Slides sobre a vida e obra

Biografia de S.G. pela D. Joana (viúva do poeta)

Reportagem

Madrigal

A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:

"Era uma vez uma flor.
Nasceu à beira de um Poeta..."

Vês como é simples e linda?

(O resto conto depois;
mas tão a sós, tão de manso
que só escutemos os dois).

Este ano a Semana de Língua e Cultura Portuguesa ocorrerá entre 3 e 7 de Fevereiro e girará à volta do nosso patrono SEBASTIÃO DA GAMA

 

PROGRAMA DA SEMANA

Data: 3 a 7 de Fevereiro de 2003

 Tema: Sebastião da Gama - 50.º aniversário da sua morte

 Programa: 

  1. Actividades a nível de Escola:
    1. Dia 3 às 16.30 horas, na Sala de Sebastião da Gama :

Conferência (seguida de debate) sobre Sebastião da Gama, pelo Professor Doutor Fernando Martinho, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (colaboração das professoras estagiárias);

    1. Exposição, no átrio da Escola, sobre Sebastião da Gama (colaboração da Biblioteca Municipal, através da nossa Biblioteca);
    2. Exposição de trabalhos dos nossos alunos no átrio da Escola, na sala 10 e na Internet, no sítio do departamento de Português http://www.essg-portugues.pt.vu (dinamização dos professores de Português e dos seus alunos);

 

  1. Actividades com os alunos do Ensino Básico:
    1. Unidade didáctica sobre o poeta;
    2. Elaboração de textos poéticos ou outros que serão objecto de divulgação/exposição;
    3. Visita de estudo (com algumas turmas) ao museu Sebastião da Gama em Azeitão;
    4. Presença (provável) de alguns alunos na evocação a Sebastião da Gama no Portinho da Arrábida.

 

  1. Actividades com os alunos do Ensino Secundário:
    1. Aproximação ao poeta através do texto “Lugar de Bocage na nossa poesia de amor” in O Segedo é Amar, Edições Ática, 1986, pág.s 89-113;
    2. Produção de textos.

 

  1. Actividade com os alunos do Ensino Recorrente Nocturno:
    1. Visita à exposição sobre Seabastião da Gama, dando a conhecer o poeta nosso patrono;
    2. Dia 7/02/03, às 21.30:

Ida ao teatro ver a  peça de Almeida Garrett “Falar Verdade a Mentir”, pelo TAS, no Fórum Luísa Todi.



DISSERTAÇÃO SOBRE SEBASTIÃO DA GAMA
 
 

pela D. Joana Gama, viúva do Poeta

Na

 

SEMANA DE LÍNGUA E CULTURA PORTUGUESA

No

 

ANO (1988) EM QUE A ESCOLA ESCOLHEU
 
 O POETA PARA SEU PATRONO
 
 

Escola Secundária de Sebastião da Gama, 14 de Maio de 1988

 Recolha feita pelo Professor J. Mata Fernandes, do 8º Grupo A

 

 

Queridos Jovens!

Vim para falar convosco, podem interromper quando quiserem, o tempo é vosso.
Para mim, falar de Sebastião de Sebastião da Gama, é-me sempre difícil. E é difícil porque eu prefiro pensar nele, no Sebastião.
Hoje o caso é diferente: foi-me pedido que falasse do Sebastião aos alunos desta Escola que agora se chama: Escola Secundária de Sebastião da Gama. Aceitei. E o que me levou a aceitar foi lembrar-me das entrevistas que tenho dado ao longo destes anos, a jovens das Escolas. Todos se queixam que não há nada escrito sobre Sebastião da Gama. "Procurámos nas Bibliotecas e não há uma Biografia dele." "Não sabemos nada." Alguns ainda acrescentam: "fale-nos, a senhora, dele".
Nesta altura eu pergunto: conheces a obra dele? A resposta é sempre negativa. (Não quero deixar de fazer justiça a uma jovem que me apareceu desta vez, que conhecia a obra e sabia versos de cor e, neste caso, a entrevista foi diferente).
Ora, perante isto, eu decidi pôr o Sebastião a falar convosco e a mostrar-vos a sua auto-biografia.

No livro, Serra Mãe, que foi o primeiro que ele editou, encontramos um capítulo a que ele deu o nome de "Poemas de Amor". Esse capítulo abre com um poema que ele dedicou à sua mãe e a que chamou:
 

    PEQUENO POEMA

     Quando nasci,
     ficou tudo como estava.

     Nem homens cortaram veias,
     nem o Sol escureceu,
     nem houve Estrelas a mais...
     Somente,
     esquecida das dores,
     a minha Mãe sorriu e agradeceu.

     Quando eu nasci,
     não houve nada de novo
     senão eu.

