COMUNICAÇÃO E TEORIA DA TRADUÇÃO

 

Introdução 1

DA QUESTÃO DA LINGUAGEM AO PROBLEMA DA TRADUÇÃO. 4

1- FILOGÉNESE DA LINGUAGEM. 4

1.1 ONTOGÉNESE DA LINGUAGEM. 5

2- Pensamento e linguagem. 7

2.1- A VOLUBILIDADE E SUBJECTIVIDADE DA LINGUAGEM. 11

2.2- estruturação do mundo pela linguagem. 17

3- Falência da comunicação face à tradução 19

4- O bilinguismo 20

TRADUTIBILIDADE E INTRADUTIBILIDADE. 24

1- Problemática da intradutibilidade 24

2- História e tipologia da tradução 25

CONTRIBUTOS DA LINGUÍSTICA PARA A TEORIA DA TRADUÇÃO. 31

1- Argumentos empíricos a favor da tradução 32

1.1- Argumentos morfológicos 32

1.2 Argumentos fonéticos 32

1.3- Argumentos estilísticos 33

2- Crítica ao projecto de gramática universal 34

2.1- A relatividade linguística 38

2.2 -  Problemática das interferências terminológicas 41

3- Abordagem estruturalista da língua 42

3.1 A contribuição de Saussure 42

4. O papel da linguística distribucional 44

4.1- A estrutura reticular da língua 46

5. O papel da semântica na tradução 50

5.1- A importância da polissemia 50

5.2 Área semântica 53

5.3 Conotação e denotação 55

5.4 Um exemplo particular de recorte do mundo: a cor 56

6. Limites do estruturalismo 61

PROBLEMAS ACTUAIS DA TRADUÇÃO. 63

1- A problemática da tradução automática 63

2. O multilinguismo institucional 69

CONCLUSÃO. 71

Bibliografia 74

 

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Introdução

 

A comunicação assegura a transmissão de conhecimentos, de informação e da experiência, permitindo a perpetuação e a identificação da comunidade. A linguagem, inseparável do homem, segue-o em todos os seus actos. É o instrumento graças ao qual o homem forma o seu pensamento, os seus sentimentos, as suas emoções, os seus esforços, a sua vontade e os seus actos, o instrumento com o qual influencia e é influenciado. A linguagem está de tal modo associada à personalidade de cada indivíduo e às especificidades de cada cultura que podemos perguntar se ela é um simples reflexo ou a própria fonte do seu desenvolvimento.

O aumento desenfreado do consumo de informação, de imagens e de ficção determinou uma mudança de atitude em relação à visão do mundo. A literatura permitiu igualmente promover a comunicação como valor. A sua influência exerceu-se através da divulgação das ideias que alimentaram a cultura e o imaginário social.

A tradução procura o estabelecimento da comunicação interlinguística reduzindo as fronteiras da diversidade. Pode assumir múltiplas funções (traduzir para divulgar, para compreender ou simplesmente como exercício didáctico para aprender línguas). O objecto da tradução, variável como o da própria língua, corresponde a todas as possibilidades de comunicação verbal do homem.  Qualquer que seja a sua função, objecto ou definição, parte-se do postulado da sua simples existência atestada por múltiplas realizações. Apesar disso, importa saber de que modo se processa este fenómeno e que relação existe entre o original e a sua tradução. 

O método fenomenológico procura, num primeiro momento, fundamentar-se nas vivências já existentes e, numa segunda fase, transcendê-las para atingir uma visão abrangente. Assim, as evidências tornam-se ocasiões para uma análise posterior. A fenomenologia não se contenta, portanto, com a descrição das vivências originárias, ela fundamenta-se nela, mas prossegue em direcção à intelecção do que, na multiplicidade dos fenómenos manifestos, se mostra como a essência do fenómeno numa tentativa de redução eidética. A procura do discernimento da essência subjacente aos fenómenos comuns exige uma abstracção das evidências imediatas. Pode tornar-se fenómeno tudo o que é experimentável por meio da percepção. A percepção, no entanto, não se restringe à percepção dos sentidos, pois pode referir-se também a fenómenos psíquicos internos, como conjuntos ou sistemas de ideias ou outras criações humanas, ou seja qualquer dado possível. A percepção, de modo geral, não tem significado próprio e específico, dado que toda e qualquer significação só ocorre por interligação conceptual dos dados percebidos. Duas pessoas que estão diante de um objecto têm, em princípio, percepções semelhantes da coisa observada. No entanto,  o poder de contextualização de cada um modifica o que de facto consegue ver. As diferentes ciências ocupam-se com diferentes campos de dados, com uma teorização correspondente (conceitos como elementos estruturadores, capazes de estruturar objectos). A ciência da comunicação, centrada na tradução, analisa o processo tradutório tendo em conta os sujeitos comunicantes.

Para se averiguar as possibilidades de partilha de informação entre os povos,  é necessário recolocar o problema da linguagem e proceder ao estudo dos modos de transmissão da língua e à análise das relações que se estabelecem entre o pensamento e a linguagem.

Partindo de uma visão fenomenológica da linguagem, de modo a descrever a própria língua determinando-lhe a sua estrutura e a sua génese, pretende-se demonstrar de que modo a teoria da linguagem contribui para a teoria da tradução.  O resultado dessa pesquisa, depois de questionada a existência de  paralelismos entre as línguas, poderá fornecer, ao longo do primeiro capítulo, pistas para a compreensão do processo tradutório e determinar se a passagem de umas línguas para as outras é possível e de que modo o funcionamento da língua pode contribuir para reforçar ou refutar essa ideia.  Que relação se estabelece entre a visão do mundo e cada língua particular utilizada? Será que quando se fala do mundo em duas línguas diferentes, não se fala exactamente do mesmo mundo e que, por conseguinte, a tradução de uma língua para outra não só não é legítima como é materialmente impossível do ponto de vista científico? Poderá a análise do bilinguismo provar a existência de paralelismos entre as línguas?

A oposição entre teoria e prática da tradução é problemática uma vez que a relação entre elas não é marcada por critérios da cientificidade, mas por uma pulsão para a fundamentação de opções práticas assumidas.

O campo científico da tradução deve situar-se na intersecção da linguística, da lógica, da psicologia, da pedagogia, da filosofia e, nomeadamente, das ciências da linguagem. Nos últimos dois milénios, muitos autores abordaram o tema da tradução, mas, da colação das suas reflexões, apenas se destacam noções empíricas da tradução e raramente verdadeiras descrições científicas.

A tradução baseia-se em operações específicas que a ciência linguística, correctamente aplicada, resolve melhor que qualquer empirismo artesanal. A sua descrição, segundo o método fenomenológico, permite centrar a atenção sobre aspectos essenciais mais problemáticos.

 A teoria da tradução refere-se  a fenómenos que apenas se mostram como pertencentes ao processo tradutório à luz dos critérios por ela elaborados. As percepções de per si não são qualificadas, no fundo, não existem dados extra-teóricos como referências comparativas, mas apenas dados que se estruturam e configuram à luz de uma ou outra teoria adoptada.

Assim como o conhecimento humano, enquanto acto, precede a teoria do conhecimento, o acto da tradução precede a teoria da tradução. Porém, é apenas através da reflexão teórica sobre a tradução que se pode identificar um acto como acto de tradução, como também só no âmbito da teoria do conhecimento se identifica o que é conhecimento.

A teoria começa, nesse sentido, a rigor, a partir do momento em que o homem se apercebe que está a traduzir. A consciencialização desta percepção inaugura a teoria da tradução. Os tradutores usam técnicas de forma empírica, porém, não seriam capazes de praticar o acto de tradução sem a existência de elementos teóricos  implícitos.

Considerando esse ponto de partida, a teoria da tradução como ciência desenvolve, num primeiro momento, os critérios mediante os quais o fenómeno da tradução se mostra: ela explicita e torna consciente o que é implícito e inconsciente no acto da tradução. Questionar a sua validade equivaleria a questionar a validade da própria tradução.

O segundo capítulo coloca o problema da relação entre a teoria e a prática, passando por  uma abordagem diacrónica dos estudos sobre tradução.  Centra-se nas teorias universalistas, no período relativista e finalmente, no período que recobre as traduções do pós-guerra correspondendo à fase da abordagem estruturalista, neo-hermenêutica e sistemática.

A linguagem manifesta-se segundo duas características antinómicas: a sua universalidade básica e a diversidade não menos essencial. É universal porque se baseia num princípio comum a todas as sociedades humanas: o emprego de meios fónicos ao serviço da actividade simbólica. É diversa pela pluralidade das línguas, culturalmente constituídas como eventos sociais, tornando-se um factor de segregação e de separação no seio da humanidade. Como qualquer facto cultural, transcende o individual mas permanece aquém do universal em realizações paradoxalmente singulares caracterizadas pelas circunstâncias particulares do seu emprego.

No terceiro capítulo verifica-se de que modo os estudos linguísticos contribuem para as teorias da tradução fornecendo descrições para uma melhor compreensão do fenómeno. Abordam-se os problemas suscitados pela morfologia, pela fonética ou pelo estilo e principalmente os do domínio semântico.  Recordam-se  investigações realizadas para encontrar formas de universalidade gramatical para a explicitação de regras comuns e analisa-se em particular a teoria dos campos lexicais com um exemplo particular.

A teoria da tradução ultrapassa a problemática da comunicação entre línguas, idiomas ou códigos. Abandona a hipótese de uma relação simétrica e niveladora das linguagens. Deixar de comunicar o original no traduzido é levantar, para além do sentido comunicável e mais simetricamente recuperável na língua alvo, outra questão cujo alcance é uma rigorosa crítica à comunicação. Trata-se de procurar saber o que acontece na tradução, na passagem de uma língua para outra.  É necessário descrever o evento da tradução ou mais precisamente o  alcance da tradução onde a primazia da comunicação que relaciona linguagens na sua paridade, se apaga em detrimento da questão do sentido.

Definir a tradução, portanto, como um transporte de informação de um sistema de signos para outro pode parecer muito técnico. Trata-se de uma definição inspirada na terminologia tecnológica cujo efeito repousa no sentimento de subordinação de nossa época frente à tecnologia. A tradução abrange um processo bem mais sublime, que se esquiva aos conceitos e à terminologia criada para descrever processos mecânicos. Em nenhum dos casos, a tradução ocorre simplesmente pela substituição de signos de uma língua por signos de outra. Essa substituição é apenas um efeito final que não explica o processo tradutório. Pois a tradução é um processo mental baseado na intuição de conteúdos situados em contextos. A chamada substituição de signos é efeito e não causa.

A sociedade actual, dominada pelas tecnologias da informação, parece caminhar para um processo de globalização. Um dos maiores sonhos da humanidade é a livre comunicação entre todos os povos, mas a proliferação linguística continua a constituir-se como um  obstáculo apenas transponível com a aprendizagem de línguas estrangeiras ou, na sua impossibilidade, com recurso à tradução. A tradução surge, por isso, como “um mal necessário” propulsor da união entre os povos num contexto de multilinguismo institucional. As exigências do sistema produtivo arrastaram a tradução para o domínio da técnica. No último capítulo descrevem-se os condicionalismos económico-sociais condicionantes do recurso à técnica como meio coadjuvante do processo tradutório. Situa-se a tradução no contexto político da comunidade europeia e estabelece-se um percurso com vista à determinação da relação entre o homem e a técnica.

 

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Capítulo I

 

DA QUESTÃO DA LINGUAGEM AO PROBLEMA DA TRADUÇÃO

 

1- FILOGÉNESE DA LINGUAGEM

 

Uma das grandes preocupações actuais da linguística consiste em procurar saber se na origem todos os humanos falaram a mesma língua. A cultura judaico-cristã aceita o princípio da confusão das línguas associado à Torre de Babel. Do ponto de vista científico existem modelos teóricos que procuram explicar a emergência da linguagem no homem de acordo com a sua evolução fisiológica. Os dados anatómicos, referentes à capacidade craniana, à posição baixa da laringe com consequente aumento da dimensão da faringe, à forma do palato, da língua e ao tamanho da cavidade nasal,  condicionaram o aparecimento da fala. As pesquisas sobre a origem da linguagem são frequentemente contestadas por se considerar impossível recuar para além de seis a oito mil anos sem correr o risco de anacronismos, uma vez que o aparecimento da escrita apenas se situa por volta dos cinco mil anos antes de Cristo. Apesar de se pensar que a fala apareceu com o Homo erectus há um milhão e quinhentos mil anos, os partidários dessas pesquisas notam que a meta dos oito mil anos corresponde à época do proto-indo-europeu, a língua ancestral de onde derivaram as línguas indo-europeias. Segundo a mesma teoria, o proto-indo-europeu teria ele próprio derivado de outros ramos entroncando num ponto comum situado na origem de todo o processo. Os estudos arqueológicos e demográficos pretendem mostrar que a colonização da terra se procedeu a partir de uma única área geográfica. Se assim fosse, a pulsão contínua para a comunicação global  seria parte integrante do mito do eterno retorno e justificaria o desejo de compreensão e de tradução de todas as línguas. No entanto, à teoria da monogénese opõe-se a da poligénese segundo a qual a linguagem teria surgido em vários pontos, de forma independente e autónoma, originando várias línguas primitivas.

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1.1 ONTOGÉNESE DA LINGUAGEM

 

A evolução ontogénica da criança parece repetir o processo filogenético humano. Muito antes de falar, a criança exprime-se através de gritos, movimentos expressivos e do balbúcio. A riqueza fonemática do balbúcio é tal que inclui fonemas que não são constituintes da língua falada no seu meio. Quando adulta, a criança torna-se, no entanto, incapaz de reproduzir esses sons se necessitar deles para falar uma língua estrangeira, por isso eles terão que ser reintroduzidos na sua nova  aprendizagem. O balbúcio é uma linguagem polimorfa que corresponde possivelmente a um arquétipo da língua.

Segundo Sapir[1], a linguagem humana não depende de órgãos próprios; todas as componentes fisiológicas intervenientes no processo da fala estão ligados a outra função. Para exercer o acto da fala, o ser  humano serve-se dos órgãos fonadores de um modo que não lhes é natural.

No processo de aprendizagem da linguagem parece haver fases de maiores avanços entrecortadas por fases de estagnação durante as quais se produz uma espécie de “incubação de linguagem”[2]. A aprendizagem da língua materna não supõe um somatório de significações morfológicas, sintácticas e lexicais. As regras gramaticais não são aprendidas antes da prática da língua; o conhecimento dessas regras não é necessário nem suficiente para o domínio da língua. O acto de falar, uma vez adquirido, não pressupõe nenhuma comparação entre aquilo que se quer expressar e os meios disponíveis para essa expressão. As palavras e os arranjos linguísticos necessários para exprimir uma intenção surgem sem que seja necessário representá-las previamente na consciência. Segundo Merleau Ponty, “há uma significação «linguageira» da linguagem que realiza a mediação entre a minha intenção ainda muda e as palavras, de tal modo que as minhas palavras me surpreendem a mim mesmo e me ensinam o meu pensamento”[3]. Do mesmo modo que se tem uma consciência do corpo que permite o relacionamento com o mundo sem ser necessário reflectir sobre essa relação, as palavras  proferidas ou ouvidas são pregnantes de uma significação própria, autónoma; basta uma hesitação, uma alteração da voz ou a escolha de uma sintaxe diferente para alterá-la porque toda a expressão aparece como vestígio, todas as ideias só são dadas em transparência.

O facto da criança se encontrar desde o nascimento envolvida pela linguagem do adulto leva-a a “banhar-se na linguagem” de acordo com o dizer de Delacroix. Aí, por um mecanismo de excitação dos órgãos susceptíveis de produzir a fala, a criança deixa-se contagiar e começa a apropriar-se do ritmo e da acentuação da sua língua materna recalcando a pouco e pouco todos os outros sons constituintes do balbúcio mas não reutilizáveis na língua materna. Desta selecção resulta um empobrecimento da gama sonora possível ao ser humano.

Por volta dos três anos as crianças dominam suficientemente a língua materna para serem compreendidas pelos adultos. Este facto ocorreu sem que tivesse sido necessário aplicar qualquer tipo de pedagogia, ao contrário do que acontece com a escrita que não prescinde de um verdadeiro processo de aprendizagem. O bebé aprende a falar tal como aprendeu a caminhar. Parece tratar-se de uma capacidade inata inscrita no seu património genético. O recém nascido, a pouco e pouco assimila a linguagem dos adultos. Sabe-se que as crianças possuem capacidades linguísticas reveladas no balbúcio por volta dos seis meses. As crianças detectam os fonemas, as sílabas talvez até unidades linguísticas maiores tais como agrupamentos de palavras. Coloca-se a questão de saber o que é que predispõe assim o recém nascido a tratar a informação sonora de um modo pertinente para a aquisição da linguagem. Sabe-se que o sistema auditivo já está funcional mesmo antes da  nascença; por isso, ao nascer  já pode apreender as ondas acústicas bastante complexas produzidas pela voz humana. Para adquirir a língua materna, com a sua estrutura linguística, o recém nascido apenas dispõe deste sinal sonoro, contínuo e variável. Ele terá que recortar o sinal sonoro para detectar unidades linguísticas pertinentes: sílabas, palavras, frases. Esta segmentação põe à priori um problema muito difícil porque nenhum tipo de indício acústico corresponde sistematicamente a uma unidade linguística. Para se saber como é que se opera no domínio do tratamento da informação sonora, é necessário distinguir as características gerais da audição, comuns em princípio aos outros animais, dos aspectos específicos da linguagem. Convém também saber se a fala tem, para o recém nascido, um estatuto especial em relação aos outros sons. Se o organismo estiver biologicamente preparado para tratar  sinais particulares do ambiente, estes sinais devem atrair prioritariamente a atenção e receber um tratamento mais pormenorizado. Com efeito, a fala, e particularmente os discursos dirigidos aos bebés parecem receber uma atenção especial em relação aos outros sons.

A fala é para o bebé um sinal particularmente atraente. Pode mesmo distinguir entre os discursos que lhe são directamente dirigidos e aqueles que se destinam a outros interlocutores adultos. Esta distinção  talvez se deva à postura do adulto que adopta frequentemente um tom de voz diferente para se dirigir às crianças. Isso pode provar, no entanto, que os sinais da fala têm para o bebé um estatuto especial. Falta saber se nesta fase etária, o bebé já é capaz de distinguir os fonemas, as sílabas ou mesmo grupos de palavras. Desde a idade dos dois meses, as crianças podem distinguir os diferentes fonemas da linguagem. O que parece mais extraordinário é que um bebé japonês, por exemplo, seja capaz de discriminar  os fonemas “r” e “l” ao passo que um adulto é incapaz de o fazer visto  esses sons não existirem no japonês. O problema é que esta faculdade não só não é persistente como ainda tem tendência para desaparecer por volta do fim do primeiro ano de vida. Será que os bebés também distinguem as sílabas? A sílaba identifica-se como uma unidade básica de produção da fala: os gestos articulatórios estão programados para produzir sílabas, e não uma sequência de fonemas isolados. É também a sílaba e não o fonema, que tem as entoações, os acentos. É ainda a mais pequena unidade susceptível de ser uma palavra. A sílaba desempenha um papel particular na percepção e no reconhecimento das palavras da nossa língua. Os bebés de alguns meses já são capazes de apreender sílabas do tipo consoante-vogal como uma entidade e de identificá-las num discurso contínuo. O bebé pode também detectar alguns elementos de construção da frase. Utiliza como indício a prosódia ou seja todas as variações de ritmo e de entoação da frase, a posição dos acentos etc. Para isso, baseia-se em propriedades universais do discurso (por exemplo, a voz baixa geralmente antes de pausa). Os recém nascidos são sensíveis às variações da fala. A partir das seis semanas  distinguem, com base na entoação, a fala da mãe da de uma pessoa desconhecida. O bebé possui, por conseguinte, um programa que lhe permite detectar, no discurso das   pessoas que o rodeiam, as sílabas, os grupos de sílabas, e mesmo a estrutura das frases. Algumas destas capacidades estão operacionais desde o nascimento, outras necessitam de um estado de maturação mais avançado. Algumas capacidades da linguagem só se revelam depois de outras aquisições terem sido feitas. É o caso das capacidades sintácticas ou gramaticais para a apreensão das quais é necessário como condição prévia que a criança conheça um léxico mínimo.

O estudo do aparecimento e desenvolvimento  da linguagem, tanto do  ponto de vista da humanidade em geral como da criança em particular, aponta para um conjunto de características invariáveis independentes das línguas particulares. No entanto, a aquisição da língua pressupõe uma redução progressiva de formas, apoiada numa selecção preestabelecida pelo código da língua. Uma vez realizada a escolha, e recalcadas as outras hipóteses possíveis, a língua individualiza-se. A aquisição da língua materna corresponde, por isso a um processo natural ao passo que a passagem para outra língua se torna artificial e dependente de uma aprendizagem. Vista por este simples prisma, a problemática da tradução  reduz-se à da aprendizagem das línguas estrangeiras.

 Falta observar de que modo os pensamentos se apresentam ao espírito e que relações existem entre as palavras e o pensamento para verificar se existem paralelismos entre as línguas. Se assim for, traduzir será apenas pesquisar essas vias paralelas e encontrar os pontos de convergência entre as várias línguas estrangeiras.

Se, de acordo com Merleau-Ponty, “a fraqueza de todo o paralelismo é outorgar-se correspondências entre as ordens e encobrir-nos as operações que de início as produziram  por invasão”[4] é conveniente analisar as relações existentes entre o pensamento e a linguagem para, depois, corroborar ou anular a hipótese tranquilizadora do paralelismo entre as línguas.

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2- Pensamento e linguagem

 

Segundo Merleau Ponty, as palavras ouvidas, e depois repetidas no processo de aprendizagem da língua materna, inscrevem-se no cérebro como um conjunto de “imagens verbais” permanentemente disponíveis para novas reutilizações.

O estudo de situações patológicas contribui para isolar cada um dos aspectos considerados normais, identificando-os. Graças à percepção do inventário das características da linguagem humana, torna-se possível determinar os tipos de relação existentes entre a formação do pensamento e a própria linguagem.

 A existência de perturbações electivas que atingem a linguagem falada, sem afectar a escrita ou afectam a escrita sem atingir a palavra e a desagregação da linguagem por fragmentos, mostra que a linguagem é constituída por achegas independentes e que a fala no sentido geral é um ser de razão.  A teoria da afasia, ao distinguir a anartria que só se interessa pela articulação das palavras, da verdadeira afasia que supõe perturbações da inteligência, delimitou também a distinção entre a existência da linguagem automática, independente e uma linguagem intencional, geralmente afectada pelas perturbações. A individualidade da imagem verbal encontrava-se dissociada. O que o doente perdeu, não é só  um stock de palavras, mas um certo modo de as utilizar. Na linguagem automática, a palavra mantém-se à disposição do sujeito falante, mas não lhe ocorre no plano da linguagem gratuita. Esta disparidade revela que há, por trás da palavra, uma atitude, uma função da fala que a condiciona o que coloca já a linguagem gratuita como um fenómeno do pensamento. Por isso, a afasia tem a sua origem numa perturbação do pensamento.

Nomear um objecto é abstrair-se do que ele tem de individual, de único para ver nele o representante de uma categoria e de uma essência. A doença caracteriza-se pela incapacidade de proceder a esta abstracção. Esta análise é o reverso absoluto da teoria da imagem verbal visto que a linguagem aparece aqui condicionada pelo pensamento.

M. Ponty critica a teoria intelectualista segundo a qual a palavra não tem significação: “a palavra não tem sentido; é o pensamento que o tem; a palavra é o invólucro vazio, é apenas a materialização exterior do pensamento.”[5] Se assim fosse, haveria dissociação entre os signos e os pensamentos puros que as palavras recobririam.  É por isso que Merleau Ponty diz que a linguagem é opaca. Não existe nenhum momento de cisão a partir do qual comece o sentido puro. A linguagem apenas se reconhece a si própria como limite. O sentido surge em função da interacção dos signos que ficariam reduzidos ou mesmo esvaziados de conteúdo se separados uns dos outros. A linguagem está longe de ser um mero exercício de cifração e de decifração porque isso pressuporia que as significações fossem preexistentes, e por conseguinte, anteriores ao acto locutório. Quando um autor escreve, não tem nenhum texto prévio que lhe permita o confronto com a sua produção. O acto da criação textual, literária ou não, é uma tarefa auto-regulada centrada na procura de um equilíbrio  e de uma perfeição sem modelo. A conquista destes objectivos confere-lhe uma autonomia tal que a torna capaz de se constituir como ser capaz  de representar ou substituir aquele que a produziu. Todo o pensamento é expresso através da linguagem que não deixa qualquer espaço livre para mais nada. Sempre que se quiser captar o pensamento, depara-se apenas com material verbal.  Como se verifica, não existe a possibilidade de haver inscrito no ser uma espécie de texto original de que a linguagem seria apenas a tradução ou uma versão cifrada, não existe uma correspondência, ponto por ponto entre o sentido e as palavras. Para a psicologia empirista ou mecanicista a palavra não é mediatizada por qualquer outro conceito mas pelos estímulos ou estados de consciência. Na psicologia intelectualista, duplica-se a denominação de uma operação categorial, a palavra não tem eficácia própria, porque é apenas o signo exterior de um reconhecimento interior para o qual não contribui.

Na primeira concepção, estamos aquém da palavra como significativa, não há ninguém que fala. No segundo caso, estamos além; há um sujeito, mas não é o sujeito falante; é o sujeito pensante.

Em relação à fala, o intelectualismo pouco difere do empirismo pressupondo a explicação do automatismo. Uma vez realizada a operação categorial, falta explicar o aparecimento da palavra e é por um mecanismo psíquico ou fisiológico que se explica  já que se considera  que a palavra é um invólucro inerte.

Segundo Ponty, as duas teorias são ultrapassáveis pela simples verificação de que a palavra tem um sentido. Se  a fala pressupusesse o pensamento, se falar fosse primeiro ligar-se ao objecto por uma intenção de conhecimento ou por uma representação, não se compreenderia porque é que o pensamento se inclina para a expressão como para a sua conclusão; porque é que o objecto mais familiar nos parece indeterminado enquanto não conhecermos o seu nome, porque é que o próprio sujeito pensante está  numa espécie de ignorância dos seus pensamentos enquanto não os tiver formulado para si ou mesmo dito ou escrito?

Um pensamento que se contentasse em existir para si, fora da fala e da comunicação cairia na inconsciência mal aparecesse, o que significa que nem para si existiria. Se dizer fosse estabelecer correspondências entre palavras e pensamentos, não haveria possibilidade de sair de ciclo vicioso que se esgotaria pelo silêncio uma vez que o pensamento só seria colocado perante outros pensamentos absolutamente explícitos, rompendo-se a possibilidade de alargar o espaço para os inéditos. Pelo contrário, as palavras têm um poder especial porque interagem umas com as outras de modo a abrir as portas para ideias e pensamentos que só o seu contacto  permite descobrir.

Pensar é uma experiência no sentido em que adquirimos os nossos pensamentos pela fala interior ou exterior. Ele pode surgir instantaneamente ou de modo fulgurante, mas para que o pensamento se torne nosso, é necessária uma apropriação através da expressão. A nomeação dos objectos não vem depois do reconhecimento; é o próprio reconhecimento.

No conhecimento pré-científico, nomear o objecto é fazê-lo existir ou modificá-lo. A criança aprende a conhecer os objectos a partir das suas designações linguísticas; só secundariamente é que os objectos recebem uma existência natural.

A criança reconhece-se como membro de uma comunidade linguística antes de se identificar como pensamento de uma natureza porque não encara a palavra como signo dos objectos e das significações, mas considera que ela incarna as próprias coisas e transporta as significações. A fala não traduz pensamentos já feitos; realiza-os.

Aparentemente a experiência da comunicação é uma ilusão porque o pensamento realizado pela palavra só circula daquele que fala para aquele que ouve se houver neste a predisposição para realizar espontaneamente os mesmos pensamentos. Parece que a consciência só pode ter experiência daquilo que ela própria já contém. Uma consciência constrói uma máquina da linguagem capaz de transmitir a outra consciência a ocasião de efectuar os mesmos pensamentos, mas não passa nada de um para o outro.

Se assim fosse, como se explicaria que a consciência possa aprender alguma coisa? Não podemos pressupor que todo o conhecimento é inato. De facto, temos capacidade para compreender para além do que pensávamos espontaneamente. A compreensão funciona como resolução de uma equação com uma ou duas incógnitas; é necessário que se conheça pelo menos um dos dados para chegar aos outros, mas também é necessário que o problema tenha uma solução possível. No entanto, na compreensão de outrém, o problema é sempre indeterminado porque só a solução do problema fará aparecer retrospectivamente os dados como convergentes, só o motivo central de uma filosofia, uma vez compreendido, dá aos textos do filósofo o valor de signo adequado. Há, por conseguinte, uma retoma do pensamento através da fala, uma reflexão em outrém, um poder de pensar segundo outrém que enriquece os nossos próprios pensamentos. É necessário que a significação conceptual das palavras se forme a partir do contexto imanente à fala tal como, num país estrangeiro, se começam a compreender os sentidos das palavras pela sua colocação num contexto de acção ao participar na vida comum.

Qualquer linguagem se ensina a si mesma e importa o seu sentido no espírito do auditor. Há portanto quer naquele que ouve ou lê, quer naquele que fala ou escreve, um pensamento na fala que o intelectualismo não suspeita.

Deve-se reconhecer que o pensamento no sujeito falante não é uma representação ou seja, não coloca expressamente objectos ou relações. O orador não pensa antes de falar nem mesmo enquanto fala; a fala é o pensamento. O pensamento do orador é vazio enquanto fala. Quando se lê um texto, não existe um pensamento à sua margem; as palavras ocupam todo o nosso espírito; preenchem as nossas expectativas; sentimos a necessidade do discurso, mas seríamos incapazes de o prever; deixamo-nos possuir por  ele. Só após o discurso, poderemos ter pensamentos sobre o discurso ou sobre o texto.

A fala não é o signo do pensamento se considerarmos um fenómeno que anuncia outro como o fumo anuncia o fogo. A fala e o pensamento só admitiriam esta relação exterior se eles fossem um e outro tematicamente dados. Na realidade, estão envolvidos um no outro; o sentido é captado pela fala e a fala é a existência exterior do sentido. Não se pode admitir que seja apenas o invólucro, a roupagem do pensamento.

Porque é que seria mais fácil recordar palavras ou frases do que pensamentos se as pretensas imagens verbais necessitam de ser reconstruídas todas as vezes? Porque é que o pensamento procura duplicar-se ou recobrir-se de uma série de vociferações se elas não tivessem elas próprias sentido?

As palavras não podem ser as fortalezas do pensamento e o pensamento só pode encontrar a sua expressão se as palavras fornecerem por elas próprias um texto compreensível e se a fala possuir uma potência de significação que lhe seja própria. O pensamento e a palavra necessitam um do outro, substituem-se, alternam-se e estimulam-se reciprocamente. Quando se fala, usa-se a palavra com espontaneidade sem as mesmas preocupações do linguista que encara a palavra como um objecto apesar de se servir de palavras para reflectir sobre elas. Não é apenas porque não possamos pensar em duas coisas ao mesmo tempo mas porque nos tornamos puros operadores da palavra sem a preocupação de conceber o código. Pensamento e linguagem estão interrelacionados. As palavras têm de deixar de ser apenas um modo de designar o objecto ou o pensamento; têm que se tornar na presença deste pensamento no mundo sensível e não apenas o seu invólucro, mas o seu emblema ou o seu corpo.

Pode ler-se um texto sem o entender, o que prova que existe sob a significação conceptual das palavras uma significação existencial que não é só traduzida por elas, mas está nelas e é inseparável delas. O maior benefício da expressão escrita não é a sua preservação, fixação no papel, mas a sua existência como organismo de palavra, como órgão de sentido; abre um novo campo ou uma nova dimensão à nossa experiência.

Do mesmo modo que, quando representa, o actor desaparece por trás da personagem, a operação expressiva realiza ou efectiva a significação e não se limita a traduzi-la. O pensamento não é nada de interior; não existe fora do mundo e fora das palavras. A ilusão da sua existência prévia advém do facto do podermos recordar, ou reavivar na nossa memória,  pensamentos já existentes, anteriormente expressos. O pensamento puro reduz-se a um certo vazio da consciência; a um desejo instantâneo.

A intenção significativa só se reconhece ao recobrir-se de significações já disponíveis. Essas significações entrelaçam-se de uma vez por todas originando novos seres culturais. O pensamento e a expressão constituem-se simultaneamente quando se concretiza a nova aquisição cultural do mesmo modo que o corpo exprime um novo gesto antes de o construir como hábito.

É claro que, para compreender as palavras de outrém, é necessário que se conheça previamente o seu vocabulário e a sua sintaxe, mas isso não significa que as palavras de outrém suscitem em mim representações capazes de reproduzir as representações originais do locutor pelo meio de associações. Não se comunica com representações ou com um pensamento, mas com um sujeito falante, com um certo modo de ser e com o «mundo» que ele visa. A intenção significativa que originou a fala de outrém não é um pensamento explícito, mas uma carência que procura satisfazer-se; do mesmo modo, a sua influência em mim não é uma operação do meu pensamento mas uma modulação sincrónica da minha própria existência, uma transformação do meu ser.

Vivemos num mundo repleto de significações já formadas que não requerem qualquer esforço de interpretação. Das várias operações expressivas, música, pintura, etc., a língua é a única capaz de se sedimentar e de se constituir como uma aquisição intersubjectiva. O mundo linguístico e intersubjectivo já não nos espanta nem o distinguimos do próprio mundo; é no interior de um mundo já falado e falante que reflectimos.

A linguagem nunca é simples roupagem de um pensamento que se possuísse a si próprio com toda a clareza. O sentido de um livro é dado pelas variações sistemáticas e insólitas do modo da linguagem e da narrativa ou das formas literárias existentes. A expressão do autor leva o leitor a um pensamento até então desconhecido ou em relação ao qual podia mesmo mostrar indiferença ou rebeldia.

