SELEÇÃO NATURAL E COEVOLUÇÃO

 

MECANISMOS DA EVOLUÇÃO

Que mecanismos partilharão um papel na evolução?

Embora a teoria da seleção natural de Darwin não sofra contestação, ficam dúvidas como o único motor da evolução dos seres vivos.


Estas dúvidas já tinham sido respondidas por Darwin: «Estou convencido que a seleção natural tem sido o agente principal das modificações, mas jamais o foi exclusivamente só»(1)


Darwin reconhece que a seleção natural é o principal motor na modificação das espécies, mas não o único! Ideia que Darwin reforça:

“estou convencido, enfim, que a seleção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies, posto que outros agentes tenham nela partilhado igualmente.” (2)


Não podemos esquecer que, para Darwin a Seleção Natural actuava sobre variações. Qualquer variação por insignificante que altere o conjunto de inter-relações constitui o material com que a seleção natural constrói a evolução, por rejeição de muitas variantes e, acumulação das poucas que, melhoram a adaptação aos ambientes locais.


“Vimos no capítulo precedente, que existe uma certa variabilidade individual entre os seres organizados no estado selvagem; não creio, além disso, que este ponto tenha sido contestado. Pouco importa que se dê o nome de espécies, de subespécies ou de variedades a um conjunto de formas duvidosas; pouco importa, por exemplo, a ordem que se designa para duzentas ou trezentas formas duvidosas das plantas britânicas, visto que se admite a existência de variedades bem caracterizadas.” (3)

“é indispensável que a natureza produza a princípio diferenças individuais…” (4)


Interações simbióticas parecem, muitas vezes, excluídas do fenómeno evolutivo.

Apenas relações de conflito e competição são consideradas.


Engels é aliás bastante preciso na crítica a esta última questão nas cartas a Pyotr: "Da doutrina Darwiniana aceito a teoria da evolução, mas o método de prova de Darwin (luta pela sobrevivência, seleção natural), considero-a apenas uma primeira expressão imperfeita e provisória de um facto recentemente descoberto. (...) A interação de corpos na natureza - animados e inanimados - inclui tanto harmonia como colisão, disputa e cooperação.

Carta de Friedrich Engels a Pyotr Lavrov

in http://borntobewilde.blogspot.com/2009/04/sobre-darwin-e-evolucao-marx-engels.html


Engels, um espírito brilhante, tem razão na oposição ao conceito de luta pela sobrevivência, reconhece as interações complexas que existem na natureza; tanto entre o mundo vivo, como entre o mundo vivo e inanimado.

A visão liberal reduz a seleção natural aos fenómenos de competição e competitividade, luta pela sobrevivência, a crítica levada a cabo por vários pensadores da época estava mais próximo do pensamento de Darwin que muitos dos seus seguidores mais diretos.


É sobre todo o conjunto multicomplexo de interações que atua a SELEÇÃO NATURAL.

CARACTERÍSTICAS DIFERENTES, EM AMBIENTES VARIADOS, POSSUEM CAPACIDADES REPRODUTIVAS DESIGUAIS.


“As variações por mais fracas que sejam e seja qual for a causa de onde provenham, tendem a preservar os indivíduos de uma espécie e transmitem-se ordinariamente à descendência logo que sejam úteis a esses indivíduos nas suas relações infinitamente complexas com os outros seres organizados e com as condições físicas da vida”

“Devo fazer notar que emprego o termo luta pela existência no sentido geral e metafórico, o que implica as relações mútuas de dependência dos seres organizados...” (5)


Qualquer variação por insignificante que seja, constitui o material com que a selecção natural constrói a evolução, por rejeição de muitas variantes e acumulação das poucas que melhoram a adaptação aos ambientes locais.

Seleção Natural em Darwin é a diferente probabilidade de sucesso reprodutivo que uma variação na população obtém pela sua capacidade de adaptação às condições de um determinada meio ambiente.


“É interessante contemplar uma colina luxuriante, revestida de muitas plantas, dos mais diversos tipos, com aves a cantar nos arbustos, com insetos esvoaçantes e com vermes a rastejar pela terra húmida, e parar para refletir que estas formas de construção elaborada, tão diferentes entre si e dependentes umas das outras de um modo tão complexo, foram todas produzidas por leis que atuam em nosso redor.” (6)




Interações e Seleção Natural


Qual o papel das interações ecológicas na evolução?


Se hoje encontramos fenómenos de coadaptação, isso quer dizer que, a interacção sofreu seleção natural e representa hoje, ou já representou, uma vantagem adaptativa.