     As nuvens não se espantaram,
     não enlouqueceu ninguém...

     Pra que o dia fosse enorme,
     bastava
     toda a ternura que olhava
     nos olhos de minha Mãe...

 

Não é lindo? Quem melhor do que ele e de uma maneira tão linda poderia falar do seu nascimento?
Depois... o menino foi crescendo e também ele disse de si, num Poema do "Itinerário Paralelo" e que se intitula
  

    O MENINO GRANDE
     

     Também eu, também eu,
     joguei às escondidas, fiz baloiços,
     tive bolas, berlindes, papagaios,
     automóveis de corda, cavalinhos...

     Depois cresci,
     tornei-me do tamanho que hoje tenho,
     os brinquedos perdi-os, os meus bibes
     deixaram de servir-me.
     Mas nem tudo se foi:
     ficou-me,
     dos tempos de menino,
     esta alegria ingénua
     perante as coisas novas
     e esta vontade de brincar.

     Vida!
     não me venhas roubar o meu tesouro:
     não te importes que eu ria,
     que eu salte como dantes.
     E se eu riscar os muros
     ou quebrar algum vidro
     ralha, ralha comigo, mas de manso...

     (Eu tinha um bibe azul...
     Tinha berlindes,
     tinha bolas, cavalos, papagaios...
     A minha Mãe ralhava assim como quem beija...
     E quantas vezes eu, só pra ouvi-la
     ralhar, parti os vidros da janela
     e desenhei bonecos na parede...)

     Vida!, ralha também,
     ralha, se eu te fizer maldades, mas de manso,
     como se fosse ainda a minha Mãe...

 

Com 22 anos escreveu ele um poema, "Carta de Guia", também do "Itinerário Paralelo" que mais parece o Prefácio da sua Auto-biografia. Vou lê-lo se não se importam.
 
 

    CARTA DE GUIA

     Mesmo com este calor eu quero ir.
     Aos tropeções, aos bordos, de qualquer maneira,
     porque há pessoas que estão à minha espera
     e que nasceram pra eu me importar com elas.
     Há vinte e dois anos que estou a falar de mim
     e hei-de falar de mim a vida inteira:
     tanta coisa que eu tenho para dizer,
     e passar ao papel!
     A anatomia da minha alma, principalmente,
     que há-de ficar escrita,
     pra que vejam como é esquisito um homem por dentro.

     Mas agora, neste momento,
     e noutros iguaizinhos a este,
     ponho de parte o binóculo com que me espreito
     e graças ao qual tudo o que em mim é pequeno me parece grande
     e vou prà frente, apesar do calor,
     apesar de ir como um bêbado.
     Há mãos estendidas, lábios secos.
     Casas aonde o Sol tem pudor de entrar, de tão infectas.
     Aonde Deus taparia o nariz, se chegasse à porta.
     Quando as palavras são como pensos de linho,
     não há nada melhor para a alma, feita de carne em chaga de um homem.
     Por isso é que vou indiferente a este calor de Junho.
     O binóculo fica à espera.
     Eu fico à espera.
     Largo barcos e redes,
     não aconteça que os outros todos que estão à minha espera
     tenham morrido já, quando eu chegar,
     ou já não tenham ouvidos para as minhas palavras,
     nem lábios que percebam
     a frescura de água que eu levar...

 

Mas antes dos 22 anos o Sebastião escreveu outros Poemas que dizem muito dele. É preciso é lê-los com alma e tentar compreendê-los. Por exemplo, no livro "Serra Mãe" nós encontramos muitos Poemas que dizem muito da sua luta interior sobre a existência de Deus.
Ouçamos o poema com que abre o livro, escrito aos vinte anos. A este poema ele não deu título, abriu o livro com ele e é tudo.
 

     A corda tensa que eu sou.
     o Senhor Deus é quem
     a faz vibrar...

     Ai linda longa melodia imensa!...
     ... Por mim os dedos passa Deus e então
     já sou apenas Som e não
     se sabe mais da corda tensa...

 

Mas antes deste ele tinha escrito um, que também faz parte da "Serra-Mãe" e tem como título "Harpa", aquela Harpa de Deus que sentia nele, mas que também sentia fugir e esta luta causava-lhe sofrimento e no sofrimento escrevia os poemas. Mas vamos ler a "Harpa 5" para entendermos melhor a luta íntima do homem aonde a fé crescia como cresciam os matos da Serra aonde tudo isto se passava.
 

    HARPA

     Olha, Senhor!,
     o indigno cantor que Tu fadaste
     e se não pode erguer
     à sua própria altura!...

     - Virgem das minhas mãos, a Harpa acende
     novos brilhos no Sol, traduz em cor
     a saudade dos sons que não desprende...
     Tu a fizeste, Deus!, para os meus dedos;
     a glória do Teu gesto criador
     Tu a quiseste partilhar
     na glória quase igual de o entender.