 A língua contém o gérmen de todas as significações possíveis porque todos os nossos pensamentos estão destinados a serem ditos por ela. Paulhan[6] verificou que a fala em exercício não se contenta em designar pensamentos como um número na rua designa uma determinada casa, mas metamorfoseia-se neles como eles se metamorfoseiam nas palavras- metamorfose pela quais as palavras deixam de ser acessíveis aos sentidos e perdem o seu peso, o seu ruído, as suas línguas, o seu espaço, para se tornarem pensamentos; mas o pensamento, por seu lado renuncia, para se tornar palavra, à sua rapidez ou lentidão, à sua surpresa, à sua invisibilidade, ao seu tempo, à consciência que temos dele.

Já muito antes, referindo-se à “produção da linguagem” [7], Wilhelm Von Humboldt tinha radicalmente modificado o modo de pensar a linguagem por se recusar a entender a língua como um instrumento passivo da expressão e preferir identificá-lo com um princípio activo que impõe ao pensamento um conjunto de distinções e de valores. Para Humboldt, qualquer sistema linguístico contém uma visão própria do mundo exterior, diferente da análise operada por outras línguas ou por outras etapas da mesma língua.  Não só se pensa a língua por meio da linguagem como a visão do mundo é determinada pela linguagem. Para Humboldt, o conteúdo e a forma linguística da vida espiritual do homem condicionam-se reciprocamente e não devem ser considerados à parte. Cada língua estrutura a realidade à sua maneira e estabelece os seus próprios elementos da realidade. Essa estruturação e os seus elementos nunca são totalmente idênticos de língua para língua, nem sequer são uma cópia directa da realidade; são apenas a concretização linguística de um ponto de vista que deriva de uma matriz estrutural única e definida, assente num sistema de comparações, oposições e distinções.

 Whorf[8] deu profundidade a estas teorias ao verificar que não há uniformidade entre as evidências físicas captadas e a imagem do universo que daí resulta, a menos que os sujeitos observadores tenham em comum o mesmo sistema linguístico  ou pelo menos um sistema similar. Para Whorf, a linguagem é fundamentalmente uma classificação e uma reorganização da experiência sensível. Esta organização implica um recorte do mundo, da situação. Pode variar consoante as línguas que são encaradas como vastos sistemas de estruturas onde se organizam culturalmente as formas e as categorias pelas quais o sujeito falante comunica e constrói o seu conhecimento.

O facto de cada língua poder recortar aspectos distintos de uma mesma realidade, valorizando uns e desprezando outros, leva cada sociedade a reger-se por diferentes lógicas de raciocínio inspiradas na sintaxe da sua linguagem.

Benveniste[9] reconheceu que as categorias lógicas explicitadas por Aristóteles não eram universais mas derivavam apenas da língua grega. Afirma que as categorias mentais e as leis do pensamento apenas reflectem a organização e a distribuição das categorias linguísticas. Pensa-se um universo previamente modelado pela língua.

No estudo sobre a arbitrariedade linguística e a dupla articulação, Martinet[10] também concluiu que a língua determina a visão do mundo que cada povo tem.

As teses destes linguistas são contributos para negar qualquer possibilidade teórica de tradução porque nunca se sabe rigorosamente se os seres, as qualidades ou as relações e os processos,  representados são equivalentes entre as línguas.

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2.1- A VOLUBILIDADE E SUBJECTIVIDADE DA LINGUAGEM

 

Uma vez que a teoria da linguagem considera intransponível a passagem de umas línguas para as outras, torna-se conveniente observar, tanto do ponto de vista sincrónico como do ponto de vista diacrónico, de que modo o estudo do funcionamento da língua pode contribuir para reforçar ou refutar essa ideia.

Quando uma língua evolui para outra, não há fronteira nítida por onde se passe a dada altura. Na passagem do latim para o português, por exemplo, nunca deixou de haver falantes. A língua está em constante progressão, num trabalho contínuo, por isso é complexa ou mesmo quimérica a tentativa, por exemplo, de datar o momento em que o latim se tornou português ou mesmo galego-português, uma vez que as estruturas gramaticais começam a ser eficazes e a delinear-se antes de serem empregues sistematicamente, e porque a língua contém em embrião as transformações susceptíveis de ocorrer mais tarde. Inversamente, também os arcaísmos são marcas persistentes  de signos que continuam a levar uma vida vegetativa coabitando com os seus substitutos. Há  pontos de transição ainda que quem os viva sincronicamente não os sinta.  Ao longo da sua evolução, a língua nunca perde  o  poder de expressão visto que não há momentos de ruptura.  Mantém-se sempre capaz de satisfazer as necessidades de expressão. Apesar dos acasos com que é feita a história de uma língua, e da diversidade de sentidos de cada palavra, não há dificuldade na escolha do vocabulário certo. Saussure[11] mostra que a história de uma palavra ou da língua não faz o seu sentido habitual nem a etimologia justifica o significado presente de um signo. Saussure inaugurou, ao lado da linguística da língua que a faria surgir como um caos de acontecimentos, uma linguística da fala que deve mostrar nela própria em cada momento, uma ordem, um sistema, uma totalidade sem os quais a comunicação e a comunidade linguística seriam impossíveis. Os sucessores de Saussure questionaram mesmo a possibilidade de justapor a perspectiva sincrónica com a perspectiva diacrónica uma vez que o estudo longitudinal descreve momentos que foram vivos numa determinada época do passado.

 Não é necessário para a compreender que, para  cada caso,  se analisem e determinem os critérios de significação. A percepção ultrapassa o pensamento criterial para dar conta da aparência significativa sem necessidade de reflexão metalinguística sistemática.

O poder da linguagem não reside, nem no futuro para onde se dirige, nem no passado mítico de onde vem, mas no seu “presente por ser capaz de  ordenar as pretensas palavras-chave de modo a fazer-lhes dizer mais do que jamais disseram, de modo a que ela se ultrapasse como produto do passado e nos dê a ilusão de ultrapassar qualquer fala e ir às próprias coisas porque ultrapassamos qualquer linguagem dada. A partir daí, há algo realmente adquirido, fundado para sempre e capaz de ser transmitido como os actos do passado o foram, não por termos captado um pedaço do mundo inteligível ou atingido o pensamento adequado, mas porque o uso presente da linguagem poderá ser retomado sempre que a mesma linguagem estiver em uso ou sempre que puder ser reactualizado.”[12]

Os signos, os morfemas, as palavras nada significam um a um; só adquirem significado pela sua justaposição: o sentido é algo que só aparece no intervalo das palavras uma vez que é a relação lateral dos signos que os torna significantes. Se o signo só significa alguma coisa por contraste com os outros signos da mesma cadeia, então conclui-se que o seu sentido está envolvido na linguagem. Numa cadeia sonora, a ausência de um signo pode ser um signo representado pelo espaço existente entre as palavras.

 A comunicação vai do todo da língua falada ao todo da língua ouvida. Falar é em cada momento pormenorizar uma comunicação cujo princípio já está posto. A fala teve que ter um começo e recomeça com cada criança que tem de ir do todo às partes da língua a partir do exemplo dado pela utilização da fala do adulto. A criança capta a língua primeiro como um conjunto vago e por um movimento de vai e vem. Cada um dos instrumentos de expressão emergem e suscitam novos arranjos do conjunto. Mas mantém-se a questão filosófica de saber em que se baseou a primeira fala da humanidade; não se apoiava numa linguagem já estabelecida; teria que ser significante por si própria, mas seria esquecer que o princípio da comunicação já estava dado antes dela, pelo facto do homem apreender o outro homem no mundo como parte integrante do todo. Tudo o que um homem faz já tem o mesmo sentido que o que outro fez porque a sua acção, da qual é espectador, visa os mesmos objectivos que os seus. A primeira palavra não se estabeleceu num vazio de comunicação porque ela emergia de condutas  comuns e enraizava-se num mundo sensível que já tinha deixado de ser privado. Trouxe mais a esta comunicação primordial e muda do que recebeu. Como todas as instituições, transformou o outro em homem; inaugurou um novo mundo. A primeira palavra permitiria ao homem tomar consciência de si mesmo e quebrar o silêncio pré-humano. A primeira palavra encontrou o seu sentido no contexto de condutas  comuns. Como não se pode inventariar, no funcionamento da linguagem estabelecida, o movimento pelo qual  o auditor ou o leitor ultrapassam os gestos linguísticos em direcção ao seu sentido; o mistério da primeira palavra não é maior que o mistério de qualquer expressão conseguida.

Em qualquer caso, há invasão de um espectáculo privado por um sentido ágil, indiferente às trevas individuais que ele vem habitar mas nunca rompe totalmente o “silêncio eterno” da subjectividade privada. Cada nova recepção contém o arquétipo do espanto da testemunha da primeira palavra. Só assim se compreende a linguagem. Dizer que nenhum signo isolado significa e que a linguagem reenvia sempre para a linguagem porque em cada momento apenas alguns signos são recebidos é também dizer que a linguagem exprime tanto pelo que está entre as palavras como pelas próprias palavras, e tanto pelo que ela não diz como pelo que diz; daí que traduzir para outra língua seja um fenómeno muito mais complexo do que as práticas parecem mostrá-lo.

Toda a compreensão  deriva do mundo humano da percepção e do gesto. Houve escolhas apenas determinadas pela intenção expressiva. Não  se escolhe um signo para uma significação já definida, tal como se adequa a escolha de uma ferramenta, tacteia-se em volta de uma intenção de significar que não dispõe de nenhum texto para se orientar que está exactamente a ser escrito. É necessário considerar a palavra antes que seja pronunciada no fundo de silêncio que a precede, que não cessa de acompanhar  e sem o qual não diria nada. É preciso estar atento a estes silêncios porque só se sabe o que se diz depois de tê-lo dito. Há para as expressões já adquiridas, um sentido directo que corresponde ponto por ponto a estruturas, a formas, a palavras instituídas. É porque já estão instituídas que as lacunas e os silêncios  não são ditos mas o sentido das expressões em vias de realização resultam da influência das próprias palavras. É um modo novo de mexer com o aparelho da linguagem porque o que se diz nunca tinha sido dito.

Uma vez que a percepção nunca se esgota, uma vez que só nos dá um mundo para exprimir e para pensar através das perspectivas parciais que  escapam por todos os lados, podemos concluir que existe um modo de comunicar que não passa pela evidência objectiva de uma significação, que não visa um objecto já dado, mas continua-o, inaugura-o, desperta o nosso poder de exprimir e de compreender. Para compreender a origem da significação, para compreender a criação, supõe-se um mundo inteligível onde tudo esteja significado de antemão. É necessário privar-nos de qualquer significação já instituída e regressar à situação de partida de um mundo não significante, que é sempre a do criador, pelo menos em relação ao que ele vai dizer.

Quando se ouve uma língua estrangeira que se compreende mal, ela parece-nos monótona, marcada por um travo demasiado forte, constante, precisamente porque não é nossa e não fazemos dela o principal instrumento das nossas relações com o mundo.

 Se a expressão é criadora em relação ao que metamorfoseia e se o ultrapassa sempre, fazendo-o entrar numa configuração onde ela muda de sentido, isso já era verdade em relação aos actos de expressão anteriores. E mesmo em certa medida da nossa percepção do mundo porque projecta a marca de uma elaboração humana.

Qualquer percepção ou qualquer acção que a supunha é já expressão primordial ou seja, não o trabalho segundo e derivado que substitui o expresso dos signos dados com o seu sentido e as suas regras de emprego, mas a operação que, em primeiro, constitui os signos em signos, faz habitar neles o expresso, não de acordo com alguma convenção prévia, mas pela eloquência dos seus próprios arranjos e da sua configuração, implanta um sentido  que não  tinha. É que, longe de se esgotar no instante em que tem lugar, abre um campo, inaugura uma ordem, funda uma instituição ou uma tradição.

A operação do corpo, a das palavras ou, no caso da arte, a da pintura parece obscura: as palavras, as cores e os traços expressivos saem do emissor como os seus gestos, são-lhe arrancados por aquilo que ele quer dizer como os seus gestos por aquilo que ele quer fazer. Neste sentido, há em toda a expressão e mesmo na expressão da linguagem, uma simultaneidade que não recebe instruções prévias. As palavras, na arte da prosa, transportam aquele que fala e aquele que ouve para um universo comum. A captação desse universo é a chave do início de qualquer operação de tradução.

Num acto ilocutório, o narrador deixa-se percorrer pelo visível e pelo invisível; selecciona o que pretende dizer e o que pretende silenciar. A principal mensagem significativa pode não estar em lado nenhum; pode não estar dentro das palavras, mas entre elas, nos espaços vazios e nas entrelinhas apenas apontadas por alguns vectores. O romancista conhece o leitor; estabelece-se entre eles uma linguagem de iniciados; o que ele tem a dizer, supõe-no conhecido. O escritor é capaz e encontrar as elipses, as elisões, as cesuras da conduta; o leitor responde à convocatória e encontra-se com o autor no centro de um mundo imaginário que ele governa e anima. O romance como relato de um certo número de acontecimentos, como enunciado de ideias, teses, conclusões, como significação directa, prosaica ou manifesta e o romance como inauguração de um estilo, significação oblíqua ou latente, está numa relação de harmonia.

Uma linguagem que só procurasse exprimir as próprias coisas esgotaria o seu poder de comunicação em enunciados de facto. Uma linguagem que transmite uma perspectiva sobre as coisas, que nele organiza um relevo, inaugura uma discussão sobre as coisas, a qual não acaba com ela, suscita ela própria a pesquisa, torna possível a aquisição, fornece pistas  cujos sentidos nunca estão totalmente desenvolvidos  porque colocam o auditor num mundo de que não possui a chave, ensina-lhe  a ver e dá-lhe que pensar mais do que qualquer obra analítica.

O que há de ambíguo, de irredutível a uma tese nas grandes obras literárias é o preço  a pagar para ter  uma linguagem conquistadora que não se limita a enunciar o que já se sabia, mas introduz-nos em experiências estranhas, em perspectivas sempre diferentes e libertas de  preconceitos.

É necessário suspender, interrogar, confirmar espaços e ideias nunca vistas. A linguagem literária só pode dizer coisas novas se  o leitor cessar de examinar de onde vem para a seguir para onde vai; é necessário deixar as palavras, os meios de expressão do livro envolverem-se nesta bolsa de significação que se devem ao seu arranjo singular virado para um valor segundo e tácito.

A novidade da expressão é que ela permite libertar a cultura tácita do seu círculo mortal. Quando as artes aparecem numa cultura, aparece também uma nova relação com o passado. Um artista não se contenta em continuá-lo pela veneração ou pela revolta; recomeça-o. No entanto as obras produzidas vão juntar-se às obras já feitas e a obra surge como um esforço para dizer aquilo que, no passado, tinha falhado. A obra dá-se como um esforço abortado para dizer algo que fica sempre por dizer.

O passado da linguagem não é apenas passado ultrapassado, mas também passado compreendido. A primeira palavra inaugura um universo; o sentido da palavra dizer dá preço à linguagem pela sua propriedade de revelar a própria coisa, de ultrapassar o enunciado em direcção ao que ela significa. Apesar de cada palavra remeter para todas as outras palavras possíveis e tirar delas o seu sentido, no momento em que se produz, a tarefa de exprimir já é diferida e remetida para outros palavras. A tradução torna-se difícil porque o sentido existe para além da linearidade das palavras.

O poder significante de cada signo não depende do poder dos outros que fariam círculo, nem de um poder global da língua: um todo pode ter outras propriedades que as suas partes; não pode ser feito a partir do nada. Cada acto linguístico parcial como parte de um todo e acto comum do todo da língua não se limita a despender o poder; recria-o porque  permite verificar, na evidência do sentido dado e recebido, a capacidade que os sujeitos falantes têm de ultrapassar os signos em direcção ao sentido do qual, o que se chama língua é apenas o resultado visível e o registo. Os signos não evocam só outros signos e isto sem fim, a linguagem não é como uma prisão onde estamos fechados ou um guia do qual teríamos que seguir cegamente as instruções porque no seu uso actual, na intersecção destes mil gestos, aparece finalmente o que eles querem dizer, o para quê remetem, um acesso tão fácil que depois de captado deixa a sensação de não ter sido necessário, mesmo se depois se verifica que ainda não tinha sido captado e que esta paragem, na volubilidade do espírito, era apenas para preparar uma nova partida numa constante progressão.

 As teorias ultrapassadas são conservadas pelas teorias posteriores; são-no apenas porque transformam em transparência o que nelas era opaco. Quando um escritor recebeu a língua em que escreve,  sabe que falta fazer tudo; terá que refazer a sua língua no seu próprio interior; ela só lhe fornece um sinal exterior das coisas; o contacto pretendido com elas não está no princípio da língua, mas no fim do seu esforço e neste sentido a existência de uma língua dada mascara a verdadeira função da fala mais do que  a mostra.

A linguagem não está ao serviço do sentido, entre um e outro não há subordinação. Ao falar ou ao escrever, não há uma referência a algo para dizer que seja exterior ou distinta de qualquer palavra. O que se quer dizer não é o excesso do que se vive sobre o que já foi dito. O aparelho de linguagem instala-se numa certa situação de saber e de história à qual é sensível e os enunciados são apenas o balanço final destas trocas. A linguagem vira as costas à significação; não se preocupa com ela; é muito mais uma profusão  de gestos ocupados na sua diferenciação e no seu recorte.

A linguagem só diz respeito a si própria; no monólogo interior, como no diálogo, não há pensamentos. As palavras são suscitadas por palavras na medida em que se pensa, as palavras preenchem tanto o espírito que não deixam lugares vazios para pensamentos puros e para significações que não sejam linguísticas. A questão é que ao mesmo tempo que a linguagem se encontra obcecada por ela própria, recebe como suplemento a capacidade de se abrir a uma significação. Encontrar apenas o que não procura parece uma lei do espírito. Num momento, este fluxo de palavras anula-se como ruído e arrasta-se para o meio de qualquer dizer. Se a resposta ainda é feita por palavras, é sem querer  porque não se pensam  palavras que surgem; elas tornam-se a própria presença de outrém. Por exemplo, quando na linguagem popular se diz “falar com os seus botões” acaba por ser o reconhecimento de si-mesmo como um outro com quem se dialoga e a quem se procura conhecer.

A linguagem é como a parte do olho que vê tudo, mas não se vê a si mesma. Escapa-se a quem a procura e oferece-se a quem lhe renunciou, não se pode considerar de frente, tem que ser pensada de viés,  e ser mimetizada. Mesmo que seja para mimetizar ou manifestar a linguagem, no momento em que se pensa apreender o mundo, não se capta porque  para o  captar seria necessário estar fora dele.

Quando a expressão falha,  fica-se com o sentimento de só lidar com palavras; pelo contrário, se ela for conseguida, as palavras parecem desaparecer por trás da significação como se não existissem.

A linguagem só permanece enigmática para quem continua a interrogá-la, ou seja a falar dela. A ideia de projecção, segundo a qual a fala de outrém não só desperta no auditor pensamentos já formados, mas ainda o arrasta para um movimento de pensamento que ele seria incapaz de ter sozinho e proporciona-lhe significações novas. A fala é o veículo do nosso movimento em direcção à verdade

Enquanto que na linguagem simples a significação surge para além dos signos e é apenas a manifestação de uma vibração, como o grito que transporta para fora e torna presente para todos o sopro e a dor daquele que grita, a linguagem muda ou operacional da percepção põe em movimento um processo de conhecimento que ela chega a realizar. Ela é chamada desde o seu primeiro momento pela evidência perceptiva, continua-a,  não se lhe reduz. É a fala ou a escrita  que permitem lançar outrém em direcção ao que o emissor  sabe e que o receptor ainda não compreendeu ou permite também ao próprio emissor  lançar-se em direcção ao que vai compreender.

A existência física dos sons, o traçado das letras no papel ou mesmo a presença de facto de tal ou tal palavra segundo o sentido dado pelo dicionário, ou mesmo certas frases feitas, não chegam para fazer o sentido. Há um interior e toda a sequência de palavras é apenas um sulco, só indica os pontos de passagem, mas as significações adquiridas só contêm a significação nova no estado de impressão ou de horizonte.

A escrita comunica com os homens e alcança através deles a verdade. Só se compreende este alcançar das coisas em direcção ao seu sentido, esta descontinuidade do saber, que atinge o seu ponto mais elevado na fala, se se interpretar como intromissão recíproca entre emissor e receptor.

Mesmo no diálogo, outrém nunca se apresenta de frente, o interlocutor nunca está completamente localizado, a sua voz, a sua gestualidade, os seus tiques são apenas efeitos, uma espécie de encenação, uma cerimónia. Segundo Merleau Ponty “os olhares que eu passeava no mundo como um cego tacteia com a bengala, alguém os agarrou pela outra ponta e volta-os contra mim para me tocar. Já não me contento em sentir; sinto que me sentem e que me sentem a sentir; e é a sentir isso mesmo que me sentem. Não basta dizer apenas que doravante habito outro corpo; isso seria apenas um segundo eu-mesmo, um segundo domicílio, mas há um eu que é outro sediado noutro lado e que me destitui da minha posição central, embora de toda a evidência ele só possa retirar desta filiação a sua qualidade de mim. Os papeis do sujeito e do que ele vê trocam-se e invertem-se. Eu julgava dar ao que eu vejo o seu sentido de coisa vista e uma destas coisas escapa a esta condição; o espectáculo atribui-se a si-próprio um espectador que não sou eu e que é copiado a partir de mim.”[13] É pelas réplicas que se sabe se a comunicação produziu ou não efeito. Na tradução, corre-se sempre o risco de interpretar à luz da réplica do tradutor e não do primeiro autor.

“Na experiência do diálogo, a fala de outrém vem tocar em nós as nossas significações e as nossas falas vão como se vê pelas respostas, tocar nele as suas significações nós intrometemo-nos um no outro  na qualidade de pertença ao mesmo mundo cultural e primeiro à mesma língua e que os meus actos de expressão e os de outrém relevam da mesma instituição. A partilha desta língua como os comportamentos instituídos de que sou o agente e a testemunha dão-me outro em geral difuso através do meu campo, um espaço antropológico ou cultural, a noção de uma presença.”[14] Começa aqui o empreendimento da comunicação e o rompimento do silêncio. A fala encarrega-se de revelar não só relações entre termos dados mas também os próprios termos destas relações.

 A sedimentação da cultura foi realizada pelo fundo comum aos gestos e às palavras que a originaram. No momento em que a primeira significação humana é expressa, tenta-se um empreendimento que ultrapassa a pré-história comum mesmo prolongando-lhe o movimento. A sua operação deve ser concebida fora de qualquer significação já instituída, como o acto único pelo qual o homem falante se atribui um auditor e uma cultura que lhe seja comum.

A racionalidade, a concordância dos espíritos não exige que todos cheguem à mesma ideia pela mesma via ou que as significações possam estar fechadas numa definição; exige apenas que qualquer experiência tenha pontos de ancoragem para todas as ideias e que as ideias tenham uma configuração

Trata-se de um mundo cultural onde a fala é o poder que temos para servir certas coisas devidamente organizadas, para pôr em relevo, para diferenciar, conquistar, arquivar as significações no limiar do mundo sensível.

Ao contrário do que parece, não deve ser determinada uma oposição de passividade versus actividade em relação aos actos de falar e de ouvir, escrever e ler “Falar não é apenas uma iniciativa minha, ouvir não é sofrer a iniciativa do outro”[15] isto porque cada sujeito falante é impelido para a procura do devir da verdade.

A significação parece preceder os textos que a manifestam, não pelo facto de fazerem descer na terra ideias que seriam preexistentes num céu inteligível ou na natureza ou nas coisas, mas pelo facto de cada palavra não ser apenas expressão disto mas, dar-se de repente como fragmento de um discurso universal, de anunciar um sistema de interpretação.

O falante comum não se questiona de antemão se a palavra é possível, não se deixa arrastar pela paixão da linguagem que consiste em ser obrigado a dizer tudo, se quiser dizer alguma coisa. Coloca-se numa postura cómoda, continua em voz alta o monólogo interior, o seu pensamento germina em palavras; é compreendido sem tê-lo procurado: torna-se outro ao dizer o que tem de mais próprio; sente-se bem, não se sente exilado de outrém porque está totalmente convencido de que as suas evidências são a verdade. Mesmo quando um autor considera o seu texto terminado, ele encerra outros significados que apenas cada um dos leitores descobrirá para além do eixo sintagmático aparentemente cristalizado sob a forma de escrita. Trata-se de levar mais longe o alcance que cada obra tem, como se cada novo texto tivesse como intenção subjacente retomar os anteriores e levá-los mais longe. Husserl fala a este propósito de uma fecundidade ilimitada de cada presente que produz novas vidas como forma nobre de memória. Por isso, traduzir implica sempre penetrar na subjectividade do outro.

A descrição da relação  que se estabelece entre a língua, como ser volúvel e permanentemente transitório, e o sujeito falante aponta para uma tensão permanente. O acto tradutório deveria incidir sobre uma língua parada no tempo e no espaço, para a poder captar. A volubilidade da língua em situação torna-a esguia, impossível de cristalizar.

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 2.2- estruturação do mundo pela linguagem

 

A impossibilidade  teórica da tradução remete para várias questões: pensamos num universo modelado pela própria linguagem? A nossa visão do mundo depende realmente dos prismas deformadores de cada língua particular utilizada? Será que quando se fala do mundo em duas línguas diferentes, não se fala exactamente do mesmo mundo e que, por conseguinte, a tradução de uma língua para outra não só não é legítima como é materialmente impossível do ponto de vista científico?

De acordo com Merleau Ponty “quando outrém está no meu campo visual no meio de outros objectos e começa a dirigir-lhes gestos, a usá-los, não posso duvidar que o mundo ao qual se dirige seja o mesmo que eu percepciono. Se ele percepciona algo, será o meu próprio mundo, uma vez que ele nasceu daí. Embora percepcione o mesmo que eu, a sua percepção não será minha, por isso, como é que a encaixo no meu mundo? Não faz parte do corpo, outrém não está nas coisas. Não está no seu corpo e não sou eu. Não se pode colocar em lado nenhum, nem no em si, nem no para si que sou eu. Só há lugar para ele no meu campo. Desde o primeiro momento em que eu utilizei o meu corpo para explorar o mundo, soube que esta relação corporal ao mundo podia ser generalizada. Outrém não está em lado nenhum no ser; é por trás que desliza na minha percepção; é a experiência que eu faço da tomada do mundo e me torna capaz de reconhecer outra e de perceber outro eu mesmo.”[16] O mundo não é só para o locutor mas para tudo o que nele aponta para ele. Há uma universalidade do sentir na condição dos falantes partilharem o mesmo espaço linguístico. O facto de pertencerem a um único mundo,  implica a união do individual com o universal devido à intimidade de toda a expressão com ela própria. Segundo a dialética de Hegel não é possível optar “entre o para si e o para o outro, entre o pensamento segundo nós mesmos e o pensamento segundo o outro, mas que, no momento da expressão, o outro a quem me dirijo e eu que me expresso estamos ligados sem hipótese de ruptura.[...]As palavras transportam aquele que fala e aquele que ouve para um universo comum, conduzindo-os a uma significação nova, mediante uma potência de designação que excede a definição que elas receberam, mediante a vida surda que levaram e continuam a levar em nós, mediante o que Ponge chama com acerto «espessura semântica», e Sartre, «Húmus significante».”[17] Para explicar a comunicação, não basta invocar a nossa pertença a um mundo comum, pode-se apenas dizer que o nosso enraizamento numa mesma terra, a nossa experiência de uma mesma natureza lança-nos neste empreendimento.

Segundo a tese humboldiana, as pessoas falantes de línguas diferentes podem falar de um objecto comum, mas sempre de um ponto de vista diferente, partindo de experiências distintas.

Harris[18] desenvolveu provas gerais de ordem lógica e teórica. Partindo da existência de estruturas distribucionais nas línguas, ou seja de regularidades analisáveis em função da localização ocupada no discurso, procurou saber se essas estruturas não reflectiam automaticamente a estrutura do universo, tendo mostrado que não, por várias razões. Verificou que a estrutura de uma língua não se identifica com a estrutura do mundo físico porque um mesmo facto físico invariável pode ser expresso por estruturas linguísticas diferentes. Outro argumento de Harris é a observação de que não há modificações significativas na linguagem de uma pessoa que acumula novas experiências do mundo ao longo dos anos. A estrutura da linguagem não está em conformidade com a estrutura da experiência objectiva porque a linguagem permanece sensivelmente a mesma apesar do  modo de organização do que se sabe sobre o mundo sofrer modificações ao longo da evolução do indivíduo, à medida que aumenta o conhecimento. Uma terceira razão advém do facto de ocorrerem situações onde permanece a impressão da impossibilidade de expressão de uma ideia ou sentimento que se julga possuir. Pela mesma ordem de ideias, surge por vezes a impressão de que aquilo que se pretendia exprimir não recebeu a forma de execução que se considera mais adequada ao pensamento.

Cada língua tem uma forma própria de organizar os dados da experiência, daí que aprender uma nova língua não consista apenas em colocar rótulos novos em objectos «velhos». A aprendizagem consiste em analisar, de outro modo, os objectos das comunicações linguísticas. Segundo Martinet, “as palavras de uma língua não têm equivalentes exactos noutras, o que naturalmente acompanha a variedade dos dados da experiência. [...]Uma língua é um instrumento de comunicação segundo o qual, de modo variável de comunidade para comunidade, se analisa a experiência humana em unidades providas de conteúdo semântico e de expressão fónica”[19].

A colaboração da sociologia, da antropologia cultural e da etnologia com a linguística reforça os fundamentos para uma impossibilidade da tradução porque permitiu aceitar a existência de culturas ou civilizações diferentes com «mundos» reais próprios, distintos uns dos outros. Segundo Merleau Ponty, a predominância de vogais numa língua, de consoantes noutra, os sistemas de construção e de sintaxe não representariam diferentes possibilidades de convenções arbitrárias mas vários modos do corpo humano celebrar e viver o mundo. Daí resultaria a impossibilidade de traduzir o sentido absoluto de uma língua. Podemos falar várias línguas mas é sempre numa delas que vivemos. Para assimilar totalmente duas línguas seria necessário assimilar dois mundos diferentes já que se não pode viver em dois mundos ao mesmo tempo.

De acordo com a corrente iniciada por Humboldt, questiona-se se essas civilizações são impenetráveis em profundidade  umas pelas outras. Whorf defende que há diferenças nas estruturas do pensamento humano capazes de distinguir a cultura ocidental das culturas ditas exóticas. Aponta como razões para estas diferenças, umas vezes a infra-estrutura económico-social, outras vezes o próprio pensamento ou a língua na medida em que dá forma ao pensamento.

A generalidade dos estudos referentes às dificuldades da tradução não têm em conta a distinção entre os problemas originados por modos diferentes de olhar a realidade e as formas distintas de nomeá-la. Enquanto se fazem passar os enunciados de uma experiência linguística para outra, é necessário fazer também passar a imagem ou a representação dos dados enunciados. Em certos casos, a comunicação da experiência do mundo é impossível por falta de correspondência, de situações únicas, não reprodutíveis na língua de chegada. Essa impossibilidade, segundo Nida[20] pode depender de cinco domínios: ecologia, cultura material, social, religiosa e  linguística. Em relação à cultura material, o choque verifica-se pela distinção dos dados da experiência de acordo com os tipos de tecnologias correspondentes a cada região do Globo. A tradução da Bíblia fornece exemplos elucidativos. É o caso da noção de semeador que é encarada de modo distinto consoante se trate de um local geográfico ou de outro. Não se semeia do mesmo modo num país deserto e numa terra fértil onde a semente é atirada ao ar. É ainda o caso de nomes de produtos típicos de certas regiões. Não têm tradução; quando se importa o produto, importa-se geralmente o nome de uma forma directa ou adaptada. É também o caso de uma infinidade de termos técnicos próprios a uma profissão, dependentes essencialmente de um uso privado da língua que acaba por formar campos lexicais praticamente sem correspondências noutras culturas.

Em relação à cultura social, já não é a ausência dos objectos que coloca o problema da tradução, mas a distinção da estrutura social que origina situações de não correspondências devido aos diferentes tipos de estratificação ou mesmo de interpretação dos dados sociais e económicos.

De uma forma talvez ainda mais acentuada, encontra-se a distinção entre os mundos da experiência ideológica de civilizações diferentes. A tradução de vocábulos dos campos conceptuais das religiões coloca problemas quando se pretende veicular a ideia numa língua onde essas referências não existem. Mesmo no seio de uma única religião, a exegese pode originar traduções diferenciadas. No século IV, por exemplo, São Jerónimo traduziu a Bíblia do grego para o latim. Essa tradução, a Vulgata, esteve posteriormente na base da maioria das traduções modernas. A interpretação da proibição das modalidades de culto aos ídolos, feita por São Jerónimo, foi alargada abrangendo  sentidos da área do consumo de sangue na alimentação humana. Na origem tratava-se apenas de proibir sacrifícios de sangue por imolação de vítimas, de acordo com o Concílio de Jerusalém realizado no ano 49 e narrado, aproximadamente no ano 60, por São Lucas, no capítulo XV dos actos dos Apóstolos. Essa interpretação está na origem de posteriores cisões no seio do cristianismo. Além disso, admitindo que é a linguagem que produz o pensamento, verifica-se que há estruturas de pensamento tão diferentes como as estruturas de cada língua, e por isso mesmo, cada língua forma a sua própria concepção do mundo, a sua ideologia subjacente, o que reforça a tese da impenetrabilidade de uns mundos pelos outros.

A verificação da impossibilidade de tradução motivada pela diferenciação cultural levanta anda o problema da determinação do valor a atribuir à comunicação na sua relação com a tradução.

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3- Falência da comunicação face à tradução

 

Cada vez mais se enraíza o postulado segundo o qual a comunicação entre os homens é impossível porque nada se pode comunicar. A tradução, vista por este prisma, é impossível devido à falência da própria linguagem mesmo na comunicação unilingue.

Humboldt é partidário do solipsismo linguístico apesar do realismo de um pensamento essencialmente positivista o situar no plano da universalidade da experiência humana. Considera que “uma troca de palavras e de concepções não é a transmissão de ideias de uma pessoa a outra; para aquele que assimila como para aquele que fala esta ideia deve sair da sua própria força interior: tudo o que o primeiro recebe consiste unicamente na excitação harmónica que o coloca num determinado estado de espírito[...] As palavras, mesmo as mais concretas e transparentes, estão longe de despertar as ideias, as emoções e as recordações que aquele que as pronuncia presume”[21].  A ideia da falência da linguagem como meio de comunicação foi aprofundada por Nicolas Roubakine[22], um discípulo de Humboldt, quando afirmou que qualquer livro se limitava a projectar para o exterior a mentalidade do leitor porque a convicção de que o livro possui um conteúdo destinado a ser transmitido é falsa. Esta teoria é o reverso absoluto de outra ideia anterior, de acordo com a qual se pensava ser possível dizer tudo o que se quisesse desde que fosse claramente concebido.

