O 11 de Setembro Interno: "Stress" e Abuso de Droga
Por NUNO TORRES
Segunda-feira, 15 de Julho de 2002, PÚBLICO

Depois dos ataques terroristas de 11 de Setembro, o consumo de álcool, tabaco e drogas ilegais sofreu um aumento significativo em Nova Iorque, segundo um estudo feito pelo National Institute on Drug Abuse Norte Americano (NIDA), divulgado no passado mês de Maio. Ao que tudo indica este facto está relacionado com os altos níveis de stress provocados pelos ataques terroristas. Os investigadores americanos estão a colocar agora como prioridade a investigação dos factores que ligam o stress ao consumo de drogas legais e ilegais.

Hoje em dia é corrente falar-se de stress, mas as origens da sua definição são menos conhecidas. Stress pode-se traduzir por "pressão", e foi um conceito introduzido por Cannon, relacionado com a sua descoberta do mecanismo de "luta-fuga". O mecanismo de luta-fuga é um comportamento adaptativo presente na maioria dos animais, e é activado automaticamente perante uma situação de perigo. Consiste numa série de respostas psicológicas e biológicas (ritmo cardíaco, segregação de hormonas, tensão muscular, etc.) que preparam o corpo e a mente para lutar contra uma ameaça, ou fugir do perigo, no mais curto espaço de tempo. A este mecanismo normal se chama stress agudo.

Quando este mecanismo se mantém por longo período de tempo, devido à percepção continuada (real ou imaginária) de ameaças e perigos ao bem estar, o corpo e a mente ficam sobre grande pressão e têm dificuldade em voltar a níveis normais. A isto se chama stress crónico. Começam então a desenvolver-se sintomas psicológicos tal como depressão, ansiedade, e problemas médicos nos sistemas nervoso, vascular, imunitário, entre outros.

As drogas actuam directamente no sistema nervoso, alteram a sua química e dessa forma permitem compensar o stress, através de mecanismos neurológicos que se substituem à resolução do problema causador de stress. Este é o sucesso por exemplo dos calmantes e dos anti-depressivos, mas também do álcool, do tabaco, e das drogas ilegais como a heroína, cocaína e cannabis. O problema é que quando se estabelece a dependência física e psicológica, a ausência das drogas só por si aumenta os níveis de stress, estabelecendo assim um circulo vicioso. Em vez de resolver a situação causadora de stress, a pessoa dedica-se á sua anulação artificial, através do abuso das drogas.

A ligação entre o stress de guerra e a dependência de drogas já é bem conhecida. O consumo de drogas aumenta, e assume carácter de epidemia, durante períodos de guerra. Na guerra do Vietname, por exemplo, uma grande percentagem de soldados americanos usaram heroína, que estava facilmente disponível e era barata, e ficaram fisicamente dependentes. No entanto quando voltaram a casa apenas cerca de 10% permaneceu dependente. Para esta minoria a guerra não acabou: ficaram com o "Vietname interno". Estudos recentes vieram provar que os traumas de guerra conduzem a uma perturbação neuro-psicológica denominada "síndroma de stress pós-traumático". As pessoas que sofrem deste síndroma tem tendência a procurar alivio dos sintomas através de várias substâncias.

Este ponto de vista, também denominado de hipótese da auto-medicação, vem clarificar a passagem da representação social de droga enquanto procura de prazer, para a droga enquanto procura de alívio do sofrimento, ou seja, sintoma de uma doença.

Mas além da guerra e do terrorismo existem muitas outras situações, menos espectaculares e mais privadas, nas quais a pessoa não tem capacidade de resolver o stress. Uma grande quantidade de estudos científicos verificou que entre as pessoas que abusam de drogas existe uma percentagem significativa de acontecimentos traumáticos, entre os quais se destacam os abusos físicos e sexuais, as separações prolongadas, morte ou doença de parceiros ou de um ou ambos os pais, abandonos, discórdia familiar, entre outros. Elevados níveis de stress crónico no dia-a-dia parecem então predispor a pessoa para se tornar um consumidor de drogas legais ou ilegais. Tal como os nova-iorquinos depois dos ataques terroristas, existe muita gente a viver as consequências dos seus "11 de Setembro" externos e internos, alimentando as cada vez mais poderosas indústrias de drogas legais e ilegais.

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