     E foi com Teu amor que retesaste as cordas,
     com Teu amor as afinaste
     e me chamaste
     à tarefa sublime de tangê-las.

     E eu sinto o Frémito, Senhor!
     Sinto o sopro que Tu me inoculaste
     ao dar-me a Tua bênção.
     Dentro de mim é Som: o eco longo
     de uma nota sem fim e sem começo.

     Mas só cá dentro o Frémito ressoa...
     Que não consegue minha mão,
     que o lodo fez e o lodo maculou,
     passar à Harpa a Grande Vibração.

     - Vem lavar-me, Senhor!, no azul do Mar.
     Filtra a minha impureza na limpidez do Teu olhar,
     a luz clara que entornas pelos montes da minha Serra verde.

     Deixa outro cantar meu próprio Canto,
     e seja eu somente, assim purificado
     e liberto do corpo, enfim, mais uma corda
     na Harpa que me tinhas destinado.

     Ai o cantor indigno que fadaste!...
     Ai que a Grande Vibração,
     se o não redimes,
     estéril morrerá...

     - Que eu seja apenas Som que um outro cante
     e, na renúncia de mim,
     igual a mim um dia me alevante!...
     

O tempo foi passando, nem sequer foram anos, e aos 20 anos o Sebastião dizia, no seu poema "Claridade", também da Serra Mãe o que era a sua vida. 
 

    CLARIDADE

      De minha vida não sei
      senão que sou feliz.
      Lá o que fui ou fiz
      antes de ser o que sou,
      ai!, tudo me passou:
      só sei que sou feliz.

      E que me importa a cor
      das águas que passaram?
      Estas águas me bastam
      que vão correndo agora.
      Fosse o que fosse, a minha
      passada vida incerta
      (feliz ou desgraçada),
      foi uma porta aberta
      pra esta vida clara.
      Por isso eu a bendigo,
      a minha vida ida.

      Talvez as rosas nela
      tivessem bem mais cor,
      o Sol mais Luz e Amor,
      e música mais bela
      a viração, então;
      mais verde fosse o Mar...
     
       - Mas que vale o que foi,
       se, quanto vejo ou provo,
       tem tudo um gosto novo?...
       Se nada cansa ou dói?...
       Se as rosas, para mim,
       nasceram mesmo agora,
       e as aves e o Mar?...
       Se o Sol aconteceu
       ao mesmo tempo que eu
       olhei à minha roda
       e vi o meu presente
       a ser-me a vida toda?...
     

Ora eu tenho consciência de que os jovens não suportam um recital de Poesia muito prolongado e já li 6 poemas; muitos mais eu poderia ler aonde o Sebastião se retrata tal como era, não só da Serra Mãe como nos outros livros que são sete ao todo. Cinco de poesia, dois de prosa.
Vou ler-vos alguns trechos do "Diário" aonde vocês poderão ver como era o Sebastião como homem e como professor:
 

Janeiro 12

«O que eu quero principalmente é que vivam felizes».
Não lhes disse talvez estas palavras, mas foi isto o que eu quis dizer. No sumário, pus assim: «Conversa amena com os rapazes». E pedi, mais que tudo, uma coisa que eu costumo pedir aos meus alunos: lealdade. Lealdade para comigo, e lealdade de cada um para cada outro. Lealdade que não se limita a não enganar o professor ou o companheiro: lealdade activa, que nos leva, por exemplo, a contar abertamente os nossos pontos fracos ou a rir só quando temos vontade (e então rir mesmo, porque não é lealdade deixar então de rir) ou a não ajudar falsamente o companheiro.
«Não sou, junto de vós, mais do que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não : falar delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no comboio e no jardim e onde quer que nos encontremos».
Não acabei sem lhes fazer notar que «a aula é nossa». Que a todos cabe o direito de falar, desde que fale um de cada vez e não corte a palavra ao que está com ela.

