SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Dados biográficos Temas Estilo
O jogo dos quatro elementos primordiais Abordagem dos mitos gregos Denúncia de uma realidade adversa
Procura da justiça Síntese Testes

Sophia apresenta-nos uma poesia de grande fidelidade à realidade do mundo. Esta busca a ordem e o equilíbrio do universo. Poesia das origens, busca a ordem do mundo, a modelação do caos para a criação do cosmos, ou seja, da ordem e do equilíbrio do Universo.

A sua poesia estabelece uma relação com as coisas e com o mundo. A palavra assume-se como um agente de transfiguração da realidade que revela o divino e o terreno. Sophia criou uma literatura de empenhamento social e político, de compromisso com o seu tempo e de denúncia das injustiças e da opressão.

Sophia na sua poesia conserva e reforça continuamente uma relação privilegiada com o mar, com o vento, com o sol e a luz, com Terra e toda a vegetação. Abre os seus sentidos, na captação das sensações da natureza.

A natureza é um espaço primordial, onde o Eu se reencontra com a sua nudez e beleza plena, fugindo da cidade. Segundo Sophia as cidades são espaços dessacralizados, negativos, de conflitos e desencontros.

A poetisa procura, acima de tudo, a transparência, o universo organizado, dai a reconstrução da aliança entre os homens, a natureza e as coisas é uma constante, na sua obra. O acto poético é um acto mágico capaz de projectar, por palavras mágicas a realidade e a relação intima com as coisas , com o Universo.

Sophia busca a perfeição e a harmonia de um ser humano que saiba erguer-se a partir das suas limitações e imperfeições. Não celebra os deuses para que os homens sejam como eles, mas celebra os Deuses para tornar os homens mais divinos, mas capazes de avançar para a margem do Bem e da Verdade. O mundo antigo, a que recorre a poetisa, simboliza não só as origens, mas também a perfeição e a unidade ou o tempo absoluto que procura.

Alguns dados biográficos

v     Nasce no Porto, em seis de Novembro de 1916;

v     Tem origem dinamarquesa (por parte do pai);

v     Vive a infância junto do mar (praia da Granja);

v     Frequenta a licenciatura em filologia Clássica;

v     Casa com Francisco Sousa Tavares;

v     Escreve livros para crianças;

v     É principalmente autora de textos de poesia;

Principais traços da poética da autora com base nos aspectos biográficos:

v     Uma sensibilidade aguçada pela família, através do contacto desde muito jovem com autores portugueses e dinamarqueses;

v     Presença do imaginário nórdico;

v     A comunhão com a natureza;

v     Uma estética de harmonia, do equilíbrio e onde a presença clássica é constante.

topo

Temas mais frequentes na sua poesia:

NATUREZA

Ø      Beleza poética (harmonia, variedade de cores e formas);

Ø      Mistério (imaginação nórdica);

Ø      Reencontro do eu na solidão, fuga à multidão quotidiana que habita as cidades; comunhão com o que há de mais puro e primitivo, atitude de evasão em que está presente a ânsia de fruição;

Ø      Lugar de união com o sonho (conseguida por meio de gestos mágicos e de palavras de encantamento);

Ø      Celebra a verdade antiga do existente como manifestação divina (o poeta é um mediador, um sacerdote do absoluto).

POESIA

Ø      Culto do Absoluto; o estado de entusiasmo poético = a «ser em Deus» sem outro mediador;

Ø      Culto de Orfeu e Euridíce como sua imagem, ambos condenados à separação.

CRIAÇÃO POÉTICA

Ø      Poeta como possessão;

Ø      O poema diz-se.

ARTE E ARTISTAS

Ø      Homenagens a artistas;

Ø      Textos como interpretações de obras de arte.

ANTIGO

Ø      Exaltação da antiguidade da Natureza;

Ø      Assuntos históricos;

Ø      Poemas que cultivam temas da Antiguidade Clássica (os mais numerosos): lugares míticos, obras de arte gregas, deuses da mitologia pagã.

