Miguel Torga

Biografia três grandes linhas de rumo Outros temas Estilo
 Mitologia   Testes

-         Sentimento telúrico – aliança do homem com a terra (com as dimensões divina e transcendente) [Regresso]

-         Angústia e esperança (desespero humanista) [Mudez]

-         Drama da criação poética (refúgio perante a efemeridade do tempo) [Maceração]

-         Problemática religiosa (descrença e revolta contra a divindade transcendente) [Desfecho]

 

Homem telúrico, natural e intensamente fiel às suas raízes avesso também a evocar os anos de Juventude no Brasil (A Criação do Mundo), é todavia Coimbra - onde faz os estudos de Medicina e onde mais tarde ancorará a sua vida familiar e profissional - que mais condiciona a personalidade literária e a obra de Miguel Torga. Durante dezenas de anos, a paisagem e a vida sociocultural de Coimbra (desde o movimento em torno da revista Presença, 1927-1940) impregnarão o seu inconfundível Diário, a sua poesia lírica e a sua ficção narrativa. Voz clamorosa de um homem inquieto, a sua poesia de Orfeu Rebelde (1958) vai-se despojando da ênfase que distingue o seu lirismo nas primeiras colectâneas (Rampa, 1930, O outro livro de Job, 1936, Lamentação, 1943. Odes, 1946, Nihil Sibi, 1948, Cântico do homem, 1950; Penas do Purgatório, 1954, Câmara Ardente. 1962; Poemas Ibéricos, 1965) e nos dezasseis volumes do Diário (desde 1941 a 1994) os poemas vão trocando a eloquência pela sóbria expressão do desespero humanista de Torga. Paralelamente, o seu conhecimento vivencial e reflexivo dos homens com vária condição social e a sua empatia titânica com as forças naturais atingem superior recriação artística em obras-primas de contos (Bichos, 1940, Contos da Montanha, 1941, Novos Contos da Montanha, 1944, etc.)-

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Torga Projecta, na sua escrita, as suas preocupações com o ser humano, as suas limitações e as suas necessidades de transcendência: Na sua escrita, Torga evidencia um certo sofrimento magoado, feito desassossego, que tanto lhe permite a esperança, como o desespero.

Temática

    1– Problemática Religiosa

            1.1 - revolta da inocência humana contra a divindade transcendente

      2 - Desespero Humanista

            2.1 - drama da criação poética

      3 – Sentimento telúrico - relativo à terra, ao solo. Influência do solo de uma região nos costumes, no carácter)

A poesia de Miguel Torga apresenta três grandes linhas de rumo:

Criação poética: “o mais belo e o mais trágico” oficio, possibilidade de um homem descer ao mais fundo de si mesmo é um dom inato.

 

1.        Problemática religiosa: Revolta da inocência humana contra a divindade transcendente, negação de deus e obsessão da sua presença, máxima realização humana do divino e necessidade de o homem procurar a sua verdade na terra. A problemática religiosa é quase constante na sua poesia. Embora não tomando uma atitude de ateu, Torga, ao negar Deus, não nega a sua existência, pelo contrário, ele sente a sua existência; nega, sim, a representação que os homens fazem deste. O que perturba Torga é o facto de não existir um Deus humano e iminente que se possa sentir e ter. A problemática religiosa (parece recear o Absoluto, esforça-se por negar Deus – “Desfecho” – mas reconhece a Sua existência e socorre-se da linguagem religiosa) – “Liberdade que estais no céu (...)/ Rezava o padre (...)/ Mas a tua bondade omnipotente/ Nem me ouvia.”, Liberdade

- desespero religioso – conflito entre o divino e o terreno

   - revolta-se contra Deus, mas não assume qualquer ateísmo

   - indecisão face ao absoluto, sagrado e divino

   - nega a transcendência, que lhe perturba a razão

   - nega Deus/deuses para melhor afirmar o Homem

   - sente-se cada vez mais próximo de Deus e menos solitário

   - a ausência de um Deus humano e imanente, perturba o poeta

- esperança e desesperança surgem como uma expressão de um conflito íntimo que se desenvolve no interior do Poeta

      - busca força e consciência para entender um certo sentido de destino trágico do ser limitado que é o Homem

      - descrença e revolta contra uma divindade transcendente, parece reflectir angústia e desespero