Janeiro, 17

Verdade seja dita: não tenho muitas queixas a fazer do destino. E aqui no estágio, além do mais, encontrei uma varanda linda. Linda porque Lisboa é linda e vê-se metade dela da varanda da sala 19. Uma vez subi a um quarto andar onde mora um tipógrafo; ia com gana de lhe comer os fígados, porque me andava a enganar desde que o livro entrara na oficina. Pois recebeu-me, lá no alto, um Sol magnífico a cair sobre Lisboa: isto tudo visto por uma pequena janela. Adeus, fúrias, adeus, palavras como punhais! Basta uma janela para me fazer feliz e foi o que me aconteceu também, quando cheguei à sala 19. Era o Castelo, era o Tejo, era a cidade de mármore e granito (como dizem) a espreitar para dentro da aula. Vai, que fiz eu? Como queria tomar o pulso aos rapazes em matéria de escrita, propus-lhes aquele tema. "Da varanda da nossa aula" podia ser muito bem ser o título da redacção; mas também podia ser outro à vontade do freguês. O que eles escrevessem servia para eu ver como escreviam, como viam e como imaginavam. À maneira de preparação, disse-lhes: "Suponham que está aqui uma chávena da China. Vocês têm de escrever a partir dela e podem fazê-lo contando que ela tem este ou aquele feitio, esta ou aquela cor, um desenho que representa isto ou aquilo e tem a asa do lado esquerdo. Mas também não dizer nenhuma destas coisas e imaginar, com os olhos nela, uma coisa passada na China: chinesinhos de rabicho, arroz comido com pauzinhos, sei lá o quê! Ou fantasiar um chá das cinco em que serviu aquela chávena; quem estava nesse chá, o que disse, o que se passou durante essa hora. Posto o que, vão à janela um bocadinho, olhem, voltem, sentem-se e escrevam o que quiserem, com o título ou subtítulo "Da varanda da nossa aula".
Os rapazes, feito o honesto barulho de correrem à varanda, atiraram-se à obra. Eu fui pacatamente olhar Lisboa, porque quero começar a fazer-lhes sentir que eles não devem copiar.

Fevereiro, 16

A aula passada ao papel fica sempre mesquinha. A aula de Português acontece, como atrás ficou dito em letras grandes; mas acontece lá,  acontece na sala 19 e não aqui, neste papel aos rectângulozinhos. Depois, eu não sei inventar nem doirar; e há uns tempos para cá nem sei reproduzir - ando doente da mão. Por tudo isto é que são uma caricatura das aulas as linhas que ficam neste caderno. Não que as aulas sejam excelentes; - apesar da confiança em mim, e até do arzinho de vaidade que às vezes pareço ter e não sei reprimir, sinto que me faltam muitas qualidades; sabe-me a pouco, cá dentro, tudo o que faço, e bem vistas as coisas não tenho vaidade nenhuma. Tenho para mim que o vaidoso só o é verdadeiramente se está convencido de que é um ás naquilo de que é vaidoso; ora eu não estou convencido; aparento por vezes que o estou, levado por um demónio que eu não sou capaz de afogar. Eu só estou convencido de que tenho em mim algumas qualidades, graças às quais não é desonestamente que sou professor; e estou convencido também de que há mil outros que não têm estas qualidades, ao mesmo tempo que há outros ainda que têm, além das minhas, aquelas que me fazem falta. O que me absolve é que tenho o bom propósito de ir melhorando e de chegar um dia (se o espírito se não acovardar com o tempo...) em que serei quase um bom professor; é justamente nesse dia que morrerei: quando for quase um bom professor.

Março, 9

O poeta beija tudo, graças a Deus... E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade... E diz assim: "É preciso saber olhar..." E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos... E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás... E perde tempo (ganha tempo...) a namorar uma ovelha... E comove-se com cousas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de Sol depois de um dia chuvoso... E acha que tudo é importante... E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim... E reparou que os homens estavam tristes... E escreveu uns versos que começam desta maneira: "O segredo é amar..."
 

Também no Diário ele fala um bocadinho no Sebastião rapazinho de doze, treze anos e talvez possam aproveitar alguma coisa do que ele conta com toda a simplicidade:

"Eu tinha doze, treze anos e era um diabo. Nessa altura, ainda na minha aldeia me chamavam o "Chinês", porque eu era um chinês escrito e pintado. Já tinha escrito os primeiros versos - uma História de Portugal - porque isso foi aos dez anos. Os alunos do 5º ano eram já homens e metiam-se comigo, porque eu era espevitado e refilão: em paga, dava-lhes um pontapé nas canelas. Passaram então o primeiro "Texas-Jack" - e com que entusiasmo eu li as suas aventuras de salvador de aflitos, com que ternura amei o "Tornado", seu cavalo, e chorei a morte heróica de "Tumper"! Onde havia uma injustiça a punir, um necessitado a socorrer, lá aparecia "Texas-Jack" e posso gabar-me de escrever sem erros. Um dia o professor de Moral "roubou-me" três que eu estava a ler. Foi provavelmente nessa aula que eu, convencidíssimo primeiro e espantado depois com o riso dos meus camaradas, respondi ao Padre Mário: "O sexto mandamento? Amar a mulher do próximo". O "furto" revoltou-me e continuei a ler. Fiz-me comerciante: cada folheto custava oito tostões, eu lia-o e vendia-o por cinco; e era assim que a colecção me ia toda passando debaixo dos olhos. Assim, e com a segunda modalidade: a certa altura vendi à comissão: o Zeca Barreto tinha muitos e não tinha "jeito para o negócio"; fizemos então o contrato de os vender eu a cinco tostões e de ficar dois e meio para cada um. E por tudo isto recusei o cigarro. Apetecia-me, lá isso é verdade: mas um masso "Paris" representava três "Texas-Jack"; heroicamete desdenhava os oferecimentos ou aceitava cigarros que me davam para os dar aos companheiros.
Quando vejo, pendurados à porta de certas papelarias, os "Texas-Jack" da minha infância, sinto uma ternura imensa. Uma ternura que é por eles e por mim. Uma ternura que eu ofenderia se dissesse na aula: "Proibido o Texas-Jack". E que a lei me perdoe..."