DESIGUALDADES E INJUSTIÇAS SOCIAIS

Ø      Revolta perante um estado social de injustiça, de podridão e de ditadura;

Ø      Exaltação do exemplo dos que foram vítimas de tal estado ou contra ele lutou.

VIDA

Ø      Reencontro com o tempo passado através da evocação;

Ø      Fuga ao quotidiano através da união com a natureza, do amor ou da imaginação.

MORTE

Ø      Exaltação lírica: dor, loucura, desilusão pela ausência do ser amado.

AMOR

Ø      Amor – posse da Natureza;

Ø      Amor – fraternidade humana;

Ø      Amor-paixão.

ESPERA

Ø      De alguém pelo mar ou por entre a bruma.

INFÂNCIA EVOCADA

Ø      Imagens e sensações desse tempo: praia, jardim, casa onde viveu.

ASPECTOS DO ESTILO DA AUTORA:

ü      Transfiguração do universo real num universo irreal;

ü      Captação do real através das sensações;

ü      Uso de associações invulgares;

ü      Metáfora e comparação omnipresentes;

ü      Frequente recurso à hipálage, animismo, assíndeto e inversão;

ü      Ambiguidade;

ü      Imagem símbolo;

ü      Palavras dotadas de uma função mágica (mar, espuma, brilho, luar, deuses, sonho, noite, vento, bailar, gesto, momento, poesia, morte, vida, paria, mãos, água).

topo

Linguagem e Estilo

- símbolos e alegorias

            - templos clássicos – equlíbrio e perfeição

            - luz – fim das trevas e do caos, harmonia, encontro do mundo

            - água – pureza, símbolo da vida e da sua dinâmica

            - água da fonte – princípio de todas as coisas, alegoria da nossa existência

            - nudez do corpo – beleza artística, exacta, verdadeira e autêntica

- sobressaem sensações visuais, auditivas e tácteis

- linguagem: imagens evocativas, alusões, métrica livre

- figuras de estilo:         metáfora e comparação

                                   hipálage e animismo

                                   assindeto e inversão

- Versificação: ritmo, rima, metro, pontuação e a anáfora ilustram traços de liberdade e fantasia

- versibilismo e o ritmo livre à serviço da expressão do pensamento e do devaneio

- pontuação pouco utilizado à leva à imaginação e ao sonho

- anáfora à insistência em determinada ideia, emoção ou sensação

 

q       CARACTERÍSTICAS ESTILÍSTICAS

-   procura da palavra precisa

-   uma sintaxe que busca a simplicidade

-   canto lírico das coisas em plena luz (até a noite é transparente)

-   estrofes irregulares

-   a métrica e o ritmo são livres, ao sabor do pensamento e do devaneio, no sentido de atingir uma dimensão ritual de grande musicalidade

-   a rima visa o aproveitamento da beleza fónica das palavras, sem aprisionar o valor evocativo dos símbolos ou o rigor e a nitidez da expressão

-   por vezes os versos de metro curto alternam com os de longo, no sentido de conseguir um ritmo próximo da prosa (Ressurgiremos)

-   transfiguração do universo real num universo irreal, através da imaginação, servida por uma riquíssima rede de símbolos e alegorias

-   captação do real através das sensações, que por vezes se confundem, originando sinestesias

-   recurso deliberado à ambiguidade (“A poesia é = ao que é +”)

-   títulos de grande carga significativa

-   por vezes não usa a pontuação, de modo a que a imaginação e o sonho não sejam tolhidos por limitações de natureza artificial

-   metáforas e comparações, quase sempre sugeridas pelos elementos naturais

-   uso da hipálage, do assíndeto, da inversão e da anáfora (Data, Porque)

-   ironia e até sarcasmo quando denuncia injustiças

“É por isso que eu levo a ânfora de barro pálido e ela é para mim preciosa. Ponho-a sobre o muro em frente ao mar. Ela é ali a nova imagem da minha aliança com as coisas.”