      - constante monólogo verdadeiramente inquieto com Deus

      - Deus à obsessão

 

2.        Desespero Humanista: Apego aos limites carnais, terrenos e a revolta espontânea contra esses limites, sentimento de solidão e experiência do sofrimento, rebeldia contra os limites do homem e busca do caminho da esperança e da liberdade. O humanista surge devido à sua constante procura, do verdadeiro sentido da existência humana, que não consegue atingir na sua plenitude, o que lhe traz, uma certa, angústia. Torga não se limita a conhecer o que lhe está próximo, mas sim tudo o que lhe está destinado. O desespero humanista (o sentimento doloroso pela condição do Homem – O Orfeu Rebelde)

 Preocupado com a autenticidade criadora

tristeza por não conseguir iluminar a sua poesia

o acto poético é indissociável de um certo comportamento místico que aproxima o homem dessa ordem cósmica em que se integra a sua animalidade

 

 

3.        Sentimento Telúrico: Apologia de um sentido terreno, instintivo, a terra - local concreto e natural do homem, inspiração genesíaca, ligação da terra com o sagrado e mito de Anteu. Em relação à obsessão telúrica, Miguel Torga afirma, convictamente, que o homem deve unir-se à Terra, ser-lhe fiel, pois para o poeta, a terra surge como a base da vida, chegando mesmo a considerá-la como um ventre materno. Torga, de uma maneira, personifica a Terra como uma mulher disposta para a fecundação. Daí ele a considerar como um ventre materno. É a voz de uma terra –Trás-os-Montes -  e também a voz de um povo rude e melancólico, mas de carácter firme e nobre. A sua obra é um todo literário e humano.  O sentimento telúrico (só na ligação à sua terra o poeta se sente retemperado da luta que trava com Deus e contra o seu destino de homem – S. Leonardo de Galafura; o sentimento de identificação com a terra projecta-se num amor por Portugal e pela Ibéria; canta o mundo agrário)

Inspiração genesíaca: a terra é o lugar da realização do ser humano e da ligação ao sagrado

   - Na terra fértil, a fecundação permite a vida do Homem  que se reproduz na busca de novas vidas

   - o Homem deve ser capaz de realizar-se no mundo, de unir-se à terra e de ser-lhe fiel para que a vida tenha sentido e o próprio sagrado se exprima.

   - a terra surge como o ventre materno e que procria

   - o telurismo de Torga exprime-se no seu apego à terra, na sua fidelidade ao povo, na sua consciência de português, de ibérico, no espírito da comunhão europeia e universal

   - busca na terra a sua verdade universal, mas sente a condição humana com todos os seus limites

   - ama a terra e nela vê a cura para os seus males à poder terapêutico

Torga projecta na sua escrita as suas preocupações com o ser humano, as suas limitações e a sua necessidade de transcendência. Há um sofrimento magoado, feito desassossego, que tanto permite a esperança como conduz ao desespero.

Torga procura na poesia uma salvação do homem que questiona deus e se revolta contra a divindade transcendente.

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q       OUTROS TEMAS

-      o drama da criação poética (a imagem heróica do poeta) – Majestade (Miguel Torga associa o poeta a um rei)

-   a poesia como denúncia e expressão de revolta – não confundir com pessimismo

-   discurso confessional e reflexivo

-   a visão positiva da vida, apesar das contrariedades – “Depoimento”

-   apesar da morte ser o destino inevitável do Homem, este não abdica da sua capacidade de busca e persiste na concretização do sonho (que confere sentido à existência humana – a procura da felicidade terrena – “Viagem”)

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q       CARACTERÍSTICAS ESTILÍSTICAS

-   simplicidade do discurso

-   variedade de estruturas estróficas

-   ligação entre as estruturas estróficas e a estruturação das ideias

-   irregularidade/regularidade métrica

-   alegoria

- adjectivação

-   comparações

-   metáforas

-   imagens

-   personificações

-   antíteses

-   anáfora

-   paralelismos

- Escolha das palavras: inspiração genesíaca e inovações báquicas

- Estilo poético: eloquência sóbria, viril, que aquece de entusiasmo ou fastiga

- Uso de estrofes irregulares

- Recursos: verbos e tempos verbais

 

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1 - humanista e existencialista

   - preocupação com o ser humano, as suas limitações e a sua necessidade de transcendência

   - liberdade e esperança são valores que articulam o seu humanismo

   - sofrimento magoado, feito desassossego que tanto permite a esperança como conduz ao desespero

   - representado sob a forma de protesto, de revolta e de inconformismo

   - vive inquieto com a vida humana, a existência, o destino, o sentido da morte, a condição terrena.

