No entanto, a impossibilidade de resolução dos problemas
geométricos só foi completamente esclarecida no final do século XIX,
depois dos trabalhos de
Abel (1802-1829) e
Gauss[1] (1777-1855) sobre a resolução de equações algébricas
por meio de radicais. A prova da impossibilidade dos problemas já
referidos depende da teoria das equações cúbicas, isto é, de conceitos
algébricos que foram sendo desenvolvidos ao longo de vários séculos. A
primeira demonstração, efectiva, da impossibilidade da duplicação do cubo
e da trissecção do ângulo[2]
foi apresentada por
Pierre Laurent Wantzel no
artigo “Recherches
sur les Moyens de Reconnaître si un Problème de Géométrie Peut se Résoudre
avec la Règle et le Compas”, publicado em 1837 no
Journal de Liouville[3].
([Te], p. 385; ([Ca], p. 3, p. 5). Definição:
Um número real diz-se um número algébrico se for raiz de uma equação
polinomial da forma Lema: Um problema geométrico que seja resolúvel usando apenas régua não graduada e compasso é equivalente a um problema com números, envolvendo apenas as quatro operações fundamentais e a extracção da raiz quadrada. <
Como refere Maria
Teresa Viegas ([Vi], p. 100):
“Deste modo, o problema das construções com régua e compasso passou a
poder ser visto a uma luz muito diferente. Com efeito, averiguar o que é
possível construir apenas com estes instrumentos, no mundo das figuras,
traduz-se agora em saber o que se pode obter apenas com as operações
fundamentais mais extracção de raiz quadrada, no mundo dos números. Ora,
este ponto de vista era completamente inacessível aos gregos, dado o
divórcio que a crise dos incomensuráveis tinha provocado entre geometria e
aritmética. A geometria analítica, unindo estas de novo, veio permitir que
a geometria pudesse usufruir das poderosas técnicas algébricas entretanto
desenvolvidas na aritmética e que os números passassem a contar com a
preciosa intuição visual fornecida por um desenho. Definição: A raiz de uma equação diz-se uma raiz construível com régua não graduada e compasso, ou simplesmente raiz construível, se possuir a seguinte propriedade: dada uma unidade de comprimento (um segmento unitário), podermos construir, com régua não graduada e compasso, um segmento de recta de medida de comprimento igual à raiz. < Quando nos referimos ao facto de poder construir, com régua não graduada e compasso, um segmento de recta de medida de comprimento igual à raiz em causa, estamos a dizer que pretendemos desenhar esse segmento com um número finito de operações entre as seguintes: dados dois pontos, desenhar a recta que os une; desenhar uma circunferência em torno de um ponto e passando por outro ponto; desenhar os pontos de intersecção de duas rectas, duma recta e duma circunferência ou de duas circunferências. Teorema da Raiz-Construível: Uma equação cúbica de coeficientes inteiros que não tenha raízes racionais também não tem raízes construíveis.<
Teorema da
Raiz-Racional:
Seja
Sobre a impossibilidade da duplicação do cubo
Consideremos um cubo
de aresta Estamos perante a seguinte equação polinomial
Para mostrar que a duplicação do cubo é impossível de efectuar com régua não graduada e compasso, vamos ver que a equação (1) não tem raízes construíveis; caso contrário, uma das soluções encontradas seria a medida de comprimento da aresta do cubo procurado (de volume 2), portanto seria construível com régua não graduada e compasso. Pelo Teorema da Raiz-Racional, as possíveis raízes racionais para a equação (1) são:
Dado que nenhum destes
valores satisfaz a equação (1), podemos afirmar que a equação não tem
raízes racionais e, pelo Teorema da Raíz-Construível podemos concluir que
a equação (1) não tem raízes construíveis. Logo
Sobre a impossibilidade da trissecção do ângulo Dado um qualquer ângulo, pretendemos construir, com régua não graduada e compasso, um ângulo cuja amplitude seja a terça parte da amplitude do ângulo dado. Obviamente que, para provar que a trissecção de um qualquer ângulo é impossível, basta encontrar[4] um ângulo que seja impossível de trissectar. Como vimos anteriormente, uma possível abordagem para o problema da trissecção do ângulo é reduzi-lo a um problema de nêusis, o qual pode ser resolvido de várias maneiras, sendo exemplos de resolução, a apresentada por Nicomedes através da concóide e por Papo pelo uso da hipérbole. Consideremos a figura seguinte (já nossa conhecida), onde se pretende trissectar o ângulo agudo ABC. Já foi provado anteriormente que o ângulo DBC é o ângulo procurado, isto é, a recta BD trissecta o ângulo ABC, o que significa que o nosso objectivo se reduzia à procura do ponto E.
Com alguns cálculos, obtemos a equação seguinte que designaremos por equação da trissecção:
Quer isto dizer que trissectar o ângulo ABC é procurar x que satisfaça a equação anterior. Encontrado x, será possível localizar o ponto E e trissectar o ângulo em causa através da recta BD. Portanto, só falta agora averiguar se a equação da trissecção tem raízes construíveis.
Note-se
que, na equação da trissecção, existe um parâmetro representado por b.
Consideremos o caso de
Pelo Teorema da Raiz-Racional, as possíveis raízes racionais para a equação anterior são: -1 e +1. Visto que nenhum destes valores satisfaz a equação (3),
podemos afirmar que a equação não tem raízes racionais. E, pelo Teorema da
Raíz-Construível, concluímos que a equação não tem raízes construíveis.
Isto significa que não podemos construir, com régua não graduada e
compasso, o segmento de recta AE. Longo foi o caminho percorrido pelos matemáticos ao tentarem resolver estes dois famosos problemas da Antiguidade; caminhos que conduziram a conceitos modernos de álgebra. Os geómetras gregos falharam nas suas buscas porque procuravam algo de impossível, como o próprio Papo referiu ([P]; em [Ver], I, pp. 206-210), procuravam resolver problemas sólidos por meios planos. A busca de solução para estes, e outros, problemas geométricos permitiu, ao longo destes dois mil anos, que inesperados e interessantes desenvolvimentos matemáticos surgissem e novos horizontes se abrissem no universo da álgebra. Problemas de enunciados muito simples levaram à criação de ramos da matemática muito complexos.
[1] Em 1796 Gauss mostrou que era possível inscrever, usando apenas régua não graduada e compasso, um polígono regular de 17 lados numa circunferência. Enunciou, então, uma condição necessária e suficiente para que um polígono regular de n lados fosse construível.
[2]
Os dois problemas em causa requerem a construção de raízes cúbicas,
enquanto que a quadratura do círculo requer a construção de
[3] Journal de Mathématiques Pures et Appliquées, 2, pp. 366-372. Em 1836 Liouville fundou um jornal de matemática chamado Journal de Mathématiques Pures et Appliquées, muitas vezes denominado Journal de Liouville. [4] Vamos ter por base o interessante esquema apresentado na obra The Historical Roots of Elementary Mathematics ([ BJB], pp. 118-120).
Bibliografia citada no texto:
José Miguel Sousa
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