Sophia de Mello Bryner Andresen, Obra Poética, vol. III, Lisboa, Caminho, 1991

A “aliança com as coisas” em Sophia é a base da sua poética:

-   a ideia de clareza, que se associa às paisagens da cidade, do mar e do deserto, de ilhas, de praias, de casas vistas em pleno sol e cujos detalhes são sempre nítidos

-   a ideia de descritivismo, que conduz a uma poesia em que se referem lugares reais, precisos, evocados com algum pormenor

-   a própria ideia de viagem, ligada tantas vezes ao mar, e semeada de imagens de visualidade impressiva

-   a presença de elementos míticos, que faz a ligação entre as coisas e um universo mágico que lhes confere sentido

topo

q       CARACTERÍSTICAS TEMÁTICAS

·  O jogo dos quatro elementos primordiais (água, terra, ar, fogo)

A natureza (“espantoso esplendor do Mundo”) é uma das suas principais fontes de inspiração, conotada de diversos significados; ora ligada à ideia de beleza estética e poética, pela sua perfeição e variedade de cores e formas, ora associada ao mistério, ora traduzindo o reencontro individual com a solidão ou ainda o lugar de união com aquilo que há de mais verdadeiro e puro.

-   imagísticas do mar, das praias, do sol, do vento, das árvores

-   simbologia do mar: totalidade, infinito, vida, eterno movimento. Simbologia da praia: espaço de transformação do ser, de integração na natureza e de transição para uma nova identidade

-   simbologia da luz: transparência, pureza e harmonia

-   gosto pelo exótico, pelos espaços abertos da Natureza

Poemas: Como o rumor; Cidade

O JOGO DOS QUATRO ELEMENTOS PRIMORDIAIS

O jogo dos quatro elementos

a)        Para Sophia a poesia é a busca da verdade e da inteireza. Ao procurar a inteireza, a justiça, a liberdade, “o dia inteiro e limpo”, a poetisa tenta a aliança com esse espaço primordial que é a Natureza e que a arte grega celebrizou;

b)        A physis (Natureza), ocupa um lugar muito importante na sua obra. A Natureza, particularmente a natureza marinha, surge assim como espaço primordial, lugar de reencontro do eu na solidão, longe do bulício da cidade, e de comunhão com o que há de mais puro e autêntico: “a verdade antiga da natureza” é também a verdade dos deuses.

c)         “A soma total do universo de Sophia obtém-se pela concentração dos quatro elementos primordiais” – terra, água, ar e fogo. No jogo destes quatro elementos primordiais Sophia busca: a beleza poética e o fascínio de celebrar a vida e tudo o que existe como manifestação do absoluto; o reencontro e a comunhão com o primitivo e a verdade das origens; a relação pura e justa do ser humano com a vida, consigo mesmo, com os outros e com o próprio mundo.

d)        Conserva e reforça uma relação privilegiada com o mar (praia, espuma, água, areia – abundância de palavras relacionadas com o mar), com o vento (mutabilidade), com o sol e a luz (símbolos de pureza e iluminação) e com a terra (Natureza, fauna & flora).

e)        Marcadamente mediterrânica é no mar que encontra os seus símbolos mais autênticos e a sua respiração vital. O mar é o símbolo da vida e da morte. As águas em movimento mostram a dinâmica da vida e no mar escondem-se os segredos mais profundos do ser e do mundo. A água é a alegoria da nossa existência. É o princípio de todas as coisas. Tudo vem da água e a ela regressa.

“As fontes” – a fonte da água exprime a origem, o lugar do bem, do amor e da verdade. Busca a pureza original nas fontes para receber o verdadeiro amor.

- interiorização do mundo exterior à local onde o ser humano se cria, se forma, realiza e morre

            - não o manifesta de forma explícita, mas com sugestão e reacção sentimental

            - permite ver, não apenas um descontentamento, mas a possibilidade de uma nova realidade

- procura encontrar a essência da verdade e o reencontro do Eu com a Natureza

- troca entre o real e as imagens, torna-se perturbante e implicativa

- subjectividade dos 4 elementos primordiais:

- busca a beleza poética e o fascínio ou a mediação para celebrar a vida e tudo que existe como manifestação do Absoluto