   - percebe-se que o Eu do Poeta, repleto de temores e de tensões, aparentemente fechado em si mesmo, ainda acredita num Outro.

   - mito de Orfeu

             Mitologia  

 

Mito de Anteu: Figura da mitologia grega e romana, filho da deusa Terra, onde ia buscar forças para derrotar todos quantos se aproximavam da costa líbia. Foi derrotado por Hércules, que, tendo descoberto a origem da sua valentia, o ergueu do chão, durante a luta, impedindo, deste modo, que ele "sugasse" a energia que o alimentava.

Mito de Orfeu - está relacionado com a descida aos Infernos para recuperar Eurídice. Este deus da antiguidade era um excepcional poeta e músico que conseguiu com o seu canto obter autorização para ir buscar a sua amada, sob a condição de não olhar para ela enquanto não estivessem fora do reino dos mortos. Orfeu não resistiu e, por isso, esta desapareceu sem que tivessem chegado ao portão. Então, a mágoa de Orfeu era traduzida pelas melodias tristes que este tocava quando passeava pelas florestas. Um dia, um grupo de Bacantes pediu-lhe que se lhes juntasse. Como este recusou, estas desfizeram-no e lançaram-no em pedaços ao rio. A sua cabeça, sempre a suspirar por Eurídice, foi levada para o mar e depois sepultada pelas musas. A lira de Orfeu, depois da sua morte, subiu aos céus e transformou-se numa constelação.

Eurídice - amada de Orfeu que na noite de núpcias morreu por ter sido picada por uma cobra, tendo sido sepultada no reino dos mortos, de onde Orfeu a vai tentar libertar.

Tântalo - figura da mitologia grega que foi rei da Lídia, a quem os deuses castigaram a nunca poder matar a sede ou a fome. O seu castigo consistiu em ter perto da boca um ramo de frutos que se levanta quando este o tenta alcançar, ou em ter junto de si a água que ao tentar beber se escoa. Esta punição deveu-se, segundo a lenda, ao facto de este ter convidado os deuses para um banquete e ter-lhes servido o corpo de seu filho. Por isso, foi desterrado pelos deuses para os Infernos.

Fúrias - três deusas dos infernos: Alecto, Medusa e Némesis - deusas da discórdia, da vingança e do castigo, respectivamente.

Narciso - deus da antiguidade que era extremamente vaidoso e que se enamorou de si próprio.

 

 

                                                                   

      Orfeu ßà Eurídice                                                          O poeta ßà A poesia

            (libertá-la)                                                                 (libertá-la da obscuridade)

      - lira de Orfeu                                                       - O canto do poeta

- Descida aos Infernos                                    - Descida do poeta ao fundo  do seu “eu”

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Testes

Leia atentamente o seguinte texto:

Orfeu Rebelde

Orfeu rebelde, canto como sou:

Canto como um possesso

Que na casca do Tempo, a canivete,

Gravasse a fúria de cada momento;

Canto a ver se o meu canto compromete

A eternidade no meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam rouxinóis...

Eu ergo a voz assim, num desafio:

Que o céu e a terra, pedras conjugadas

Do moinho cruel que me tritura,

Saibam que há gritos como há nortadas,

Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte

No corpo dum poeta que a recusa,

Canto como quem usa

Os versos em legítima defesa.

Canto, sem perguntar à Musa

Se o canto é de terror ou de beleza.

Miguel Torga

Leia atentamente o poema Orfeu Rebelde e responda às seguintes questões:

  1. Identifique o assunto do poema.
  2. Indique a função do "canto" do sujeito poético.

3.      Aponte os processos utilizados para transmitir a noção de tempo e eternidade.

4.      Mencione os factores que conferem musicalidade ao poema.

  1. Identifique as imagens utilizadas e o seu valor expressivo.

II

Sem deixar de parte um certo comprometimento social, há em Torga um sofrimento magoado, feito desassossego, que tanto permite a esperança como conduz ao desespero.