A análise pormenorizada dos actos de comunicação revela a existência de vários níveis de realização da linguagem. Enquanto que o solipsismo linguístico se baseava na ideia dicotómica do sucesso ou do insucesso do acto locutório, a linguística moderna verifica que existem vários níveis de consecução. A comunicação pode ser aproximada ou  relativa, dependendo do grau de percepção e da própria experiência do auditor. O solipsismo linguístico não tem em conta a diversidade das visões do mundo, das experiências que cada civilização tem do mundo exterior; assenta na ideia de que a linguagem tem zonas sombrias, margens de incerteza; é incapaz de comunicar os valores afectivos; valoriza as funções expressivas e estéticas da linguagem e desvaloriza totalmente a função comunicativa prática e a função lógica da linguagem. É necessário considerar que, de acordo com Borgström[23], mesmo os estados afectivos têm componentes publicamente observáveis. Além disso, a alternância de papeis entre o locutor e o auditor leva a que as suas experiências possam ser socializáveis. Mesmo que, por exemplo, se interprete a dor do outro com os dados da nossa própria experiência de dor, há uma zona de convergência entre as duas experiências e, por isso, é possível comunicar.

A linguística pretende mostrar que, se a teoria da não comunicação peca por defeito, a teoria da comunicação absoluta falha por excesso. Para isso, centrou-se no estudo das funções distintas da linguagem. Bloomfield[24] verificou que nunca há duas situações iguais apesar de haver pontos de convergência entre elas. Distinguiu as variáveis macroscópicas, idênticas para os diferentes locutores, das variáveis microscópicas, onde se incluem os traços mais obscuros, e variáveis, distintos de locutor para locutor, mas sem importância social imediata. Bloomfield introduziu a noção de traços semânticos pertinentes, socialmente comuns entre o locutor e o auditor, baseados na experiência de uma partilha social comum e partindo de uma mesma base física: o mundo sensível. Esse ponto comum permanece no domínio público. Fica toda uma gama de experiências do domínio privado em relação às quais não se conhece a experiência do «outro». A criança adquire progressivamente a significação do signo por referência à situação em que se realizam os enunciados e por aproximações sucessivas aos traços pertinentes das situações comunicacionais, eliminando da significação os aspectos não pertinentes. Aprende-se simultaneamente a linguagem, a comunicação e uma língua particular. É somente por isso que é possível   a aprendizagem das línguas estrangeiras abrindo o caminho para a tradução. W. V. Quine[25] chama tradução radical à capacidade de aprendizagem de uma língua estrangeira apenas por referência às situações nas quais essa língua é usada pelos falantes nativos.

Verifica-se que, enquanto a tradução parece defrontar-se com múltiplos problemas, ao contrário, a comunicação unilingue realiza os objectivos para que foi criada. Daí decorre outra questão lógica: até que ponto o estudo do fenómeno do bilinguismo pode contribuir para a descoberta dos hiatos existentes entre as várias línguas?

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4- O bilinguismo

 

As diferenças entre os sons da fala, o vocabulário, a estrutura de superfície e as categorias gramaticais das diferentes línguas são evidentes. Mas o facto de também existirem diferenças conceptuais muitas vezes só se torna evidente, quando observamos as dificuldades na tradução de certas palavras e expressões. Todas as comunidades linguísticas têm a sua própria maneira de encarar a realidade, isto é, de traduzir a realidade em conceitos.

 Existem certos conceitos universais, iguais em todas as línguas, mas também existem outros conceitos que não são iguais nas diferentes línguas. As fronteiras destes conceitos diferem de língua para língua; tanto podem ser traduzidos por várias palavras de uma outra língua como surgirem como  verdadeiros obstáculos à tradução.

A existência de fenómenos como o bilinguismo é passível de fornecer esclarecimentos úteis para o entendimento do processo tradutório. A observação da essência do bilinguismo poderá desempenhar um papel importante para a definição de uma teoria da tradução.

Appel e Muysken[26] partem do princípio que o bilinguismo é uma consequência do contacto mútuo entre duas ou mais línguas. Evidentemente, as circunstâncias sociais são de grande influência para a aquisição bilingue mas o fenómeno é fundamentalmente individual.

Dentro de uma sociedade podem existir duas línguas ou dois códigos linguísticos diferentes, tendo cada um deles uma função comunicativa fixa. Neste tipo de sociedade bilingue, cada pessoa é bilingue. No entanto, a maioria da definições de bilinguismo partem do princípio de unilinguismo como norma geral.

Um aspecto importante de bilinguismo deriva da necessidade de escolher o uso de uma ou de outra língua, consoante a situação do dia a dia. Se um bilingue aprende a sua primeira língua em situações predeterminadas, e a segunda língua noutras situações, a sua proficiência linguística poderá ser diferente de língua para língua. Existem sempre determinadas situações em que o bilingue somente aplica a primeira língua e outras onde prefere a segunda.

Os factores sociolinguísticos determinam, em grande parte, a situação bilingue como se vê nas definições sociolinguísticas de bilinguismo individual, por exemplo, de acordo com Weinreich[27]: “bilinguismo é o uso alternado e regular de duas ou mais línguas”.

Esta definição é ainda agora reconhecida como valiosa, por exemplo por Mackey[28] e por Grosjean[29]: “pessoa que usa duas ou mais línguas na vida diária”. No seu prefácio Grosjean sublinha que os bilingues não precisam necessariamente de ter igual fluência nas duas línguas.

Hakuta[30] apresenta propositadamente uma definição de bilinguismo muito aberta dizendo que uma pessoa é bilingue se consegue produzir expressões significantes em pelo menos duas línguas diferentes. A vantagem de uma definição tão aberta é, segundo Hakuta, permitir a consideração do desenvolvimento de bilinguismo. O bilinguismo não é um estado psicolinguístico e sociolinguístico fixo, mas consiste num contínuo, que trata de desenvolvimentos linguísticos, como, por exemplo, a aquisição de uma segunda língua.

Hoffmann[31] afirma que uma grande quantidade de factores contribuem para a descrição e a explicação do bilinguismo.

Na descrição de tipos de bilinguismo, a distinção da idade é de valor importante. Distingue-se bilinguismo inicial de bilinguismo posterior: considera-se inicial quando o bilingue aprendeu as duas línguas na sua fase inicial de socialização; é posterior quando se trata da acumulação de uma

segunda língua ao seu repertório linguístico numa fase posterior à primeira socialização.

A ordem cronológica da aquisição de duas línguas determina se o tipo de bilinguismo é simultâneo ou consecutivo. Se uma criança ouve e aprende duas línguas desde que nasceu, fala-se de bilinguismo simultâneo. No caso de bilinguismo consecutivo, a criança começa o processo de aquisição linguística com um único sistema linguístico, e mais tarde, por exemplo, ao entrar na escola primária, adquire mais uma língua. A ordem cronológica está nitidamente ligada ao factor da idade da aquisição bilingue.

Uma consequência da aprendizagem de uma segunda língua pode-se manifestar quando a primeira língua da criança é suprimida pela segunda: neste caso fala-se de bilinguismo subtractivo. Se o conhecimento da primeira língua se mantém intacto e apoiado, enquanto a criança acrescenta uma segunda língua ao repertório linguístico, trata-se de bilinguismo aditivo.

Esta distinção foi feita na formulação de teorias sobre crianças bilingues de grupos minoritários em sociedades multilingues.

O contexto da aquisição bilingue é outro factor que predetermina o tipo de bilinguismo. Se uma criança bilingue cresce num ambiente em que duas línguas são faladas em contextos separados, por exemplo, em casa uma língua e na escola outra, a separação dos contextos influencia o tipo de bilinguismo da criança. O bilinguismo será de carácter diferente quando o indivíduo cresce num ambiente em que as duas línguas são faladas no mesmo contexto.

Na sua tipologia de bilinguismo, Weinreich distingue três relações diferentes entre os dois sistemas linguísticos no cérebro bilingue. A relação entre os dois sistemas pode ser coordenada, subordinada ou composta.

Na relação coordenada , as duas línguas são equivalentes. Este tipo de bilinguismo forma-se pela aquisição de duas línguas na mesma fase de desenvolvimento linguístico da criança bilingue.

Na relação subordinada , uma das duas línguas domina a outra. Para o tipo de relação composto , os dois sistemas linguísticos têm uma estrutura de fusão.

Tanto o bilinguismo subordinado como o bilinguismo composto acontecem quando a segunda língua é adquirida depois de uma primeira fase de socialização do bilingue.

O problema que o bilinguismo como área de estudo propõe, é a medida em que um falante deve dominar as duas línguas para ser considerada bilingue. Romaine[32] menciona os elementos de domínio linguístico perante os quais as proficiências do bilingue podem ser avaliadas: a fala, a escrita, a leitura e a compreensão. Estas proficiências podem ter níveis diferentes: fonológicos/gráficos; sintácticos; lexicais; semânticos e estilísticos.

A proficiência individual do bilingue é vista como uma escala contínua dentro da qual uma grande variação pode ocorrer. As relações de dominância entre as diferentes proficiências das duas línguas podem divergir de bilingue para bilingue. Por exemplo: um bilingue poderia saber falar e entender melhor uma língua do que escrevê-la e lê-la, se nunca obteve formação escolar nessa língua. Entre os níveis também pode haver discrepâncias: os bilingues podem, ao nível de pronúncia, dominar uma língua perfeitamente, enquanto a sua proficiência sintáctica não é adequada.

Também está provada a existência de ligações entre os níveis de proficiência: um exemplo é o facto de alguns bilingues saberem falar a primeira língua com o sotaque pertencente à segunda língua, aplicando assim as regras fonológicas da segunda língua à produção do sistema morfológico-sintáctico da primeira.

As causas das diversificações em níveis das proficiências situam-se, entre outros, no contexto social da aquisição bilingue.

Os bilingues podem sofrer de interferências quando realizam a fala, ocupando zonas de afastamento em relação às normas de cada uma das línguas. Estas zonas de contacto dependem sempre de um locutor individual. No caso dos tradutores essas zonas caracterizam-se por  comportamentos linguísticos particulares: emprego de neologismos, tendência para o empréstimo, o decalque, as citações não traduzidas, a manutenção no texto de palavras ou estruturas não traduzidas. No entanto, “poder-se-ia questionar se existe um bilinguismo total, a cem por cento; isso significaria que uma pessoa pudesse empregar cada uma das duas línguas em qualquer situação, com a mesma facilidade, a mesma correcção, a mesma capacidade que os locutores autóctones. E se tais fenómenos existissem, seria difícil ver como é que poderiam interessar o linguista porque os fenómenos de interferência estariam excluídos por definição”[33] Note-se que, do ponto de vista da evolução da língua, muitos galicismos e anglicismos introduzidos por falantes bilingues acabaram por se incorporar na norma. 

A definição da função de bilinguismo parte do princípio que o bilinguismo é uma característica da linguagem em vez da própria língua. O bilinguismo pertence à área da langue saussureana e não à da parole.

Para muitos bilingues, as duas línguas têm funções separadas ou são empregadas em situações diferentes na vida quotidiana.

O uso de duas línguas, alternadamente, na linguagem do dia a dia, é uma faculdade da produção linguística muito comum para bilingues. A noção, designada com o termo mudança de código, tem funções complexas no repertório linguístico bilingue, uma delas sendo a identificação do bilingue com a subcultura que se forma através da mistura de duas culturas, por exemplo, a segunda geração de um grupo de migrantes. Este aspecto tem a ver com a atitude linguística.

A identificação do próprio bilingue com o seu bilinguismo, e também a identificação do grupo linguístico-social respeitante quanto ao bilinguismo do indivíduo, são de valor importante no estabelecimento de uma definição de bilinguismo. Um bilingue perfeito devia ser identificado por membros dos dois grupos sócio-culturais como falante nativo da língua respectiva. Este factor do bilinguismo toca no tema do biculturismo: I. A. Richards, um lógico, linguista e sinólogo levanta a seguinte questão: “podemos manter dois sistemas de pensamento correspondentes a duas línguas, exprimindo duas visões do mundo tão distantes como a chinesa e a inglesa, no nosso espírito, sem que se produza uma contaminação recíproca entre os dois, contaminação que, por consequência, mediatiza de certa forma estes dois sistemas de pensamento? Será que tal mediação não requer um terceiro sistema de pensamento bastante geral e compreensivo para os dois primeiros? [...]e como fazer para impedir este terceiro sistema de ser apenas o nosso modo de traduzir o nosso pensamento, o nosso sistema de pensamento familiar, bem estabelecido, dotado de uma terminologia nova, ou travestida? Pensando traduzir, apenas adaptamos...”[34]. Merleau Ponty afirma que “Pelo facto de eu falar, a minha língua não é encarada como uma soma de dados, mas como um único instrumento destinado à vontade total de expressão. Por isso, sou capaz de entrar noutros sistemas de expressão, aceitando-os, primeiro como variantes do meu sistema, depois, deixando-me habitar por eles ao ponto de pensar o meu como uma variante daqueles.”[35]

Weinreich apresenta três tipos de organização linguística em bilingues:

No tipo de organização coordenada, os dois sistemas linguísticos estão organizados inteiramente em separado. Para cada uma das duas línguas existe um léxico interno, com a forma fonológica e o significado registados separadamente. No tipo de organização subordinada, uma das línguas domina a outra. Só a língua dominante tem um léxico interno. As palavras da língua dominada são derivadas do léxico da língua dominante. No tipo de organização composta, existe um sistema conceptual a que ambas as línguas têm acesso. As etiquetas lexicais representando o mesmo conceito estão ligadas entre si.

Essa teoria oferece a possibilidade de diferenciar a forma de bilinguismo juntando os elementos de aquisição e função linguística.

A organização lexical coordenada de bilingues confirma que os conceitos são dependentes de cada língua. Não existem equivalências entre  conceitos de línguas divergentes.

A organização composta, contrariamente, é uma afirmação da teoria universalista, segundo a qual os conceitos são independentes da língua.

Paradis[36] pesquisou a organização do léxico estudando bilingues que sofriam de afasia. Apresentou hipóteses diferentes sobre a organização lexical no cérebro e concluiu que  o léxico é como uma rede. Os elementos linguísticos têm cada um o seu próprio lugar dentro da rede, tendo correlações com outros elementos. Essas relações podem ser reforçadas pelo uso habitual mas não provam a existência de simetrias perfeitas entre as línguas. Na prática social da língua, as situações publicamente observáveis provam  que existe comunicabilidade entre as línguas. Richards diz que “a linguagem é a nossa tentativa colectiva para minimizar diferenças pessoais de significação”[37] mas não mostra que a tradução seja teoricamente possível porque os próprios bilingues alternam o uso da língua em função dos tipos de comunicação que pretendem efectuar. A comunicabilidade revela-se, por conseguinte, distinta da tradutibilidade.

 

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Capítulo II

 

TRADUTIBILIDADE E INTRADUTIBILIDADE

 

 

1- Problemática da intradutibilidade

 

As principais teorias da impossibilidade de traduzir datam do século XVIII e pressupõem uma época em que o problema da tradução apenas se colocava a partir do latim e do grego, ou mesmo do francês, castelhano e italiano. A elite, que tinha acesso à cultura, possuía disponibilidade suficiente para aprender as línguas de cultura de que necessitava, daí que as traduções assumissem uma função meramente escolástica ou facultativa.

Em todas as épocas, os tradutores foram criticados e raramente elogiados. As notas de rodapé explicativas das opções tomadas são o sintoma do que George Mounin chama  tradicionite[38], a fóbica doença irracional que considera sempre o receio de não conseguir transmitir a expressividade dos vocábulos estrangeiros. Os teóricos da impossibilidade da  tradução insistem no grande argumento de que a tradução não é o original. Acusa-se o tradutor de não pensar, de falar pelos outros, deixando que eles pensem por ele. Houve ainda argumentos históricos contra a tradução baseados na seguinte ideia: as línguas e literaturas estrangeiras ocupam o espírito nacional, limitando-lhe a produção original em língua materna. Tratava-se de argumentos nacionalistas circunscritos no tempo e totalmente ultrapassados.

É frequente apontarem-se argumentos impeditivos da tradução em áreas extra-linguísticas que dizem respeito mais à interpretação ou simplesmente à identificação dos valores dramatizados no texto original. O tradutor receia que os informantes textuais, perfeitamente enquadrados na sociedade que enforma o texto original, não sejam compreendidos pelos leitores de outras sociedades; porque, mais do que as palavras, é necessário conhecer o modus-vivendi em que elas surgiram. Expondo a nudez do texto original, o tradutor receia ferir a susceptibilidade dos seus leitores, por isso atenua, trai, suaviza com o objectivo de encontrar a ponte possível entre os dois mundos linguísticos.

As traduções são sempre consideradas como maus substitutos, incapazes de preservar todas as qualidades do texto original. Os argumentos de Joachim du Bellay, citados por Mounin, estão ancorados nas diferenças linguísticas distintivas de cada língua. Trata-se de oposições semânticas, fonéticas e estilísticas que, obviamente, se perdem nas traduções visto que as propriedades sonoras da frase, o seu ritmo, as suas figuras de retórica e outros ornamentos, enfim todo o estilo pessoal do autor é substituído por outras formas físicas existentes na língua de chegada.

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2- História e tipologia da tradução

 

Os estudos teóricos organizam a  história da tradução de acordo com  três períodos correspondentes a modos diferentes de pensar.

O primeiro período, centrado nas teorias universalistas ( da época de Cícero até ao fim do século XVIII): o período relativista  ( do século XVIII até ao princípio do século XX), e finalmente, o terceiro período que recobre as traduções do pós-guerra correspondendo à fase da abordagem estruturalista, neo-hermenêutica e finalmente à abordagem sistemática.

A teoria universalista caracteriza-se por uma visão universal da língua. A realidade é considerada universal, sempre a mesma em todo o lado, mas cada língua traduz esta realidade de modo diferente. Separam-se nitidamente as coisas das palavras; os conceitos de que se fala são os mesmos mas exprimem-se por palavras diferentes. De acordo com esta ideia, torna-se sempre possível traduzir um texto uma vez que os conceitos são idênticos em todas as línguas. Em geral não se reconhecem  problemas inerentes à tradução mas atribuem-se os erros à falta de perícia do tradutor. Um dos primeiros textos onde se fala dos métodos da tradução é De optimo genere oratorum de Cícero. O autor distingue o método “textual” (a língua alvo e o texto alvo estão totalmente subordinados ao original) no qual se mantém a ordem das palavras e o método “livre” (a língua alvo e o texto alvo são centrais e as ideias do texto fonte são transmitidas o melhor possível). São Jerónimo é partidário do segundo método no que diz respeito à tradução da Bíblia. Martin Lutero era, como São Jerónimo, partidário da tradução livre. A tradução palavra a palavra era desprezada por originar frases sem sentido ou com falsos sentidos. O respeito pela sintaxe não dá conta das elipses culturais, dos subentendidos captados pela experiência, das significações derivadas de algumas palavras em relação às quais apenas a vivência atribui um conteúdo. Cícero, ao falar da tradução dos discursos de Demóstenes e de Ésquines, diz não os ter traduzido como simples tradutor mas como escritor, respeitando as suas frases, as figuras de retórica, utilizando termos adaptados aos hábitos latinos, não julgando necessário traduzir palavra a palavra, mas conservando o génio das palavras e o seu valor. Cícero estabelecia uma relação entre o peso e o número das palavras. O peso, ou seja, o significado é que deve contar porque a tradução não é um mero exercício de correspondências vocabulares. Para ele, o importante era reproduzir o génio da língua estrangeira.

A tradução palavra a palavra, linha a linha, teve, apesar de tudo, momentos de grande implantação na história, visto que foi introduzida na tradição escolar.  A reflexão medieval inspira-se em São Jerónimo que por sua vez se apoia em Cícero pondo a questão em termos de tradução ad uerbum ou ad sensum.

 Uma obra teórica de grande importância para o período universalista é De interpretatione recta (1440) do humanista italiano Leonardo Bruni. Foi o primeiro a exigir a manutenção, na tradução, do conteúdo e do estilo do original. Bruni formula uma lista de exigências às quais o tradutor deve obedecer: dominar totalmente a língua estrangeira, aprofundar os seus conhecimentos com a leitura do maior número possível de escritores dessa língua, conhecer todas as subtilezas da sua própria língua, ser capaz de analisar o estilo pessoal do autor do original para o transmitir na tradução.

A maioria dos humanistas do século XVI associa-se ao ponto de vista de Bruni mas verifica que se colocam grandes problemas à tradução ao querer transmitir nas línguas neolatinas a riqueza e o desenvolvimento das línguas clássicas. Como as línguas modernas ainda estavam em vias de desenvolvimento, seria necessário introduzir múltiplos neologismos. Bruni defendia o método da tradução “fiel” que não permite o recurso ao neologismo mas deparava-se com o intraduzível. No livro De optimo genere interpretandi (1640), Pierre Daniel Huet sublinha que é de facto impossível traduzir um texto. É impossível que uma tradução seja equivalente ao original uma vez que os sistemas linguísticos são diferentes. Apesar disso, o tradutor deve traduzir da forma mais fiel possível.

No século XVII, no período clássico, traduzia-se de modo mais livre do que nunca. O original era totalmente  adaptado às convenções literárias da cultura alvo. Considerava-se uma boa tradução aquela que estivesse formulada de modo mais elegante que o original. As traduções homéricas realizadas nos séculos XVI e XVII pelos franceses Peletier du Man, M. de la Valterie, La Motte-Houdar e Mme Dacier procuraram atenuar, contemporizar referências a usos e costumes banais na Grécia homérica mas que chocavam os espíritos dos habitantes dos séculos XVI e XVII. Nessas traduções, por exemplo, as preferências sexuais dos heróis são sempre suavizadas ou propositadamente deixadas na ambiguidade para evitar o choque cultural com o novo pensamento.

Até finais do século XIX, e nalguns casos mesmo até hoje, a tradução considerada elegante em nome das conveniências éticas levou autores como Egger em 1846 a considerar que uma boa tradução dos textos homéricos se tinha tornado impossível.

 Em Inglaterra, John Dryden, tradutor de poetas clássicos como Homero, opunha-se às concepções que ele considerava demasiado livres. Na obra Preface to Ovid’s epistles (1680) inventariou regras a evitar: O tradutor não deve traduzir palavra a palavra; nem pode utilizar o texto de partida como um tema sobre o qual improvisa livremente. Ao mesmo tempo, ia surgindo um movimento a favor da tradução fiel. Em 1725, Pope criticava a veleidade dos tradutores empenhados na correcção e nobilitação de Homero. Leconte de Lisle preconizava o regresso à tradução palavra a palavra com o objectivo de captar a exactidão do sentido e a literalidade. Georges Mounin considera que esse movimento dialéctico obedece mais a factores sociais do que estéticos. “Ao homem eterno de uma sociedade teológica e monárquica sucedeu o homem histórico de uma sociedade burguesa: em vez de atenuar, mascarar, suprimir as diferenças entre Aquiles e nós, o jovem pensamento burguês - exaltado pela descoberta da história, arma que serve contra a classe feudal - descobre finalmente estas diferenças e sublinha-as cada vez mais”[39].

As primeiras tendências da tradução literal eram justificadas por pressupostos estéticos ou filosóficos; as opções de Leconte de Lisle explicam-se por factores históricos. Considera-se que é essencial reproduzir os modos de pensar, sentir, falar, agir, viver e cantar dos povos clássicos. Deve ser mantida a historicidade com o máximo de respeito pelos aspectos etnográficos que a ausência de perspectiva dos tradutores clássicos tinha deixado de fora.

Segundo Mounin, a tradução de Leconte de Lisle teve o mérito de abrir o caminho para outras possibilidades de traduções centradas na separação de duas operações distintas: a translação no espaço que consistia na passagem do grego para o francês e a translação no tempo que supunha a passagem do século IX antes de Cristo para o século XIX . “Esta segunda operação, cara às belas infiéis, era a adaptação, a procura dos equivalentes mais naturais, das transposições mais correctas: já não era a tradução das palavras, era a tradução das ideias, dos sentimentos, das formas de agir, das formas de dizer, das estruturas imagéticas, - o ideal era chegar a um texto traduzido tal que Homero desse a impressão de ser um autor francês dos séculos XVII ou XVIII.”[40] Os adeptos da preservação filológica pretendiam manter nas traduções marcas arcaízantes, chegando mesmo a tentar encontrar um modelo de língua de chegada adequado à época do original. Produziram-se, neste sentido trabalhos caricatos. No século XIX Littré traduziu  o Inferno de Dante num francês do século XIV. O resultado era uma reconstituição histórica onde se mantinha a atmosfera da época. Promoveu-se um debate entre os partidários desta opção e aqueles que pretendiam retirar do texto de chegada todos os obstáculos a uma total compreensão pelo leitor comum contemporâneo da tradução, desinteressado da historicidade. O objectivo desta corrente era apresentar textos de chegada que se confundissem facilmente com originais dessa própria língua; anular totalmente a sua identificação como tradução. Há, neste caso, rejuvenescimento da língua, adaptações e transposições.

No século XVIII, a obra Essay on the principles of translation (1797) de Alexander Fraser Tytler desempenhou um papel importante. Tratava-se da única obra consagrada exclusivamente às regras e princípios gerais da arte de traduzir. Tytler defendia que o bom senso do tradutor era fundamental para a escolha de certas traduções. Na sua opinião, as ideias e o estilo do original deviam ser mantidos.

A ideia central que percorreu a história até aos nossos dias é a concepção segundo a qual o conteúdo e de certa forma o estilo do original devem ser transmitidos na tradução de uma forma natural. Até ao século XVIII, a tradução estava mais centrada na língua alvo do que  na língua fonte. Rener em Language and translation from Cicero to Tytler, 1989 relacionou o ponto de vista universalista com as opiniões dos tradutores  e reconstituiu a teoria da tradução em voga desde Cícero até Tytler. Durante este período, o processo da tradução era considerado como um número de etapas que se efectuavam segundo uma ordem lógica. Todos os comentários sobre a tradução dão conta de uma ou várias etapas que raramente eram explicitadas devido à sua evidência. Surgiu assim um manual implícito de tradução pela justaposição dos comentários dos tradutores. Distinguiam-se três domínios no plano da tradução: a gramática, a retórica e a arte da tradução como artifício. Cada domínio formava um sistema com regras próprias cujo todo obedecia a um objectivo comum: traduzir. Provou-se que no período compreendido entre Cícero e Tytler as traduções não eram feitas ao acaso mas dependiam de regras não explicitadas na escrita. Segundo Rener, o Essay on the pinciples of translation de Tytler de 1797 foi a última obra teórica sobre a tradução que prova a existência de um laço estreito entre a teoria linguística e as concepções sobre a tradução. No entanto, por volta do fim do século XVIII a visão da língua começa a modificar-se.

No final do século XVIII, a teoria universalista da língua é posta em causa. Sob a influência de Descartes e de Locke, entre outros, começa-se a considerar de outra forma a relação entre a língua e o modo como o homem exprime a realidade. Ao longo do século XIX, a visão universalista da Antiguidade é substituída, sob a influência de Von Humboldt, pelo ponto de vista relativista. Na Alemanha, desenvolvia-se o interesse pelas literaturas estrangeiras para ampliar as competências em relação à literatura mundial. A prática da tradução desenvolve-se consequentemente com Goethe, Schiler e os irmãos Schlegel. A concepção da época era que as traduções não podiam ser adaptadas à língua alvo nem à cultura alvo. O aspecto “estrangeiro” da língua e da cultura de partida devia ser conservado tanto quanto possível de modo a poder beneficiar o leitor. Wilhelm Von Humboldt, o fundador da visão relativista da língua, afirma que o pensamento depende da língua em que se fala. Assim sendo, a tradução deixa de ser considerada como uma cópia do texto fonte para tornar-se uma reprodução do modo como um tradutor interpreta um texto num dado momento. Daí esta visão considerar-se hermenêutica. A língua é entendida como um instrumento com o qual o Homem pode classificar e compreender. O mundo em que vivemos deixa de ser considerado como uma realidade imóvel e universal, é determinado pelos nossos pensamentos e a nossa língua. Esta nova visão da língua altera o ponto de vista sobre a literatura. Para a traduzir, deixa de considerar-se o original como uma cópia da “realidade” e a tradução deixa de ser uma cópia do original. Von Humboldt considerava vãos os esforços do tradutor empenhado em conseguir uma cópia. A única qualidade que um tradutor poderia atingir dependia da capacidade de seduzir como aconteceu durante o romantismo alemão.

No final do século XIX, a popularidade da tradução sofre uma regressão mas não desaparece a visão hermenêutica. A teoria de Von Humboldt volta a actualizar-se nos anos vinte deste século com teóricos como Sapir e Whorf. As ideias de Humboldt surgem também nas obras de Walter Benjamin e de Ortega y Gasset. Para Benjamin[41], qualquer tradução é inferior ao original. O único objectivo do acto de tradução consiste na aproximação ao texto fonte.

Hoje em dia, tanto se refuta a visão universalista como a visão relativista da língua. Nenhuma dessas teorias poderia servir de fundamento teórico para a tradução. Após a Segunda Guerra Mundial, desenvolveram-se quatro novas tendências em relação à tradução.

- A abordagem estruturalista de Jiri Levý. Para ele, o principal problema de um tradutor é não só reproduzir a obra original mas também produzi-la uma vez que a própria tradução deve ser uma obra literária. Levý situa-se na linha dos estruturalista de Praga. A sua obra mostra que os problemas que se colocam ao tradutor resultam do carácter ambíguo  da actividade da tradução uma vez que se trata de uma actividade simultaneamente reprodutora e produtora. O tradutor deve transmitir as qualidades literárias do texto original de tal modo que o leitor da tradução as reconheça como características literárias. O único método que um tradutor pode empregar é o método “ilusionista”. A tradução deve dar a ilusão de autenticidade.

- A abordagem neo-hermenêutica baseia-se nas concepções hermenêuticas do século XIX. Uma obra literária não tem uma significação objectiva mas uma gama de significações, por isso a tradução é uma interpretação do tradutor que também interpreta a tradução. Segundo esta concepção, uma obra literária é um dado histórico ou seja, não tem uma significação única e objectivamente fixa mas dispõe de um número de significações possíveis. Estas diferentes significações concretizam-se em função do tempo e do lugar. Uma tradução exprime a interpretação que o tradutor dá do original.

- A abordagem sistemática pressupõe uma atitude descritiva face à tradução e não normativa. Deixa de haver uma preocupação pelo estabelecimento de normas para uma boa tradução e passam a examinar-se os resultados de modo a identificar as normas que contribuíram ao longo dos tempos para o aparecimento das traduções. Esta abordagem analisa também o papel desempenhado pelas traduções numa cultura de recepção. A conferência Literature and Translation organizada em 1976 em Louvain marcou a origem da teoria sistemática. Partindo desta conferência, Even-Zohar[42] desenvolveu a teoria do polissistema onde a literatura é considerada como um “sistema” com diferentes subsistemas em conflito uns com os outros e por isso mesmo em movimento constante. As traduções podem desempenhar um papel importante neste conflito.

A abordagem “transfer” aplicada desde 1983 em Göttingen, assemelha-se à abordagem sistemática. As pesquisas estão igualmente orientadas para as normas utilizadas ao traduzir. No entanto, as traduções não são estudadas apenas à luz da cultura de recepção, mas também a partir da cultura do texto fonte. O grupo de Göttingen distingue-se do grupo de Louvain pela sua rejeição do polissistema. O ponto de partida é a tese segundo a qual uma tradução literária difere do texto original, não só devido às diferenças entre línguas, literaturas, convenções et tradições, mas sobretudo devido à interpretação do original que está na base da tradução.

 Com a tese segundo a qual a poesia é intraduzível, o italiano Benedetto Croce[43] pronuncia-se contra a tradução poética. Para Croce, a linguagem poética é uma expressão individual e criadora onde a intuição desempenha um papel mais importante que a razão. Esta expressão, baseada na intuição é única, individual e não é negociável. Compreender um poema é, para Croce, reviver o acto criador do poeta. O leitor poderia identificar-se com  o criador do original. Uma tradução poética implicaria uma identidade absoluta entre o original e a tradução. Questiona se é possível transmitir um poema através de uma imitação mais ou menos parecida noutra língua.

O antropólogo linguístico americano, Edward Sapir[44] partilha a opinião de Croce. Afirma a impossibilidade de tradução de uma obra literária apoiando-se, de acordo com Humboldt, no modo como cada língua classifica a realidade em categorias. Além disso, considera que a criação de estilos literários pessoais depende do modo individual de apreensão dos modelos fonológicos e sintácticos fornecidos pela língua.

T.S. Eliot[45] considera que a obra dos poetas mais conhecidos (Dante, Shakespeare, Goethe) é mais fácil de traduzir que os poemas de escritores menos conhecidos. Tal como Sapir, Eliot distingue uma relação entre o grau da intradutibilidade e a inserção na obra de especificidades da língua de origem. Quanto mais um escritor integrar na sua obra características comuns a todas as línguas, mais a sua obra  poderá ser traduzida.