            - reencontro e comunhão com o primitivo e a verdade das origens

- mar:   - recupera a infância

      - possibilita-lhe encontrar o sentido e a purificação do mundo

      - símbolo da vida e da morte

      - dinâmica de vida (águas em movimento)

      - segredos mais profundos do ser e do mundo

      - alegoria da nossa existência

      - princípio de todas as coisas

      - tudo vem da água e tudo a ela regressa

- Cidade          - confusão, que impede a procura da perfeição, da harmonia e do equilíbrio

                        - espaço dessacralizado, negativo, de conflitos e desencontros

- tecida por histórias humanas, por um tempo dividido, cheio de mentira, de máscaras, sem verdade, num processo de corrupção, de violência, de destruição e de confusão

 

·  Reflexões sobre a criação poética

Para Sophia, a poesia é “arte mágica do ser” e o poeta, o “pastor do Absoluto”, “o sacerdote”, o mediador, que recusa o isolamento de qualquer “torre de marfim” e se compromete com o “sofrimento do Mundo”

-   “perseguição do real” e sua transfiguração

-   busca do divino no real

-   valor educativo da poesia, força transformadora do Mundo

Poemas: Cidade, No Poema

topo

·  Abordagem dos mitos gregos

Abordagem dos Mitos Gregos

- fala-nos da arte grega, dos deuses mitológicos e da harmonia e equilíbrio alcançados

-   evocação nostálgica e memória da Grécia e do mundo clássico com a sua estética

-   lugar da poesia, a representação do mundo original, com valores como a justiça e a verdade; valores esses que foram perdidos hoje e que é necessário reaver

-   aliança entre a harmonia, o equilíbrio, a beleza e a perfeição em que não é possível encontrar o caos e a confusão da cidade, onde se sente encarcerada

-   mundo povoado por deuses e não por homens

Poemas: Ressurgiremos, O Rei de Ítaca

topo

·  A denúncia de uma realidade adversa (injustiças e opressão)

-   o optimismo e a luta apesar das frustrações e do desamparo num “tempo dividido” a nível social e político (Data)

-   a defesa da justiça e da verdade

-   poesia como com “perseguição do real” – tendência para o real, para o concreto

-   preocupação com a degradação do Mundo

-   empenhamento social e político, na construção de um futuro melhor (Ressurgiremos)

-   degradação do tempo vivido

-   cidade como lugar onde se sente encarcerada

Poemas: Data, Porque, Retrato de uma princesa desconhecida

·  A fuga a uma realidade adversa

-   evocação nostálgica de imagens da infância e da juventude (casa, jardim, mar), transfigurados frequentemente pelo sonho e pela fantasia. São as vivências inesquecíveis do ser

-   o amor

-   o problema do tempo: a passagem do tempo não é geradora de angústia – a vida é uma caminhada em que nada se perde, pelo contrário, acumula–se experiências rumo à “única unidade”

Poemas: Para atravessar contigo o deserto do mundo

- Poesia de grande fidelidade à realidade do mundo em que vivemos

- Poesia das origens, da ordem e do equilibrio do universo

- Poesia impessoal e objectiva

- Estabelece uma íntima relação com as coisas e o mundo

- Transfiguração da realidade à revelação do divino no terreno

- Canta o amor e o trágico da vida através do mar e dos pinhais

- Evocações do passado sugerem transformações do futuro

- Literatura de empenhamento social e político, de compromisso com o tempo e de denúncia de injustiças e da opressão

- A Natureza é a base da sua poesia:

- componente aquática – beleza estética e poética; variedade cromática e formal

- vento, luar, noite, árvores, passáros – mistério – reencontro individual com a solidão

- Abre os sentidos às sensações que emanam da Natureza

- Evocações de imagens da sua infância e juventude

- Tempo : tempo dividido – presente/futuro – comportamento negativo do Homem tempo absoluto – reflecte a Natureza, o mar e o infinito – transcendente (valores positivos)

Temáticas

topo

A PROCURA DA JUSTIÇA

a)        A poesia de Sophia fala da vida real, concreta das coisas. Celebra a ordem do mundo, a harmonia e o equilíbrio, e não se cansa de denunciar as injustiças e o sofrimento do mundo.