Recordando o estudo que fez da obra de Miguel Torga, elabore uma composição em que apresente as principais linhas de pensamento e de personalidade presentes na sua poesia.

I

Cenários de resposta

1. Assunto:

·  Mito do Orpheu que perdeu a sua amada Eurídice.

·  Cântico da rebeldia do Orfeu, não, propriamente, por per­der a amada Eurídice, mas devido à transitoriedade da vida e à inexorabilidade do tempo.

·  Drama interior e a sua obstinação. A imagem órfica pre­sente nesta atitude do poeta perante a poesia e a morte, ou mesmo perante o amor feito "ternura".

2. Função do "canto" do sujeito poético:

Poema como "legítima defesa" (vv. 15 e 16). A compara­ção e a metáfora em "canto como quem usa os versos em legítima defesa" revela essa posição e a arma que é a poesia.

3. Tempo e eternidade:

- A voz obsessiva e grito contra o tempo:

- A gravação "a canivete" (v. 3) para que a própria evolução da casca torne mais duradoira e viva a sua revolta;

- A imagem da "casca do tempo" como sinal da pereni­dade contraditoriamente efémera e aparente por ser apenas casca;

- A imagem "do moinho cruel que me tritura" (v. 10), a evocar a revolta contra a passagem do tempo;

-  A comparação em "há gritos como há nortadas" (v. 11) para exprimir a violência dos elementos da natu­reza contra o tempo.

4.    Factores que conferem musicalidade ao poema:

·   Figuras de estilo:

- Metáfora - "Outros, felizes, sejam rouxinóis...";

- Personificação e imagem - "Do moinho cruel que me tritura";

- Comparações - "Canto como um possesso".

·   Sensações auditivas:

 - Vocabulário utilizado - canto, rouxinol, voz, gritos, nor­tadas;

- Rima;

- Sons abertos;

- Aliterações.

5.    As imagens utilizadas e o seu valor expressivo / os recur­sos estilísticos:

-   Presente do indicativo a sugerir a continuidade desta revolta, semanticamente traduzida em vocábulos como "rebelde", "possesso ,  canivete", "fúria ,  compro­mete", "sofrimento"...

-   A metáfora em "outros, felizes, sejam rouxinóis", a expri­mir a ironia sobre uma aceitação fácil da vida.

-   A personificação de sabor metafórico em "violências famintas de ternura" (v. 12) a exprimir a força e a necessi­dade de amor.

-   As comparações ("Canto como um possesso").

- A expressividade da expressão "a canivete" (v. 3) para que a própria evolução da casca torne mais duradoira e viva a sua revolta.

- A imagem da "casca do tempo" como sinal da pereni­dade contraditoriamente efémera e aparente por ser ape­nas casca.

- A personificação e a imagem "do moinho cruel que me tritura" (v. 10), a evocar a revolta contra a passagem do tempo.

-   A comparação em "há gritos como há nortadas" (v. 11) para exprimir a violência dos elementos da natureza con­tra o tempo.

 

II

·   Três grandes linhas de rumo: um "desespero humanista", uma problemática religiosa e um sentimento telúrico.

· Desespero humanista: revolta e inconformismo; solidão e angústia; incerteza do divino e pessimismo;

·   Problemática religiosa: permanente conflito entre o divino e o terreno; negação de Deus para afirmar o homem; o sagrado expresso pela vida e pela terra; Deus - uma palavra obsessiva que receia como teme o Absoluto;

·   Sentimento telúrico: inspiração genesíaca; terra - lugar da realização do ser humano e da sua ligação ao sagrado. Na terra fértil, a fecundação permite a vida do homem que se reproduz na busca de novas vidas.

·   Torga projecta na escrita as suas preocupações com o ser humano, as suas limitações e sua necessidade de transcen­dência. Apego aos limites carnais, terrenos e a revolta espontânea contra esses limites.

 

Leia atentamente o seguinte texto:

Desfecho

Não tenho mais palavras.

Gastei-as a negar-te...

(Só a negar-te eu pude combater

O terror de te ver

Em toda a parte).

Fosse qual fosse o chão da caminhada,

Era certa a meu lado

A divina presença impertinente,

Do teu vulto calado,

E paciente...

E lutei, como luta um solitário

Quando, alguém lhe perturba a solidão

Fechado num ouriço de recusas,

Soltei a voz, arma que tu não usas,

Sempre silencioso na agressão.