O Sebastião foi professor em Setúbal antes de escrever o Diário que foi escrito quando fez o estágio na Escola Veiga Beirão em Lisboa, nos anos 48/49 e 49/50, mas os alunos para ele não ficaram esquecidos, acompanhavam-no no seu coração de escola para escola. Está no diário uma prova do que estou a dizer e que vou ler:

"Lembro agora a primeira vez que, em Setúbal, a meio do ano, me julguei forçado a pôr fora da aula um aluno: fiquei tão doente que parti o giz que tinha nas mãos e já não fui capaz de continuar a aula. Esse desgosto era sobretudo um desgosto de coração. O de hoje é diferente: o Fosco saiu, porque fez barulho - e fez barulho, porque a aula lhe não interessou - e não lhe interessou "talvez", porque ela não tinha interesse nenhum - e quem devia ir para a rua era eu.
"Faz-me tanto mal e tanto bem dar uma aula má".
Ontem estive em Setúbal. O Manuel, meu aluno o ano passado, a quem eu não desamparei desde que soube que descera de nível do último período de 47-48 para o primeiro de 48-49, e me escreveu quatro vezes para a Veiga Beirão a queixar-se de que estava  "à beira dum abismo" (que era a falta de vontade), vem confirmar coisas que eu disse a propósito de ladrões. Se se tem castigado o Manuel, ou se se tem abandonado o Manuel ao seu castigo, o Manuel era um Homem ao Mar. As más tendências que há dois anos fizeram dele um péssimo aluno e que o ano passado persistiram de tal modo no primeiro período que por duas vezes foi suspenso, teriam vingado abertamente. Amparando-o, aconselhando-o, obtendo do meu Director (o melhor Director do mundo, não desfazendo) que o absolvesse da segunda suspensão, levei-o, e levou-se ele próprio, principalmente, a ser o melhor da turma - 18 em Português, no 3º período. E este ano, pelo mesmo processo, subiu ele de 12 valores e de mau comportamento para bom comportamento com 16 valores. Não há rapazes maus. Há falta de boa vontade, de amor, da nossa parte. Quantos (Deus me perdoe!) não terei eu já abandonado?
Uma das coisas que terão valido ao Manuel foi ele ter sentido junto de si a presença do Lodovico. Logo que ele me escreveu, convidei o Ludovico a escrever-se com ele; e embora a correspondência não tenha sido muito intensa, o facto de trocar impressões e travar amizade com um rapaz que ele sabia bom aluno, há-de tê-lo estimulado."
 

Era assim o Sebastião Professor, levava os alunos no coração mas não era para os guardar avaramente para ele com as suas qualidades ou fraquezas, era para pôr todos a comunicar uns com os outros numa interajuda. Aqui podíamos ler mais um poema,"A Meus Irmãos".
Outra passagem do Diário que diz muito de como era o Sebastião melhor do que eu, porque é com palavras dele, é a descrição simples, como se estivesse a pensar, duma viagem que fez ao Minho. Vou lê-la para vos aguçar a vontade de lerem as obras dele.