b)         Ao procurar a inteireza, a justiça e a liberdade, “o dia inteiro e limpo”, o sujeito poético tenta a aliança com esse espaço primordial que é a Natureza e que a arte grega celebrizou. Ao destacar a aliança com a Natureza e o real, busca a relação justa com as coisas e com o Homem.

c)          Uma ideologia humanista e uma consciência política percorrem toda a obra poética de Sophia. As preocupações sociais surgem, constantemente, revelando a sensibilidade e a revolta perante o sofrimento do mundo. Daí o seu canto ser de luta, de denúncia contra o que designa de “tempo dividido”: de solidão e incerteza, de medo e traição, de injustiça e mentira, de corrupção e escravidão…

d)        Sophia considera o “tempo dividido” o tempo do comportamento humano – tempo marcado pelo ódio e pela ameaça constante, pela mentira, pela impureza, pela injustiça e pelo Mal – que se opõe ao tempo absoluto, transcendente – de harmonia eterna, da realização suprema do Homem, da verdade, da pureza, da justiça e do Bem.

e)        Alegra-se perante o esplendor do mundo mas revolta-se “com paixão” face ao sofrimento do mundo.

f)         A poesia de Sophia apresenta assim um papel formativo ao promover a consciencialização, surgindo como meio de denúncia e voz de anseios. O poeta, segundo Sophia, tem de procurar a “unidade fundamental da liberdade e da justiça”.

g)        Busca na lição grega não apenas um legado cultural, mas sobretudo os seus ideais, a sua estética e a razão que lhes permitiu caminhar para a harmonia.

h)        Poemas: “Data” (que remete para o tempo de opressão do regime ditatorial dos anos 60) e “As pessoas sensíveis” (denuncia da hipocrisia dos que exploram os outros e se apresentam, religiosamente, cheios de devoção.

topo

Síntese

- Ideologia humanista e consciência política

- preocupações sociais à sensibilidade e revolta perante o sofrimento do mundo

- luta e denúncia           - solidão e incerteza

 (tempo dividido)         - medo e traição

                                   - injustiça e mentira

                                   - corrupção e escravidão

- busca da justiça e da verdade contra as forças do mal que se instalaram no seio da sociedade e do home

Poesia de grande fidelidade à realidade do mundo.

Procura a modelação do caos para criar o cosmos.

Palavra como transfiguração do real à denuncia injustiças e opressão.

Relação privilegiada com o mar e a cultura grega.

Canta a Natureza e os seus elementos para mostrar ao Homem a necessidade de reencontrar o equilíbrio e harmonia.

Procura a beleza e a justiça.

Mostra a necessidade de vencer a treva e trazer a claridade.

Sem pontuação, poema livre (irregular), anáforas, metáforas, simbolismo, antíteses, sinestesias, hipálage e ironia.

Símbolos:

Templos Clássicos – equilíbrio e perfeição

Luz – harmonia

Água – pureza, símbolo da vida e a sua dinâmica

Água da fonte – princípio de todas as coisas; alegoria da existência

Nudez do corpo – beleza artística

topo

Testes

As Fontes

Um dia quebrarei todas as pontes

Que ligam o meu ser, vivo e total,

À agitação do mundo do irreal,

E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora

A plenitude, o límpido esplendor

Que me foi prometido em cada hora,

E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,

Irei beber a voz dessa promessa

Que às vezes como um voo me atravessa,

E nela cumprirei todo o meu ser.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I, 1944

1- As palavras em Sophia possuem magia, sedução e afectividade. Revelam desejos e, sobretudo, a demanda da verdade e da plenitude.

1.1.    Distinga o que constitui motivo da renúncia e o objecto ou "coisa" da procura.

1.2.    Assinale os elementos semânticos que explicitam o valor da busca do sujeito lírico.

1.3.    Explicite a importância dos tempos verbais utilizados no poema.

2- Há uma carga afectiva e simbólica nas palavras e nos versos.

2.1.    Explique o significado e a possível simbologia das expressões "beber a luz e o amanhecer" (v. 9), "beber a voz dessa promessa" (v. 10), na sequência da afirmação "face incompleta do amor" (v. 8).

