III - Sob os auspícios do mapeamento genético

 

O mapeamento genético é, sem qualquer sombra de dúvida, um dos desejos perseguidos há longo tempo pelos investigadores moleculares que procuram incessantemente conhecer as causas para as doenças genéticas; efectivamente não será só com árduo trabalho que se conseguem algumas descobertas, mas, para tudo é necessário sorte…e é assim que, em 1983, se localiza no cromossoma 4 o gene responsável pela doença de Huntington. Com o mapeamento genético até as doenças resultantes da conjugação de vários genes, como sejam a arteriosclerose, hipertensão, cancro, doenças mentais, poderão ter "esperança" em serem entendidas.

As virtudes do mapeamento genético não são restritas simplesmente à descoberta desta ou daquela doença. Conduzem a novas fronteiras do desenvolvimento de drogas.

Uma vez identificados todos os genes e as suas bases sequenciadas, será virtualmente possível a produção de qualquer proteína humana- preciosa farmácia natural, (tal como é o caso do tecido activador plasminogénio, interferão e outras moléculas designadas especificamente para bloquearem doenças relacionadas com produção de proteínas).

 

III.1 - Retrospectivando …

 

Diria que, muito embora se fale tanto nos últimos anos neste projecto, o certo é que ele pode já contar com inúmeros contributos que remontam a 1911.

Tudo começou com a descoberta do gene responsável pelo daltonismo, relacionando-o com o cromossoma X, e com a constatação de que tal anomalia era transmitida à descendência pelas mães, todavia tivessem uma visão normal.

Os outros 22 cromossomas permaneceram "intocáveis" até aproximadamente aos anos 60.

Um verdadeiro apocalipse genético começa o seu desenvolvimento quando biólogos recombinam células de rato com células humanas para obterem "inquietantes" células híbridas onde simplesmente um ou muitos poucos cromossomas humanos permaneçam (fig. 5).

Fig.5

São então reconhecidas e produzidas, nestes termos, algumas proteínas. Estratégias como estas são então seguidas por muitos cientistas que localizam, nos respectivos cromossomas, cerca de 100 genes.

Nos anos 70 novos saltos se operacionalizam ao descobrir-se nestas estruturas bandas claras e escuras, quando tratados com certos químicos, as quais fluoresciam perante a incidência de radiações ultravioletas…são então conhecidos e localizados 1000 genes!

 

Quase sincronicamente a técnica do DNA recombinante revoluciona os anais das ciências biológicas…o ora nunca visto torna-se realidade. Porções de DNA são clonadas em bactérias, onde cresceriam ou seriam produzidos em grandes quantidades. Duas novas estratégias de mapeamento surgem.

Uma defende a paragem da divisão de células humanas no local de hibridação, por forma que sejam visíveis ao microscópio os cromossomas. Recorrendo a sondas (tratadas radiactivamente) tenta-se localizar neles qualquer fragmento de DNA.

A outra estratégia usa as variações de DNA como marcadores no genoma humano.

Daqui resultou uma verdadeira inundação de novos marcadores e numa autêntica explosão da ciência em torno dos cromossomas. O número de genes mapeados cresceu estrondosamente de 579 em 1981 para 1879 em 1991. Agora que muitos deles são identificados, segue-se a tarefa de conhecer as proteínas neles codificadas para depois inquirir sobre as mutações que neles ocorrem originando determinadas enfermidades.

 

 

III.2- Que espectativas?
III.2.1- …Diagnóstico e Prognóstico

Mesmo antes de se organizar o Projecto do Genoma Humano, já os geneticistas clonavam com sucesso genes responsáveis por determinadas doenças genéticas. A partir daqui os biólogos conhecem a estrutura das proteínas que lhes correspondem e assim entendem as patologias associadas. É o caminho aberto para revolucionar os procedimentos médicos.

 

Diversas técnicas para detectar mutações nos genes têm vindo a conduzir a um rápido e eficiente diagnóstico nos indivíduos portadores de alguma sintomatologia, podendo inclusivamente ser utilizado como detector de portadores de doenças, no seio da mesma família.

 

Sejamos realistas e admitamos no entanto que a probabilidade de erro resultante destes testes genéticos apesar de baixa, não é nula. O espectro de falsos negativos ou falsos positivos podem resultar de anomalias técnicas ou erros humanos tais como a troca de amostras. Também é justo referir que por vezes não é possível a detecção de todas as possíveis mutações associadas à doença. A somar a tudo isto saiba-se que o uso de testes genéticos para detectar portadores, para diagnóstico pré-natal ou diagnóstico pré-sintomático tem criado dilemas éticos e judiciais.

 

A informação cedida pelo genoma fomentará o desenvolvimento de políticas preventivas, ao permitir a identificação de indivíduos susceptíveis a esta ou aquela doença.

 

III.2.2- …Desenvolvimento de Novas Tecnologias

 

Este ambicioso projecto tem vindo a canalizar vantagens incalculáveis para o desenvolvimento das novas tecnologias. É consensual que uma das vitórias mais importantes será a "leitura" da molécula mestre que é o DNA. Por ventura não ficam por aqui as ideias a explorar… uma outra surge, visando o uso de "ship" de DNA. Não se trata propriamente de pequenos constituintes de equipamento electrónico, mas sim conjuntos de pequenas peças de DNA, cada uma com uma sequência conhecida, organizada num substrato. Aplica-se -lhe uma solução contendo DNA com uma sequência desconhecida e alguns deles reagem com os "trechos" cuja sequência se conhece, resultando sinais indicadores que poderão ser explorados pelo computador no sentido de determinar a sequência de bases. Muito há a fazer desde a optimização de hardware e software específico, capaz de tratar adequadamente tanta informação.

A título de curiosidade refira-se que em Baltimore existe já uma avançada base de dados e que por outros recantos do mundo outras estão em franco avanço, mesmo relativamente a outros organismos.

Grandes progressos se registam no sentido de se desenvolverem máquinas automáticas e verdadeiras estações de trabalho robótico para a execução de tarefas repetitivas. São normalmente usadas em operações de sequenciação de larga escala, onde os computadores lêm os resultados , lançando-os directamente na base de dados.