Mas o tempo moeu na sua mó

O joio amargo do que te dizia...

Agora somos dois obstinados,

Mudos e malogrados,

Que apenas vão a par na teimosia.

Miguel Torga, Câmara Ardente

1.      Divida o poema nas suas partes ló9icas e identifique o assunto de cada uma. 

2.      Identifique e caracterize o destinatário do poema.

3.      Explicite a relação estabelecida entre o sujeito poético e esse destinatário:

-         no passado;

-         no presente.

4.      "Soltei a voz, arma que tu não usas, / Sempre silencioso na agressão."

4.1  - Explique o sentido dos versos transcritos.

4.2  - Identifique os recursos estético - estilísticos.

5          Comprove, a partir do poema, que a negação do Divino é, para Torga, uma forma de afirmar o Homem.

II

Elabore uma dissertação em que aborde o seguinte tema: o mito de Anteu na poesia

de Cesário Verde.

I

(Cenários de resposta)

1. · Duas primeiras estrofes (versos 1 a 10) - A situação da luta:

-      a presença obsessiva de Deus;

-      a tentativa de negação da divindade;

-      o medo de enfrentar o absoluto - "o terror de te ver / em toda a parte";

-      a impertinência e a paciência da "divina presença".

· Terceira estrofe (versos 11 a 1 5) - Os processos utilizados:

-      o refúgio na recusa;

-      a voz solta como arma;

-      a obstinação.

·   Última estrofe (versos 1 6 a 20) - O desfecho sem catástrofe: a obstinação e a teimosia do humano e do divino.

2. Deus surge como o destinatário do poema.

É - nos apresentado como alguém que o sujeito poético vê "em toda a parte"; como "divina presença", embora "impertinente"; "vulto calado e paciente".

3. No passado, o sujeito poético negou a "divina presença"; temia ver o "vulto calado / e paciente"; lutou e isolou-se; revoltou-se pela voz....

No presente, sente que o tempo lhe trouxe uma certa con­formação, embora permaneça obstinado, a "par na teimo­sia ...

4.1. O primeiro verso "Soltei a voz, arma que tu não usas," exprime as palavras de alguém inconformado, que só consegue recorrer ás palavras para traduzir a sua revolta ou inconformismo; o verso "Sempre silencioso na agres­são" remete para a imagem de que o silêncio vale muitas vezes mais do que qualquer palavra. Esta surge como a arma do divino.

41. Recursos estilísticos: metáfora (voz como arma); alitera­ção da sibilante ("Sempre silencioso na agressão"); antí­tese (entre a voz solta e o silêncio)...

5. A problemática religiosa é uma constante na poesia de Torga. Neste poema, nota-se:

- o conflito entre o humano e o divino;

- a negação de Deus e a obsessão da sua presença;

- a revolta contra a transcendência.

Neste poema, Torga procura afirmar o Homem, recorrendo à negação do divino. Considera necessário enfrentar a trans­cendência, embora continue a sentir a "divina presença".

Resta-lhe a luta das palavras.

 

II

Em Cesário Verde, o campo, ou melhor, a terra, apre­senta-se salutar e fértil. Afastado da terra da sua infância, como recorda no poema Em Petiz, e enfraquecido pela cidade doente, o Poeta reencontra a energia perdida quando volta para o campo. Por isso, também, como refere em Nós, desde as epidemias que grassaram em Lisboa, a sua família passou a encontrar no espaço rústico o retempero das suas forças "desde o calor de Maio aos frios de Novembro".

E dentro desta concepção de uma terra que revitaliza que podemos encontrar o mito de Anteu.

O mito de Anteu permite caracterizar o novo vigor que se manifesta quando há um reencontro com a origem, com a mãe - terra. E assim que se pode falar deste mito em Cesário Verde na medida em que o contacto com o campo parece reanimá-lo, dando-lhe forças, energias, saúde. O mito de Anteu surge em Cesário para traduzir o esgotamento gerado pelo afastamento da terra, do espaço positivo do campo. Dai, o seu encantamento com o cabaz da pequena vendedeira que lhe traz o campo à cidade ("Num Bairro Moderno"), na vitali­dade e no colorido saudável dos produtos que lhe permitem recompor um corpo humano, ou seja, que possibilitam reno­var as energias.

