta fase a mão do nadador está virada para baixo, começando a rodar até ficar orientada para baixo, para trás e para fora.

 

Acção lateral interior (ALI)

 

            A ALI começa quando a mão se aproxima do ponto mais fundo da AD. A direcção do trajecto muda, deslocando-se agora a mão para trás, para cima e par dentro, com a orientação respectiva, até atingir ou ultrapassar um pouco a linha média do corpo. Este trajecto é conseguido graças à flexão do cotovelo, permanecendo este numa posição alta, ou seja, por cima da mão, até final da ALI.

 

Acção ascendente (AA)

 

            Esta fase consiste na aceleração da mão para fora, para cima e par trás até se aproximar da coxa. Esta é a fase mais propulsiva da braçada, não só devido a boas condições hidrodinâmicas – trajecto quase perpendicular ao sentido de deslocamento do corpo, se a velocidade de nado for elevada e boa orientação do segmento mão- como, também, devido ao facto de a extensão do antebraço ser potenciada pelo rolamento do tronco e dos ombros na mesma direcção no final do trajecto subaquático podendo, sem interrupções, ser lançada para fora de água.

 

            A orientação da mão é para fora e para trás no seu trajecto ascendente. Isto consegue-se através da descontracção do pulso, permitindo que a água pressione a mão para a posição correcta, dedos apontados para baixo.

 

            É importante referir que o cotovelo não chega a estender completamente, começando de novo a flectir quando a mão se aproxima do final do trajecto propulsivo útil, de modo a preparar a saída da água.

 

Trajecto propulsivo dos membros superiores: faltas mais comuns

 

            Cotovelo caído. Se o cotovelo está numa posição baixa é porque o nadador tenta puxar a água directamente  para trás, em vez de afundar a mão com o membro superior ainda em extensão.

 

            Trajecto curto. Não existe deslize ou existe encurtamento no final da braçada.

 

            Finalização com extensão completa do cotovelo. Provoca afundamento da bacia, sendo o aproveitamento propulsivo do final da braçada praticamente nulo.

 

Saída

 

            A pressão da água diminui à medida que a mão se aproxima da coxa, sendo, então, a palma da mão rodada para dentro, para que a saída da água se possa fazer com uma resistência mínima. O membro superior sai da água com o cotovelo a flectir de um modo pronunciado, sendo a mão e o antebraço puxados pelo cotovelo, em situação de descontracção muscular.

 

Saídas: faltas mais comuns

 

            Mão virada para cima. Se a mão continua virada para trás até sair da água, o que vai acontecer é que a água vai ser empurrada para cima, tendo como efeito o afundamento do corpo, mais especificamente , da região da bacia.

 

            Membros superiores em extensão quando sai da água. Tem o mesmo efeito da acção anterior, prejudicando, além disso, a recuperação aérea do membro superior.

 

Recuperação aérea

 

            A execução da recuperação é regulada por três imperativos:

 

1-     Não deve perturbar o equilíbrio do corpo. A mão deve passar o mais perto possível da cabeça para reduzir ao máximo as oscilações laterais. Isto implica uma posição flectida e alta do cotovelo durante todo o trajecto por fora de água.

2-     Deve ser realizada de um modo rápido e descontraído, de modo a não perturbar a sincronização de movimentos e, ao mesma tempo, permitir um momento de recuperação para os principais músculos actuantes na fase propulsiva da braçada. É notória, nos bons executantes, a posição descontraída da mão durante esta fase.

3-     Deve preparar da melhor maneira a entrada da mão na água. O cotovelo permanece numa posição alta até à entrada da mão na água, procedendo-se a uma ligeira rotação do antebraço para fora, para dar à mão a inclinação mais adequada para uma entrada na água sem turbulência.

 

Faltas mais comuns na execução da recuperação aérea dos membros superiores

 

            Execução demasiado rápida. Desperdício de energia, perturba a sincronização.

 

            Trajecto lateralizante. Rompe o alinhamento lateral do corpo.

 

            Cotovelo baixo na segunda metade da recuperação. Impede entrada na água conveniente, a furar a água com a ponta dos dedos.

 

Acção dos membros inferiores

 

Acção descendente (AD)

 

            É a fase mais propulsiva do batimento dos membros inferiores. O movimento parte da articulação coxo-femural (flexão da coxa). O joelho guia o movimento, causando uma acção de “chicotada” do membro inferior e do pé. O pé deve estar descontraído, sendo a pressão da água que o vai colocar na posição mais favorável do ponto de vista propulsivo: flexão plantar, rotação interna e adução.