"Cá vim do Mondego mais uma vez - do Mondego mais uma vez seco, como se a água lhe tivesse ficado toda nos versos de Camões e de António e na alma dos choupos.
A viagenzita foi jeitosa. Vinham no compartimento duas raparigas que souberam ser gente. Ser gente, cá para mim, é confraternizar, é falar com o vizinho, é não ser um estranho. Triste coisa esta que acontece tanta vez nos comboios: cada um a fechar-se numa solidão antipática, que seria hostil se não fosse acanhada, tímida. Oito horas de viagem, que podiam ser um mundo de acontecimentos, de descobertas, de ternura, a não serem mais que um grande vazio, um pano escuro, uma vida morta. Cá por mim gosto de viajar sozinho, que é para povoar a minha solidão da paisagem que vou vendo e para conhecer mais gente que mereça a pena. Faço o possível por meter-me com os outros, mas não é uma aproximação de tagarela, uma aproximação de "fera": quero é descobrir o coração dos que vão comigo, senti-lo bater. Andamos no mundo quase todos como se fôssemos desconhecidos: quero Amor, quero a mesa aberta, quero  sinceridade e o abraço. Quero estar à mesa do pobre sem ser por atitude calculada, antes porque o coração mo pede; quero estar à mesa do rico à minha vontade. Quando o pobre não percebeu isto, eu saí; saí quando o rico não percebeu isto.
Eis porque a cidade às vezes me faz impressão: na aldeia a gente dá os bons dias a quem passa; a gente sabe quem está doente e empresta um termómetro e empresta o que for preciso, todos falamos com todos... todos nos importamos com todos, as caras são todas conhecidas.
Já na cidade não é assim: depois de dois ou três amigos do coração, há o exército dos amigos de café e das pessoas que a profissão nos obriga a conhecer: o resto do povo  e mesmo todos os que não são os amigos do coração, estão longe de nós, não convivem verdadeiramente connosco. Eu queria que se pedisse uma informação a um polícia ("onde fica tal rua?"), a um sujeito que passa ("é capaz de me dizer as horas?"), ao empregado de uma loja, ao médico, ao preto do Cais do Sodré - como quem fala a um irmão, convivendo, amando, e não como quem procura na lista o número de um telefone.
... Ao arrancar do comboio, voltei-me para a companheira que primeiro entrara e disse: "Peço perdão antecipadamente de todo o barulho que viermos a fazer".
Nunca uma viagem foi tão alegre. As pequenas eram moças como nós e partilhavam comigo da crença de que não deve haver desconhecidos..."
 

Parece-me que já estou a maçar muito mas como nas entrevistas todos têm mostrado interesse em saber como era o Sebastião como professor, como amigo, vou ler-vos o que ele registou no Diário, para não se esquecer, porque o Diário foi escrito sem intenção de publicar, tanto assim que quando acabou o estágio, ele queria oferecê-lo, o manuscrito, ao seu orientador do estágio que naquele tempo se chamava Metodólogo. Eu que tinha acompanhado o nascimento do Diário, que o tinha lido todo à medida que ia sendo escrito, opus-me e propus ao Sebastião copiá-lo todo e ele ofereceu essa cópia ao Metodólogo. Ele concordou: eu fiz um manuscrito de todo o Diário e ele ofereceu o original. Mas eu estava a dizer-vos que ia ler uma passagem do Diário que diz muito de como o Sebastião era.