Darwin aplica esta força a inter-relações entre seres vivos induzindo  coadaptações, com vários exemplos, quer de estratégias reprodutoras, quer de relações tróficas. “Pode compreender-se assim como se faz que uma flor e um insecto possam lentamente, quer simultaneamente, quer um após outro, modificar-se e adaptar-se mutuamente da maneira mais perfeita, pela conservação contínua de todos os indivíduos que apresentam ligeiros desvios de estrutura para um e para o outro lado.”(7)


Coevolução, “A coevolução é um tipo de evolução da comunidade (isto é, interacções evolutivas entre organismos nos quais é mínima ou nula a troca de informação genética entre os diversos tipos) envolvendo interação seletiva recíproca entre dois grupos principais de organismos com uma relação ecológica estreita, como por exemplo plantas e herbívoros, organismos grandes e os respectivos microrganismos simbiontes, ou parasitas e seus hospedeiros.” (8)


«...a evolução de dois ou mais taxa ligados por relações ecológicas estreitas, mas isolados geneticamente. Estes taxa exercem entre eles pressões de seleção tais que a evolução de cada um depende parcialmente da dos outros»(9)



Uma interação entre dois seres vivos que se estenda ao longo do seu ciclo de vida, tornar-se-á um factor de  variabilidade significativo seletivamente.


“...basta uma modificação muito ligeira na conformação ou nos hábitos de uma espécie para dar-lhe superioridade sobre as demais”

“aqueles que se encontrem em concorrência, ou a adaptação mais perfeita às condições ambientais, fazem no decurso do tempo, pender a balança a seu favor”(10)


Darwin aceita que, qualquer variação nos hábitos ou interações biológicas, está sujeita a Seleção Natural.



Simbiose factor de variabilidade


A simbiose; segundo de Bary 1878 “The living together of unlike named organisms” ou o Symbiotismus de 1877, de Albert Bernhard Frank, "We must bring all the cases where two different species live on or in one another under a comprehensive concept which does not consider the role which the two individuals play but is based on the mere coexistence and for which the term Symbiosis [Symbiotismus] is to be recommended”, representa uma alteração nas inter-relações estabelecidas, logo é um fator de variabilidade sobre que atua a Seleção Natural.

Se as inter-relações se tornam permanentes e continuadas por estratégia ecológica; trófica, comportamental ou hereditária (transmitidas no ovo ou por contaminação parental) estamos perante um fenómeno de co-evolução!



CASO DE TRANSFERÊNCIA DE INFORMAÇÃO GENÉTICA


Se o fenómeno simbiótico é acompanhado por transferência lateral de genes há mudanças nos simbiotas. Estas simbioses podem  podem criar um ser quimérico, um simbioma e serem geradores de fenómenos de especiação.

Fenómenos de transferência lateral de genes podem atingir o nível de especiação ou apenas o de uma variação na população. A amplitude  desta questão só tem significado para eucariotas, em procariotas não se consegue aplicar um conceito de espécie.



(1),(2),(3),(4),(6),(7), (10), DARWIN, Charles, "Origem das Espécies", Lello & Irmão Editores, Porto

(8)ODUM, Eugene P., Fundamentos de Ecologia, Ed. Fundação Clouste Gulbenkiean, 4ª Edição, Lisboa, 1988

(9)EHRLICH e RAVEN, in Selosse, Marc-André, La Symbiose structures et foncions, Rôle Écologique et Évolutif, Ed. Vuibert 1ª Ediçãio, sl., 2000


Nothing in evolution make sense except in light of ecology

ECOLOGY is the scientific study of the interactions that determine the distribution and abundance of organisms            Krebs (1972)


Mudanças  nas populações são a maior fonte de novidade evolutiva.



Todas as teorias da evolução são teorias da evolução das inter-relações ecológicas





Papel do meio na evolução?

A ecologia foi um ramo da biologia que ficou afastado da unificação  da biologia não se integrando na visão criada aquando da construção da teoria sintética da evolução. As interações ecológicas eram algo obscuro e inconveniente integrado no conceito da Seleção Natural.

As interações ecológicas tiveram e têm um papel na variabilidade das espécies, de uma situação secundária e incómoda na teoria da evolução, passam ao plano central com um âmbito que é ainda necessário precisar.


Esta visão encontra-se já em Darwin que nos deixa  o desafio de compreender como os mecanismos da evolução funcionaram e funcionam nas interações ecológicas.


"Ninguém se pode admirar que haja ainda tantos pontos obscuros relativamente à origem das espécies e das variedades, se refletirmos na nossa profunda ignorância sobre tudo o que se prende com as relações recíprocas dos inúmeros seres que vivem em redor de nós."

"Conhecemos ainda bem pouco das relações recíprocas dos inúmeros habitantes da Terra durante os longos períodos geológicos passados." (1)


(1) DARWIN, Charles, "Origem das Espécies", Lello & Irmão Editores, Porto, pag. 17 e 18