Traduzir é escolher; e cada escolha implica restrições diversas. Um tradutor esforça-se sempre por manter na tradução os aspectos que ele considera mais importantes. Traduzir poesia é sempre um compromisso. O debate dos teóricos sobre o estatuto da poesia foram prejudicados pela identificação entre poesia e verso. Henri Meschonic[46] supõe que a concepção segundo a qual a poesia seria difícil de traduzir, está ultrapassada. Considera que os problemas da tradução da poesia são causados pela confusão implícita entre versos e poesia. James S. Holmes[47],  tradutor de poesia e pioneiro na ciência da tradução, distingue a poesia  no sentido lato. Os problemas que um tradutor encontra traduzindo versos, e sobretudo versos modernos, ligam-se ao facto dos leitores de poesia terem tendência para esperar polivalências e ambiguidades no contacto com textos em verso. Ao contrário, o leitor de prosa espera uma mensagem única e precisa, sem equívocos. Por isso, o poema em verso é a estrutura mais complexa de todas as estruturas linguísticas. Um dos principais problemas estruturais da tradução deve-se ao facto de raramente haver equivalências absolutas entre campos semânticos aparentemente próximos em línguas diferentes. Este obstáculo é geralmente transponível na tradução de prosa; mesmo que haja perdas de certas significações, como a maioria delas são dadas pelo contexto, o resultado da tradução adequa-se de modo muito estreito ao texto original. Como os poetas empregam a língua de um modo totalmente diferente, o  tradutor de poesia debate-se com problemas muito mais complexos visto que a equivalência é muito mais difícil de atingir. É por isso que Holmes introduziu o termo metapoema como uma nova denominação para designar o poema traduzido. O metapoema é um objecto totalmente diferente do original; mantém com o poema original uma relação semelhante com aquela que o poema original mantém com a realidade.

O poeta, tradutor e escritor mexicano, Octávio Paz[48] conclui praticamente a mesma coisa. Para ele, a tradução e a criação de textos são operações semelhantes. A actividade do tradutor é análoga à do poeta; a diferença é que, ao escrever, o poeta não conhece o resultado da sua escrita; o tradutor sabe que o seu texto deve reproduzir o poema que tem sob os olhos. O resultado não é uma cópia exacta mas uma transmissão do original. O ideal de uma tradução poética é, como Paul Valéry tinha formulado, a realização de efeitos semelhantes com meios diferentes.

Os autores do século XX associam-se aos teóricos do século XIX. A sua teoria baseia-se em três concepções: a diferença entre as línguas como um pensamento e uma interpretação diferentes do mundo; a autenticidade dos textos determinada historicamente e localmente; e uma desconfiança fundamental em relação às traduções actualizadas e modernizadas. Estes teóricos incitaram o leitor a caminhar em direcção aos autores estrangeiros. Como   nas teorias românticas não se considera a tradução como uma actividade literária ou linguística mas antes como uma metáfora. A obra original entra numa suposta fase de acabamento, o que impede uma tradução posterior. Nas traduções feitas segundo esta teoria, o tradutor atinge o limite extremo do traduzível.

Ortega y Gasset[49] é um representante importante desta geração com a sua tese segundo a qual a tradução de um texto é uma utopia: a suposição de que tudo poderia facilmente exprimir-se em cada língua como alguns linguistas modernos acreditam. Segundo esta teoria, Ortega pensou nas obras dos escritores clássicos raramente traduzidos segundo as normas de então. A cultura grega e latina estava demasiado afastada da nossa época para pretender apresentar essas obras como se fossem contemporâneas. A única tarefa do tradutor é servir o autor original. A tradução não é a obra mas a via que conduz a esta obra. Traduzir implica distanciar-se da língua materna e entrar na língua estrangeira e não inversamente. Em cada língua a relação entre o dizer e o omitir é diferente. Cada nação faz certas coisas para falar de outras. Daí haver uma grande dificuldade em traduzir mas simultaneamente um grande desafio suscitado pelo prazer de descobrir a revelação dos segredos que cada língua conserva em relação às outras. Esta concepção é o ponto de partida do ensaio de Walter Benjamim. Segundo ele, a Tarefa do Tradutor não consiste, em primeiro lugar, na preservação do significado do texto original ou seja do seu conteúdo referencial. Traduzir é seguir o modo de significação que difere de uma língua para outra. A tradução deveria exprimir a diferença de significação entre as línguas  implicadas. Assim, o tradutor cria uma espécie de reconciliação entre as línguas, o que deve ser o objectivo final da tradução. Esta reconciliação apresenta-se sob a forma de uma significação mais pura, pela qual a analogia supra-histórica das línguas é revelada. O tradutor tem a tarefa de elevar o potencial de expressão da língua materna até às fronteiras extremas do admissível de modo a que o original ecoe na tradução. Deve abandonar-se a ideia de que a tradução  visa a semelhança com o original. A tradução que pode ser lida como uma obra original na língua alvo já não é considerada como a melhor tradução. A verdadeira tradução é transparente, não recobre o original, mas deixa transparecer a língua pura do original. Ela é um complemento do texto original; um complemento muito importante porque na tradução o original desenvolve-se até um nível superior

Para Benjamin, uma má tradução é aquela que se limita a transmitir a mensagem do original porque se perde o espírito do poema. 

A teoria de Benjamin chocou com as teorias tradicionais; tudo o que era considerado como obstáculo é considerado na teoria de Benjamin com a tarefa superior do tradutor; a impossibilidade de traduzir um texto é de facto o que a legitima e o que lhe dá a sua razão de ser. A liberdade do tradutor deixa de ser uma força destrutiva, passa a ser uma atitude positiva.

Para que a tradução seja possível é necessário que entre o tradutor e o escritor traduzido haja afinidades de ideias, compreensão profunda, adesão íntima. O tradutor deve movimentar-se “em três planos: o das línguas, para identificar e respeitar a identidade de cada uma; o do conteúdo, para garantir fidelidade à mensagem (fidelidade essa expressa em termos de correspondência às intenções do autor); o do texto concreto, para se conformar com os seus procedimentos estilísticos e retóricos.”[50] O limite a esta visibilidade total do texto encontra-se nos nomes próprios que denunciam a sua origem estrangeira. Outro limite é a preservação de dialectos, gírias ou falares populares que sofrem um empobrecimento na sua transposição para a língua padrão. A única forma de fuga a este duplo problema seria produzir uma adaptação do texto em vez de uma tradução, recriando novos nomes de personagens adequados a uma toponímia em relação directa com um dialecto local tão característico como o do texto original.

Outro nível da tradução dita transparente é aquele que se baseia no desaparecimento do hiato temporal que separa um original da sua tradução. Uma tradução transparente é aquela que anula as distinções próprias da diacronia das línguas. A herança dos séculos XVII e XVIII levava a considerar que uma tradução conseguida devia abolir marcas temporais como se o autor traduzido fosse contemporâneo do tradutor. Este método supõe um rejuvenescimento sistemático do vocabulário, da sintaxe e do tom das frases. Para isso, o tradutor deve mascarar, transpor, suprimir palavras, estruturas, tonalidades, e mesmo sentimentos, atitudes, usos e costumes, enfim, tudo o que poderia confundir o leitor. Neste sentido, tudo tenderia para uma modernização como se passasse por um filtro capaz de reter como impurezas tudo aquilo que poderia conotar outra civilização.

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Capítulo III

 

CONTRIBUTOS DA LINGUÍSTICA PARA A TEORIA DA TRADUÇÃO

 

 

1- Argumentos empíricos a favor da tradução

 

1.1- Argumentos morfológicos

 

Apesar da ilusão da diferença entre as línguas, as palavras não são consideradas barreiras metafísicas intransponíveis. Os defensores da tradução consideram que a propriedade, a virtude, a expressividade de alguns casos semânticos especiais não constituem um obstáculo nem fornecem um argumento contra a tradução em geral porque há sempre em cada língua modos de expressão equivalentes.

Os estudos desenvolvidos pelos linguistas no campo da morfologia permitiram concluir que certos morfemas são tão importantes quanto à sua presença como quanto à sua ausência. Não é pelo facto de uma categoria intelectual ou afectiva estar ausente numa língua que deixa de poder ser traduzida. O grego moderno não tem infinitivo mas acaba por encontrar outra estrutura gramatical capaz de dar conta do conceito abstracto da acção designada pelo verbo. Segundo outro exemplo, o grego antigo tinha um modo verbal chamado optativo para exprimir o desejo. Esse modo já não existe mas a sua função foi absorvida pelo conjuntivo. Outro exemplo: a existência do modo durativo (progressive form no inglês) que não existe sob uma forma  conceptual na línguas onde o aspecto verbal é pouco ou nada importante. No entanto, há processos similares de traduzir esses verbos mantendo a ideia de uma acção contínua, recorrendo à conjugação perifrástica: estar a mais infinitivo. Do mesmo modo pode-se traduzir o aspecto iterativo (frequentative form) do inglês com recurso ao gerúndio.

Na opinião de Vendryès, citado por Mounin, as línguas não são inaptas para traduzir o aspecto verbal visto que encontram sempre uma forma de fazê-lo. A diferença é apenas de natureza formal porque conceptualmente não se pode indicar o aspecto como se indica o tempo e o modo verbal. Existem uma variabilidade de categorias gramaticais das quais cada língua possui apenas um número restrito.

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1.2 Argumentos fonéticos

 

Para verificar se a fonética é um obstáculo fundamental para a tradução é necessário ter em conta que as línguas não surgiram por uma espécie de expressividade fonética generalizada, como se os sons originais tivessem descrito musicalmente as coisas que nomeavam de acordo com a teoria de São Tomás de Aquino e posteriormente com a dos materialistas mecanicistas do século XVIII. Acontece que os raciocínios fundados sobre a expressividade fonética de certas palavras não têm em conta que há um acordo que se estabelece entre o sentido da palavra e os sons que o compõem. As relações aparentemente harmoniosas entre a imagem acústica e a visual derivam de uma associação condicionada por um psicologismo habituado a observar as duas componentes juntas. É  um processo associativo à posteriori e não à priori como ilusoriamente se pensa.

É verdade, no entanto, que esteticamente a associação do som e do sentido tem sido explorada na poesia, mas trata-se essencialmente de um processo originado por exigências mnemotécnicas. A interpretação fónica de um poema é sempre subjectiva. Se houvesse uma verdadeira relação entre o som e o sentido, a interpretação teria que ser universal e, por conseguinte, objectiva.

A teoria mecanicista da linguagem preconizava, no século XVIII um sistema de equivalências entre sons e estados  de alma. Valorizava-se a componente sonora e mecanicista da fonética omitindo o seu aspecto meramente servil. Sobrevalorizavam-se as particularidades da fonética. É possível traduzir e sugerir por verdadeiras correspondências fonéticas, os efeitos desejados numa língua dada, quando eles são realmente pertinentes uma vez que cada língua tem um potencial fonético muito rico.

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1.3- Argumentos estilísticos

 

De entre os argumentos teóricos contra a tradução, Georges Mounin cita Joachim du Bellay quando este afirma que não há hipótese de traduzir o estilo, e a eloquência do original porque cada língua tem especificidades próprias que lhe dão uma graça e uma naturalidade sem correspondências noutras línguas.

Joachim du Bellay afirmava que a tradução era impossível por causa das invenções próprias de cada escritor. Cita como exemplos metáforas, alegorias, comparações, ou seja a multiplicidade de figuras de retórica que constituíam o estilo individual de cada autor. D.Duarte, no capítulo 99 do Leal Conselheiro, estabelece um tratado sobre a tradução de acordo com as lições de Bruni e de Cartagena, no entanto não dedica qualquer atenção aos efeitos retóricos. Vasco Fernández de Lucena reconhece que a sua tradução do livro da velhice de Túlio “não guardará aquella dulçura nem dignidade de eloquencia que há no latim”[51]

Se o estilo fosse intraduzível, seria difícil encontrar nos clássicos da renascença portuguesa influências de Petrarca, de Dante e de Bocaccio, por exemplo.

A tradução é por vezes difícil; não impossível. As figuras de estilo clássicas têm uma estrutura própria e uma apresentação técnica com correspondências entre as línguas. O que geralmente acontece na tradução de imagens é perder-se a noção da imagem original para encontrar uma significação de conjunto das duas expressões por um processo simples de adaptação. Supondo, no entanto, um acréscimo significativo de interpretação de modo a manter, senão todos os semas, pelo menos o máximo possível, Bruni reconhece a complexidade do processo quando afirma que o “tradutor deve aperceber-se das qualidades da frase e dar-lhes representação igual na língua para que traduz. Uma vez que dois são os tipos de ornato (um respeitante às palavras e outro relativo ao pensamento) um e outro acarretam indubitavelmente dificuldade ao tradutor, mas é maior a do ornato das palavras que a do ornato do pensamento” [52]

Os estudos linguísticos não colocam grandes obstáculos em relação aos problemas suscitados pela morfologia, pela fonética ou pelo estilo mas o domínio semântico levanta maiores dificuldades. As suas investigações passadas procuram encontrar formas de universalidade gramatical para a explicitação de regras comuns.

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2- Crítica ao projecto de gramática universal

 

No planeta, falam-se cerca de 6.000 línguas cujas diferenças são consideráveis. No entanto, esta diversidade tem limites. É que, numa diversidade aparente, podem-se discernir  estruturas e configurações comuns que permitem  formular  regras mais gerais. Encontrar o que é regular na diversidade linguística et mostrar onde estão os limites da variação, é o campo de pesquisa da tipologia e dos universais linguísticos.

Existem várias acepções da noção de universais linguísticos. Por um lado, o termo é  utilizado para  designar as propriedades que, com toda a evidência, são essenciais para a linguagem  humana e que, por isso, não são susceptíveis  de variar: a faculdade  das crianças aprenderem uma língua, a dupla articulação da linguagem, a  permanente mudança das línguas ao longo  da sua  história, a variação da linguagem segundo  parâmetros sociais e estilísticos etc.. Às propriedades deste tipo, acrescenta-se a ideia de que, em princípio, tudo pode ser dito em qualquer língua, e que existem, além disso, funções cognitivas e comunicativas universais susceptíveis de serem expressas em todas as línguas. Numa segunda acepção, o termo «universais linguísticos» aplica-se a propriedades estruturais específicas que se  registaram em todas as línguas conhecidas, embora sejam, em certa medida, contingentes. Como os linguistas  estão longe de conhecer todas as línguas humanas (apenas existem descrições satisfatórias para pouco mais de um décimo), este tipo de universais empíricos só  admite  a forma de uma hipótese que pode ser  substituída por  novas descobertas. Os linguistas empregam o termo «universais» ainda numa terceira acepção, bastante restrita, mas muito difundida. Os partidários deste conceito universalista pensam que os universais linguísticos derivam de algumas das propriedades do espírito humano que correspondem ao genotipo.

A  tipologia linguística estuda, por um lado, o que é comum a todas as línguas, e por outro,  a sua  diversidade, e sobretudo regularidades e  limites que podem ser  observados na diversidade aparente. Em primeiro lugar, o número das técnicas empregues para resolver as tarefas comunicativas não é  ilimitado; pelo contrário, em geral existe um número restrito de estratégias que se encontram constantemente noutras línguas. Além disso, podem observar-se  relações, ou mesmo correlações entre propriedades estruturais de modo que a escolha de uma possibilidade num domínio lhe reduz o número das hipóteses disponíveis para  a escolha de técnicas expressivas noutro. Neste contexto, fala-se em «universais de implicação» ou de uma «hierarquia  implicacional». Trata-se de um domínio onde a tipologia e a pesquisa universalista  se agrupam porque a tipologia, na medida em que ultrapassa o domínio da classificação para se ocupar de implicações e de correlações, corresponde, de certa maneira, à procura de universais empíricos. Além disso, existe uma relação mútua entre a tipologia linguística e a análise de uma  língua particular. Se é verdade que esta última pressupõe conceitos baseados numa teoria e num método explícitos postos  à disposição pela tipologia, é ao mesmo tempo a análise das línguas particulares que constitui a base empírica para  a tarefa da tipologia.

A história da linguística evolui de acordo com duas posições referentes à relação entre a língua e a cultura.  O primeiro desses dois pontos de vista, aparentemente irredutíveis, considera que a língua é uma característica inata de todo o ser humano, independente de outros factores, psicológicos, sociais, religiosos, epistemológicos, etc. Ela é, por conseguinte, entendida como uma instituição universal, comum a todos, dispondo basicamente das mesmas estruturas profundas, que através de diversas transformações originaram estruturas de superfície distintas. Este ponto de vista corresponde sobretudo à gramática generativa. De acordo com esta posição, existem "universais" linguísticos manifestos na capacidade de organização de uma linguagem baseada na dupla articulação das unidades línguísticas: conceito e imagem acústica, partes do discurso e funções sintácticas comuns: substantivos, adjectivos, verbos, etc., existência de sujeito e de  predicado, etc.). Basicamente, todos os membros das várias sociedades teriam, por herança genética, as mesmas estruturas linguísticas profundas com uma lógica comum, independentes de outros factores e,  por conseguinte, as diferenças de estrutura superficial seriam, de certa forma, aleatórias, ocasionais ou acidentais, mas não se apresentariam como obstáculos intransponíveis à tradução. Bastaria que o processo tradutório passasse por uma análise prévia de reconstituição da estrutura base.

Apesar de muito contestada, esta teoria é defendida ainda hoje pelo linguista americano Merritt Ruhlen[53] que, chega à conclusão de que todas as línguas existentes  derivam de uma única fonte, como pretende demonstrar pela comparação maciça do vocabulário fundamental das línguas existentes do mundo. Centra-se na nomenclatura das partes do corpo, dos elementos naturais, dos pronomes pessoais entre outros. Reconhecem-se duas interpretações possíveis para a teoria  monogenética da origem das línguas. A primeira afirma que a  língua começou de uma só vez na história  humana e é desta língua original que todas as línguas subsequentes emergiram. A segunda aceita origens diferentes, mas mantém que todas as línguas faladas existentes hoje derivam apenas de uma destas diversas línguas originais possíveis. As outras línguas originais podem ter  desaparecido sem deixar nenhuma descendente. Ruhlen baseia-se nas classificações periódicas das várias línguas do mundo, publicadas desde os anos 50, por Joseph Harold Greenberg[54], teórico da tipologia das línguas.

 A ideia da universalidade da língua já estava presente nas especulações de Descartes, Dalgarno, Wilkins e Leibniz a propósito da universalidade das línguas filosóficas.

Em 1629, Descartes tinha criticado o projecto de uma língua universal baseado num código cifrado multilingue mas acreditava na possibilidade de um projecto de língua universal a partir da reorganização dos pensamentos humanos. O primeiro passo seria a instituição de um sistema de classificação dos conceitos, para depois operar com todos os elementos da língua como os terminólogos operam nos domínios restritos da sua especialidade. O resultado permitiria elaborar o reportório de todo o conhecimento humano. Descartes pretendia assim alcançar a verdadeira filosofia, sabendo, no entanto, que seria difícil aplicar o método a toda a linguagem pela impossibilidade de repertoriar e de classificar todos os pensamentos humanos.

Em 1661, Dalgarno procurou materializar a ideia, propondo uma classificação metódica de todas as ideias seguidas da sua representação por um signo.

Leibniz, entre 1659 e 1679, concebeu o projecto de uma espécie de alfabeto dos pensamentos humanos baseando-se na redução de todos os conceitos aos seus elementos simples. Leibniz partia da identificação ilusória entre  relações gramaticais e relações lógicas. Além disso, partia do pressuposto que era possível estabelecer a quantificação e o repertório de todas as ideias simples ou conceitos. Como nunca é possível definir o limite de uma ciência ou de um conhecimento, não pode ser encontrada a totalidade dos conceitos que a formam.

Husserl, em princípio de carreira, procurou estabelecer a lista das formas fundamentais da linguagem para que a partir daí se pudesse determinar como é que se exprime em várias línguas a “proposição de existência”, a “proposição categórica”, a “premissa hipotética”, o “plural”, as “modalidades do possível e do verosímil”, o “não” etc.  Husserl não teve em conta que para chegar à gramática universal não basta sair da gramática latina e que a lista das significações possíveis era elaborada em função da sua própria língua.

Ao querer pensar a linguagem, ou seja, ao reduzi-la à condição de objecto perante o pensamento, corre-se sempre o risco de tomar como instituição do ser da linguagem, os processos pelos quais a linguagem tenta determinar o ser.

Não só não há uma análise gramatical que descobre os elementos comuns a todas as línguas como cada língua não contém necessariamente o equivalente dos modos de expressão que se encontram nas outras. Numas línguas, a negação é dada pela entoação, noutras existe o dual, noutras a noção de aspecto verbal é fundamental, noutras emprega-se o futuro como tempo da narrativa, etc..  Os processos de expressão de uma língua não se podem reduzir a sistemas; confrontadas com o uso vivo da língua, as significações lexicais ou gramaticais são apenas dadas aproximadamente.

Segundo Merleau Ponty, os linguistas nem sempre viram até que ponto a sua descrição se afastava do positivismo porque “o que  impede cada  linguagem de ser o reflexo de uma língua universal- onde o signo recobriria totalmente o conceito- não a impede, no exercício vivo da fala, de desempenhar o seu papel de revelação, nem de comportar as suas evidências típicas, as suas experiências de comunicação. Que a linguagem tenha uma significação metafísica ou seja que ela ateste outras relações e outras propriedades para além daquelas que pertencem, segundo o senso comum, à multiplicidade das coisas da natureza encadeadas por uma causalidade, a experiência da linguagem viva convence-nos facilmente porque  caracteriza como sistema e ordem compreensiva esta fala que, vista de fora, é um conjunto de acontecimentos fortuitos.”[55] Ponty propõe renunciar à universalidade abstracta de uma gramática racional que daria a essência comum a todas as linguagens, mas nem a unidade da língua, nem a sua distinção, nem o seu parentesco cessam de ser pensados pela linguística moderna; são encarados, não sob o ponto de vista do conceito ou da essência, mas da existência.

O linguista saussuriano questiona-se sobre a existência de universais linguísticos e procura saber se esses universais, no caso de existirem, se situam em relação à língua ou em relação à fala. Não há universais ao nível da língua. A arbitrariedade, a estrutura  e a convenção social, como características que a definem, são comuns a qualquer estudo comparativo de línguas, tornando-as dois idiomas irredutíveis. Os únicos traços universais são características gerais que definem o próprio fenómeno língua: todas as línguas são fundadas numa arbitrariedade socializada, todas as línguas são «duplamente articuladas», todas têm uma gramática e um léxico, todas são estruturas, etc. É, por isso, mais correcto falar de características gerais  do que de universais. Não só há poucos traços universais como é difícil haver homogeneidade no seio de uma mesma língua do ponto de vista sociológico.

No entanto, a disparidade existente entre as línguas não exclui as semelhanças, os parentescos, as proximidades. Todas as línguas indo-europeias, por exemplo, têm traços comuns e parecem-se mais entre si do que em relação às línguas de outras famílias. Talvez não seja impossível destacar características comuns a todas as línguas mas é difícil isolar traços considerados unanimemente como universais.

Martinet parte da simples afirmação de que vivemos todos no mesmo planeta para justificar os universais cosmogónicos de forma a isolar aquilo que é comum a todo o planeta, mesmo que não corresponda aos mesmos recortes dos campos semânticos. As analogias físicas e psicológicas entre os homens estão na base de outra categoria de universais: os biológicos.

No que diz respeito à teoria da tradução, a observação dos núcleos de significação referencial constitui a base comum da comunicação entre os povos, mesmo que permaneçam conotações intraduzíveis.

Entre os universais linguísticos contam-se as oposições entre verbo e nome, presente e outros tempos, pronomes pessoais. “A questão prática de saber quais são as coisas que podem ser ditas em línguas diferentes é frequentemente confundida com a das significações das palavras e das categorias. Uma língua emprega uma frase onde outra utiliza uma única palavra e onde uma terceira se serve de uma forma composta. Uma significação que dispõe de uma categoria linguística para se exprimir numa língua (por exemplo a pluralidade dos objectos em inglês) só pode aparecer sob a acção de estímulos práticos limitados noutra língua. Mas no que diz respeito à denotação qualquer que seja o que possa ser dito numa língua dada, pode sem dúvida ser dito noutra”[56]. As mesmas referências culturais comuns a todos os povos fazem parte desses universais que têm tendência para aumentar, à medida que as condições de comunicação se desenvolvem, pondo em contacto civilizações até então separadas.

A ciência surge também como um universal tecnológico. Benveniste demonstrou que “é um facto que submetido às exigências dos métodos científicos, o pensamento adopta em todo o lado os mesmos procedimentos, qualquer que seja a língua escolhida para descrever a experiência. Neste sentido, torna-se independente, não da língua, mas das estruturas linguísticas particulares. O pensamento chinês pode ter inventado categorias tão específicas como o Tao, o Yin e o Yeng mas nem por isso é menos capaz de assimilar os conceitos da dialéctica materialista ou da mecânica quântica sem que a estrutura da língua chinesa lhe faça obstáculo”[57]

Embora a linguagem  pareça um fenómeno uniforme no seu princípio, apresenta-se como um fenómeno infinitamente diversificado nas suas realizações, na medida em que faz intervir a língua, fenómeno estrutural e social e por isso não universal.

Não é ao nível das estruturas das línguas que se devem pesquisar os universais linguísticos na óptica da tradução porque, mesmo que se conseguisse enumerar a sua lista, o resultado seria sempre muito limitado comparado com a totalidade dos elementos que os distinguem devido à diversidade das estruturas gramaticais e lexicais, e à diversidade idiomática. A universalidade do «dizer» pela tradução deverá ser procurada na fala e não na língua porque a fala revela  um certo número de características gerais que se podem considerar como universais linguísticos. Qualquer que seja o sistema da língua que ela utiliza, a fala produz enunciados que recorta em unidades autónomas que são frases e analisa-as em sujeito e predicado; qualquer que seja o sistema da língua, ela produz enunciados que são simultaneamente significados e sentidos, e ela opera, por conseguinte, em relação a uma dupla grelha de referência (sistema e situação).

É pacífico aceitar a universalidade do espírito humano mas não se pode dizer o mesmo em relação ao universo conceptual mediatizado pelas diferentes línguas porque há sempre grandes variações. Quer se trate de universos físicos, ou de universos sociais; o mundo nomeado pelas diversas comunidades linguísticas é bastante diversificado. Os habitantes das regiões geladas do globo não designam o mesmo universo físico que aqueles que vivem nos trópicos, por exemplo. Enquanto que para uns o mundo físico é constituído por neve, gelo, frio, os outros contactam com uma vegetação densa, com calor e água no estado líquido. Os obstáculos à tradução advêm da ausência de palavras para designar os objectos de outras realidades. Em relação ao universo social, as sociedades humanas são infinitamente variadas em todas as suas componentes: vestuário, costumes, alimentação, religião, estrutura económica, política, social, etc., ou seja tudo o que constitui a sua cultura e que, por isso, influencia a sua visão do mundo.

O problema da tradução das palavras específicas de cada região ou cultura é um aspecto extremo que, no entanto, também se encontra quando se opera com línguas e civilizações próximas. O universo natural e cultural da Grécia antiga, e o de Portugal, Inglaterra ou Estados Unidos não é o mesmo mas não é por isso que deixa de se traduzir Homero. Há, entre estes exemplos, apenas uma distinção de graus de dificuldades. A intradutibilidade é menos um problema de língua do que um problema de adaptação das mensagens ao receptor da tradução. Em todos os casos, há um espaço para preencher e a tradução necessita de efectuar escolhas para adaptar a mensagem ao seu destinatário. Face a uma palavra ou expressão intraduzível, há vários modos de fazer passar a mensagem: quer adoptar como equivalente de tradução uma palavra designando a coisa mais próxima na língua do destinatário, quer utilizar uma definição ou uma perífrase, quer finalmente criar um neologismo, importando a palavra.

O grau de intradutibilidade, ou seja o grau de adaptação que uma mensagem deve sofrer para ser traduzida em função de outra civilização, é muito variável de acordo com o grau de partilha da situação. Os homens podem utilizar as mesmas estruturas linguísticas para designar realidades diferentes, como utilizam estruturas diferentes para designar realidades idênticas. Não deve ser confundida a diversidade das estruturas, ou seja a sua não universalidade, com o diversidade dos universos reais ou culturais que elas exprimem. Não devem ser atribuídas às estruturas linguísticas diferenças que se devem apenas ao contexto geográfico, meteorológico ou sociológico.

Durante muito tempo aceitou-se que as estruturas da linguagem resultavam linearmente quer das estruturas do universo quer das estruturas universais do espírito. Estabelecia-se assim uma correspondência entre os nomes e pronomes e os seres do universo, entre os verbos e os processos, entre os adjectivos, preposições e conjunções e as relações lógicas de dependência, de atribuição, de tempo, de lugar, de circunstância, de coordenação, de subordinação tanto em relação aos processos como em relação aos seres e aos processos. Deste modo, a tradução seria apenas um exercício de correspondências porque todas as línguas falariam do mesmo universo, da mesma experiência humana, analisada de acordo com categorias de conhecimento comuns a todos os homens. A falibilidade da tradução só poderia ser imputada ao tradutor, ou porque a falta de domínio de toda a substância do conteúdo de expressão originava uma expressão correspondente incompleta, ou por ele não dominar todos os recursos das formas de conteúdo e das formas de expressão na língua de chegada. Atribuíam-se também as incorrecções na componente estética da linguagem à falta de talento do tradutor.

A ilusão de que pelo facto de falarmos de um modo que a nossa expressão convém às próprias coisas, procuramos nas línguas estrangeiras o equivalente do que é tão bem expresso na nossa língua mas a pesquisa dos universais da gramática, presente no estudo das relações entre lógica e linguagem, mostra  que não há paralelismo entre lógica e gramática e excluiu dos estudos linguísticos qualquer possibilidade de paralelismo ou de laços lógico-semânticos.

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2.1- A relatividade linguística

 

Outra posição, distinta da teoria dos universais linguísticos, considera que a língua é uma faculdade adquirida na base duma capacidade exclusivamente humana, dependente da ocorrência de certas condições psicomotoras e intelectuais. A língua reflecte a maneira de pensar e de actuar. A corrente piagetiana da epistemologia genética é, na actualidade, a principal defensora desta tese. As origens da relatividade linguística, encontra-se no pensamento filosófico alemão do século XVIII e, no nosso século, como se viu no capítulo anterior, na posição do antropólogo  americano Benjamin Lee Whorf que representa a expressão mais radical deste ponto de vista. Embora de um modo menos radical, Edward Sapir partilha das ideias de Whorf.

O ponto de vista da relatividade linguística permite encarar a possibilidade de explicar as diferentes estruturas linguísticas, em vários níveis (semântico, morfológico, sintáctico), provavelmente como reflexo de um modo específico de contemplar o mundo, de pensar, de conhecer. As possíveis formas de pensamento e de conduta pré-linguísticas teriam tido de algum modo  reflexo na formação das primeiras palavras. Este ponto de vista reforça a relatividade das estruturas linguísticas e recusa os princípios gerais de uma lógica comum a todos os falantes. A língua é representada como a primeira forma de "ver" o mundo. As configurações particulares de cada língua condicionam a maneira de pensar, de aprender, de conceber o mundo.

Esta posição tem uma variante também relativista mas mais cautelosa; defende que a história da cultura não pressupõe as componentes sintácticas, morfológicas ou fonéticas da língua mas apenas o plano lexical e semântico.

O conceito de relatividade linguística evolui de acordo com três momentos: a concepção da língua como reflexo do "espírito da nação", característica da escola alemã, que se desenvolveu no século XVIII e perdurou até ao século XX com os pensadores Ernst Cassirer e Jost Trier; a teoria do linguista americano Benjamin Lee Whorf que analisou a relação existente entre a língua e a cultura, e a obra de Edward Sapir.

O filósofo alemão Johann Gottfried Herder (1744-1803) afirma que o sistema da língua nacional forma a visão do mundo do povo que a fala. A achega fundamental deste autor é considerar que a língua deixa de ser um simples instrumento, para se tornar num depósito de todas as criações culturais duma nação (incluindo a sua forma de pensar e "ver" o mundo) condicionando, por isso, a forma de pensar e de conhecer das sucessivas gerações de falantes.

 Wilhelm von Humboldt (1767-1835) acentua estes princípios herderianos, e enfatiza a  relação da língua com o espírito da nação. Considera que o homem engendra a linguagem por uma necessidade interna. Um povo fala como pensa e pensa desse modo por falar dessa forma. Se pensa e fala desse modo, tem essencialmente o seu fundamento nas suas disposições corporais e reage em função disso. O fundamento das  línguas não é o conceito universal abstracto do espírito e do pensamento humano, mas  a individualidade popular integral e viva,  ou seja trata-se de um postulado da relatividade linguística, baseado nas diferentes formas de considerar o mundo. Acentua-se a convicção de que o poder linguístico individual, que corresponde à força que se manifesta na língua e determina o carácter individual das próprias nações, constitui a última e mais forte antítese da concepção das línguas baseadas apenas nas  diferenças dos  sons e de signos convencionais.

A "teoria dos campos semânticos" que o linguista alemão Jost Trier desenvolveu a partir dos anos trinta deste século realça a noção de motivação na organização linguística centrada na individualidade de cada grupo cultural. Ela está em íntima relação com as principais concepções actuais referentes ao sistema linguístico: trata-se de um conjunto de unidades cujo valor depende apenas das suas interrelações.

Para Trier, os campos são realidades vivas intermédias entre as palavras individuais e a totalidade do vocabulário; como partes de um todo, partilham com as palavras a propriedade de estarem integrados numa estrutura maior, e com o vocabulário, a propriedade de estarem estruturados na base de unidades menores. Desta maneia, uma palavra  une-se às outras do mesmo campo conceptual numa unidade autónoma com as suas  próprias leis e que atribui à palavra  a extensão da designação. Só se  conhece a verdadeira significação de uma palavra quando a distinguimos da significação das palavras vizinhas e opostas. A palavra só significa se formar parte do conjunto, visto que a significação só aparece no campo onde a palavra se insere.

A formação de um campo semântico ou conceptual depende das seguintes etapas: percepção psicofísica da realidade, criação de zonas conceptuais e lexicalização das mesmas. Um exemplo clássico de campo é constituído pela terminologia das cores, muito diferente nos vários idiomas.

A teoria de Benjamín L. Whorf (1897-1941), químico americano que chegou a entusiasmar-se pela problemática linguística, segue de alguma maneira o movimento relativista afirmando a total dependência entre pensamento e estruturas linguísticas.