 

Acção ascendente (AA)

 

            É uma fase pouco propulsiva, por muitos técnicos considerada como sendo de recuperação para o trajecto descendente seguinte. O trajecto ascendente do pé é realizado a partir da elevação da coxa (extensão da coxa em torno da articulação coxa-femural), sendo este movimento realizado sem exagerada flexão do joelho.

 

            O batimento dos membros inferiores deve ser realizado sem interrupções, começando o joelho o seu trajecto descendente numa altura em que o pé ainda não acabou o respectivo trajecto ascendente.

 

Faltas mais comuns no batimento dos membros inferiores:

 

            Batimento dos membros inferiores demasiado fundo. Aumenta superfície frontal de contacto.

 

            Posição do pé rígida e em flexão plantar. Perde efeitos propulsivos e equilibradores.

 

            Joelho em extensão na fase descendente. Reduz propulsão e a acção equilibradora.

 

            Batimento tipo “pedalar”. Reduz propulsão e a acção equilibradora dos membros inferiores.

 

 

            Batimento irregular. Reduz propulsão e acção equilibradora.

 

            Flexão dos membros inferiores no início da fase ascendente. Compromete a continuidade e a fluidez do movimento.

 

            Movimento de “tesoura”. Associado a uma sincronização entre membros superiores descontínua e a um rolamento do tronco exagerado e unilateral.

 

Sincronização da acção dos membros superiores

 

            A variante básica de sincronização dos membros superiores em crol e aquela que deve ser introduzida na iniciação desportiva é uma em que, no momento em que uma mão entra na água, a outra está a iniciar a ALI. Esta variante implica a existência de uma fase de deslize bem marcada.

 

Sincronização membros superiores/membros inferiores

 

            A variante básica de sincronização dos membros superiores com os membros inferiores em crol e aquela que deve ser ensinada inicialmente é uma em que se realizam seis batimentos dos membros inferiores por cada ciclo dos membros superiores. Acompanha normalmente a variante acima referida de sincronização de um membro superior com o outro e tem um maior poder estabilizador do alinhamento lateral do corpo, permitindo ao alunos-nadador um maior rolamento dos ombros e trajectos propulsivos mais curvilíneos, nomeadamente uma ALI mais pronunciada.

 

Sincronização da acção dos membros superiores com o ciclo respiratório

 

            A inspiração faz-se através da rotação lateral da cabeça. Coincide com o fim da ALE, AA e início da recuperação aérea do membro superior do mesmo lado. Acompanha, portanto, a rotação natural dos ombros em torno do seu eixo longitudinal – o rosto não deve emergir antes do membro superior do lado contrário estar totalmente na água. O retorno do rosto para baixo deve ser completado antes da mão do mesmo lado entrar na água.

 

            A expiração deve iniciar-se logo após a submersão do rosto, pela boca e pelo nariz. A saída de ar deve ser contínua e constante até ao momento que antecede a saída da boca da água. Nesta altura deve tornar-se vigorosa, expulsando o ar remanescente nas vias respiratórias superiores e, ao mesmo tempo, expelindo a água que se comprime contra a boca, possibilitando o início imediato da inspiração, aspecto este da maior importância na sincronização membros superiores- respiração.

            A utilização da respiração bilateral deve ser favorecida desde o início da aprendizagem desta técnica, uma vez que tal poderá ajudar a evitar a habitual assimetria que se cria na posição do corpo de muitos nadadores – rolamento deficiente do lado contrário da respiração, com as consequências previsíveis que daí podem decorrer.

 

Faltas mais frequentes associadas com a respiração

 

            Rotação “adiantada” da cabeça. Perturba a sincronização e o rolamento do corpo, logo a recuperação do membro superior; impede uma AA eficaz do lado da inspiração e provoca entrada da mão e parte inicial do trajecto subaquático do membro superior do lado contrário deficientes; está frequentemente associada com um alinhamento lateral fraco.

 

            Rotação “atrasada” da cabeça. Deslize exageradamente longo com o membro superior do lado contrário. Falta de sincronização com o rolamento do corpo.

 

            Elevar demasiado a cabeça ou virá-la para trás ao executar a inspiração perturba, respectivamente , o alinhamento horizontal e lateral do corpo.