2.2.    Identifique, realçando a sua expressividade, os recursos estético-estilísticos que actuam na construção dos versos 9 e 10 e afectam o seu significado.

3- Explique a possível ligação estrutural e a gradação significativa que podem existir na construção do último verso de cada estrofe.

4-    Identifique a mensagem do poema, realçando a magia da palavra "fontes", que do título percorre o poema.

II

Na poesia de Sophia, a alegoria do caos permite caracterizar um tempo de ameaça, sem liberdade nem alegria de viver.

Num texto bem desenvolvido, de cerca de duzentas palavras, de acordo com a sua experiência de leitor, dê a sua opinião sobre a dialéctica caos-cosmos na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen.

1.1. O motivo da renúncia é a «agitação do mundo do irreal»; a «coisa» da procura é a plenitude que mora nas fontes, ou seja, o regresso às origens...

1.2.       «Plenitude», «límpido esplendor», «amor», «luz», «amanhecer», «voz dessa promessa», «ser».

1.3. O futuro («quebrarei», «subirei», «irei», «cumprirei») remete para um facto posterior ao acto da fala e que se apresenta como certo ou real; o presente («ligam», «atra­vessa») exprime a situação actual; o pretérito perfeito («foi prometido») traduz uma acção passada. A predominância do futuro sugere um propósito que irá cumprir para encontrar a pureza original nas fontes; o regresso às ori­gens e à verdade primeira é um pressuposto da vida de quem se liberta do mundo caótico (de agitação e irreal).

2.1. «irei beber a luz e o amanhecer» significa encontrar o conhecimento (dado pela luz) e a verdade primeira (do amanhecer); «beber a voz dessa promessa» indica a recepção do verdadeiro amor, até porque só tinha ainda a «face incompleta».

Estas expressões mostram que nas fontes encontrará o verdadeiro conhecimento, a verdade e o amor. A luz simboliza conhecimento; o amanhecer traduz a origem do dia e da vida eterna; e a voz da promessa implica o alcance da plenitude, da terra prometida, do amor. (Há uma certa influência platónica, pois considera o mundo inteligível onde ascendem as almas para gozar da pre­sença inefável do Bem.)

2.2. Na construção dos versos - anáfora (permite reforçar a ideia e completá-la); A nível do significado - metáforas da luz, do amanhecer e da voz (contribuem para exprimir a ideia de plenitude).

3.Os versos finais de cada estrofe mostram o completar de um ciclo. O verso 4 sugere o caminho de ascensão às ori­gens (mundo inteligível platónico); o verso 8 mostra que na vida só encontrou «a face incompleta do amor», ou seja, as sombras do verdadeiro amor que agora busca; no verso 12 completa o percurso para que o ser adquira a sua plenitude; fecha o círculo da busca, realizando o ser que encontra o amor ou a verdade.

4. O sujeito lírico busca a verdade e a realização. As «fontes» simbolizam a origem onde o Bem, o Amor, o Conheci­mento, a Verdade, a Plenitude se encontram.

5. Um dia quebrarei todas as pontes para na plenitude cumprir (para que na plenitude cumpra) todo o meu ser.

II

·        A realidade como um caos - expressão de um mundo pro­fundamente perturbado e pessimista; expressão de um mundo dilacerado, decaído em busca de uma nova reali­dade;

·        Caos como fonte de energia ou força revitalizadora do cosmos;

·        (Caos - sinal de confusão, de desordem, de desequilíbrio, de violência; cosmos - manifestação da harmonia, de ordem, de equilíbrio, de sossego);

·        Dialéctica caos/cosmos como expressão da beleza do mundo e da sua tragicidade;

·        Necessidade de substituição dos velhos valores, de um tempo de incerteza e de medo, pelos princípios da pureza, da justiça e da liberdade;

·        A condição do ser humano, que depois de ter conseguido o equilíbrio justo se precipita para a ruína, a que nem os deuses escapam; o sofrimento do homem e fugacidade da vida;

·        Jogo dialéctico entre a perfeição e o declínio na busca de

uma outra plenitude;

·        As imagens da criação: os deuses, a beleza, a perfeição e a arte; a mitologia e as alegorias dos espaços da antigui­dade com a sua bela arquitectura, pintura, escultura e música;

As ruínas como uma ressonância do caos; as trevas, a noite, a sombra e as sugestões do conflito;

Sophia, como voz sibilina, evoca memórias de um tempo e, embora sem explicar, conduz-nos mais além para com­preendermos a fragilidade humana.