"Largo do Carmo, duas e meia da tarde. "Que é do Barradas? Porque diabo tem o Barradas faltado?"  - "O Barradas parece que anda desnorteado. Também já faltou a Geografia e a Francês. Coisas de namoro que acabou e o deixaram assim..." - Mas onde está ele? Digam-me, que é isso que é servi-lo. Digam-me tudo". - "Está ali numa taberna a jogar aos bonecos. Está lá sempre. Parece que anda maluco: calcule que vendeu o livro de Geografia por 7$50 para no outro dia comprá-lo de novo por 20$00. Anda maluco."
O caso era mais grave do que se afigurava. Fui até à taberna, de onde vinha a sair o Barradas. Fiz-me encontrado. - "Estava ali a ver o jogo". - "E por que  é que tens faltado?" - "Por causa de não ter o caderno em dia" - "Mentira, Barradas. Eu peço o caderno raramente e não ralho por isso: só lamento. Anda cá". Travei-lhe o braço e fomos conversando até ao elevador de Santa Justa. Fiz-lhe ver o perigo em que andava. A boa hora em que estava ainda em evitá-lo. O natural que é uma pessoa perder a cabeça - e o natural que também é ver isso a tempo e reagir; e a redução a zero de uns dias passados mal passados, desde que o presente, por vontade nossa, seja limpo. E mais: - "Tu, Barradas, alegraste-me a mim, a teus pais, a ti próprio no segundo período; foste um homenzinho; tiveste, 17 valores em Francês e 17 em Português, mas não é isso que vale porque podia ser injusto; podias valer isso mesmo e eu não tê-lo visto e ter-te dado 10; o que vale é a satisfação que tu sentiste por teres cumprido. Se amanhã fizeres um exame de consciência, que resposta te dará ela a esta pergunta: Eu tenho procedido bem? Como devo a mim próprio e aos que acreditam em mim? Ouve, Barradas: Eu não te peço que me faças confissões; só tenho pena que tenhas mentido a um professor que não mente - pelo menos não mente aos alunos. Se quiseres e quando quiseres, quando precisares, abre-te comigo, procura-me, escreve-me, como queiras; não vejas em mim uma pessoa mais velha - aliás, pouco mais velho sou do que tu. E adeus. Tenho confiança em ti e tenho a certeza de que estes dias desnorteados depressa serão esquecidos".
O Barradas tinha as lágrimas nos olhos. Eu falara-lhe com uma voz pequenina, que não ralhou nunca. Disse-lhe que tenho confiança nele e tenho mesmo. O Amor converte os pecadores, quanto mais o Barradas, que é um rapazinho manso e bom!
Primeira lei: acreditar no aluno. Se o campo é bom e se a semente é bem lançada, até uma inicial vontade de enganar a contraria, agindo no espírito do aluno a nossa boa fé. E depois há o ficar ou não ficar tranquila a nossa consciência. Supunhamos, fora da escola, que um homem me diz: "Venho a pé do Algarve à procura de trabalho. Estou morto de cansaço e de fome e gastei os últimos cobres. Tenho vergonha de pedir esmola". Supunhamos que eu digo: "Se se não importa, eu dou-lhe alguns escudos. Não é  esmola, nem é talvez "dar" a palavra que devia empregar, porque isto é um empréstimo: amanhã posso eu precisar e outro me há-de socorrer; me há-de pagar a dívida que o senhor contraiu comigo". Pois bem: "Tu és um trouxa" - poderão dizer. Foste no conto do vigário e o homem ri-se de ti, enquanto come o teu dinheiro". E que me importa? Prefiro arriscar-me a "ser levado" a arriscar-me a deixar um homem morrer de fome. Sou levado, mas fico lavado. O que me enganou é que não. Na escola é o mesmo: antes ser levado do que arriscar-me a ser cruel, a ofender, a estragar. Mais uma vez o aviso de alguns: "Cuidado com o aluno!" e o meu aviso "Cuidado com o aluno!".
O Tadeu chegou-se junto de mim e disse numa voz nervosa, cortada de soluços: - "Fui eu".
Mansamente falei-lhe: - "Com certeza?" - "Não, senhor! Mas eles dizem que fui eu e eu aceito: não quero que a turma inteira seja castigada".
Beijei-o. Falei demoradamente com ele, com a ternura que ele merecia. À saída da aula vi a Gumersinda, uma das raparigas com que falo e que estimo aqui na Escola, e disse-lhe: - "Aperte a mão a este menino, que é um homem". Ela também o beijou (já é uma mulherzinha e ele tem doze anos).
No pátio, disse aos moços (que são os de Francês): - "Não foi o Tadeu".
Para muitos deles o professor foi "levado...".
Embora não pareça, a campainha já tocou: são horas, portanto, de começar a aula."
 

Mais outro testemunho e do Diário não leio mais nada, mas como vim para dar a conhecer o Sebastião seria imperdoável se não lesse estas duas:

"O que era bom era dar sempre aulas como a de hoje! Vir da aula tão feliz que tivesse precisão de gritar ao primeiro desconhecido: - "Sabe? Dei hoje a melhor aula, a aula mais linda da minha vida!" Quis, ao entrar na Sala dos Professores, gritar isto mesmo ao Senhor Director - Mas não fui capaz, talvez por ele estar acompanhado; e foi pena, porque tenho a certeza de que ele compreenderia o meu contentamento, me sorriria com a bondade e delicadeza de alma que lhe são próprias. Assim, vim pelo Alecrim abaixo a contá-lo só a mim: "Que linda aula! Que linda aula! Que linda aula!" E foi no vapor que não pude resistir: - "Sabe? Dei hoje a melhor aula, a mais linda aula da minha vida!" Quase desconhecida, a mimosa menina que me ouviu com simpatia; vira-a apenas uma vez, falara com ela apenas dois minutos; mas ficámos amigos, porque dias como o de hoje são dias grandes.
Mas é difícil referir tim-tim por tim-tim como a aula se passou. Talvez bastasse dizer que o tartamudo e rouco falava com facilidade e tinha a voz clara; que os irrequietos estavam sossegadinhos e suspensos, de grandes olhos abertos para a novidade; pareceu-me que o Ludovico os tinha vermelhos; tenho a certeza de que todos estavam felizes como eu".
 

Parece-me que já vai bastante longe a minha exposição e ainda não disse da missa nem a metade.
Todos os livros têm os seus segredos, muitos poemas têm as suas histórias mas ficaríamos aqui todo o dia e noite.
Podíamos combinar uma coisa se estivessem de acordo. Vocês vão ler a obra do Sebastião, não de empreitada, mas um livro de cada vez. Pode ser lido em grupo. As dúvidas que encontrarem, que serão muitas, desde a morte que aparece em tantos poemas, como a interpretação política que algumas pessoas encontram em certos poemas, vocês vão anotando.
Depois combinamos uma tarde, eu venho aqui à Escola, vocês põem as vossas questões e eu respondo ao que souber. Isto até acabar a Obra.
Agora para terminar, tal como comecei com o que ele disse do seu nascimento, vou terminar com o que ele disse sobre a sua morte.
 