Nesse poema, Cesário consegue concretizar, pela fanta­sia, um novo quadro, que sem colidir com a imagem da reali­dade de frutas e hortaliças, nos permite encontrar novos seres humanos, revigorados, como ele próprio se vai sentir quando a rapariga lhe agradecer ao despedir-se. As marcas do mito de Anteu podem-se descobrir ao receber "As forças, a alegria, a plenitude" não apenas na expressão de despedida, mas também nesta "digestão desconhecida" que o campo lhe trouxe.

Leia atentamente o seguinte texto:

LIVRO DE HORAS

 

Aqui, diante de mim,

Eu, pecador, me confesso

De ser assim como sou.

Me confesso o bom e o mau

Que vão em leme da nau

Nesta deriva em que vou.

Me confesso

Possesso

Das virtudes teologais,

Que são três,

E dos pecados mortais

Que são sete,

Quando a terra não repete

Que são mais

Me confesso,

O dono das minhas horas.

O das facadas cegas e raivosas

E das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo

Andanças

Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco

E luar de charco, à mistura.

De ser a corda do arco

Que atira setas acima

E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo

Que possa nascer em mim.

De ter raízes no chão

Desta minha condição.

Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.

De ser anjo caído 

Do tal céu que Deus governa;

De ser o monstro saído 

Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.

Eu, tal e qual como vim

Para dizer que sou eu

Aqui, diante de mim!

Miguel Torga, O outro livro de Job

Questionário:

Faça uma análise pessoal do poema, podendo orientar-se pelas seguintes alíneas:

1. Síntese do assunto e seu desenvolvimento.

2. Processos morfo-sintácticos, semânticos e fónicos investidos no tratamento do assunto.

Respostas:

1. Assunto do poema: o poeta confessa-se como um "eu" dividido entre o bem e o mal, entre a virtude e o pecado, entre a raiva e a ternura, entre a luz e a sombra, entre o divino e o humano. Consideramos que o assunto se desenvolve em quatro partes. A primeira parte (1ª quadra) contém logo uma síntese de todo o poema: o poeta confessa-se como é - um misto de bondade e de maldade; na segunda parte (2ª, 3ª e estrofes), a confissão desce ao particular e é já uma concretização da dualidade antagónica do poeta: virtude e pecado, raiva e ternura, luz e sombra (charco e luar de charco); na terceira parte (5ª e 6ª estrofes) o poeta ex­prime, por meio de dois pares de metáforas-simbolos (Abel-Caim e anjo-monstro), a mesma antinomia do seu "eu" (o bem e o mal), mas apresenta a razão de toda essa contradição: me confesso de ser homem (a natureza humana é um misto de matéria e espírito, de luz e de sombra); finalmente a última parte (última estrofe), prova o caminho circular do desenvolvimento do assunto: o poeta volta ao princípio ao afirmar "me confesso de ser eu tal e qual como vim" (na primeira estrofe afirmara "me confesso de ser assim como sou").

De notar que, na longa enumeração dos pares antitéticos, reve­ladores da dualidade antagónica do "eu", com excepção de duas vezes (3ª e 4ª estrofes), é sempre o bom que vem primeiro que o mau, sugerindo precisamente o "anjo caído do céu".

É evidente no texto um certo platonismo cristão: o homem é uma sombra imperfeita do que era no "tal céu que Deus governa", e o espírito encerrado na matéria. Esta inspiração de fundo cristão é ainda evidenciada por palavras e expressões retiradas deliberadamente de formulários cristãos: "eu pecador me confesso", "pos­sesso das virtudes teologais que são três", "dos pecados mortais que são sete", "de Abel e de Caim" (conteúdo bíblico), "anjo caído do tal céu que Deus governa" (teoria do pecado original).

A estrutura circular do desenvolvimento do assunto vê-se ainda mais claramente, se verificarmos que o texto se inicia numa perspectiva abstracta e generalizada (me confesso como sou... o bom e o mau), passando depois a nível menos abstracto e mais particularizado (2ª, 3ª e 4ª estrofes), inclinando-se a seguir para uma maior abs­tracção e generalidade (me confesso de ser tudo... de ser homem – 5ª e 6ª estrofes), para finalmente se fechar a circunferência com o regresso ao princípio: me confesso de ser eu tal e qual como vim (note a sugestão da vinda do homem dum mundo per­feito, espiritual, para a imperfeição da matéria: platonismo cristão).