Arrumação dos versos, por vezes, a partir de um texto caótico, dando-lhe a ordenação que convém à harmonia que continuamente persegue.

                

 

 Cesário Verde

Quis dizer o mais claro e o mais corrente

Em fala chã e em lúcida esquadria

Ser e dizer na justa luz do dia

Falar claro falar limpo falar rente

Porém nas roucas ruas da cidade

A nítida pupila se alucina

Cães se miram no vidro de retina

E ele vai naufragando como um barco

Amou vinhas e searas e campinas

Horizontes honestos e lavados

Mas bebeu a cidade a longos tragos

Deambulou por praças por esquinas

Fugiu da peste e da melancolia

Livre se quis e não servo dos fados

Diurno se quis - porém a luzidia

Noite assombrou os olhos dilatados

Reflectindo o tremor da luz nas margens

Entre ruelas vê-se ao fundo o rio

Ele o viu com seus olhos de navio

Atentos à surpresa das imagens

Sophia de Mello Breyner, Ilhas

O  poema que acabou de ler intitula-se "Cesário Verde".

1.  Diga, de acordo com o que é enunciado na 1ª estrofe, o que Cesário "Quis dizer" e como o tentou dizer.

2. Nas estrofes 2, 3 e 4 há oposições.

2.1. Transcreva os elementos gramaticais que as estabelecem.

2.2. Explicite, com base nos seus conhecimentos da vida e da obra de Cesário Verde, as realidades opostas.

3. .Na 2ªestrofe está presente a conjugação perifrástica logo seguida de uma comparação.

3.1.Comente o emprego da perifrástica.

3.2.A comparação estabelecida entre o poeta e "um barco" é retomada no penúltimo verso do texto: ele tem "olhos de navio". Justifique-a.

4.Transcreva e interprete elementos textuais que mostrem que Sophia, tal como Caeiro, considera que Cesário "era um camponês / Que andava preso em liberdade pela cidade".

5.Não ultrapassando as oito linhas, diga se Cesário Verde pode ser lido como o poeta do quotidiano citadino. Fundamente as suas opiniões.

 

 

1.Quis dizer:

· "o mais claro";

· "mais corrente"; (o quotidiano).

Como o tentou dizer:

·"em fala chã";

·"em lúcida esquadria";

·"Falar claro falar limpo falar rente";

(a linguagem "objectiva" do quotidiano).

Em síntese: "Ser e dizer na justa luz do dia" (verso 3).

2.1."Porém" (versos 5 e 1 5); "Mas" (verso 11).

2.2.Considerar os sentidos implícitos nos paradigmas CIDADE e CAMPO (Cf., p. ex., Todorov, Simbolismo e Interpretação).

3.1."vai naufragando" - valor aspectual "durativo", de cuja duração não se sabe o principio nem o fim.

3.2.Considerar:

·os indícios paradigmáticos constantes do signo "barco" (viagem, fuga, busca,...).

4.Interpretar, p. ex., os seguintes elementos textuais:

· "nas roucas ruas da cidade/A nítida pupila se alucina";

· "Mas bebeu a cidade a longos tragos/Deambulou por praças e por esquinas";

· "Fugiu da peste e da melancolia";

· "Ele o [o rio] viu com seus olhos de navio".

(Notar a angústia, a náusea, o desejo de evasão,...)

5.Entre outros aspectos, considerar:

· a (re)criação de tipos citadinos (Cf., p. ex., os poemas: "Contrariedades", "Num Bairro Moderno");

· a evocação de espaços físicos - o "aqui e agora" (cf., p. ex., o poema "Cristalizações").

topo