    ELEGIA

     Quero morrer ao Poente,
     pra que a luz que se esbate
     e se funde no verde das ramadas
     seja eu a morrer-me lentamente...

     Quero morrer a essa hora mansa,
     pra que a Noite depois, quando vier
     embalar as estevas e beber
     os branquíssimos sonhos do folhado,
     pra que a Noite seja o meu cadáver
     perfumado...
     pra que as Estrelas
     sejam bicadas de abutres
     no meu cadáver...

     Quero morrer ao Poente,
     quero que a Noite seja o meu cadáver,
     pra que, depois o leve tremular
     do Ar,
     pra que o nocturno aceno
     pleno
     de Ritmo e som do Ar,
     seja o meu coração vibrando ainda,
     a não poder-se conformar
     com a Senhora Morte que o deixou
     amortalhado em Luar...

     Quero morrer à hora do Poente,
     à minha hora tranquila...
     Que não saiba ninguém, quando no Céu
     brilhar a primeira Estrela,
     se a luz crepuscular, em mim, num êxtase, morreu,
     ou se fui eu
     que o espírito nela diluí,
     pra ir morrer nos lábios descorados
     de uma crinça doente...

     Quero morrer ao Poente,
     confusamente ouvindo os dobres de finados
     que há-de o Vento gemer nos magoados
     lírios do campo...

      As minhas esperanças
      são lenços brancos acenando
      de um cais distante, mais distante
      de cada vez que me espreito...

      São lenços dizendo adeus
      ao navio que se demora,
      quase não singra, enleado
      na saudade dos seus...

      Ai que eu as não sei contar,
      as minhas esperanças mortas!...
      - Pois como podem ser elas
      que ao barco fazem sinais,
      se eu afinal não parti,
      se eu é que aceno,
      com lenços brancos, do cais?...
     

    ELEGIA PARA A MINHA CAMPA

     Agora, só,
     que é o meu corpo terra confundida
     na terra desta Serra minha Mãe;
     agora, só,
     a minha voz que sempre cantou mal
     ao Céu se eleva...

     Agora, só,
     que no ventre da Serra minha mãe repousa
     meu corpo de Poeta,
     de Poeta mudo em vida, por ausente
     do ventre maternal os nove meses;
     agora, só, claríssima se eleva
     a minha voz-louvor,
     a minha voz-carícia a minha Mãe,
     ao Céu...

     Agora, só,
     que os meus lábios são terra de onde nascem
     as moitas de folhado e de alecrim,
     a minha voz saudosa de cantar
     se elevará
     até aonde o Céu tem cor e fim.
     Se elevará a minha voz, perfume
     desprendido, suavíssimo, dos matos
     que surgiram de mim...
     
     Agora, só,
     que sou terra na terra misturada,
     que a minha voz é voz de rosmaninho,
     eu poderei tratar por tu
     a meu Irmão Frei Agostinho...
     Agora, só, a meu Irmão,
     que comigo nasceu naquele Dia
     em que ao Céu se entregou,
     ébria de Sol e Maresia,
     nossa Mãe Serra...
     

 Mas o Sebastião era muito alegre e eu não quero deixar este ar fúnebre depois de ter falado algumas coisas dele, por isso vou terminar com um Poema que diz muito dele e de que ele gostava muito.
  

      CANÇÃO DA FELICIDADE

      ... Pois à minha vida
      nada lhe faltava.
      Minha taça estava
      toda ela cheia.

      Nem fazia ideia
      que pudesse haver
      mais algum prazer
      que aquele que eu tinha.

      Pela manhãzinha
      pela tarde quente,
      ninguém mais contente
      pela rua andava.

      As mãos, se as fechava,
      as mãos, se as abria,
      tudo quanto havia
      tudo havia nelas.

      Não pedia Estrelas,
      não pedia flores,
      não pedia amores,
      porque os tinha já.

      Que de enigmas há!
      Como a Vida tem
      coisas que a ninguém
      passam p’la cabeça!

      Antes que me esqueça
      deixem-me contar:
      hoje fui passear,
      manhãzinha ainda,

      e vi a mais linda
      de todas as rosas:
      pétalas sedosas,
      vermelhas, brilhantes...

      E eu, que tinha dantes
      quanto me bastava,
      nada me faltava
      para ser feliz,

      eu, que nunca quis
      mais do que me deu
      o favor do Céu
      e o da humana gente,

      fiquei tão contente
      como se essa rosa
      fosse misteriosa
      flor que eu desejasse;

      como se andasse
      à procura dela
      por faltar só ela
      para ser feliz...

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