Whorf centrou os seus estudos nas línguas ameríndias, especialmente no idioma dos índios Hopi. Observou certas características estruturais que o fizeram reflectir sobre a possibilidade de conceber o mundo de distintas maneiras: a língua, como reflexo dessas visões, condiciona a conduta dos falantes. Whorf  interessou-se especialmente pelo sistema verbal Hopi, descobrindo que, por exemplo, nessa língua, não existem as categorias de tempo que se encontram  noutras línguas.  Este facto levou-o a concluir que a visão que os índios têm do tempo não é linear como a das línguas europeias, dividida em passado, presente e futuro, e que a sua presença no conceito de espaço é decisiva: Para o Hopi, o tempo desaparece e o espaço é alterado, de tal maneira que não existe o espaço atemporal, homogéneo e imediato reconhecido  intuitivamente. Whorf afirma que esta concepção temporal se assemelha à teoria da relatividade de Einstein, e que se os ocidentais demoraram tanto tempo a concebê-la foi devido à fixação na língua do conceito temporal linear que durante gerações e gerações inviabilizou outras possibilidades teóricas.

De acordo com o pensamento de Whorf, a língua não só orienta e organiza a visão do mundo como também a imobiliza: "as formas dos pensamentos de uma pessoa são governadas por leis estruturais inexoráveis das quais o falante não tem consciência"[58].

Segundo Sapir, os seres humanos não vivem isolados no mundo objectivo, nem sozinhos no mundo da actividade mas estão à mercê da língua particular que se transformou num meio de expressão para a sociedade. É completamente ilusório imaginar que alguém se ajuste à realidade sem o uso da língua e considerar que a língua seja um meio acidental para resolver problemas específicos de comunicação ou de reflexão. O facto é que  o mundo real  é uma extensão construída inconscientemente a partir dos hábitos da língua do grupo. Estamos à mercê dos nossos formulários de expressão, ou seja, da nossa língua. Nunca duas línguas são suficientemente similares para serem consideradas como a representação da mesma realidade social. Os mundos em que as várias sociedades vivem são mundos distintos e não apenas o mesmo mundo com etiquetas diferentes. Vemos e sentimos de maneira muito diferente porque os hábitos da língua da nossa comunidade predispõe para determinadas escolhas de interpretação.

A compreensão do comportamento cultural é impossível a menos que seja conseguida a aprendizagem total da língua. Sapir interessou-se pelas conexões mais abstractas entre a personalidade, a expressão verbal, e o comportamento social.

As categorias e os tipos que  isolamos do mundo dos fenómenos não se encontram da mesma forma como cada observador os vê; pelo contrário, o mundo é apresentado num fluxo kaleidoscópico de impressões que têm de ser organizadas pelas nossas mentes ou seja, pelos sistemas linguísticos das nossas mentes. Recortamos a natureza, organizamo-la em conceitos, e atribuímo-lhe significações segundo os padrões da nossa língua. O acordo é, naturalmente, implícito e indeterminado, mas os seus termos são absolutamente obrigatórios; não podemos falar sem subscrever a organização e a classificação dos dados que o acordo decreta.

A hipótese de Sapir-Whorf indica que qualquer pensamento está confinado pela língua particular. O relativismo linguístico pressupõe que a língua possa servir como influência (ou  como confinamente) do pensar. Pressupõe que a língua forme directamente a maneira como pensamos.  Segundo esta ideia, a experiência mental do uso de uma segunda língua deve ser profundamente diferente da que se tem pelo facto de se usar a primeira língua. É nos domínios dos estudos linguísticos que deverão ser procuradas as razões profundas que justificam a diferenciação das maneiras de encarar o mundo.

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2.2 -  Problemática das interferências terminológicas

 

A linguística de Saussure introduziu a distinção terminológica de três termos que, na linguagem corrente, são tratados como sinónimos: linguagem, língua e fala. O emprego técnico destas três palavras para designar conceitos definidos no interior de um sistema de pensamento particular revelou-se muito útil para distinguir coisas que, de outro modo, ficariam confusas. Ao criar os termos da sua teoria, Saussure utilizava palavras já existentes no sistema da língua francesa com conteúdos de sentido mal delimitados, mas tendo o mérito de se diferenciar, e que ofereciam por consequência um quadro cómodo à classificação dos factos linguísticos  que a pesquisa clarificava. No entanto, se a sua transposição para o português não parece muito complicada porque encontramos palavras correspondentes, a sua passagem para línguas como o inglês é complexa porque não existem nem como palavras da língua corrente, nem como equivalentes técnicos. A palavra inglesa language corresponde quer à palavra langue (the English language)  quer ao langage em geral, enquanto que a palavra speech pode também corresponder em certos casos a langage e noutros a parole.                

O uso corrente destas palavras não sugere o uso técnico que pode ser feito das palavras francesas langage, langue, parole. Apesar disso,  estes meios linguísticos diferentes não impediram o desenvolvimento da linguística de expressão inglesa porque mais do que palavras, interessam os conceitos metodológicos que elas envolvem. Bastaria aos linguistas anglófonos aferirem as suas definições para distinguir os três conceitos distintivos da linguística saussuriana. No entanto, parece demonstrado que os universos de significação diferentes sugerem abordagens diferentes do fenómeno. Os problemas terminológicos e as interferências linguísticas estão na origem de mal-entendidos incidentes sobretudo em dois pontos: a indiferenciação na língua inglesa entre langage e langue, a que corresponde uma só palavra: language, obrigou os linguista americanos a adoptar a expressão natural languages para designar o que os franceses chamam les langues. O problema surge com a tradução literal da expressão após a introdução, na Europa, da linguística de Chomsky. A expressão passou a ser compreendida como o antónimo de línguas culturais ou línguas de cultura e não, no caso do inglês, por oposição às  línguas artificiais e nomeadamente às línguas formalizadas. Por outro lado, a expressão «línguas naturais» tende a ser assimilada com a noção saussuriana de língua por oposição à fala enquanto que, na realidade, a expressão deve incluir tanto o sentido de linguagem como o de língua. A impossibilidade de distinguir os dois sentidos de language, levou Chomsky e a sua escola a adoptar os termos competence e performance.  Alguns linguistas associaram competence à língua e performance à fala. No entanto, não parece haver nada no sistema de Chomsky que permita distinguir o que pertence à língua como sistema generativo, do que se deve à linguagem como capacidade universal do espírito humano e do que pertence de facto à fala. É impossível transpor os conceitos de uma abordagem metodológica para outra cujas premissas são totalmente diferentes.   

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3- Abordagem estruturalista da língua 

 

3.1 A contribuição de Saussure

 

Desde Saussure sabe-se que «a parte conceitual do valor (ou seja o significado lexical) é constituído unicamente por relações e diferenças entre ele e os outros elementos da língua».[59] Sabe-se portanto que o léxico não é um conjunto díspar, um armazém de palavras, nem uma simples nomenclatura do real, mas um conjunto de solidariedades internas, um sistema e que o valor de cada significado depende do que houver em seu redor nos outros signos. Todo o esforço da linguística neste domínio tende a evidenciar estas solidariedades internas e  revelar o sistema que sustém a desordem aparente do léxico o que explica a intransponibilidade dos significados de duas línguas.

A noção tradicional de língua como reportório em que as palavras apareciam para designar as coisas como no baptismo ou no recenseamento deriva do Génesis bíblico e do Crátilo de Platão. Segundo a   Bíblia, depois de Deus nomear o dia e a noite, o céu, a terra e o mar, pediu a Adão que nomeasse os animais. Em Crátilo de Platão, a teoria dos nomes comuns é dada como a da nomeação das coisas em geral; os nomes próprios não se diferenciam dos nomes comuns, o que representa o processo de indexação dos nomes às coisas. Saussure não fundamentou  a sua rejeição da noção de língua como nomenclatura apenas devido aos fenómenos da homonímia e da sinonímia porque a raridade desses casos permitiria aceitá-los, bastando apenas a inclusão de algumas ressalvas à regra comun. Saussure considerou que a relação entre a coisa em si e o nome era muito mais complexa que uma simples relação biunívoca de equivalências. Mais do que a relação entre o conceito e a sua imagem acústica, o que é importante para Saussure é a relação entre a palavra e a existência ou ausência de todas as palavras que se relacionam ou podem relacionar com a realidade designada pela palavra em causa. A língua não é um inventário mas um sistema; uma espécie de rede cujas malhas semânticas são interdependentes. Qualquer falha nesta estrutura reticular abala todo o sistema. Neste caso, em vez de ideias preconcebidas, os conceitos não são definidos pelos seus conteúdos mas pelas relações com os outros termos do sistema. São sempre aquilo que os outros elementos não são. No entanto, a ideia da língua como reportório estava tão enraizada que 40 anos depois de Saussure, Martinet ainda teve que combater esta noção de acordo com a qual o mundo estaria organizado em categorias de objectos distintos, cada um com uma designação diferente de língua para língua. Para transitar de um mundo linguístico para outro, bastaria que as correspondências entre as etiquetas e os objectos materiais ou culturais estivessem devidamente inventariadas.

Pode-se depreender que a linguística moderna destruiu a velha noção do léxico como reportório graças ao aperfeiçoamento das noções de sentido, de visão do mundo e de civilização. O léxico passou a ser encarado como uma estrutura ou como um conjunto de estruturas com base na ideia de campo semântico construída a partir do pensamento de Humboldt, de acordo com o qual a fala não é constituída pelo agrupamento das palavras preexistentes mas que, pelo contrário, as palavras resultam da totalidade da fala.

O tradutor realiza todas as operações de translação no interior do domínio semântico. A questão teórica que daí resulta é que, na sequência dos linguistas modernos, Saussure, Bloomfield, Harris, Hjemslev, a língua deixou de ser considerada um reportório de palavras correspondendo a outras tantas coisas e passou a ser entendida como um sistema de relações. O problema, agora, consiste em saber se a estruturação do léxico, feita com base na exclusão  do carácter universal dos conceitos, conduz linearmente à  intradutibilidade dos significados ou seja, trata-se de saber se, enquanto sistema fechado de relações, as línguas constituem visões do mundo particulares  incomunicáveis. Embora Saussure nunca tivesse abordado o tema, sabe-se que esta concepção da língua está na base das teorias da intradutibilidade. A crítica saussuriana do sentido esclarece cientificamente as razões do insucesso da tradução palavra a palavra, uma vez que os vocábulos não têm a mesma base conceptual em todas as línguas, podendo assumir valores bastante diferenciados consoante o sistema de oposições onde se encontrem. Se partirmos da definição de Saussure de onde saiu a maioria dos estudos sobre a estrutura comparada dos léxicos, verifica-se que, se a língua é um puro sistema de relações, o significado de cada signo é intradutível, e a tradução  só poderá ser uma aproximação. Como apesar de tudo a tradução existe de facto, importa sublinhar as relações existentes entre o sistema e o seu conteúdo semântico, ou, no pensamento de Hjelmslev[60], a forma e substância do significado lexical.

Com base no behaviorismo, Bloomfield[61]  faz depender o sentido de uma relação de estímulo e  resposta entre o locutor e o auditor. A captação total do sentido é cientificamente impossível porque supõe o inventário da soma total do conhecimento humano, tanto a nível macroscópico (o que poderia ser conseguido) como ao nível mais ínfimo, muito distinto de locutor para locutor e sem representação fixa nas formas convencionais. Segundo este ponto de vista, o  conhecimento do mundo é tão imperfeito que raramente se pode apreender o significado total e absoluto de um enunciado. O ponto fraco da linguística reside na impossibilidade de uma descrição exaustiva das significações dos enunciados. Partindo de tal limite, não existiria possibilidade de cientificamente legitimar a tradução porque não se pode ter a certeza da captação da totalidade do sentido. Esta dificuldade só será progressivamente anulada à medida que a humanidade progredir para um estádio de conhecimento absoluto. O carácter transitório da impossibilidade de tradução depende do grau de cientificidade da própria humanidade, mas enquanto a humanidade não atingir esse limiar de conhecimento, Bloomfield afirma que, apesar da falta de meios para definir a maioria das significações e para demonstrar a sua constância, deve-se partir do postulado de que há um carácter de especificidade e de estabilidade em cada forma linguística, exactamente como os falantes os postulam nas relações habituais que estabelecem entre si. Nas comunidades linguísticas, há enunciados comuns quanto à forma e ao sentido de onde se pode aceitar que exista uma significação específica e constante para dada forma linguística. A tradução dessas formas seria possível; a sua descrição exaustiva é que não.

O problema é que as noções de valor e de sistema aplicadas ao léxico são passíveis de várias interpretações. O ponto de partida da valorização do carácter sistemático do léxico encontra-se nas frases do Curso de Linguística Geral que afirmam que «a língua é uma forma e não uma substância», que «o signo tem não só uma significação mas também um valor,» que « no interior de uma mesma língua todas as palavras que exprimem ideias vizinhas limitam-se reciprocamente»[62] ou ainda que a «parte conceptual do valor (ou seja: o significado lexical) é constituído unicamente por relações e diferenças». Apesar de muitas observações sobre as línguas comprovarem este facto, a noção de estrutura do léxico continua a ser um problema para a linguística e existem ainda divergências em relação à aplicação do princípio estrutural à componente semântica da língua. Duvida-se ainda da possibilidade de dar visibilidade à estruturação do léxico por meio do mesmo tipo de análise que se aplica em fonética e em gramática. É por isso que, para Martinet, «o léxico propriamente dito parece muito menos facilmente redutível a modelos estruturais do que os morfemas gramaticais, uma vez que se examinam certos domínios particulares, tais como os de termos de parentesco, os numerais e outros».[63]

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4. O papel da linguística distribucional

 

A linguística distribucional pretendeu analisar a linguagem sem qualquer preocupação pelo sentido. Pondo de parte as considerações semânticas, pretendia-se objectivar a linguagem. A análise tenta isolar o conjunto das estruturas que regem uma língua pelo estudo das distribuições dos elementos do texto. Martinet critica este método de análise por considerar inverosímil que alguém efectue a análise de uma língua que desconheça totalmente. A análise distribucional seria um método descritivo que exigiria agrupamentos de categorias em relação aos quais o sentido apenas poderia servir para desfazer ambiguidades.

Harris acabou por ter que reintroduzir o sentido como critério auxiliar deste tipo de análise.

Hjelmslev, tal como Harris e Bloomfield constróem uma teoria da linguística, recusando qualquer utilização das significações. Para Hjelmslev, a linguagem supõe duas substâncias: a substância da expressão, física e material e a substância do conteúdo. Verifica-se que o sentido é construído de modos diferentes de língua para língua, o que leva à conclusão que as formas do conteúdo variam de língua para língua mesmo sem modificação da substância do conteúdo. Antes de assumir uma forma, a substância do conteúdo, o sentido, é uma massa amorfa que, por isso mesmo, escapa a qualquer forma de conhecimento. Por conseguinte, a descrição das línguas não pode ser a descrição da expressão ou do conteúdo mas a das formas. Hjelmslev, Saussure, Bloomfield e Harris pretendem fornecer métodos mais científicos para aproximar o sentido mas aceitam o postulado da existência de uma significação relativamente específica e estável para limites cada vez mais conhecidos. De acordo com este postulado, as operações de tradução seriam possíveis e sê-lo-iam cada vez mais, à medida que a ciência linguística evoluísse.

Partindo das noções de Hjelmslev sobre substância do conteúdo (significação) e forma do conteúdo (designação), uma concepção do significado considerado como o resultado do simples recorte conceptual conduz naturalmente a uma teoria da intradutibilidade uma vez que se considera não ser apenas a forma que difere de língua para língua, mas também o conteúdo conceptual. O modo de classificação assimila-se aos conceitos classificados e é por conseguinte hipostasiado fornecendo, assim, dados para caracterizar a mentalidade dos povos. Foi essa concepção implícita que originou as teorias neo-humboldianas sobre «as diferentes visões do mundo» e que impregnam certas teorias estruturalistas. Sem recorrer a línguas exóticas para salientar o carácter ilusório desta concepção, basta analisar a palavra inglesa fish: se perguntarmos a um português falando inglês qual o equivalente da palavra inglesa fish, ele responderá certamente com a palavra peixe pela evidência  dos significados das duas palavras. Uma análise mais atenta levanta algumas dúvidas porque é impossível traduzir por peixe as palavras inglesas shell-fish (crustáceos) e crayfish (lagostim, lagosta). Como é impossível que um português suponha que o inglês ou o americano que emprega estas palavras ignore a natureza biológica diferente do peixe e do animal  artrópode de respiração branquial, ele deverá supor que a língua inglesa mantém vestígios de um estádio de conhecimento pré-científico que assimilava os peixes aos outros animais marinhos tal como a consciência infantil pode assimilar as baleias, os golfinhos ou as focas. Terá a impressão de uma apreensão simplista da realidade biológica. Se em vez do exemplo inglês estivéssemos perante uma língua exótica falada por um povo fora da era científica, qualquer linguista poderia concluir que se tratava de uma visão do mundo diferente. O linguista não pode satisfazer-se com essas explicações simplistas. Deve verificar que o inglês e o português diferem aqui, como noutros exemplos, na análise do real designado. O número considerável de animais designados em comum pelo português peixe e pelo inglês fish mascara o facto de que o critério de classificação das duas palavras difere. A língua inglesa utiliza um critério de classificação diferente porque a designação é feita em função do meio aquático enquanto que a palavra portuguesa é designada em função de um critério de forma e características biológicas. A significação do lexema inglês não implica a imposição de um modo de ver as coisas mas é uma classificação baseada em critérios puramente linguísticos que não impedem a faculdade abstracta de classificação segundo critérios cognitivos. As línguas recortam de modos diferentes os dados da experiência originando diferenças  na relação entre o universo das palavras e o universo das coisas. Trata-se de uma estruturação ao nível da designação e não da significação. Os autores que estudaram esta problemática  na sua relação com a tradução abordaram-na segundo os dois pontos de vista que correspondem aos dois eixos da análise linguística (fonologia, gramática, semântica, etc...). De facto, tanto para o léxico como para os outros factos da língua, o linguista pode situar-se quer no eixo das oposições, quer no dos contrastes; no das escolhas e exclusões ou no do recorte e agrupamentos no enunciado. Apesar dos dois serem complementares, é importante verificar que o privilégio de um em detrimento do outro conduz a uma problemática e a conclusões sensivelmente diferentes. De acordo com os exemplos de Hjelmslev, podemo-nos colocar ao nível do enunciado e verificar que este enunciado está recortado por unidades de significado totalmente diferente de uma língua para a outra. É assim que a análise praticada nos seguintes equivalentes de tradução: português não sei; inglês I do not know; alemão Ich weis nicht; italiano non so etc... , mostra que o mesmo sentido é composto por elementos de significado distribuídos diferentemente no enunciado e irredutíveis uns aos outros.[64]

É necessário ter em conta que esta análise supõe que se considere simultaneamente dois níveis de linguagem: por um lado, a língua como conjunto de significados; por outro, o enunciado que não é apenas um acto de língua mas um acto de fala visto que consiste em sintetizar sentido ou seja transformar um conjunto de significados numa mensagem única. O estudo do enunciado, qualquer que seja, corre o risco de originar um resultado ambíguo pela confusão dos diferentes planos da estrutura, do código e da mensagem. Por outro lado, a análise de frases como estas põem em jogo não só o conteúdo lexical das palavras mas também a totalidade da gramática das línguas comparadas, a distribuição diferente dos elementos devido mais às diferentes morfologias do que ao conteúdo lexical dos significados considerados. Este exemplo[65] como outro frequentemente citado das diferenças de recortes operados no enunciado pelo português e pelo inglês em frases como:  atravessou o rio a nado e he swam across the river ilustra a  diferente repartição dos dados da experiência. Em vez de nos colocarmos ao nível do enunciado, podemo-nos situar numa perspectiva das oposições lexicais por exclusão ou seja pode-se observar e evidenciar os diferentes recortes operados pelas línguas não apenas ao nível das unidades «in presentia» mas ao nível da unidades «in abstentia» observando-os no interior dos campos lexicais.

O ponto de partida da análise da relação entre as estruturas linguísticas o os campos lexicais encontra-se na demonstração saussuriana segundo a qual «no interior de uma mesma língua todas as palavras que exprimem ideias vizinhas limitam-se reciprocamente» e «o valor de qualquer termo é determinado pelos que dele se aproximam»[66]. A concepção do léxico como estrutura substituiu a concepção do léxico como nomenclatura. Os procedimentos de apreensão desta estruturação não foram dados por Saussure enquanto enunciava o princípio. É possível perceber a enunciação de  diversos modos: «os que dele se aproximam» e o «valor» também podem ser interpretados de modos diferentes em função dos tipos de relação existentes entre os signos. No próprio Saussure, este termo tanto é aplicado à significação como ao conteúdo do signo por relação com aqueles que «exprimem ideias vizinhas». Se se dissociarem estes dois aspectos,  apenas com a preocupação de analisar as relações ao nível das ideias designadas ou seja as relações que as ideias estabelecem entre as palavras, e não as relações que as palavras estabelecem entre as ideias, os procedimentos com vista a evidenciar o «valor» das palavras em relação a outras palavras estão longe de estar totalmente definidas.

O linguista  que, para estudar o valor dos fonemas ou das categorias morfológicas, possui métodos de análise cientificamente comprovados, sente dificuldades logo que se trate de isolar as relações existentes entre «as ideias vizinhas». Não estão estabelecidos os critérios para determinar o grau de vizinhança. Não se conhecem os critérios segundo os quais tal ou tal palavra possa ser incluída  ou ser excluída na lista das palavras que se querem comparar. Um sistema morfológico compreende apenas um número reduzido de categorias que se impõe e que dominam, mas em cada sistema há sempre outros sistemas que se cruzam representando, ao lado das categorias plenamente estabelecidas, categorias em embrião ou em vias de desaparecimento. Segundo Merleau Ponty, “em cada momento, sob o sistema da gramática oficial que atribui a tal signo tal significação, aparece outro sistema que comporta o primeiro e procede de outro modo: a expressão não é ordenada ponto por ponto em relação ao expresso; cada um dos seus elementos só se define e recebe existência linguística pelo que recebe dos outros, pela modulação que lhe imprime. É o todo que tem sentido e não cada uma das partes.”[67]

Existem componentes linguísticas onde apenas o seu valor de uso conta, não têm significantes que se possam isolar, no entanto, incorporados na fala, têm um valor irrecusável. Mesmo verificando que a atitude puramente distribucional conduziu a um impasse como mostrou a linguística distribucional de Harris seguida nos Estados Unidos por Chomsky, é incontestável que sem a investigação prévia dos dados puramente formais era impossível estudar cientificamente o significado. O problema agudiza-se quando se trata de mostrar as resistências à tradução porque não se trata já de comparar apenas as palavras de um sistema no interior de listas mas de comparar listas de palavras oriundas de dois sistemas linguísticos diferentes. O carácter estrutural da língua revela-se se se considerar que as palavras  só adquirem o seu próprio valor por contraste com as outras palavras do sistema apesar da sua virtualidade polissémica. Este valor situa-se a um nível de estruturação que escapa à consciência linguística mas é ao nível desta consciência que se situa o estudo das diferenças no seio dos campos lexicais. Por isso, corre-se o risco que a análise explícita da substância e a análise implícita da forma interfiram na consciência do descritor.

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4.1- A estrutura reticular da língua

 

De acordo com Jost Trier citado por Georges Mounin: «o campo lexical é o conjunto das palavras, sem parentesco etimológico na maioria (nem ligadas entre elas por associações psicológicas individuais, arbitrárias, contigentes) que, colocadas lado a lado como as peças irregulares de um mosaico recobrem exactamente todo um domínio bem delimitado de significações, constituído quer tradicionalmente, quer cientificamente, pela experiência humana. Pode-se assim falar de campo lexical constituído pelas palavras que designam o entendimento, o gado ou os cereais, ou as habitações; são mosaicos de palavras, o que Trier chama Wortdecke»[68]. Esta definição vai ao encontro da noção de língua-estrutura porque considera a língua uma estrutura decalcada a partir da organização conceptual que lhe preexiste. Além disso, situa-se no domínio do estudo psicolinguístico muito mais do que do estudo da língua considerada como uma estrutura simultaneamente individual e escapando ao indivíduo porque, no estudo dos recortes da língua,  deve  separar-se aquilo que pertence à actividade conceptual daquilo que faz parte da competência linguística. Trier  distingue campos conceptuais (espécie de mosaicos de noções associadas cobrindo um domínio bem delimitado que a experiência humana isola e constitui em unidade conceptual) de campos lexicais (cada um formado pelo conjunto das palavras que cobrem os campos conceptuais correspondentes). Todo o problema linguístico de tradução assenta na possibilidade de designar os mesmos conceitos por meio de palavras pertencendo a línguas diferentes de modo a que campos conceptuais idênticos possam corresponder campos lexicais diferentes. Para isso, é necessário que um procedimento baseado em critérios linguísticos permita determinar os campos lexicais e que os campos conceptuais possam ser  definidos fora de qualquer língua particular. Deve notar-se, no entanto, que uma mesma palavra pode entrar em campos conceptuais diferentes em função da noção de polissemia. A palavra quadro, por exemplo, é susceptível de figurar no campo dos objectos suporte de escrita ao lado de caderno, papel, agenda mas também pode pertencer ao campo das obras de arte ao lado de desenho, pintura, aguarela etc... É esta capacidade de entrar em campos associativos diferentes preservando a sua identidade ao nível da significação que constitui a sua especificidade de signo, por isso é diferente  estudar o signo em si ou estudá-lo em relação aos outros signos. Esta relação é ela própria muito contingente porque as relações associativas conceptuais nem sempre são tão evidentes como este exemplo deixa supor porque a palavra quadro, por exemplo, poderia  perfeitamente evocar outro tipo de associações para um locutor diferente; por exemplo, ao lado de mesa, cadeiras, giz constituindo o campo conceptual dos objectos escolares. A constituição do campo conceptual é ela própria fruto de uma operação mental taxionómica que escapa à análise linguística. Contrariamente ao que se passa na estruturação significativa, os campos lexicais não são dados de imediato pela língua; a análise da sua organização depende da intervenção do descritor que os constitui numa base arbitrária derivada da sua própria conceptualização. Situam-se num ponto ambíguo da linguagem onde as palavras escapam ao universo da significação para se inserirem em redes de relações conceptuais e onde as relações entre as palavras procuram reflectir uma ordem de relações percebidas entre as coisas. Toda a ambiguidade da noção de campo lexical deriva do facto dele poder ser tratado como um facto de língua pura ou como dependendo de um universo extrínseco à língua. Já foi visto que a taxionomia praticada pela língua por meio da polissemia não tinha em conta os dados científicos e que o universo da designação era concebido de uma forma caótica, prévia à classificação operada pelo processo estrutural da significação. No entanto, não se deve concluir que pelo facto da palavra ser encarada, não do ponto de vista da sua significação mas pela sua inserção num campo conceptual, o tipo de relações que mantém com as outras palavras deste campo reflicta uma organização objectiva do universo. Estas relações reflectem uma taxionomia de outra ordem mas não assimiláveis com a classificação científica das coisas. Isso depreende-se de outro exemplo de Georges Mounin: «um pequeno citadino de dez anos, para designar todas as produções vegetais que ele classifica muito vagamente como herbáceas no campo dispõe em geral de duas palavras: trigo, erva. Por exemplo, para ele toda a produção herbácea, num terreno bem delimitado, visivelmente trabalhado é trigo; num terreno, mesmo bem delimitado mas cujo solo não parece ter sofrido trato cultural é erva. Tudo o que não é erva é trigo, tudo o que não é trigo é erva. Se o nosso pequeno citadino, por acaso, aprende a distinguir a aveia pela sua espiga; por diferença, tudo o que não é aveia permanece trigo. Mas se ele ainda aprender a distinguir cevada pela espiga, o trigo será  tudo o que não for cevada nem aveia. Enfim, no dia em que distinguir centeio pela espiga, o trigo será aquilo que não é nem cevada nem aveia nem centeio; o centeio, o que não é nem trigo, nem cevada nem aveia etc... Em vez de um sistema com um único termo indiferenciado (a erva do pequeno citadino de seis anos, por exemplo), ele possui um sistema lexical com cinco termos interdependentes, definindo-se cada um por oposição a todos os outros, e isto nos limites das suas reais necessidades de comunicação linguística»[69]. Verifica-se que o facto do campo lexical  ser constituído por palavras designando vegetais depende essencialmente de uma diferenciação e de uma organização de conceitos cada vez mais apuradas à medida que a criança aumenta os seus conhecimentos. Constitui-se simultaneamente o campo lexical e o campo conceptual ou mais exactamente introduz-se descontinuidade no campo conceptual visto que ele pode ser considerado como existente mesmo quando está indiferenciado.  Evidencia-se aqui um laço entre a definição de conceitos e a aquisição de léxico. Esta visão das interdependências lexicais reforça o ponto de vista saussuriano da constituição do sentido que acaba por se ampliar à medida que a aprendizagem aumenta no sentido de uma diferenciação de cada uma das malhas da rede linguística que recobre a mesma área conceptual. Sempre que o vocabulário aumenta, criam-se novas malhas, mas como a área conceptual não aumenta, a rede deve reajustar-se no sistema de oposições e diferenciações que não existiam antes. Apesar do exemplo partir da experiência de uma criança, repete-se o mesmo processo no homem quando aumenta os seus conhecimentos adquirindo o vocabulário de uma ciência, de uma técnica ou de qualquer domínio, que o leve a dissociar e a classificar noções tratadas globalmente até então, ou sem existência anterior no seu universo conceptual.

O universo designado pela criança que nomeia trigo «Toda a produção herbácea, num terreno bem delimitado» é o mesmo que é nomeado por um agricultor adulto; apenas varia o grau de diferenciação. Trigo, para a criança, não será impróprio em si, sê-lo-á apenas em relação ao léxico daquele que distingue trigo, cevada, centeio, etc... no seio de um campo conceptual global que é o dos cereais. Para a criança que não conhece o termo mais geral de «cereais», «trigo» é uma palavra genérica cujo emprego não exclui a distinção de diferentes espécies de «trigo»(o da espiga pontiaguda, aquele que tem filamentos etc.).

A limitação da definição de campo lexical supõe a comparação de duas espécies de organização conceptual: a da criança e a do adulto tomadas como sistema de referência. Supõe nomeadamente que um termo globalizante constitua o lugar de unificação de termos considerados como englobados. Neste caso, o termo globalizante é «cereais». Fora desta aproximação conceptual, as palavras trigo, aveia, centeio etc., não se aproximam pela língua nem estão ligadas por nenhuma relação formal. A nível das associações mentais é mesmo provável que trigo suscite de preferência palavras como farinha, pão, verão, palha, ceifa, etc... Note-se que este campo lexical, contrariamente às aparências, não é um dado científico imediato, uma classificação automática de conceitos mas supõe uma intervenção racional para ser constituída. Do ponto de vista da botânica, os cereais só existem como classe de vegetais sendo apenas um agrupamento de plantas pertencentes às gramíneas e que segundo o senso comum são constituídos de acordo com os critérios de  alimentação humana e animal e pelo critério de forma da sua espiga mais do que de acordo com critérios científicos definidos. Daí se conclui o carácter empírico da definição de um campo. Os campos lexicais não são preexistentes à nomeação mas nascem ao mesmo tempo que ela, quando a diferenciação dos objectos provoca a dissociação das palavras que os designa. Os campos não são dados pelo real previamente recortado e extrínseco à língua; são o resultado do encontro entre a captação do real e o modo de classificação operado pela operação linguística. A operação lógica, ou seja classificadora, que preside ao estabelecimento do campo, é contemporânea daquela que aplica uma significação a cada termo conceptual separado pela análise linguística. A constituição do campo é algo eminentemente subjectiva realizada em função da experiência individual. Na constituição do campo podem confundir-se três coisas de ordem diversa. Por um lado, o campo conceptual individual, por exemplo da criança que aprende a distinguir cereais; por outro, a convergência dos campos conceptuais que resulta da partilha social e linguística, e que leva as pessoas que vivem no mesmo meio cultural e natural a terem a mesma diferenciação das ideias; finalmente, a operação metalinguística que permite dissertar sobre estes campos e compará-los, ou seja a referência não explicitada a um campo conceptual tomado como modelo referencial que é a classificação científica.

Na multitude dos campos conceptuais, privilegiam-se aqueles que se baseiam no discurso científico. No exemplo dado por Mounin, tomou-se como modelo o campo lexical estabelecido pela botânica. É necessário ter em conta que os campos semânticos estabelecidos com intenção científica são apenas um caso particular nos campos lexicais em geral. Manifestam a utilização que o discurso científico faz da língua ou seja, do modo mais exacto possível, procuram   reflectir as relações reais que a classificação científica capta entre as coisas reais. É o ponto de chegada de um processo conceptual que pretende reduzir a distância entre o universo da significação e o universo do real, procura fazer depender as palavras dos conceitos, e não os conceitos das palavras. Representa uma objectivação da linguagem, sem por isso, fazer desaparecer a sua subjectividade primordial e essencial do resto da língua.

Elaborando campos conceptuais sobre modelos de organização captados entre os elementos do real, a ciência fornece um tipo de organização e de recorte entre outros possíveis. Neste tipo de organização, o objectivo cognitivo é evidente mas não deriva da estrutura da língua. Os campos lexicais propostos pelas diversas ciências não podem ser considerados como referências absolutas e intocáveis, na medida em que toda a ciência evolui e põe em causa as suas próprias classificações. A própria ciência deve ser considerada pelo linguista como um processo de apropriação da linguagem no universo real, e não como o próprio universo real. A referência aos campos conceptuais da ciência não pode, por isso, ser tida como referência absoluta.

As unidades da língua dependem de dois tipos de organização. Por um lado, fundamentam-se  sobre a pertença estrutural, e determinam a palavra como significação pura no interior de um sistema de significações; por outro lado, baseiam-se na função simbólica, fazendo captar a palavra numa rede de conceitos onde se insere de modo mais ou menos conforme aos dados da ciência, mas que manifesta sempre uma tendência para reflectir as relações captadas entre os elementos do real. O dizer encontra-se, por isso, duplamente estruturado. É estruturado como significação, como valor, ao nível do sistema, mas também ao nível da designação, ou seja ao nível dos campos lexicais, mas não o é do mesmo modo. Comparando a língua a um mosaico, ou a um puzzle, Saussure introduziu uma ideia chave na linguística, ou seja, a definição por diferença; no entanto, os seus sucessores nem sempre consideraram que o significado devia ser considerado de modo diferente como valor ou como conteúdo. O princípio de imanência teve tendência em substituir o sentido pelo valor, mascarando o facto de que os dois aspectos do significado estão presentes e necessitam de uma abordagem conjunta. No primeiro caso, o estudo revela uma rede de relações entre as palavras, independentemente do seu  conteúdo referencial: a palavra é considerada como entidade em si. No segundo caso, ele revela relações entre palavras captadas, não nelas próprias, mas como símbolos de objectos apontados através delas. É só neste segundo nível que se pode aplicar a imagem do mosaico, porque é aí que a palavra pode ser considerada em relação directa com o seu conteúdo de designação, e que se podem aproximar palavras que nenhuma relação de forma liga entre si.