2. No aspecto morfo-sintáctico é evidente a predominância dos subs­tantivos e verbos, o que está de harmonia com um discurso con­fessional, de frases continuamente declarativas. Há apenas uma meia dúzia de adjectivos, quatro dos quais constituem dois pares muito expressivos: "facadas cegas e raivosas" e "ternuras lúcidas e mansas". O verbo fundamental do texto é o verbo "confessar" (confesso, sempre no tempo presente), como convém a um mo­nólogo meditativo, definidor do "eu", no presente. A forma da 1ª pessoa do singular "confesso" é usada nove vezes, para realçar a insistência do sujeito lírico sobre a revelação do seu eu.

O verbo "ser" é ainda mais usado (catorze vezes), o que insinua o problema da identidade, que está em jogo neste monólogo poético. Note-se ainda que aparece nove vezes o valor substantivo do verbo ("o ser"): o problema do ser está no cerne do poema.

Mas o problema centra-se no "eu" do poeta. Dai a abundância de deícticos (aqui, diante, nesta, acima, abaixo, desta), que localizam a acção sempre em relação ao sujeito lírico. A mesma característica centrípeta do poema é revelada pela primeira pessoa dos verbos (confesso, sou, etc.) e pelos pronomes de 1ª pessoa (eu, me, minhas, mim). Note que, na última estrofe, o "eu" aparece explicitamente três vezes e implicitamente (na 1ª pessoa dos verbos) outras três. Isto mostra que o texto é directa e essencialmente um monólogo. Só indirectamente, pelo seu conteúdo humano, pelo problema de identidade, que é universal, é que o poema se poderá também con­siderar um diálogo com os outros.

A insistência sobre o 'eu" e a obsessão das suas contradições estão dentro do psicologismo tão próprio dos homens da Presença.

As frases, quase todas declarativas, de harmonia com o carácter confessional do texto, estão quase sempre ligadas por coordenação (parataxe), aparecendo apenas a oração subordinada relativa (ex­plicativa). Os próprios períodos estão ligados uns aos outros por coordenação (sindética, ou assindética). A coordenação adapta-se muito bem ao desenvolvimento de um assunto que consiste num desenrolar de características do "eu" que se confessa.

No aspecto semântico, há que assinalar a figura fundamental do poema, a antítese, que realça o carácter contraditório de um "eu" dividido entre o bem e o mal. Salientemos as seguintes expres­sões antitéticas: "o bom e o mau; virtudes teologais - pecados mortais"; "facadas cegas e raivosas"; "ternuras lúcidas e mansas"; "charco e luar de charco"; "acima e abaixo"; "Abel-Caim"; "anjo­monstro".

Outra figura importante é a reiteração (repetição), que se torna muito notória com a expressão "me confesso" (nove vezes) e, no geral, em princípio de estrofe e de verso. Há também a repetição de construções, a que se chama paralelismo:

Das virtudes teologais

Que são três

E dos pecados mortais

Que são sete

E das facadas cegas e raivosas

E das ternuras lúcidas e mansas

Me confesso de ser charco

Me confesso de ser tudo

Me confesso de ser homem

De ser anjo caído

De ser monstro saído.

São também muito expressivas algumas metáforas - imagens: leme de nau nesta deriva em que vou (há aqui uma sugestão dos Autos das Barcas de Gil Vicente); facadas cegas e raivosas (a conotar o ódio e as vinganças); as ternuras lúcidas e mansas (além da metá­fora notar também a hipálage, a conotarem o amor e a benevo­lência); ser charco e luar de charco (metáfora e antítese); de ser a corda do arco / Que atira Setas acima / E abaixo da minha altura; ter raízes no chão; de ser anjo; de ser o monstro saído do buraco mais fundo da caverna.

Quanto à forma e aspectos fónicos, o poema é constituído por sete estrofes irregulares (de seis, oito, sete, cinco e quatro versos). Pode considerar-se a última estrofe, mais curta do que as outras, como uma espécie de finda, muito importante no poema, não só por constituir uma espécie de conclusão-síntese, mas também por es­tabelecer a ligação à primeira estrofe, de harmonia com o desen­volvimento circular do assunto, conforme atrás verificámos.

