
Glosa a mote alheio
Campos,
bem-aventurados.
Tornai-vos agora tristes,
Que os dias em que me vistes
Alegre, são já passados.
Campos
cheios de prazer,
Vós, que estais reverdecendo,
Já me alegrei com vos ver;
Agora venho a temer
Que entristeçais em me vendo.
E, pois a vista alegrais
Dos olhos desesperados,
Não quero que me vejais,
Para que sempre sejais
Campos, bem-aventurados.
Porém,
se por acidente
Vos pesar de meu tormento,
Sabereis que Amor consente
Que tudo me descontente,
Senão descontentamento.
Por isso vós, arvoredos,
Que já nos meus olhos vistes
Mais alegrias que medos,
Se mos quereis fazer ledos,
Tornai-vos agora tristes.
Já
me vistes ledo ser;
Mas depois que o falso Amor
Tão triste me fez viver,
Ledos folgo de vos ver,
Porque me dobreis a dor.
E se este gosto sobejo
De minha dor me sentistes,
Julgai quanto mais desejo
As horas que vos não vejo,
Que os dias em que me vistes.