O procedimento permitindo aos linguistas comparar campos conceptuais em duas línguas diferentes procede da tradução e das interferências de sistemas que ela criou, e pelo facto de considerar como um dado prévio aquilo que é apenas uma consequência. Concluir acerca da impossibilidade de fazer coincidir os elementos de dois campos semânticos de duas línguas diferentes, é ter preconceitos sobre o modo como se realizou a actividade de tradução que esteve na base da comparação, e assimilar o valor das palavras à sua definição contextual e situacional. É necessário que a teoria explique o que se passa na operação tradutora que permite relacionar estes dois conjuntos. Por isso, a discussão da natureza dos campos conceptuais e da sua não universalidade torna-se um círculo vicioso porque a própria noção de campo, definida como noção linguística, levanta mais problemas do que resolve. 

Saussure sublinhava que qualquer signo linguístico só podia ser analisável na intersecção de dois eixos, ou seja duas séries de elementos às quais o signo está associado. Sabe-se que o problema do recorte coloca-se de modo diferente consoante o falante se situe no eixo do enunciado ou no eixo de campo paradigmático. Apenas a tomada em consideração dos dois eixos simultaneamente parece susceptível de deixar progredir o estudo semântico, tal como permitiu à fonologia e à gramática constituírem-se como ciências. Tal como se encontram, na gramática, relações verticais no interior de listas paradigmáticas e relações horizontais entre tipos de monemas no eixo sintagmático, uns permitindo definir os outros, e em fonologia os traços pertinentes se analisam no interior dos fonemas definíveis por oposição e contraste, também os elementos lexicais se situam na intersecção de dois tipos de relações associativas. Saussure, que utiliza este termo, reserva-o para as relações in abstência, do tipo: ensino, educação, aprendizagem (sem falar das relações paradigmáticas formais como ensino, ensinas, ensinamos)[70]. Tal como não aprofundou o estudo do eixo do texto para os outros níveis da estrutura, também não abordou as relações associativas textuais, apesar da sua importância para o estudo dos valores lexicais, visto serem elas que constituem os contextos. Ao lodo de relações associativas do género ensino, educação, aprendizagem ou trigo, aveia, centeio, cevada, existem relações associativas do tipo, ensino, professor, aluno ou trigo, campo, ceifa, farinha. Enquanto que os primeiros são campos, na medida em que as palavras que os constituem são objecto de uma escolha excluindo as outras no enunciado, os segundos também são campos porque as palavras remetem umas para as outras e completam-se no enunciado. Não mantêm relações de semelhança mas de complementaridade, não fundada numa obrigação sistemática de tipo gramatical, mas na frequência da associação no enunciado, e na consciência que as palavras assim associadas recortam num sector conceptual. Consideram-se campos semânticos e campos lexicais as associações verticais, e campos contextuais as associações horizontais. São estas associações que constituem os contextos, sendo cada palavra do enunciado elemento de contexto para as outras palavras do mesmo enunciado. A importância destas relações contextuais é tão grande que se pode dizer que, fora do contexto, a palavra não tem designação, tem apenas uma significação. Se nos interrogarmos para saber em que é que o contexto confere a designação à palavra, verifica-se que é o contexto que revela a polissemia da palavra através da lista de oposições mais provável em que a palavra aparece e onde deve ser captada. Por exemplo, de acordo com o contexto de quadro na frase:  «O professor escreve a lição no quadro», as associações semânticas entre as diferentes palavras do enunciado só poderão incluir quadro no campo lexical constituído por palavras como quadro, caderno, livro, giz; excluindo a possibilidade de integrar a palavra noutro campo do tipo: quadro, desenho, esboço, pintura, aguarela. Ao criarem um horizonte de espera, as relações contextuais reduzem o número de listas nas quais a palavra pode ser comparada e oposta a outras palavras. Os campos associativos contextuais  determinam os elementos constitutivos dos campos lexicais. É pelo facto de saber que deve escolher entre eles nas mesmas associações contextuais, que o locutor sabe que tal ou tal palavra pertence à mesma lista, ou seja está ligada por relações associativas verticais. O contrário também é verdade: a palavra situada num campo lexical remete para associações contextuais, ou seja, para outros elementos susceptíveis de figurar nos mesmos enunciados. Assim, quadro remete para escrever, escola, professor, mas também pode remeter para representar, pintar, moldura. O campo lexical representa o modo como se analisa o campo conceptual e o campo contextual representa o modo segundo o qual se analisa o enunciado. No entanto,  em qualquer dos casos trata-se da mesma análise aplicando-se segundo dois eixos complementares e indissociáveis, cada um dos quais servindo de critério para  a análise do outro. É graças a essa possibilidade que a elucidação dos campos contextuais permite constituir listas de substituição passíveis de  serem comparadas de língua para língua. A totalidade do léxico de uma língua é constituída pela articulação de todos os campos lexicais restritos, acrescida da sua inserção nos campos lexicais cada vez mais gerais.

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5. O papel da semântica na tradução

 

5.1- A importância da polissemia

 

O problema teórico mais genérico da tradução é, por conseguinte, o da convergência dos campos lexicais.

A noção de campo semântico é importante para a teoria da tradução porque se verifica que o sistema linguístico encerra um mundo exterior que lhe é próprio mas que difere de língua para língua. Quando se fala do mundo em línguas diferentes, é raro falar-se do mesmo mundo. Basta analisar o exemplo fornecido pelas formas de distinção dos vários tipos de neve entre os esquimós. A tradução de qualquer dessas palavras é sempre neve, logo há uma malha única ao passo que na língua dos esquimós se contam uma dezena de palavras de modo a distinguir os vários tipos de neve. A tradução de qualquer dessas palavras sempre pela mesma origina uma enorme perda semântica.

Outro exemplo muito significativo pode ser extraído da língua dos gaúchos argentinos com um campo lexical de duzentas palavras para nomear a pelagem dos cavalos. Na língua portuguesa há cerca de uma dúzia, considerando as palavras compostas; a cada malha linguística do português correspondem mais de dez, de onde se torna evidente a perda semântica na passagem do gaúcho para o português.

No entanto, além das descrições saussurianas de Trier, Cantineau ou Vogt, outras tentativas foram feitas nomeadamente por Pottier[71] e Greimas[72], para aplicar ao léxico uma descrição estrutural, fundada na explicação das relações existentes no interior do sistema global. É por isso que Greimas, por meio do conceito de sema, procedeu de uma forma análoga àquela que era utilizada com os traços distintivos pertinentes em fonologia. A fonologia diferencia uma vida sublinguística e organiza sistemas de signos que começam por não ser signos de certas significações mas têm o poder de regulamentar e diferenciar a cadeia verbal segundo dimensões características de cada língua. Não foram experiências conclusivas mas reforçou-se a ideia da impossibilidade de aplicar ao léxico o modelo estrutural. Por outro lado, as noções saussurianas de valor e de sistema quando aplicadas na comparação das línguas, do ponto de vista da tradução, levantam mais problemas do que resolvem. A razão é que os dados considerados no estudo do léxico são tão diversos que produzem formas muito distintas de apreensão e por isso originam modelos estruturais diferentes.

Um dos problemas frequentemente referidos é o da polissemia. Questiona-se se  ela é fortuita ou seja se o conjunto das associações conceptuais próprias de um signo dado constituem um conjunto heteróclito, ou se , pelo contrário, uma racionalidade interna ao sistema preside a esta polissemia, O linguista, aplicando esta reflexão sobre o signo à tradução, é tanto mais levado a interrogar-se sobre a racionalidade interna quanto mais as palavras de línguas diferentes apresentarem associações conceptuais não sobreponíveis, ou seja polissemias diferentes. Por outro lado, falta saber de que modo o significado de um signo depende dos signos que o rodeiam nos campos semânticos.

O problema é que, se o significado é um complexo de significações, e por isso já dificilmente captável em si-mesmo, como unidade semântica, como é que se pode mostrar que ele depende dos outros significados da língua? Como é que se podem descobrir «afinidades e relações» entre entidades que nem sequer se podem captar em si-mesmas porque pela sua polissemia, o signo escapa às listas de signos (campos lexicais) que se podem comparar ou seja aqueles que exprimem «ideias vizinhas».  O problema da estrutura do léxico ultrapassa a simples questão da limitação recíproca dos significados em função das relações de proximidade e a concepção saussuriana da língua concebida como um sistema deve poder dar conta deste fenómeno. A polissemia mostra que o significado não é um dado simples nem imediato, e a sua descrição supõe que se tenha em conta a totalidade dos aspectos pelos quais ele se revela ao analista.

A polissemia é um dado flagrante: a experiência de qualquer utilizador da língua fornece-lhe constantemente exemplos da polivalência semântica dos signos que ele utiliza. Basta-lhe abrir um dicionário para ter a confirmação da omnipresença da polissemia. O termo foi introduzido por M. Bréal no final do século XIX.  No entanto a polissemia é a característica do signo mais ignorada e mais mal integrada pelas teorias linguísticas. Ullmann[73] aborda o tema integrando-o num capítulo sobre a ambiguidade semântica onde cita Gilliéron, que, em 1918, considerou este casos como patologias da língua que estavam na origem do desaparecimento de palavras. A maioria dos autores não a referem porque Saussure não colocou esta característica ao lado da arbitrariedade, do valor, da mutabilidade do signo.

Em vez de se considerar uma questão marginal, a polissemia é um dado importante para a teorização semântica. Se a polissemia se baseasse na natureza das coisas, verificar-se-ia uma polissemia idêntica para todas as línguas do mundo, entre signos que, então, seriam comutáveis entre si em qualquer circunstância. Uma vez que não é o caso, ficam duas possibilidades de explicação: ou se admite que a polissemia dos signos é anárquica e não obedece a nenhuma ordem  ou se postula que ela é a manifestação de uma ordem estrutural, não imediatamente perceptível mas que a análise científica pode demonstrar. Em relação à primeira hipótese, bastaria para a aceitar verificar a simples enumeração das acepções que constituem o significado de um signo dado num dicionário. Para cada palavra encontra-se um conjunto de acepções que não parece obedecer a nenhuma ordem especial. Por mais heteróclito que seja o conteúdo do significado da palavra, o valor do signo parece escapar aos inventários restritos nos quais se pretende captá-lo. A polissemia, que faz do significado uma entidade ao mesmo tempo una e diversa, coloca à linguística da língua um problema semelhante àquele que o fonema apresenta em relação às suas variantes. Para tentar encontrar esta ordem secreta, estabelece-se uma distinção entre os termos significação e designação. Apesar de empregues como sinónimos na linguagem corrente, podem servir para distinguir as duas componentes complementares, mas irredutíveis, do significado. Todo o signo designa um conjunto de conceitos e a designação é a relação simbólica estabelecida entre um signo e um dos seus conceitos ou simplesmente o seu conceito quando for único. Esta distinção é importante para o estudo semântico em geral e é fundamental para o estudo da tradução porque permite esclarecer o paradoxo que constitui a tradutibilidade do signo apesar da sua intransponibilidade. O dicionário bilingue apresenta uma classificação das acepções traduzidas sem que nenhum critério permita decidir acerca da validade desta classificação. No entanto, o modo como estão organizadas não é inocente porque habitualmente seguem a ordem adaptada dos dicionário unilingues estabelecidos em função da ordem de aparecimento das acepções ao longo da história da língua e do qual constituem uma espécie de estratificação diacrónica. Não se pode, apesar disso, distinguir  relações entre o verdadeiro sentido das palavras e os sentidos derivados, ligados ao primeiro na consciência linguística de um falante de língua materna. Por isso, esta classificação não é pertinente para um estudo sincrónico. Ela também não poderá ser interpretada como estando fundamentada na importância relativa das acepções da palavra ou seja sobre a frequência de ocorrência de umas acepções em relação às outras. A taxionomia do dicionário não reflecte nada a importância relativa das acepções pelo número relativo de linhas que lhes atribui. O lugar dado a cada acepção parece depender dos problemas suscitados pela tradução da palavra na outra língua. É um aspecto que não depende da análise da palavra enquanto elemento numa dada língua mas do estudo dos fenómenos de interferência linguística.

O linguista tem tantas dificuldades em formular o conteúdo dos traços pertinentes semiológicos como o fonólogo para encontrar os traços pertinentes fonológicos. Tal como o fonólogo só pode utilizar termos fonéticos, o semiólogo só pode recorrer a aproximações semânticas ou  a abstracções matemáticas. Há no entanto algum perigo em querer formular em termos semânticos precisos o que é um puro valor e não um conteúdo porque um signo só ganha o seu valor em relação aos outros elementos lexicais da mesma língua e não de outra. Quando, regressando ao próprio signo se tenta isolar o que constitui a sua identidade de signo, quando se tenta captar, aquilo  em frente ao qual se está, já não surge como um conjunto heteróclito, mas como um único valor definindo-se como a constância da relação desse signo com as coisas que ele pode designar por um lado e por outro com a língua ao qual pertence. O que desaparece na passagem de uma língua para a outra é precisamente este valor unificador, esta significação do signo porque para o traduzir é-se obrigado a empregar outros signos que, embora capazes de reenviar para as mesmas coisas, transportam com eles a sua própria significação e reconstruem o universo do «querer dizer» segundo outros critérios de análise. Na língua, a coisa não é só designada, também é significada ou seja incluída numa rede de relações que mediatizam esta designação. Primeiro, no interior da palavra tomada isoladamente porque é captada como um conjunto de conceitos e depois, no conjunto estruturado das palavras da língua, porque o que é dito da coisa designada pela significação, não é a sua individualidade, a sua realidade tal como poderia ser cientificamente captada mas a  relação e a diferença com outras coisas designadas pelas mesmas palavras da língua.

Ao nível da significação, a coisa designada não é captada por si mesma, mas por um dos traços que a caracterizam do ponto de vista do sistema de classificação conceptual e que a assimila por esse sistema a outras coisas percebidas com o mesmo traço. A significação é apenas um critério de análise do sentido fornecido pelo sistema linguístico tal como o traço pertinente é um critério de análise do som em fonologia. Nem todos os semânticos aplicam a descrição derivada dos sistemas fonológicos e gramaticais caracterizado pela dissociação da forma e da substância. Alguns procuraram revelar estruturas semânticas quer situando-se no próprio interior do designado e procurando recortá-lo em traços pertinentes semânticos, quer situando-se no interior dos campos semânticos, ou seja abandonando o domínio do significado propriamente dito para se colocarem no das coisas designadas. A significação da palavra não  caracteriza o objecto designado enquanto tal; caracteriza a própria palavra. Verifica-se este facto se se considerar que a significação, tal como se pode formular num acto de metalinguagem, nunca é susceptível de servir como sinónimo ou como glosa de uma qualquer designação da palavra. O problema da equivalência entre palavras na tradução abarca o problema semântico mais alargado da sinonímia.

Tal como a linguística se mostrava incapaz de captar a natureza do traço pertinente  do fonema, e de definir o seu modo de existência, enquanto não tomou em consideração a sua função distintiva, do mesmo modo é impossível captar a racionalidade interna do significado se não se procurar saber com que critérios o significado organiza os dados da experiência. A concepção que se pode ter da polissemia muda radicalmente a partir do momento em que se tome em consideração o facto de que o signo não é um simples substituto simbólico de uma fracção de universo, mas uma rubrica no interior de um sistema classificador tal como o fonema não é um simples quadro limitando uma zona de sons. A língua introduz  descontinuidade no contínuo conceptual tal como introduz descontinuidade no contínuo sonoro pelo sistema fonológico  criando deste modo valores. Tal como é impossível conceber uma fonologia sem ter em conta os sons e a sua infinita variação para estabelecer o ponto de partida entre o que depende da forma e o que pertence à substância fonética formalizada,  também é impossível tratar o significado sem ter em conta que ele é simultaneamente a sua própria forma (significação) e a sua própria substância (designação). Não se poderia conceber uma forma do significado vazia de qualquer conteúdo simbólico mas também não é concebível uma substância do significado que não esteja formalizada pela sua inserção numa rede de relações permitindo-lhe ser captada como conceito. Tal como o som reenvia para o fonema e o fonema para o som, a significação envia-nos para a designação e vice-versa, as duas constituindo a inteligibilidade do signo. Tal como o sistema fonológico não se contenta em delimitar os sons classificando-os segundo critérios de pertinência, o sistema semiológico não se contenta em delimitar os sentidos: classifica-os segundo as relações de pertença ao sistema ou de pertença ao universo simbólico.  A utilização do signo em contextos diferentes tende a fazê-lo pertencer a lista lexicais diferentes e portanto, na fala, a fazer dele apenas um puro símbolo esvaziando-o da sua significação. No entanto, captado fora de qualquer contexto, deixará antever todas as facetas das suas virtualidades semânticas sem no entanto se reduzir a nenhuma. A palavra disco, por exemplo, só ganha consistência aplicada num contexto: ouvir um disco não é o mesmo que lançar o disco nem o mesmo que substituir os discos do carro. A constância de uma relação de oposição a outras palavras permite descobrir que o seu próprio valor só é apreciável em função da relação com as outras palavras. Parece indispensável insistir nesta distinção para dar conta do modo como é possível passar de um signo de uma língua para um signo de outra língua sem danos para o conteúdo referencial inicial e sem no entanto negar a resistência estrutural à transposição. Em qualquer acto de tradução (como em qualquer acto de formulação linguística) muda-se de significação logo que a passagem de um significado a outro tenha manifestado a possibilidade de originar dois signos equivalentes ao nível do designado. As únicas palavras da língua que escapam a este tratamento são aquelas que, pela sua natureza ou o seu uso, são perfeitamente monossémicas e que consequentemente não estão submetidas à estruturação pelo sistema de significação. Entre elas podem citar-se os números, os nomes próprios e as palavras pertencentes exclusivamente a um domínio técnico preciso. A sua monossemia faz delas puros símbolos para as quais designação e significação se confundem. Estas palavras, como o mostra a prática da tradução, são as únicas que podem ser transpostas directamente, sem referência ao contexto ou à situação, por simples translação do significante. Não se poderá concluir daqui que «a tradução de uma palavra é impossível» mas verifica-se que num exercício de tradução nunca se deve procurar transpor a significação de uma palavra mas a sua designação. Se se quiser tentar visualizar as relações  entre  os  dois pólos complementares do significado, poderá dizer-se que eles não se sobrepõem mas que são perpendiculares ou seja, se a significação e a designação estão simultaneamente presentes no acto de fala, elas nunca interferem e a significação não tende a substituir-se ao objectivo da designação que é a finalidade de qualquer acto semiótico excepto quando há vontade deliberada de efectuar um «jogo de palavras». Os seus domínios são distintos: a designação, reenviando para uma realidade extrínseca à língua, remete para a definição; a significação, pertencendo ao sistema, apenas pode ser apreendida por um esforço linguístico consciente e isolado comparando a palavra com aquelas às quais se opõe. Segundo Merleau Ponty[74],  quando na língua, o encadeamento dos morfemas procura significar o contrário do que diz, como é o caso da ironia, há uma primeira reflexão pela qual se isola o significado dos signos mas ela remete para uma segunda reflexão que permite encontrar  aquém desta distinção o funcionamento efectivo da fala.

A língua não se define pela soma dos elementos que a constituem mas é o resultante da configuração que esses elementos esboçam segundo formas e regras de emprego determinadas.

O campo linguístico de uma pessoa é difícil de determinar com precisão porque falar não é ter à sua disposição um certo número de signos mas possuir a língua como princípio de distinção qualquer que seja o número de signos que ele nos permite especificar. A língua nunca diz nada; inventa uma gama de gestos que apresentam entre si diferenças bastante nítidas para que a conduta da linguagem à medida que se repete, se recorte e se confirme ela própria, e nos forneça de modo irrecusável os contornos e a impressão de um universo de sentido.

 Na fala, habitualmente, a consciência do sujeito situa-se apenas ao nível das designações, a significação pertencendo ao mecanismo implícito da sua actividade falante. A única actividade linguística onde os dois planos são susceptíveis de interferir é precisamente a tradução, no momento em que dois sistemas linguísticos se confrontam.

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5.2 Área semântica

 

Se se encarar a palavra simultaneamente mas distintamente na sua relação à coisa e na sua relação com as outras palavras do sistema, a intradutibilidade não é um dado tão simples como pareça. Para  mostrá-lo é necessário substituir a noção de polissemia pela de área semântica. A consciência do sujeito falante só apreende a polissemia diacronicamente ou seja não  capta a relação significação/designação mas as relações de derivados entre as designações das palavras. A referência diacrónica e a passagem para os primeiros sentidos são geralmente o único modo que possibilitam ao sujeito ligar entre si as acepções de uma palavra. A noção da área semântica não dá totalmente conta da realidade semiótica por várias razões. Por um lado, deixa supor que o universo a nomear e o modo de nomear se confundem, por outro lado, a palavra área, como  metáfora espacial, deixa pensar que os diferentes sentidos da palavra constituem um continuum, a descontinuidade só intervindo quando se muda de palavra. Acontece que os conceitos designados por uma mesma palavra são realmente  conceitos diferentes.  Em consequência desses dois pontos, pensa-se que o agrupamento de conceitos operado pela palavra está fundado na realidade extrínseca e não na estruturação linguística, o signo limitando-se a recortar uma zona mais ou menos vasta no continuum do universo real. Na realidade, os conceitos que se podem enumerar como constituindo as designações de um mesmo significado só têm razão de ser porque pertencem ao mesmo critério de classificação. A própria noção de área semântica inclui uma certa concepção implícita da relação entre os signos e a realidade designada. A metáfora espacial utilizada implica por um lado, um universo de coisas e por outro, palavras delimitadas por sons deste universo que se oferecem à nossa representação como um continuum captável fora de todas as descontinuidades introduzidas pelo sistema linguístico. É através deste continuum que se comparam os signos de duas línguas para determinar as suas áreas semânticas respectivas. O continuum não existe quando se trata de língua. Toda a língua introduz necessariamente descontinuidade na representação e é impossível pretender comparar outra coisa que não palavras. A palavra agrupa fragmentos de universos através dos conceitos designados mas não os agrupa lado a lado como  uma luz incidente sobre uma determinada área espacial. Classifica-os segundo uma lógica própria. São as palavras que criam a sua área semântica. A noção de área semântica pressupõe de facto, entre o universo das palavras e o das coisas, um terceiro universo que seria o da semântica ao qual nos poderíamos referir de modo universal e imediato uma vez que a não coincidência entre o universo das palavras e o universo real revela o universo estrutural da língua. Quando se comparam duas línguas verifica-se que cada uma delas recorta ou seja introduz descontinuidade em lugares diferentes da outra. Uma língua pode recortar aquilo que na outra parece impor-se como a representação de um conceito único. As línguas não mudam o universo apreendido mas conduzem a uma apreensão diferente, por isso não se podem comparar palavras num universo semântico intermediário. Só existe universo semântico intermediário como resultado da dialéctica estrutura/nomenclatura. Aquilo que se considera ser um universo intermediário é simplesmente o resultado das interferências devidas à tradução. A área semântica comum a duas línguas é geralmente apenas uma área de interferência. Só se poderá falar de área semântica de uma palavra se se insistir sobre o facto desta área semântica só existir como projecção do significado e não pré-existindo-lhe. Os elementos conceptuais, constituindo esta área, são heterogéneos se forem considerados fora do traço de significação que os une no interior do significado de uma palavra e a área semântica inclui não só os conceitos designados mas também a significação do signo.

O facto de todo o significado se encontrar entre os dois pólos da significação e da designação explica que não se possam trocar os elementos derivados de duas estruturas linguísticas diferentes, mas ao mesmo tempo que se possa tentar essa troca. Com efeito, é incompreensível que se possa dizer que os signos só se definem no interior de uma estrutura e que, apesar disso, se possa mostrá-lo comparando elementos oriundos de duas estruturas diferentes. Aquele que compara duas línguas parte necessariamente de dois elementos considerados como equivalentes em função de um conteúdo de designação dado, para verificar numa segunda fase que esse conteúdo referencial não esgota o significado de nenhum dos dois signos e que, apesar de haver pontos de intersecção entre os dois, nem sempre significam a mesma coisa, e por isso não são susceptíveis de designar a mesma coisa em todos os casos. Cada língua prolonga as designações possíveis em sentidos diferentes dos pontos de convergência. Por isso, pode-se justificar a noção de intradutibilidade / instransponibilidade de um signo por outro signo de outra língua, dizendo que, em qualquer caso, não se pode traduzir todo o significado de um signo: não se pode traduzir a sua significação, apenas se pode traduzir o que ele designa.

Se procurarmos de onde deriva este valor, esta significação, vê-se que apenas depende do facto de pertencer a um conjunto de signos. Se ele estivesse só, estaria apto a designar tudo. Fora das relações que lhe conferem o seu valor, o  significado já só é captável enquanto facto estritamente linguístico. Se, por exemplo, se tentar definir o significado de tacho, partindo da única designação presente na expressão "um tacho de arroz": a descrição semântica dissolve-se na descrição do objecto real designado, com a sua forma, tipo de material e uso. A descrição semântica corresponde praticamente a  um objecto. Todavia, pela sua polissemia, o signo fica preso numa rede de interrelações, baseado em semelhanças e diferenças. No campo lexical, os signos agrupam-se em função da sua semelhança: por exemplo tacho, panela, frigideira são objectos de cozinha. Há, portanto, um traço semântico comum que os une. No entanto, enquanto signos diferentes, opõem-se no campo lexical porque a escolha de um exclui os outros no interior do campo. Definem-se mutuamente não pela sua semelhança mas pela sua diferença de forma e de funcionalidade. Nenhuma das análises das diferenças e semelhanças esgota o significado linguístico de um signo deste campo semântico: por um lado, pela não equivalência entre significação e designação, porque os signos são polissémicos e pertencem, por isso, a outros conjuntos de relações de semelhança e diferença: por exemplo na frase «ele tem um bom tacho» ou «a panela do carro furou-se»; por outro lado, e em consequência, o significado de cada um desses signos não se deixa reduzir a nenhuma das análises que se podem fazer do signo, por semelhança ou diferença, em cada um dos inventários restritos nos quais se capta. Esse significado contém ainda um valor constante ou significação que recebe precisamente pela sua faculdade de figurar nos diferentes inventários.

O signo retira este valor constante a que se chama significação da sua diversidade semântica ou seja, da variedade dos conjuntos conceptuais aos quais pertence, da constância de uma relação ou seja do facto de se opor sempre do mesmo modo aos outros termos do inventário semântico nos quais é susceptível de entrar. Este fenómeno é uma manifestação do carácter estrutural do léxico muito mais importante que a simples oposição no interior dos campos semânticos ou seja pelo facto de «palavras exprimindo ideias vizinhas se limitarem reciprocamente»[75]. É por isso que as tentativas de estudo do significado unicamente no interior de um campo  só parcialmente dão conta do carácter estrutural do léxico. O estudo do valor linguístico das «ideias vizinhas» ao nível da sua designação não é suficiente para dar conta do grau de estruturação do léxico. A limitação recíproca opera-se num segundo nível de estruturação no interior dos campos. O significado não substitui o universo real por um universo simbólico com leis próprias mas faz coabitar um objectivo simbólico e uma análise estrutural.

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5.3 Conotação e denotação

 

A semântica é a componente da língua que permanentemente estabeleceu a passagem entre a língua e o mundo e entre o mundo e a língua. A noção de estrutura do léxico é complexa e depende de três níveis: a relação entre a estrutura semântica e a morfologia (as leis semânticas decorrentes da manipulação do sentido operado pela prefixação, sufixação, verbalização, género, pessoa, etc.); a análise morfológica nos seus elementos mínimos, de acordo com o conceito de monema de Martinet, ou os morfemas de Bloomfield que visam detectar os elementos ditos primitivos da língua; a decomposição em níveis dos monemas e das palavras primitivas através de operações de definição que isolam as componentes descritivas ou distintivas. A maioria das experiências desenvolvidas nesta área incidiram sobre listas terminológicas fechadas.

A denotação de um termo é a extensão do conceito, ou seja o conjunto dos objectos dos quais este conceito é atributo. A conotação do termo é a compreensão do conceito, ou seja o conjunto dos caracteres pertencendo a este conceito. Bloomfield considera que as variedades de conotações são inumeráveis, impossíveis de definir e mal separadas da significação denotativa. Todas as conotações (ordinária, familiar, académica, provinciana, rústica, arcaica, técnica, sábia, estrangeira, irónica, infantil, etc.) acrescentam à definição objectiva de  um termo, valores ligados a certos sentimentos.

Há uma diferença entre os signos compreendidos por definição referencial e os signos compreendidos por definição linguística: “a definição referencial ou deíctica do signo exige que o utilizador do signo tenha um contacto com a coisa denotada por esse signo. Com a definição linguística do signo, este é compreendido por referência a outro conjunto de signos”[76]. Os lógicos consideram denotação a referência do signo à coisa; os lógicos e os semânticos chamam significação ao conhecimento do signo apenas por referência a outros signos. Por isso, os signos sem denotação como sereia ou dragão têm uma significação. As conotações não fazem parte da significação porque não fazem parte da semântica, uma vez que não há relações entre os objectos e os signos. As conotações fazem parte da pragmática que trata das relações entre os signos e os seus utilizadores.

Bloomfield iniciou um movimento de reflexão que sublinhou a dificuldade em separar os valores denotativos dos valores conotativos de uma mesma palavra. As conotações estão ligadas às denotações porque fazem parte integrante da realidade não linguística à qual os signos que as denotam reenviam globalmente. As conotações variam para cada locutor em função da riqueza das situações. Segundo Bloomfield, a significação é apenas o resultado das situações em que o locutor ouviu pronunciar a palavra. Isso quer dizer que a significação contribui para a compreensão global da palavra.

 Do ponto de vista pragmático, podem estabelecer-se três tipos de relação entre os utilizadores dos signos e os signos: as relações tanto podem ser exclusivas entre o locutor e o signo ou exclusivas entre o auditor e o signo ou recíprocas entre o locutor, o auditor e o signo. Cada um destes três tipos origina uma espécie diferente de conotações.

A aquisição dos significantes processa-se de dois modos diferentes: pelo sistema linguístico, sempre que o auditor ouve ou utiliza significantes em situação e pelo sistema lógico, pela via das definições, através da escola, das leituras didácticas, da consulta de dicionários ou de léxicos de toda a espécie. As denotações são, por isso, adquiridas de um modo maciço num sistema lógico e linguístico mais depressa que as conotações cuja aquisição depende sempre da experiência natural dos contextos e das situações ocasionais das mensagens. A aprendizagem das significações faz-se pela via deíctica e situacional onde se mostram as coisas ou se apreendem as situações correspondendo aos enunciados; pela via linguística onde as significações são apreendidas pelos contextos das outras palavras; pela via lógica onde as  situações se reduzem a contextos especiais mínimos considerados definições com propriedades particulares. Não pode, por isso, haver uma divisão nítida entre semântica e pragmática porque a relação entre o utilizador e o signo pode ser um caso de léxico como qualquer outro. A utilização dos conhecimentos pragmáticos é fundamental para a compreensão das línguas. Graças a estes conhecimentos a comunicação torna-se mais concisa porque existem muitos pontos comuns aos intervenientes no processo. Não há necessidade de dizer tudo; as possíveis ambiguidades do discurso são resolvidas por inferência devido à convergência dos falantes em relação ao tema tratado.

Para traduzir, é importante hierarquizar e distinguir os diferentes tipos de conotações. Deve-se, em primeiro lugar, isolar as relações entre os utilizadores e os signos que só têm manifestações orais, das relações entre utilizadores e signos que podem ser escritos ou transcritos. Para os primeiros, a dificuldade coloca-se sobretudo para os intérpretes enquanto que a tradução clássica sempre soube resolver os segundos. No entanto coloca-se a questão de saber se se há-de traduzir um calão por outro, um regionalismo por outro etc.. Quaisquer que sejam as suas formas, existem valores particulares da linguagem que informam sobre o auditor, o locutor, a sua personalidade, o seu grupo social, a sua origem, o seu estado psicológico. Bloomfield chama-os valores suplementares. Morris[77] considera-os informações ou propriedades adicionais dos signos. Sörensen[78] chama-os cargas emotivas. A terminologia americana trata esses valores como emotivos, não cognitivos, expressivos, sugestivos, comunicativos. A teoria da tradução deve ter em conta os valores notados por Humboldt quando afirmou que “uma troca de palavras e de concepções não é a transmissão de uma ideia dada por uma pessoa a outra: naquele que assimila como naquele que fala, esta ideia deve sair da sua própria força interior; tudo o que o primeiro recebe consiste unicamente na excitação harmónica que o coloca em tal ou tal estado de espírito [...] as palavras, mesmo as mais concretas e mais claras, estão longe de despertar as ideias, as emoções, as recordações que aquele que fala presume”[79]. A linguística recente preocupou-se em analisar estas dificuldades. Os seus resultados conduzem a uma situação paradoxal: quanto mais se sabe sobre  o modo como os homens comunicam, mais se conhecem os obstáculos à tradução mas também melhor se aprende a contorná-los de modo a preservar, na tradução, senão toda, pelo menos, o máximo de informação.