A métrica é também irregular (há versos de duas, três, quatro, seis, sete, oito e dez sílabas). A distribuição da rima é também irregular, havendo rima consoante e toante e muitos versos sem rima (bran­cos). Há, no entanto, um admirável aproveitamento das sonoridades, as quais, juntamente com um ritmo vigoroso, embalam o leitor na fruição de uma mensagem tão rica de significado. Vejam-se, por exemplo, as sonoridades (rimas, sucessão de sibilantes, aliterações) e o ritmo admirável das estrofes 2ª e 3ª.

Toda esta variedade e liberdade de construção fónica está também de harmonia com os processos dos homens do Primeiro e Segundo Modernismo.

In, O Texto em análise III , António Afonso Borregana

 

Leia atentamente o seguinte texto:

Mar!

Tinhas um nome que ninguém temia:

Era um campo macio de lavrar

Ou qualquer sugestão que apetecia...

Mar!

Tinhas um choro de quem sofre tanto

Que não pode calar-se, nem gritar,

Nem aumentar nem sufocar o pranto...

Mar!

Fomos então a ti cheios de amor!

E o fingido lameiro, a soluçar,

Afogava o arado e o lavrador!

Mar!

Enganosa sereia rouca e triste!

Foste tu quem nos veio namorar,

E foste tu depois que nos traíste!

Mar!

E quando terá fim o sofrimento!

E quando deixará de nos tentar

O teu encantamento!

Miguel Torga, Poemas Ibéricos

O texto que acabou de ler faz uma evocação do Mar.

1.     O poema desenvolve-se, essencialmente, em dois momentos: o apelo irresistível do Mar e as suas consequências.

1.1.          Faça uma delimitação textual desses dois momentos.

    1.2.   Transcreva o verso que faz a sua articulação.

2.     Explique a metáfora presente na primeira estrofe.

2.1. Refira e interprete a sua transformação na estrofe 3.

3. A segunda estrofe sugere um apelo de natureza mais humana. Baseando-se no texto, explique esta afirmação.

3.1. Esse choro apelativo do Mar vem "representado" poeticamente dum modo nega­tivo na 4ª estrofe. Tendo em consideração a linguagem do texto, documente esta afirmação.

4. Atente nos verbos que se encontram no pretérito imperfeito, no pretérito perfeito e no futuro do indicativo.

4.1. Explicite neste contexto o seu valor semântico.

II

Comente o seguinte texto:

Sem deixar de parte um certo comprometimento social, há em Torga um sofrimento magoado, feito desassossego, que tanto permite a esperança como conduz ao desespero.

Recordando o estudo que fez da obra de Miguel Torga, elabore uma composição em que apresente as principais linhas de pensamento e de personalidade presentes na sua poesia.

Cenários de resposta

1.1.      momento - do verso 1 até ao verso 8.

momento - do verso 11 até ao verso 20.

1.2.      verso 10.

2.   Considerar:

sentidos implícitos nos paradigmas MAR e TERRA (cf., p. ex., Todorov, Simbolismo e Interpretação).

2.   Interpretar as transformações:

campo   lameiro macio   fingido (afogava o arado e o lavrador).

Notar a redundância de sentidos negativos, disfóricos.

3.   Notar:

personificação (choro, sofre, ...)

3.1.      Comentar os caracterizadores de sereia (adjectivos do verso 14 e orações relativas adjecti­vas dos versos 1 5 e 1 6).

4.1.          Considerar:

a continuidade da acção no passado (tinhas, era, ...);

·    a realização pontual da acção (fomos);

·    a dúvida e a indefinição relativa ao futuro (terá).

5.   Considerar, entre outros, os seguintes aspectos:

·    "qualquer sugestão que apetecia" - espírito renascentista, dimensão épica, em Os Lusíadas, de Luís de Camões;

·    enganosa sereia rouca e triste" - dimensão anti-épica, patente, p. ex., nos comentários do poeta, no discurso do Velho do Restelo, nas profecias do Adamastor.

1.   Considerar, a título de exemplo:

          maresia, marítimo, amarar

Nota:    Para a definição de família etimológica, c{, p. ex., Herculano de Carvalho, Teoria da linguagem.

2.   E o arado e o lavrador eram afogados pelo fingido lameiro, enquanto soluçava.