Incineração na Arrábida
Política de dinheiro e poluição

Praias, reserva natural e animais protegidos, de tudo isto se pode encontrar um pouco num único local: A Serra da Arrábida. Mas esta Serra está a ficar "cancerosa" com a localização da Secil no seu coração. E como se não bastasse existe agora a possibilidade desta fábrica vir a ser utilizada para a queima de resíduos tóxicos.

A cimenteira da SECIL, no Outão, que tem vindo a causar polémica há mais de uma década, voltou agora a ser falada como uma das hipóteses para a queima de resíduos tóxicos industriais.

"Estando esta cimenteira localizada em pleno Parque Natural da Arrábida (PNA), sendo por definição uma zona protegida, não compreendo como se está a pensar implementar uma coisa dessas", comenta Amândio Pereira, membro do Grupo de Intervenção e Sensibilização Ambiental (GISA), acrescentando que "a co-incineradora só interessa àqueles que ganham dinheiro com isso, como é o caso do Governo e principalmente a SCORECO" formada por duas empresas: a SCORI e a ECORESÍDUOS, por sua vez formada pela SECIL e CIMPOR.

Mas, o facto da futura co-incineradora estar localizada numa área protegida ambientalmente não parece, segundo o ambientalista, ser um factor importante e a própria população da região de Setúbal pouco parece importar-se, ou pelo menos tem-se mostrado indiferente.

"Ao contrário do que aconteceu nas outras regiões, a Câmara Municipal de Setúbal (CMS) só se manifestou quase no fim de todo este processo, penso que já a reboque do protesto de todas as outras", diz Amândio Pereira.

"Tudo isto leva-nos a concluir que existe um grande desconhecimento por parte da população para os perigos que uma incineradora acarreta e uma grande desinformação por parte do próprio Governo", acrescenta.

"Se fossemos recorrer à experiência que Portugal tem em relação à incineração ficávamos sem saber nada, mas se recorrermos à experiência de outros países em relação à incineração, como é o caso dos EUA e da França, detectaríamos grandes problemas", defende.

De acordo com a Agência Ambiental dos EUA, a segunda maior fonte de dioxinas provém da incineração nas cimenteiras, tendo sido estas reduzidas de 38 para as actuais 15 que queimam resíduos industriais perigosos.

Um estudo feito no ano passado em Galveston (Texas) concluiu que houve um aumento de 30 por cento de problemas respiratórios. Na França foi proibida a venda de produtos lácteos provenientes de zonas contaminadas por dioxinas emitidas pela incineração.

Incineração, o que é?

A incineração consiste na combustão de determinado produto em fornos que atingem altas temperaturas, com o objectivo de reduzir o produto a cinzas. Já a natureza diz: nada é destruído, tudo se transforma. E é dessa transformação que resultam as cinzas – que serão utilizadas como combustível nas cimenteiras – e fumo, saindo este com partículas bastante perigosas para o meio ambiente, como as dioxinas, os metais pesados e furanos. "As dioxinas são bastante perigosas para a saúde pública, basta uma pequena quantidade para poder ocasionar a morte a um ser humano", explica Amândio Pereira que prossegue: "É claro que estes problemas só se notarão daqui a um grande espaço de tempo, e aí já será tarde demais", considera.

Embora as fábricas já estejam equipadas com electrofiltros à saída dos fornos para evitar a emissão de grandes quantidades de partículas para a atmosfera, basta uma pequena falha eléctrica para que o fumo saia de uma só vez.

O PNA está inserido na Região de Turismo da Costa Azul (RTCA) e contribui bastante para o turismo registado na nossa região. A cimenteira está localizada entre os vários locais de maior fluxo de turistas, como é o caso das Praias da Figueirinha, Galápos, Portinho da Arrábida, Albarquel e do Parque de Merendas da Comenda o que irá decerto abalar o turismo da região. "Um turista estrangeiro quase de certeza que não vai escolher um destino de férias onde esteja localizada uma co-incineradora mesmo ao lado", afirma Amândio Pereira.

Uma solução barata

"A co-incineração é a solução mais barata, mas Portugal é um país tão pouco industrializado, relativamente aos outros países da União Europeia, que se pode dar ao luxo de adoptar outro meio de combater os Resíduos Industriais Perigosos, como por exemplo a política dos três R's (reduzir; reciclar; reutilizar)" – considera Amândio Pereira.

"Os resíduos industriais perigosos podem deixar de ser considerados lixo. Os óleos em vez de serem levados para uma estação de incineração podem ser levados para outro tipo de estação onde são refinados e voltam a ser reutilizados. Outro caso são os pneus dos quais se pode aproveitar a borracha, óleo e até mesmo ferro quando são pneus recauchutados", explica Amândio Pereira.


Reportagem: Eduardo Tomás, Sara Gomes e Susana


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