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5.4 Um exemplo particular de recorte do mundo: a cor

 

Um exemplo muito particular e frequentemente evocado para acentuar a resistência das línguas à tradução é o do léxico das cores. Verifica-se que nem todas as línguas recortam  e classificam do mesmo modo os elementos do campo semântico das sensações coloridas. Segundo Bloomfield, “os físicos consideram o espectro das cores como uma escala contínua de ondas luminosas de diferentes comprimentos, indo de 40 a 72 milésimas de milímetro, mas as línguas isolam diferentes porções desta escala de modo totalmente arbitrário e sem limites precisos, na significação que os nomes de cores como violeta, azul, amarelo, laranja, vermelho  têm e os nomes de cores das diferentes línguas não abarcam as mesmas gradações.” [80] Para resumir a questão, G.Mounin afirma que “o ponto de partida aceite, mesmo demonstrado, é que, fisicamente, a luz é a mesma em todo o lado; que o olho humano permanece o mesmo sob todas as latitudes e para todas as raças. [...] Se a nomeação das cores é tão diferente segundo as raças e as latitudes consoante as línguas, não poderá ser posta em causa a diversidade das experiências do mundo, nem a do olho: trata-se realmente de um caso típico, em que línguas diferentes exprimem por estruturas linguísticas diferentes factos físicos idênticos, e prova-se assim que a estrutura da linguagem não reflecte automaticamente a do universo. A classificação das cores varia com as línguas ao mesmo tempo que a sua nomeação, e a referência à análise científica das sete cores do arco íris está ausente de todas as classificações ou sistemas linguísticos dos termos designando as cores. O hebraico parece distinguir nitidamente o branco, o negro e o vermelho; possui uma palavra que se aplica a coisas verdes e amarelas, a nomeação do azul não é nítida para nós; com excepção do vermelho, as cores não têm conotações simbólicas afirmadas; a verdadeira classificação poderia ser uma oposição de base entre escuro e brilhante. O sanscrito, por seu lado, possui uma classificação explícita que figura no seu dicionário clássico: branco, negro, amarelo, verde, castanho, cores matizadas. Esta classificação não está ligada ao simbolismo social das cores (branco, vermelho, amarelo, negro). Talvez esteja ligado a um simbolismo arcaico teológico-intelectual (o baço ligado ao vento, o sombrio ao fogo, o brilhante à água, o branco à contemplação, o vermelho à acção, etc.) O azul e o negro têm nomeações imbricadas, o amarelo e o verde também. O grego tem a mesma palavra para um verde amarelo e um vermelho, a mesma palavra para um verde amarelado e para um castanho acinzentado, outra para azul negro e por vezes escuro, e poucas marcas de valores simbólicos, com excepção da oposição do vermelho e do branco (fastos) ao negro (nefasto). O latim possui uma oposição simbólica original entre branco (albus) e branco brilhante (candidus), entre negro (ater) e negro brilhante (niger); purpureus emprega-se para o arco íris e para a neve.  O chinês fornece um exemplo impressionante de estrutura do campo semântico das cores associadas de modo rígido a estruturas simbólicas, intelectuais e sociais: a classificação das cinco cores de base (verde, branco, vermelho, negro, amarelo) corresponde termo a termo com a dos cinco elementos (madeira, metal, fogo, água, terra), dos cinco tons musicais, dos cinco sabores; das quatro estações, dos cinco pontos cardinais que incluem o zénite. As línguas polinésias oferecem associações simbólicas do mesmo género, o negro com a morte, o negro baço com a chuva, o verde com a génese, o vermelho com o poder e a virilidade (tal como o negro brilhante)”[81]. Para fundamentar estas observações é necessário distinguir entre a classificação explícita operada pelos utilizadores, e a classificação implícita das línguas em questão. Tanto faz que esta classificação explícita seja de ordem científica ou mitológica, em qualquer caso, assenta numa organização extrínseca ao sistema linguístico e baseia-se em relações associativas entre conceitos designados por palavras. Estes tipos de classificações que, segundo Mounin, mostram o modo de concepção do mundo não são muito relevantes para a linguística porque não apresentam a totalidade dos termos designando as cores e também porque não distinguem entre problemas de tradução propriamente ditos e problemas de comparação de línguas.

As palavras estudadas são apresentadas segundo o ponto de vista de uma única língua de chegada, como recortando uma mesma área conceptual, mas estão isoladas do sistema linguístico global e dos contextos onde podem figurar. Estes exemplos ilustram a dificuldade da tradução de um termo indicando a cor mas não fornecem o meio de ultrapassar o problema. Um signo pertencente ao campo lexical  das cores, será definível, em qualquer língua, em relação a outros signos nos campos lexicais e contextuais nos quais se realiza. Como todos os outros signos, pode ser polissémico visto poder pertencer a vários campos lexicais diferentes e  a sua extensão depende do número de signos aos quais se opõe.

Não deve ser confundida polissemia com área semântica no estudo global do signo apesar de certos domínios conceptuais muito limitados, como o das cores, induzirem a impressão da convergência. O funcionamento dos automatismos linguísticos é tão inconsciente que exerce um domínio sobre a consciência levando-a a considerar como idênticas as coisas designadas por termos idênticos. É necessário um esforço consciente para que um falante perceba que não designa a mesma cor quando diz «uma mulher branca» ou «uma página branca». A identidade da palavra empregue é mais forte que a sua impressão visual, e o falante tem tendência para pensar que se trata da mesma cor nos dois casos.

O léxico das cores, ao contrário das aparências, não é um domínio limitado, nem as palavras que formam o léxico são exclusivamente termos de cor. Na constituição do campo lexical das cores, pensa-se frequentemente em palavras como azul, verde, amarelo, branco, vermelho, preto, etc., cuja frequência de emprego, no mesmo campo, ultrapassa bastante a frequência de emprego nos outros campos. O campo é, no entanto, muito mais vasto do que aparentemente se supõe. Bastaria referir para o exemplificar o nome de cada uma das duzentas e cinquenta e seis cores configuradas por um computador, mas pode dizer-se que o léxico das cores é quase ilimitado na medida em que a moda, por exemplo, fornece em cada dia exemplos de emprego de palavras para designar novas matizes coloridas.

Inversamente, não há termos específicos do campo lexical das cores. Os termos como vermelho, verde, amarelo, etc., cujo coeficiente de frequência é infinitamente mais elevado nos contextos que fazem deles elementos do campo lexical das cores, surgem noutros contextos criando a impressão de uma especialização. Fala-se por exemplo em partidos vermelhos,  ideias verdes, risos amarelos etc. Há, no entanto, outros termos com frequência de aparecimento tão elevada no campo das cores como noutros. Por exemplo: rosa tem um coeficiente de frequência tão elevado no campo das flores, como nas cores ou dos nomes próprios; laranja tanto designa a cor como o fruto. A palavra verde, varia o sentido consoante o contexto em que se insere: um campo verde remete para a cor mas vinho verde já pertence a outra área lexical, por oposição a maduro; uma pessoa verde, por oposição a experiente. Pode objectar-se que todos estes sentidos estão intimamente ligados a um sentido primeiro, no entanto, se isso é verdade quanto ao sistema linguístico, não é verdade em relação à designação e portanto em relação ao querer-dizer do utilizador para quem a utilização num contexto dado só evoca o objecto designado e não a significação. O que a palavra conserva de idêntico nestes diferentes campos conceptuais, e por oposição às outras palavras destes campos, não é o mesmo designado , mas um valor constante que lhe pertence como elemento do sistema semiológico da língua. É o que Saussure enuncia sem o mostrar quando diz que “ uma palavra pode exprimir ideias bastante diferentes sem que a sua identidade fique seriamente comprometida (cf. «adoptar uma moda» e  «adoptar uma criança», «a flor da cerejeira» e «a flor da sociedade», etc.)”[82].

Foi também Saussure quem reparou que “no interior de uma mesma língua, todas as palavras que exprimem ideias vizinhas limitam-se reciprocamente”[83]. O acento posto sobre a existência puramente diferencial do signo é o princípio essencial que deve orientar todo o estudo do léxico, qualquer que seja o domínio conceptual onde se aplica. O poder expressivo de um signo deve-se ao facto de fazer parte de um sistema e de coexistir com outros signos e não ao facto de ter sido instituído transcendentalmente para designar uma significação. O signo é a pura diferença ao nível da significação visto ser apenas um elemento de um sistema taxionómico; mas é também diferença em relação a outras palavras na designação, no lugar onde as palavras de facto se limitam reciprocamente. O problema da delimitação do significado de um signo consiste em saber a que é que se opõe, ou seja em reconstituir o campo das «ideias vizinhas» de que fala Saussure e que corresponde apenas àquilo que agora se considera o campo lexical.

No domínio dos termos de cor, como noutros, estes campos lexicais só  podem ser evidenciados nos contextos, porque o campo das «palavras exprimindo ideias vizinhas» por similitude (entre as quais se realiza uma escolha) estabelece-se e revela-se pelo intermediário das «palavras exprimindo ideias vizinhas» por contiguidade (ou seja, aquelas que se interpelam e se completam mutuamente no texto), as associações contextuais delimitando e constituindo os campos contextuais. Apenas deverão ser consideradas as palavras que o locutor teve de excluir ao escolher uma determinada palavra num contexto dado. Se estes princípios de análise  forem aplicados ao léxico dos termos de cor, verifica-se que o problema da delimitação semântica dos termos de cor e da confrontação de termos de línguas diferentes não é tão simples como parece. Para explicar as diferenças entre as línguas,  talvez não seja necessário recorrer às diferenças de concepção do mundo visto que basta uma explicação de ordem linguística.

Alguns exemplos mostrarão que os problemas acima levantados se devem à ilusão que os termos de cor se opõem sempre às mesmas palavras no mesmo campo lexical, e,  por consequência deviam recortar sempre a mesma porção do real designado. Se se afastarem os casos de polissemia manifesta, ou seja os casos em que a mesma palavra pertence a vários campos lexicais ao mesmo tempo, verificam-se ainda variações consideráveis no registo das cores. A palavra vermelho, por exemplo,  cobre as matizes de cor que ultrapassam largamente a zona do espectro solar compreendida entre o infravermelho e o laranja. Esta porção do espectro  corresponde ao conteúdo da designação de vermelho num contexto como «ela usava um casaco vermelho» onde vermelho se opõe a verde, preto, azul, etc. A questão torna-se mais complexa se se considerar o contexto «um aquário com peixes vermelhos»  porque, na realidade, quem observar cuidadosamente essa variedade de peixes verificará que são normalmente cor de laranja, ou amarelo-alaranjado mas não propriamente vermelhos.  No caso de « casaco vermelho », vermelho opõe-se a todas as palavras designando as cores do arco íris e a muitas outras que recortam de modo mais subtil o espectro colorido. No caso de « peixes vermelhos » já não acontece o mesmo porque « peixe vermelho»  não se opõe a peixe verde, ou peixe azul mas é um elemento de um campo que só inclui dois termos: os «peixes vermelhos» e todos os outros peixes qualquer que seja a cor. Não se trata, por isso, de um termo de cor mas de uma palavra designando um tipo particular de peixes em relação a outros. A palavra não designa a cor em relação a outras, limita-se a desempenhar uma função de diferenciação.

Outro exemplo poderá mostrar como o nome de uma cor pode parecer desempenhar funções semânticas delicadas pelo facto de aparecerem em campos conceptuais vizinhos mas que não se confundem. A palavra amarelo surge normalmente no contexto das cores; no entanto, verifica-se que a cor que designa varia bastante consoante os casos. Se se considerarem quatro expressões: rosa amarela, açúcar amarelo, raça amarela, rosto amarelo verifica-se que, do ponto de vista da cor, os objectos designados são muito diferentes. Estas diferenças deixam de espantar se tivermos em conta que o signo é puramente diferencial e se, para cada emprego de amarelo tivermos em conta que o que confere o conteúdo de designação ao signo, é mais aquilo a que se opõe do que aquilo que designa. Por isso torna-se vão procurar, para todos estes empregos, uma identidade referencial. A única identidade que existe é o elemento sémico, por isso a identidade encontra-se ao nível do significante e da significação mas não da designação, daí considerarem-se estas variações como casos polissémicos.

Cita-se frequentemente como exemplo de palavra intraduzível tanto em francês como em português, o adjectivo inglês brown. Na prática esta palavra nem sempre se pode traduzir pelo mesmo termo. De acordo com uma lista não exaustiva, a palavra pode corresponder a castanho, moreno, ruivo, pardo, cinzento, bronzeado. Daqui se poderia concluir que o recorte realizado pelo português é mais matizado que o do inglês se considerássemos que a tradução se limitava à substituição de uma grelha de recortes mais largos por outra de malhas mais apertadas. No entanto, verifica-se que brown não  deve ser considerada como uma porção uniformemente recortada no leque global das cores porque assume valores diferentes em cada campo contextual, por diferença com outras palavras às quais se opõe no campo lexical assim definido. Em cada um dos exemplos seguintes, brown não se opõe à totalidade do léxico das cores mas a uma lista específica. No caso de hair, o inglês normalmente só opõe dark, brown, red e fair. É por conseguinte em relação a estas quatro palavras, que constituem o recorte completo do campo conceptual das cores de cabelo, que o valor de brown deve ser apreciado, e é em relação a este campo conceptual que um equivalente deve ser procurado. No contexto de shoes, o caso é mais delicado. É possível, no caso dos sapatos, nomeadamente femininos, encontrar brown integrando o conjunto lexical green, yellow, red, blue. Mas quando se trata de sapatos masculinos, brown é apreendido como um dos termos de uma escolha de apenas duas opções: « brown shoes / black shoes». Isso não significa que só haja duas cores de sapatos masculinos na Inglaterra, nem que os ingleses sejam incapazes de apreender essas cores, mas que qualquer sapato que não seja preto seja considerado brown qualquer que seja a tonalidade precisa. Trata-se de uma classificação que se deve, não à própria cor, mas à simbólica social que estes tipos de sapatos representavam. No contexto de sugar, a oposição também é de dois termos diferentes : brown/white. O mesmo acontece para bread e para paper. Em todos estes casos, a palavra só é idêntica do ponto de vista do significante e da significação. A tentativa de traduzi-la sempre por um termo do campo lexical das cores pode ser considerada como uma interferência e por conseguinte como um erro de tradução porque ao procurar um termo de cor para dar conta de certos contextos, esconde-se o verdadeiro campo conceptual ao qual pertence a palavra. Apesar da significação ser idêntica a designação pertence a outros campos conceptuais distintos. Todo o problema da tradução consiste em elucidar esse campo conceptual e em recortá-lo de forma adequada por um campo lexical da outra língua. A apreensão correcta do valor do termo em cada um dos contextos só pode basear-se num profundo conhecimento da língua, implicando o reconhecimento implícito do campo lexical no interior do qual se opõe e fora do qual não é definido. A tradução correcta será aquela que for capaz de reconstituir na outra língua o campo conceptual  no qual se deverá procurar o equivalente de tradução. A tradução desempenha um papel tão importante nas comparações lexicais que se  pode pensar que as conclusões acerca do diferente recorte dos campos conceptuais  se devem de facto a interferências ou erros de tradução. A apreensão e a comparação correctas dos factos colhidos em diferentes línguas obriga a um conhecimento em profundidade da língua descrita apoiada por rigorosos critérios de análise.

Se estas duas condições fossem sempre realizadas, a maioria dos problemas linguísticos da cor resumiam-se a problemas de polissemia onde apenas se deve saber distinguir os campos conceptuais diferentes. Não se trata de apresentar a problemática da polissemia como a chave de todas as dificuldades nem se deve afirmar que não há problemas de recorte entre as línguas mas convém mostrar que o que se considera recorte diferente incide sobre os mesmos dados ou seja sobre o mesmo campo lexical. É evidente que pode haver diferenças de recorte na medida em que o campo físico da cor não é composta por unidades discretas, mas é um contínuo, no qual cada língua pode introduzir um recorte mais ou menos fino. A percepção das variações coloridas e a classificação das sensações coloridas são eminentemente subjectivas, por isso podem ocorrer grandes variações de indivíduo para indivíduo quanto à nomeação de tal ou tal tom. No entanto, cada língua oferece aos seus utilizadores um registo de recorte, no qual a totalidade da nomeação das cores se insere de modo mais ou menos preciso. Os termos de base oferecidos por cada língua podem, por conseguinte, fornecer uma grelha de análise mais ou menos apertada ou mais ou menos larga. De qualquer modo, o recorte das cores fornecido pelo espectro solar também não é considerado como uma referência absoluta na análise do léxico. Ao nível da percepção das cores no real, e do recorte feito pelas línguas, estas cores de base podem não ser os termos de cor de base porque existem cores como o castanho, o rosa que não fazem parte das cores do arco íris mas ocupam um lugar importante no léxico. Por isso, a comparação dos recortes realizados pelas diversas línguas, no conjunto das sensações coloridas, é muito mais complexa do que parece. É conveniente distinguir duas ordens de problemas: o da pluralidade dos subconjuntos lexicais (campos lexicais) nos quais os termos de cor aparecem, e que lhes conferem uma polissemia; e o do recorte no interior dos campos lexicais assim distintos. Convém também separar aquilo que se deve às diferenças de recorte de uma mesma realidade daquilo que revela diferenças no seio da própria realidade.

As conclusões a que a observação do léxico das cores permite chegar podem ser extrapoladas para todas as outras palavras. Assim, o problema prático da tradução não é o de encontrar o equivalente de um termo de cor na língua de chegada; é o de encontrar o termo, mesmo que não pertença ao campo conceptual das cores, que designe o mesmo conceito na outra língua. Tem de ser um termo que pertença a um campo conceptual idêntico àquele que foi definido pelo contexto para o termo da língua de partida, e que ocupa, no campo lexical,  o mesmo lugar em relação aos outros termos que o compõe.

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6. Limites do estruturalismo

 

Verifica-se que é difícil  introduzir o estruturalismo na lexicografia porque, segundo Buyssens[84], o valor de um elemento lexical depende da presença dos outros e acontece que, para uma mesma língua, há locutores cujo léxico tem dez vezes menos palavras que outros. O vocabulário fundamental de um falante com instrução média é geralmente muito mais reduzido que o léxico utilizado por falantes de níveis académicos superiores. O mesmo elemento lexical tem valores diferentes nestes léxicos por se encontrar uma rede com malhas  mais largas no primeiro caso e outra mais apertada no segundo.

Para encontrar uma solução para o problema da linguística estrutural, André Martinet considerou a existência de dois tipos de inventários: os limitados, constituídos por listas fechadas e os ilimitados, formados por listas abertas: “ O número de enunciados possíveis em cada língua é teoricamente infinito, por ser ilimitado o número de monemas sucessivos que um enunciado pode comportar. Com efeito, é uma lista aberta a dos monemas em cada língua; não se pode determinar com precisão quantos monemas distintos possui uma língua, porque a cada passo surgem necessidades novas que fazem criar novas designações”[85]. O léxico não se coaduna com a noção de estrutura porque geralmente a estrutura de um campo lexical de uma ou várias línguas não é determinada de um ponto de vista único de acordo com uma classificação homogénea mas é dada a partir de pontos de vista diferentes que se entrecruzam ou são lacunares, segundo uma rede de relações não coordenadas. Qualquer aprofundamento de estruturas do léxico contribui para uma maior manipulação das significações  e, por conseguinte, permite aperfeiçoar regras de correspondências entre os campos lexicais de uma língua e os campos lexicais de outra.

As teorias fundadas sobre a estrutura do léxico pretendiam isolar as unidades mínimas de sentido. A sua descoberta seria um grande contributo para a teoria da tradução visto que também a tradução parte do sentido para efectuar todas as operações de transferência de uma língua para outra. Trier elabora a teoria dos campos semânticos e Martinet estuda os monemas a partir de formas linguísticas. Hjelmlev, que distinguia substância da expressão de forma da expressão e substância do conteúdo de forma do conteúdo, considerava as substâncias cientificamente inacessíveis por haver uma distinção entre o que locutor sabe que diz e a totalidade apreendida pelo auditor. Hjelmslev interessa-se pelo modo como a linguagem organiza e decompõe a substância informe do conteúdo em unidades formais e combináveis de conteúdo. Hjelsmlev sugeriu a hipótese da articulação da linguagem no plano do conteúdo entre unidades de sentido - os morfemas ou monemas e outras subdivisões ainda mais pequenas de significado, passíveis de serem ainda mais decompostas. Se isso fosse possível, estaria descoberto aquilo que Hjelmlev designou por princípio de isomorfismo. Segundo Martinet, este princípio implica um total paralelismo dos dois planos do conteúdo e da expressão; uma organização essencialmente idêntica às duas faces da língua, ou seja o som e o sentido. Em 1954, Luís J. Prieto[86] pretendeu analisar a organização da substância do conteúdo para chegar à possibilidade de uma semântica estrutural. Para isso, procurou evidenciar traços pertinentes de significação para classificar as oposições que eles formariam e encontrar figuras de conteúdo mínimas. Se se isolassem as figuras do conteúdo de cada língua, e se se salientasse a organização destas estruturas de conteúdo, assim como a constituição de uma teoria dos significados, seria simples chegar-se a uma teoria da tradução visto que estariam encontrados os instrumentos permitindo estabelecer a passagem dos significados de uma língua para outra. O problema é que o sistema fonológico é um conjunto finito que, por isso mesmo, se torna objectivo, ao passo que o sistema lexical, mesmo reduzido às suas unidades mínimas, acaba por ter limites e contornos mal definidos visto ser constituído por listas abertas. Verifica-se, por outro lado, que a estrutura dos significados talvez não seja de natureza essencialmente  linguística mas que depende da análise feita ao próprio mundo pelo sujeito falante. Neste caso, a análise da estrutura dos significados poderia ser de natureza epistemológica ou lógica.

A operação de tradução analisada ao nível de uma única palavra não tem como objectivo transpor uma significação, encontrar-lhe um equivalente noutro sistema mas encontrar a relação de designação estabelecida entre essa designação e um conceito. Depois de elucidado o conceito, a segunda parte da operação de tradução consiste em encontrar na língua de chegada a significação mais correcta para evocar o conceito original. Em nenhum momento desta operação se pode considerar que as significações do original e da língua de chegada possam  entrar em relação. A operação de tradução consiste de facto em extrair a palavra do sistema ao qual pertence para considerá-la apenas como elemento de um contexto e por isso como utensílio de designação. Desta forma, evitam-se as transposições literais, os falsos amigos e os fenómenos de interferência linguística. Enquanto que uma concepção unidimensional do significado conduz necessariamente ao conceito de intradutibilidade, uma concepção que separe no interior do significado o valor estrutural (significação) e o valor contextual (designação) dá conta ao mesmo tempo da sua tradutibilidade e da sua intransponibilidade.

Outro problema derivado da manipulação semântica é o recurso sistemático ao significante linguístico. Não há meio de separar o conteúdo semântico do continente que o suporta. Mesmo que se reduza a análise aos elementos mínimos de significação, estas unidades mínimas serão sempre, segundo Martinet, signos. Estes elementos mínimos assumem sempre o papel de definições de significados mas são oficialmente considerados como operações linguísticas do mesmo modo que os terminólogos ou normativistas consideram a sua actividade teórica.

Capítulo I V

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PROBLEMAS ACTUAIS DA TRADUÇÃO

 

1- A problemática da tradução automática

 

As ciências e as técnicas desenvolvem-se por vezes apenas porque surgiram condições propícias, de um modo independente das suas aplicações profissionais ou lúdicas. A história tem mostrado que não basta produzir uma ferramenta para que seja utilizada de acordo com todas as suas potencialidades. Os chineses, por exemplo, conheceram a pólvora muito antes de ter surgido a ideia de utilizá-la com fins militares. Conheciam a imprensa desde o século XI, mas a difusão maciça do livro só ocorreu alguns séculos mais tarde. No entanto, parece que a ideia de utilizar o computador na tradução linguística é contemporânea do aparecimento dos primeiros computadores. Tal facto deve-se, talvez, à forte propensão do século XX para encontrar aplicações imediatas para as novas descobertas. Os dados dos mercados económicos incitam a procura de uma rentabilização cada vez mais rápida. No caso do emprego do computador para a tradução, assistiu-se, à saída da Segunda Guerra Mundial, à coincidência entre o desenvolvimento da electrónica e uma tomada de consciência da importância do domínio das línguas e da comunicação multilinguística. 

Desde a grande Guerra, multiplicaram-se organismos internacionais destinados a manter a paz, por um lado, mas, por outro, permaneceram fortes pressões quanto à partilha e domínio do mundo. A promoção do diálogo e a competição real entre as nações são dois factores determinantes para o desenvolvimento da tradução automática.

 A adopção de uma língua comum a todas as nações poderia ter sido a solução para a comunicação planetária, mas os povos recusam-se a modificar as suas tradições linguísticas.

O esperanto foi  uma língua criada para facilitar a comunicação entre os povos do mundo inteiro. Há mais de cem anos que procura implantar-se como uma língua viva, capaz de exprimir qualquer nuance do pensamento humano.

Pretendia-se que não pertencesse a um determinado povo ou país, mas sim a todas as pessoas do mundo inteiro. Não seria, pois, veículo de qualquer tendência de hegemonia cultural, mas uma forma de estabelecer uma ponte entre as culturas.

A sua estrutura, extremamente flexível,  aliada a um vocabulário internacional  contribuiriam  para que fosse muito mais fácil de aprender do que qualquer outra língua. Era a única língua que poderia, eventualmente, ser unânime, visto que não privilegiava nem dominava nenhuma nação em particular.

No entanto, neste fim de século, desenvolveu-se uma ideologia de protecção às línguas. O respeito pela língua materna tornou-se um direito inalienável daí que os organismos internacionais sejam obrigados a publicar os seus trabalhos num certo número de línguas (todas as línguas oficiais da Comunidade Europeia, uma variedade de línguas para a UNESCO, a ONU etc.). Os partidários do esperanto renunciaram aos objectivos políticos mantendo, no entanto um ideal de entendimento planetário a nível individual.

No plano industrial, as exportações e as importações conduziram à consciência da necessidade de vender os produtos na língua do comprador. A tradução das instruções, dos manuais de manutenção, de todas as espécies de etiquetas tornou-se um sector de actividade muito importante.

Perante o aumento maciço da quantidade de documentos para traduzir, entendeu-se que  o computador podia fornecer uma ajuda preciosa.

Os primeiros utensílios electrónicos criados para facilitar a tarefa dos tradutores foram os dicionários informatizados. A Comunidade Europeia desenvolveu e continua a aperfeiçoar os dicionários automatizados na base EURODICAUTOM. Trata-se de um dicionário essencialmente terminológico, com nomenclaturas correspondentes aos diversos ramos científicos e técnicos tratados pela comunidade : física nuclear, novos materiais, tecnologias de informação, biologia, medicina, aeronáutica, direito, administração, etc..

Vários fenómenos contribuíram para caracterizar a segunda metade do século XX criando alterações culturais de grande relevo:

 A circulação da informação tornou-se uma prioridade. O seu estatuto deixou de identificar-se apenas com a utilidade; assumiu-se como necessária. O conhecimento e o poder baseiam-se na posse da informação. Tornou-se primordial que a informação estivesse disponível muito rapidamente nas línguas desejadas.

Desenvolveu-se aquilo a que se chamou a «cultura do écran», por oposição à «cultura da escrita», as tecnologias audio consideram-se apenas episódios intermédios. A comunicação tende a passar pelas vias electrónicas como o atesta o desenvolvimento do e-mail. A informação é efémera ou duradoura segundo as necessidades: tanto se pode tomar conhecimento da mensagem no monitor como imprimi-la para a tornar palpável e duradoura.

O despoletar das nacionalidades, a exacerbação dos movimentos regionalistas, as reivindicações locais mais ou menos amplas, o reconhecimento dos particularismos estão a par com o uso das mais variadas línguas oficiais. Cada grupo linguístico procura uma certa autonomia e um acesso aos documentos na sua própria língua.

As empresas industriais e comerciais funcionam cada vez mais à escala internacional e a circulação de produtos simplifica-se. A cultura linguística, outrora reservada às elites, está agora acessível a um número maior de pessoas. Os dicionários, e os seus derivados, as bases de dados terminológicas, lexicógrafas ou documentárias, tornaram-se produtos à disposição do público para aplicações industriais, comerciais ou administrativas. Estes recursos linguísticos representam as potencialidades de uma mais valia.

Vive-se, doravante, numa sociedade onde as nações tendem a organizarem-se para melhor colaborar e apoiarem-se mutuamente. Os grandes organismos públicos ou semi-públicos internacionais ( da ONU a Greenpeace, Médicos sem Fronteira etc.) desenvolvem as suas acções em todas as latitudes. A multiplicidade das línguas não pode ser um obstáculo à cooperação e as questões linguísticas devem ser resolvidas para proporcionar uma boa circulação da informação.

A pesquisa científica apoia-se cada vez mais em instrumentos. A física nuclear teve um grande progresso graças aos aceleradores de partículas. A astronomia progrediu graças às redes de telescópios do tipo VLA (Very Large Array) no Novo México e ainda poderá progredir mais com o VLBA (Very Large Base Array) instalado sobre vários continentes. Cada vez se aperfeiçoam novos instrumentos. A linguística raramente teve ocasião de funcionar em grande escala, no entanto, no plano científico, a tradução automática coloca-se entre os instrumentos de ponta e acelera as descrições científicas das línguas.

As ciências humanas e sociais não estão habituadas a grandes investimentos económicos nem técnicos. O emprego das novas tecnologias encontra ainda algumas resistências nas suas áreas daí que a pesquisa em relação à tradução se ligue frequentemente à informática e não à linguística, apesar das duas disciplinas colaborarem cada vez mais.

O desenvolvimento da tradução automática baseia-se, simultaneamente, numa nova possibilidade tecnológica para explorar e numa necessidade de intercâmbio económico e político. A sobreposição destes dois factores não é evidente. Trata-se de uma aproximação realizada a pouco e pouco numa sucessão de acontecimentos entre os anos cinquenta e setenta. A momentos de  desilusão quase total seguiram-se momentos de fé e esperança. Do ponto de vista teórico, era necessário um entendimento entre literatos e técnicos. Durante muito tempo, considerou-se a tradução como uma obra literária, no entanto, um estudo do mercado global da tradução mundial mostra que a tradução literária apenas ocupa cinco por cento do mercado.

A tradução tanto pode ser considerada  uma arte como um produto. Aqueles que a consideram como um produto de mercado, esperam uma rápida rentabilização dos seus investimentos. Aqueles que a consideram como uma arte admitem dificilmente que uma máquina (um autómato) possa executar o trabalho tão bem como um ser humano. Para eles, a imaginação, as conotações, a criatividade, a linguagem não poderiam ser fruto da máquina. Mesmo sabendo que esta máquina foi totalmente definida e programada pelo Homem, não admitem que ela possa efectuar a mesma tarefa que eles. Encontram-se na Internet opiniões de tradutores de renome que estimam que a tradução automática não pode ajudar os processos de tradução, podendo mesmo prejudicá-los. Qualquer que seja o seu progresso, consideram que os tradutores terão um papel cada vez maior  a desempenhar porque as empresas de tradução automática apenas oferecem um esboço do texto de chegada. Além disso, o tradutor deve possuir um conhecimento profundo dos temas que constituem o texto de partida sobretudo quando a tradução incide sobre um domínio especializado onde a exactidão e a qualidade são essenciais. Só a partir de uma total compreensão do texto de partida é que o tradutor poderá atingir os objectivos pretendidos, depois de despistar os erros.

Trata-se, apesar de tudo, de uma questão de mentalidade porque a tradução automática abre, para o linguista, perspectivas de reflexão absolutamente novas, pondo em causa as modalidades do ensino das línguas e da tradução e a filosofia da tradução. Poderá alterar as mentalidades a propósito da percepção da língua.

Receia-se que o aperfeiçoamento da técnica possa contribuir para o empobrecimento das línguas quando forem tratadas automaticamente. Existem muitas teorias a apoiar as ideias da intradutibilidade das línguas, mas apesar das contrariedades teóricas, é importante que a técnica siga o seu rumo para benefício da humanidade. São sobretudo tradutores humanos que vêem o perigo nas máquinas e lutam pela «pureza» da língua. Recusam-se a aceitar que a comunicação oral e pessoal possa ser automatizada e que o discurso com marcas literárias, poéticas, psicológicas ou sociais possa ser submetido ao tratamento sistemático da máquina. Aceitam, no entanto, que os texto dos domínios técnicos específicos, em relação aos quais o respeito de uma certa forma de estilo não é primordial, possam e devam ser tratados maquinicamente. Trata-se dos textos cuja leitura é importante porque contêm informação útil  e devem ser traduzidos porque a Lei a isso obriga. É uma situação de plurilinguismo institucional que produziu sistemas eficazes no Canadá, na Suíça, no Luxemburgo, etc..

A aplicação de programas de tradução tem-se sempre revelado falível porque a língua é uma espécie de organismo vivo que nunca se reproduz exactamente do mesmo modo e deixa sempre um lugar para uma certa criatividade. Mesmo em estruturas fixas ou estereotipadas, a língua manifesta traços difíceis de captar. Existe, todavia uma margem de características estáveis e descritíveis para que o tratamento seja possível mas permanece sempre uma margem para o erro.

Se considerarmos que os campos contextuais se encaixam perfeitamente nas descrições fenomenológicas e linguísticas que se fizerem, eles podem ser considerados como dados permanentes do «código». Por isso, são formalizáveis e, por conseguinte, acessíveis ao computador. A maioria dos programas de tradução utilizam a codificação dos campos. A exploração do contexto faz parte, explícita ou implicitamente do trabalho das máquinas de tradução da segunda geração. A concretização de programas que permitem à máquina proceder a tal exploração não levanta nenhum problema de princípio. As redes de relações que constituem os campos contextuais são, no entanto, infinitamente vastas, e a simulação pela máquina das operações de selecção efectuadas pelo cérebro choca muito mais com problemas de ordem quantitativas do que qualitativas: como fornecer uma descrição destas redes de signos, para cada «entrada», e,  principalmente, como gerir  este número considerável de dados no interior de um programa? Por isso, a maioria dos programas só tomam em consideração um pequeno número de dados contextuais permitindo estabelecer as discriminações mais indispensáveis no interior da polissemia. No entanto, nada impede que o campo desta exploração se estenda progressivamente, à medida que aumentar a capacidade de domínio de um número cada vez maior de operações.

A adaptação das novas tecnologias à tradução contribui para alterar o perfil do tradutor. Ele deixa de ser visto como «escritor imitador», um redactor que se molda a outro, um «recriador». É concebido, pelo menos nos domínios técnicos e científicos, como um técnico que pratica transcodificação. Para isso, tem à sua disposição um certo número de ferramentas, cada vez mais precisas, adaptadas, rápidas, à medida que   as tecnologias informáticas evoluem. É o fornecedor de um produto cujo valor entra em competição com o dos outros fornecedores. Está colocado num certo mercado de tipo industrial onde a rapidez e a qualidade do trabalho são essenciais.

Com a tradução automática, a era da arte é ultrapassada e substituída pelo espírito de produção e difusão de massas. A tradução deixa de ser uma disciplina literária para se tornar numa disciplina técnico-científica. Na óptica da tradução automática, o tradutor é definido como um produtor que integra o consumidor na definição do seu produto. Em termos de produção e de consumo, é essencial ter uma ideia da rentabilidade da actividade. O tempo de trabalho mede-se e remunera-se. Passa a falar-se em «indústria da língua». Todo o tratamento automático passa em geral do estádio experimental para o estádio de comercialização. Como há reprodutibilidade, há «massificação» da produção e dos serviços prestados e, por conseguinte, consumo de massas dos produtos. As milhares de páginas  traduzidas por dia em cada organização internacional, tal como a Comissão das Comunidades Europeias, a Organização Mundial de Saúde, ou a Organização das Nações Unidas mostram que, para além da obrigação legal de traduzir a maioria dos documentos, há também necessidade de consumir esses textos, esses relatórios, actas das comissões, inquéritos, e toda a espécie de trabalhos. Proliferam simultaneamente os documentos postos a circular e as suas traduções. O tradutor é um empreendedor que necessita de produzir cada vez mais, por isso adapta-se tecnologicamente. Actualmente são os tradutores que fazem a pós-edição das traduções brutas. Se o recurso à tradução automática se desenvolver, é provável que a pós- edição se torne uma profissão diferente da tradução. A Comissão das Comunidades Europeias apoia um projecto de formação nessa área. Para trabalhar eficazmente em pós-edição, é conveniente ter estudado e reflectido sobre a tipologia de erros sistematicamente cometidos pela máquina. Além disso, o pós-editor deve dominar as técnicas linguísticas adequadas.

A reflexão sobre o estilo é um elemento importante na formação dos futuros tradutores ou pós-editores. Deve-se banir a ideia de que, ao lado do estilo grosseiro, há uma «linguagem bela» e aceitar a concepção de estilos diferentes adaptados a diferentes situações para diferentes usos. O estilo deve ser adaptado às necessidades específicas da comunicação nas várias circunstâncias. A tradução automática obriga a trabalhar em situações e casos concretos de comunicação ao contrário da tradução literária que estabelece uma situação de comunicação mais abstracta.

Tem de haver consciência da gradação entre o mínimo requerido  de tradução correcta, que em certos casos pode ser suficiente, e o máximo, que é o intraduzível pela máquina, o texto de Direito, ou o texto jornalístico de opinião onde uma boa parte da significação permanece nas alusões e nas entrelinhas. Entre os dois extremos, estende-se a franja dos documentos especializados que suportam o automatismo sob certas condições. É necessária uma aprendizagem particular para admitir aproximações estilísticas e variedades retóricas pouco usuais. O analista deve interpretar o pensamento do leitor habituado a procurar uma informação lendo um texto na diagonal.

A reflexão sobre o estilo é essencial porque é em função dele que se decide a priori se uma tradução é boa ou não, na ausência do original. A procura de estilo é uma aprendizagem de manipulação da língua. A língua pode ser considerada como um puzzle, um jogo com peças maiores ou menores (das palavras às locuções), mais ou menos numerosas (variantes possíveis, sinónimos possíveis ...) mais ou menos coloridas (níveis de língua, gírias, etc.). A prática da pós-edição rápida fomenta o sentido da hierarquização dos erros, afina o sentido da necessidade e do possível,  do possível e do supérfluo e promove a eficácia.

Numa situação dada, o estilo adequado é aquele que não perturba a comunicação ou a transmissão da mensagem. O estilo deve ser transparente, ao contrário dos textos literários onde cada autor é identificado por um estilo próprio. No entanto, o estilo dos textos técnicos não é neutro, adapta-se à função dos textos traduzidos.

Toda a produção linguística está baseada em modelos. Aparentemente a norma impõe-se como se se tratasse de um conjunto de regras universais. Em todas as línguas há modelos gramaticais. Fala-se em formas gramaticais e formas agramaticais porque a gramática se apoia em regras absolutas. No entanto, não se fala em formas alexicais; os modelos lexicais são mais difíceis de respeitar; não têm contornos definidos. Trata-se de escolher «a palavra certa», um sinónimo, ou reformular. Apesar de só haver uma resposta, estão sempre presentes várias possibilidades lexicais. Os modelos estilísticos também são difíceis de explicitar. Ao lado dos modelos literários clássicos encontram-se os modelos epistolares, jornalísticos, dialógicos, etc. O tradutor clássico considera geralmente a tradução automática má porque os seus enunciados não correspondem à norma ou pelo menos à sua imagem  de norma. O utilizador, por seu lado, vai julgar a compreensão, a adequação e a acessibilidade da tradução à sua necessidade de informação. O linguista ajuíza em função da sua grelha de análise e dos seus interesses. Procura descrever um certo tipo de produção, inventaria as regras de constituição desse tipo de discurso. Para o linguista há uma clara oposição entre norma e uso, fundada na distinção entre língua e fala. Há, por um lado, o que existe em teoria, a língua como realidade virtual, e, por outro, o que efectivamente se produz, se realiza, se observa. A língua é elaborada a partir de numerosos usos observados. É claro que, nas sociedades educativas actuais, o vai e vem constante entre língua e fala é cada vez mais controlado não se deixando a língua e a fala evoluir livremente. Por outro lado, a escrita também exerce um enorme travão na evolução da língua porque há uma penalização social através da recriminação do erro, e das ameaças de insucesso escolar. Diz-se que a língua é viva e livre, no entanto a sua cristalização em gramáticas, dicionários e livros envolve-a numa rede de regras de onde não pode escapar. Nesta óptica, deviam ser os usos a determinar as regras e não as regras a impor os usos. Quem diz regra diz obrigação, mas, por outro lado, também diz excepção, desvio afastamento ou seja liberdade de utilização. É o que acontece em todas as línguas onde  a liberdade individual cria estilos próprios. É um paradoxo linguístico que se intensifica com a tradução automática. Será concebível  que uma máquina possa agir  com «liberdade» ou respeitar a liberdade do autor que trata?

A noção de erro é importante para avaliar as produções computacionais. A noção de erro implica uma ideia de Bem e Mal, Bom e Mau regida por uma ideia mais ou menos transcendente a partir de um referente mais ou menos conhecido, mais ou menos explicitado. O erro tem conotações éticas porque se entende na sociedade ocidental  que a desobediência é má. A divisão maniqueísta depende, em certas condições, de uma norma integrada psicologicamente mas não explicitada. O desvio é frequentemente fonte de incompreensão. Só em certos registos tais como a poesia é que eles são valorizados. Mas a poesia está nos antípodas do discurso técnico que interessa à tradução automática. Por isso, a tradução automática não deveria sofrer desvios à norma, à regra do bem escrever, à lei linguística. O discurso científico está intimamente ligado às normas, ao contrário do discurso literário onde a aproximação é sempre possível. Cada época reinterpreta as obras do passado, o que permite o aparecimento de traduções tão diversas do mesmo original ao longo  dos tempos. Nos campos onde a exactidão é essencial, não se pode interpretar, deve-se verter a designação exacta, por isso se desenvolvem cada vez mais dicionários terminológicos que se actualizam constantemente. Não pode haver dicotomia entre os dados factuais, cifrados e a «roupagem linguística» para  respeitar a clareza do texto.

As análises de erros depois da tradução automática servem para melhorar a capacidade dos sistemas. Também são importantes para o linguista porque lhe permitem observar fenómenos de que não teria suspeitado a «olho nu». Neste sentido, a tradução automática aparece como um instrumento de observação dos discursos e da língua.

Para além das produções linguísticas, pelo novo prisma que impõe, a tradução automática permite colocar de modo novo questões antigas mas ainda insolúveis. Quer se fale de tempos verbais, de formas de enunciação, de estruturas sintácticas, de norma ou de estilo, a tendência é sair da abstracção para considerar os fenómenos no quadro concreto de uma situação de comunicação real cujo objectivo é ser eficaz. A reflexão epistemológica encontra nos corpus constituídos pelas traduções automáticas um campo aberto para a análise da linguagem.

A tradução automática continua a ser objecto de uma recusa sistemática. Esta recusa tem como origem um duplo receio: por um lado, o mito da superioridade da máquina sobre o homem e, por conseguinte, do seu domínio, por outro lado  a perda de qualidade das produções, qualidade vivida não só como características dos textos mas como componente da intimidade e da subjectividade pessoal.

Outro argumento contra a utilização da máquina na indústria da linguagem encontra-se no instinto vital que, de um modo mais ou menos consciente, se manifesta no receio da perda dos postos de trabalho. Este tem sido um debate associado a todas as tecnologias de informação. A experiência tem mostrado que as máquinas apenas auxiliam o Homem, libertando-o para outras tarefas; não o substituem. 

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2. O multilinguismo institucional

 

A comunidade Europeia define-se como multilingue, porque assenta no respeito pela diversidade cultural e linguística das nações que a compõem. Todos os seus membros são  cidadãos com  direito a serem informados e a exprimirem-se na sua própria língua.

Só o multilinguismo pode assegurar a transparência, nos planos político, jurídico, económico e social,  do pleno exercício da democracia, da construção da Europa, do acesso ao mercado único e da circulação de trabalhadores e  bens culturais.

O princípio do multilinguismo está consagrado, mas as necessidades de comunicação ultrapassam o quadro institucional presente onde é cada vez mais difícil de aplicar devido às novas adesões que implicam um aumento do número de línguas faladas no espaço europeu. Por isso foram criados o Serviço Comum de Interpretação de Conferências  e os serviços de tradução escrita em cada instituição da União Europeia (Comissão Europeia, Parlamento Europeu, Conselho da UE, Comité Económico e social, Tribunal de Justiça, Tribunal de Contas, Nato, OCDE e Conselho da Europa).

 Apesar da sua  instituição, o multilinguismo sofre várias ameaças: a sociedade global de informação implica globalização da cultura centrada em torno de uma única língua: o inglês; a evolução da comunidade: de 6 países com 4 línguas passou-se para 15 países e 11 línguas. Como consequência, retomaram-se as conversas polémicas da primeira metade do século: que língua falar? (tratado SAGA de 1952). Concluiu-se que nenhuma língua deveria sobrepor-se a outra, daí a promoção do multilinguismo apesar de racionalmente a língua única ter menos custos (um terço do orçamento da União Europeia vai para o serviço de tradução). A solução seria o aparecimento, no futuro, de uma linguagem eurocrática.

Torna-se imprescindível encorajar a aprendizagem das  línguas. A tradução não pode ser um factor de abrandamento, mas deve modernizar-se para que se torne a ferramenta útil a este novo espaço multilingue. É necessário encontrar um meio para evitar o fracasso do multilinguismo e uma das soluções passa pelas novas tecnologias ao serviço da tradução.

A primeira fase para a modernização consiste na uniformização técnica dentro da comissão: mesmo sistema, mesma formatação, correio electrónico, modem para normalização de textos etc...). O software mais importante é aquele que recupera tudo o que já tiver sido traduzido. O programa propõe a tradução mas será sempre o homem a decidir. Os recursos humanos são canalizados para tarefas mais criativas e menos mecânicas.

O segundo passo consiste no trabalho dos tradutores nomeadamente na constituição de bancos de dados terminológicos.

Graças à tecnologia, é também possível um trabalho à distância. As primeiras experiências realizaram-se com grupos de tradutores: um terço dos tradutores encontra-se no Luxemburgo; a possibilidade de tradução entre o Luxemburgo e Bruxelas funciona devido à telemática.

O tipo de documentos traduzidos nos serviços comunitários são de carácter vinculativo directamente aplicáveis nos Estados-Membros; muitos são textos que constituem legislação nacional e não podem, rigorosamente, ser designados por traduções. Assim sendo, é fundamental, nestes textos, o uso de uma terminologia correcta, precisa, sem inexactidões nem ambiguidades que possam vir a causar problemas de interpretação jurídica uma vez que o cidadão comunitário tem não só o direito como o dever de tomar conhecimento das normas que o regem.

A política das nove línguas oficiais é, na prática, a política de «nove originais» o que significa que o tradutor ao serviço das instituições comunitárias não se limita à simples tradução de textos legislativos mas também à sua redacção.

É enorme a variedade e a diversidade de textos: discursos, questões parlamentares, relatórios financeiros, guiões e diálogos de filmes, correspondência oficial e publicações destinadas ao público.

Nos textos legislativos é utilizada uma terminologia comunitária, o conhecido «jargão comunitário» que, uma vez fixado, é quase imutável. Os textos administrativos, ao contrário utilizam uma terminologia mais livre. Mas o tradutor ainda se depara com outros problemas como por exemplo o encontro de duas terminologias e linguagens: nacionais e comunitárias ou casos onde as terminologias e expressões nacionais que, por corresponderem a realidades por vezes muito diferentes, não são directamente traduzíveis sem o recurso a perífrases como por exemplo no caso do domínio da Segurança Social, em que não há harmonização mas coordenação entre os sistemas dos vários Estados-Membros, cada um com a sua realidade social, os seus hábitos e as suas tradições, com consequentes estruturas e prestações de natureza muito diversificada. Para agravar a situação, o mundo científico e tecnológico (informática, ciência da informação, biotecnologia etc...) está permanentemente em mudança, ou seja, é um mundo da criação permanente onde proliferam os neologismos: a cada descoberta ou inovação terá de corresponder uma nova designação. Nestes casos, predominam, na tradução, os decalques ou mesmo a transposição de termos da língua em que foi criado o primeiro neologismo. Isto seria evitado se houvesse uma  colaboração do linguista e do terminólogo desde o início ou seja na própria criação da terminologia e não apenas na fase de tradução.

Se as novas tecnologias facilitam o trabalho do tradutor também se espera que elas venham a ser úteis para o intérprete e que venha a haver uma cooperação entre os serviços de tradução e os de interpretação. O carácter instantâneo da interpretação dificulta a tarefa de transmitir  conceitos de culturas diferentes. Para além da palavra, o contacto visual, a atitude do orador e o ambiente fornecem ao intérprete pistas que lhe facilitam a compreensão. Daí o carácter humano da tradução ser sempre preferível ao da tecnologia.

A tarefa do intérprete torna-se mais árdua porque quando começa a falar ainda não conhece  o conteúdo final da mensagem, o ritmo e o tom em que vai ser proferida essa mensagem (cólera, humor, decepção, etc.)

Antes de cada reunião, o intérprete deverá ter acesso a toda a informação através de enciclopédias de temas específicos para essa reunião, base de dados terminológicas, glossários especializados etc.

Durante a sessão de trabalho, poderá consultar rapidamente essas informações no seu disco rígido, em Cd Rom, na Internet, Intranet ou redes locais. Depois da reunião deverá explorar todos os dados recolhidos e preparar o dossier para o encontro seguinte. Um dos trunfos da Europa  não é falar uma só língua mas várias. É necessário desconfiar de um regresso do imperialismo económico ou cultural de pensamento único.

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CONCLUSÃO

 

A globalização da cultura tornou as traduções necessárias como meio de acesso aos textos de autores das mais variadíssimas partes do globo.

Teoricamente, a tradução é impossível mas a actividade do tradutor parece defrontar-se com um paradoxo insolúvel: a prática mostra a existência de traduções ao mesmo tempo que a teoria aponta para a sua impossibilidade. É comum serem os tradutores os primeiros a apontar tal dificuldade nos prefácios das obras que de facto publicam. A negação teórica manifesta no prefácio é anulada pelo texto apresentado.

O estudo do aparecimento e desenvolvimento  da linguagem, tanto do  ponto de vista filogenético como em relação ao processo ontogénico, denuncia um conjunto de características invariáveis independentes das línguas particulares. No entanto, a aquisição da língua pressupõe uma selecção no vasto leque da possibilidades humanas. A formalização desta redução constitui-se como código da língua. Uma vez realizada a escolha, e recalcadas as outras hipóteses possíveis, a língua individualiza-se. Enquanto que a língua materna é um processo natural, a passagem para outra língua torna-se artificial e dependente de uma aprendizagem.

Cada língua estrutura a realidade à sua maneira organizando os seus próprios elementos. Essa estruturação e os seus elementos nunca são totalmente idênticos de língua para língua: não copiam a realidade; são apenas a concretização linguística de um ponto de vista que deriva de uma matriz estrutural única e definida, assente num sistema de comparações, oposições e distinções. As categorias e os tipos que se recortam do mundo dos fenómenos não são vistos da mesma forma por todos os observadores; pelo contrário, o mundo é representado como um conjunto de impressões que têm de ser organizadas pelos sujeitos falantes de acordo com os seus sistemas linguísticos. A natureza é recortada e organizada em conceitos que recebem significações segundo os padrões de cada língua segundo uma forma implícita e indeterminada ou arbitrária, mas, uma vez instituída, os seus termos são absolutamente obrigatórios. Para falar é necessário subscrever a organização e a classificação dos dados decretados pela gramática da língua.

Traduzir não consiste em comutar sistemas linguísticos de uns para outros, mas em transcender as divergências de sistemas para comunicar um «dizer» singular que não pertence à língua que o formaliza mas que se serve dele. O funcionamento da linguagem mostra que ela exprime tanto pelo que está entre as palavras como pelas próprias palavras. O significado encontra-se tanto no que ela não diz como no que diz; daí que traduzir para outra língua seja um fenómeno muito mais complexo do que as práticas parecem mostrá-lo. Os obstáculos à possibilidade de traduzir não devem ser procurados na convergência ou na divergência das línguas mas na possibilidade ou na impossibilidade de encontrar formulações equivalentes aos sentidos de mensagens particulares. Os únicos limites que podem ser atribuídos à tradutibilidade são os da universalidade do espírito humano e da universalidade do mundo conceptual mediatizado pela linguagem.

A tradução procura expandir o alcance que cada obra tem, como se cada novo texto tivesse como intenção subjacente retomar os anteriores e levá-los mais longe. A linguística moderna destruiu a velha noção do léxico como reportório graças ao estudo das relações entre o sentido e a visão do mundo de cada civilização. O léxico é encarado como uma estrutura ou como um conjunto de estruturas com base na ideia de campo semântico. A fala não é constituída pelo agrupamento das palavras preexistentes mas, pelo contrário, as palavras resultam da totalidade da fala.

A linguística estabelece uma distinção entre inventários limitados e inventários ilimitados. Os inventários limitados, por exemplo da fonologia, e da morfologia, mostram claramente de que modo a língua é um sistema específico que procura dizer o máximo com o mínimo de recursos e o mínimo de desvios possíveis. Não seria difícil estabelecerem-se correspondências linguísticas se as línguas fossem constituídas só por inventários limitados. No entanto, os inventários ilimitados revelam a distinção entre a linguística como sistema de formas e os significados dessas formas, a distinção entre as estruturas limitadas do código linguístico e as estruturas ilimitadas da nossa experiência e domínio do mundo. Os inventários ilimitados mostram a tensão existente entre as formas e o mundo da experiência humana.

A comparação de duas línguas revela que cada uma delas recorta a realidade designada em lugares diferentes da outra. Uma língua pode separar aquilo que na outra parece impor-se como a representação de um conceito único. As línguas não mudam o universo apreendido mas conduzem a uma apreensão diferente. Como as línguas exprimem por estruturas linguísticas diferentes factos físicos idênticos, verifica-se que a estrutura da linguagem não reflecte automaticamente a do universo.

A linguística recente preocupou-se em analisar estas dificuldades. Os seus resultados conduzem a uma situação paradoxal: quanto mais se sabe sobre  o modo como os homens comunicam, mais se conhecem os obstáculos à tradução mas também melhor se aprende a contorná-los de modo a preservar, na tradução, senão toda, pelo menos, o máximo de informação.

O ponto fraco da linguística reside na impossibilidade de concretizar uma descrição exaustiva das significações dos enunciados. De acordo com tal limite, não existe possibilidade de cientificamente legitimar a tradução porque não se pode ter a certeza da captação da totalidade do sentido.

O linguista  que, para estudar o valor dos fonemas ou das categorias morfológicas, possui métodos de análise cientificamente comprovados, sente dificuldades logo que se trate de isolar as relações existentes entre «as ideias vizinhas» porque a apreensão da estruturação do léxico pode ser interpretada de modos diferentes em função dos tipos de relação existentes entre os signos.

A situação complica-se ainda mais quando se trata de mostrar as resistências à tradução porque não se comparam apenas palavras de um sistema no interior de listas mas listas de palavras oriundas de dois sistemas linguísticos diferentes. Todo o problema linguístico de tradução consiste em designar os mesmos conceitos por meio de palavras pertencendo a línguas diferentes de modo que a campos conceptuais idênticos possam corresponder campos lexicais diferentes.

As interdependências lexicais ampliam-se sempre que a aprendizagem aumenta no sentido de uma diferenciação de cada uma das malhas da rede linguística que recobre a mesma área conceptual. À medida que o vocabulário aumenta, criam-se novas malhas, mas como a área conceptual não aumenta, a rede deve reajustar-se no sistema de oposições e diferenciações que não existiam antes. Como as listas vocabulares podem ser distintas de pessoa para pessoa e de língua para língua, torna-se difícil fazer coincidir os elementos de campos semânticos em línguas diferentes.

O problema teórico mais genérico da tradução é, por conseguinte, o da convergência dos campos lexicais. Há perdas semânticas sempre  que as palavras constituintes de um campo alargado numa língua corresponderem a palavras de campos mais restritos na outra. Para atenuar as diferenças conceptuais, o tradutor terá de procurar saber com que critérios se organizam os dados da experiência de modo a captar a racionalidade interna do significado. É a relação de oposição a outras palavras que permite apreciar o seu próprio valor. Parece indispensável insistir nesta distinção para dar conta do modo como é possível passar de um signo de uma língua para um signo de outra língua sem danos para o conteúdo referencial inicial e sem no entanto negar a resistência estrutural à transposição.

O problema da tradução consiste, por conseguinte, em apreender o campo conceptual e  recortá-lo de forma adequada a um campo lexical da outra língua. A definição correcta do valor do termo em cada um dos contextos é indissociável de um profundo conhecimento das línguas e culturas em causa. Para que um termo pertença a um campo conceptual idêntico àquele que foi definido pelo contexto, a tradução deve reconstituir o campo conceptual equivalente ocupando, no campo lexical da língua de chegada,  o mesmo lugar em relação aos outros termos que o compõe.

A actividade tradutora é, por conseguinte, paradoxal. Por um lado, trai, na medida em que realiza uma aculturação do original; mas por outro não será também um factor de democratização, visto que se expande a vida do texto, fazendo-o crescer no seio de outras culturas?

A era da comunicação caracteriza-se pela transparência do Homem em relação à sociedade e a si próprio. O desenvolvimento da electrónica e a tomada de consciência da importância das línguas e da comunicação multilinguística contribuem para aproximar os povos. O respeito pela língua materna tornou-se um direito inalienável daí que os organismos internacionais se empenhem na divulgação dos documentos de trabalho em várias línguas considerando que o plurilinguismo não pode ser um obstáculo à cooperação, ao desenvolvimento e à circulação da informação. Como o conhecimento e o poder se baseiam na posse da informação, tornou-se primordial que a informação estivesse disponível muito rapidamente nas línguas desejadas.

Perante o aumento maciço da quantidade de documentos para traduzir, entendeu-se que  o computador podia fornecer uma ajuda preciosa colocando a tradução automática entre os instrumentos de ponta e acelerando as descrições científicas das línguas.

Modifica-se o perfil do tradutor que passa também a ser considerado, pelo menos nos domínios técnicos e científicos, como um técnico que pratica transcodificação. A evolução das tecnologias informáticas coloca à sua disposição um certo número de ferramentas, cada vez mais precisas, adaptadas e rápidas permitindo-lhe produzir cada vez mais. Como a máquina não substitui o Homem, apenas o auxilia, o tradutor realiza tarefas imprescindíveis de pós-edição. Na realidade, não se deveria falar em tradução automática mas em tradução humana assistida por computador.

Os corpus constituídos por traduções automáticas permitem uma análise dos discursos e da língua conduzindo à reflexão epistemológica centrada na tipologia dos erros cometidos.

Apesar de todas as deficiências teóricas apontadas, a tradução permanece um mal necessário. Para atenuar os seus efeitos negativos, torna-se imprescindível encorajar a aprendizagem das  línguas porque nada substitui o original.

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ÍNDICE ONOMÁSTICO

 

A

Appel - 38

Aristóteles - 19

 

B

 

Benjamin - 52, 56, 57

Benveniste - 19,68

Bloomfield - 37, 78, 79, 80, 81, 106,

                    107, 108, 109

Bocaccio -  61

Borgström - 36

Bréal - 96

Bruni - 61

Buyssens - 118

 

C

 

Cantineau - 95

Cartagena - 61

Cassirer - 72

Chomsky - 76, 85

Cícero - 46, 47, 50, 61

Croce - 53, 54

 

D

 

Dacier - 48

Dalgarno - 65

Dante - 50, 54, 61

D. Duarte - 61

Delacroix - 8

De la Valterie - 48

De Lisle - 49

Demóstenes - 47

Descartes - 51,65

Dryden - 48

Du Bellay - 46, 61

Du Man - 48

E

Egger - 48

Einstein - 74

Eliot - 54

Esquines - 47

Even-Kohar - 53

 

G

 

Gilliéron - 96

Goethe - 51, 54

Greenberg - 65

Greimas - 95

Grosjean - 39

 

H

 

Hakuta - 39

Harris - 32, 78, 81, 85

Hegel - 31

Herder - 72

Hoffmann - 39

Hjemslev - 78, 79, 81, 83, 119

Holmes - 54, 55

Homero - 48, 49, 60

Huet - 48

Humboldt - 18, 32, 33, 35, 36, 51,

                   52, 54, 72, 78, 108

Husserl - 30, 65, 66

 

L

 

La Motte-Hondar - 48

Leibniz - 65

Levý - 52

Littré - 50

Locke - 51

Lucena - 61

Lutero - 47

 

M

 

Mackey - 39

Martinet - 19, 33, 67, 78, 80, 81,         

                 106,118, 119, 120

Merleau-Ponty - 7, 11, 12, 13, 28, 31,

                           33, 43, 66, 85, 101

Meschonic - 54

Morris - 108

Mounin - 45, 46, 49, 60, 61, 86,

               88, 90, 109, 111

Muysken - 38

 

N

 

Nida - 34

 

O

 

Ortega y Gasset - 52, 56

 

P

 

Paradis - 44

Paulhan - 18

Paz - 55

Petrarca - 61

Piaget - 71

Platão - 77

Ponge - 32

Pottier - 95

Prieto - 119

 

R

 

Rener - 50, 51

Richards - 43, 44

Romaine - 41

Roubakine - 36

Ruhlen - 64

S

 

Sapir - 7, 52, 54, 71, 72, 74, 75

Sartre - 32

Saussure - 20, 42, 75, 77, 78, 79, 81,

                 84, 91, 92, 96, 112, 113

Schiler - 51

Schlegel - 51

Shakespeare - 54

S. Jerónimo - 35, 47

Sörensen - 109

S. Tomás de Aquino - 60

 

T

 

Trier - 72, 73, 86, 95, 119

Tytler - 50, 51

 

U

 

Ullmann - 96

 

V

 

Valéry - 55

Vendryès - 60

Vogt - 95

 

W

 

Weinreich - 39, 40, 43

Whorf - 18, 33, 52, 71, 72, 73, 74, 75

Wilkins - 65

 

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[1] Sapir, E. Le Langage, introduction à l’étude de la parole, trad. S. Guillemin, P., Payot, 1953

[2] Merleau Ponty na Sorbonne, p.23

[3] Merleau Ponty, Signos, p.97

[4] M. Merleau Ponty, signos, p. 18

[5] M. Merleau Ponty, Phénoménologie de la perception, p.206

[6]  Paulhan, Les fleurs de Tarbes, p. 128, cit  M. Merleau Ponty, La Prose du Monde, p 14

[7] Humboldt, Wilhelm Von, Introduction à l’oe   uvre sur le Kavi et autres essais

[8] Whorf, B.L. Language, Thought and Reality, New York, Wiley and sons,1958

[9] Benveniste, Émile, O homem na linguagem

[10] André Martinet, Elementos de Línguística Geral

[11] F. Saussure, Curso de Linguística Geral

[12] M. Merleau Ponty, La Prose du Monde, p 58

[13] M. Merleau Ponty, La Prose du Monde, p 187

[14] M. Merleau Ponty, La Prose du Monde, p 194

 

[15] M. Merleau Ponty, La Prose du Monde, p 200

[16] M. Merleau Ponty, La Prose du Monde, p189-190

 

[17]  M. Merleau Ponty, Signos, pp. 77-79

[18] Harris, Zellig S., Structural linguistic

[19] André Martinet, Elementos de Línguística Geral, pp 16-19

[20] Nida, Eugene A. Toward a science of Translating with special to principles and procedures involved in Bible translating, Leyde, Brill, 1964

[21]  Humboldt, Ueber die Verschiedenheit des menschlichen Sprachbaues, 2ª ed., 1880 cit. Georges Mounin, Problèmes Théoriques de la traduction. P. 170

[22]  Roubakine, Introduction à la psychologie bibliologique, pp 82,86, 4ª ed. 2º vol. Cit.  Georges Mounin, Problèmes Théoriques de la traduction. P. 171

 

[23] Borgström, C. Hj., A problem of method in linguistic science: the meaning of its technical  terms cit Georges Mounin, Problèmes Théoriques de la traduction. P. 175

 

[24] Bloomfield, Le langage

[25]  Quine, W.V. Filosofia e linguagem

[26] APPEL, R. & P. Muysken, Language Contact and Bilingualism, Londen: Edward Arnold, 1987

[27] WEINREICH, U., Languages in contact: findings and problems

[28] MACKEY, W., The description of bilingualism,

[29] GROSJEAN, F., Life With Two Languages, An Introduction to Bilingualism,

[30] HAKUTA, K., Mirror of Language, The debate on Bilingualism, p. 3.

[31] HOFFMANN, C., An Introduction To Bilingualism

[32] ROMAINE, S. (1989), Bilingualism, Oxford: Basil Blackwell.

[33] Vogt H. Contact of languages, p. 369. Citado por Georges Mounin, Problèmes Théoriques de la traduction. P.6

 

[34] Richards, Mencius on the mind, pp.86-87, citado por G.Mounin, Les problèmes théoriques de la traduction, p.186

[35] M. Merleau Ponty, La Prose du Monde, p 56

[36] PARADIS, M. (1987), The assessment of bilingual aphasia, Hillsdale: Erlbaum.

[37] Richards, Towards a theory of translation, p.251, citado por G.Mounin, Les problèmes théoriques de la traduction, p.187

[38] Mounin, Georges, Les Belles Infidèles, p 29

[39] Mounin, Georges, Les Belles Infidèles, pp. 67/68

[40] Mounin, Georges, Les Belles Infidèles, p. 70

[41]  Benjamim, Walter, A tarefa do Tradutor

[42] Even-Zohar, I., Le relazioni tra sistema primario e sistema secondario all’interno del polisistema

[43] Croce, Benedetto, Estetica, 1901; Poesia, 1936

[44] Sapir, Edward, Le Langage, introduction à l’étude de la parole

[45] Eliot, T.S. , Goethe as the Sage, 1955, On poetry and poems, 1957

[46] Meschonic, Henri Proposition pour une poétique de la traduction

[47] Holmes, James S., Poem and metapoem: poetry from Dutch to English 1969

[48] Paz, Octávio, Traducción: literatura y literalidad, Barcelona, 1971

[49] Ortega y Gasset, Miseria y esplendor da traduccion, Madrid, 1947

[50] A.A.Nascimento, Traduzir, verbo de fronteira nos contornos da Idade Média p.121

[51] A.A.Nascimento, Traduzir, verbo de fronteira nos contornos da Idade Média  p.136

[52] A.A.Nascimento, Traduzir, verbo de fronteira nos contornos da Idade Média p.126

[53] Ruhlen, Merritt, The Origin Of Language : Tracing the Evolution of the Mother Tongue. New York, John Wiley & Sons, 1994

[54]Greenberg, Joseph, Universals of Human Language, University of Standford Press. Standford.

 

[55] M. Merleau Ponty, La Prose du Monde, p 54

[56] Bloomfield, Language, pp.277-278

[57] Benveniste, Categories de langue, p.429

[58]B. L. Whorf : Language, Thought and Reality, New York, Wiley & Sons; London, Chpman & Hall, 1956, p. 252

[59]F. Saussure, Curso de Linguística Geral, p. 199

[60] Hjelmslev, Louis, Prolégomènes à une théorie du langage

[61] Bloomfield, Le langage

[62] F Saussure, Curso de linguística Geral, p.196

[63] Martinet, A,  Structural Linguistics, p.582

[64] G.Mounin, Les problèmes théoriques de la traduction, p.36-37

[65] G.Mounin, Les problèmes théoriques de la traduction, p.56

[66] F.Saussure,  Curso de Linguística Geral, p. 196

[67] M. Merleau Ponty, La Prose du Monde, p 40-41

[68] G.Mounin, Les problèmes théoriques de la traduction, p.72

[69] G.Mounin, Les problèmes théoriques de la traduction, p. 24

[70] F.Saussure, Curso de Linguística Geral, p.208

[71] Pottier, B. , Linguistique générale. Théorie et description

[72] Greimas, A. J., Sémantique strcturale

[73] Ullmann, Stephen, Semântica Uma introdução à Ciência do Significado

[74] M. Merleau Ponty, La Prose du Monde, p. 43

[75] F.Saussure,  Curso de Linguística Geral, p. 196

[76] Georges Mounin, Problèmes Théoriques de la traduction. P.151

[77] Morris, Ch, Signs, Language, Behaviour

[78] Sörensen, Hj.S. Word-classes in modern English

[79] Georges Mounin, Problèmes Théoriques de la traduction. P.166 nota 1

[80] Bloomfield, le langage, p.133

[81] G.Mounin, Les problèmes théoriques de la traduction, p.75-76

[82] F.Saussure,  Curso de Linguística Geral, p. 185

[83] F.Saussure,  Curso de Linguística Geral, p. 196

[84] Buyssens, Eric, La communication et l’articulation linguistique

[85] André Martinet, Elementos de Línguística Geral, p. 16

[86]  Prieto, Luis J., Figuras de la expression y figuras del contenido