Queridos Jovens!
Vim para falar convosco, podem
interromper quando quiserem, o tempo é vosso.
Para mim, falar de Sebastião de Sebastião
da Gama, é-me sempre difícil. E é difícil porque eu prefiro pensar
nele, no Sebastião.
Hoje o caso é diferente: foi-me pedido que
falasse do Sebastião aos alunos desta Escola que agora se chama: Escola
Secundária de Sebastião da Gama. Aceitei. E o que me levou a aceitar
foi lembrar-me das entrevistas que tenho dado ao longo destes anos, a
jovens das Escolas. Todos se queixam que não há nada escrito sobre
Sebastião da Gama. "Procurámos nas Bibliotecas e não há uma
Biografia dele." "Não sabemos nada." Alguns ainda
acrescentam: "fale-nos, a senhora, dele".
Nesta altura eu pergunto: conheces a obra
dele? A resposta é sempre negativa. (Não quero deixar de fazer justiça
a uma jovem que me apareceu desta vez, que conhecia a obra e sabia
versos de cor e, neste caso, a entrevista foi diferente).
Ora, perante isto, eu decidi pôr o Sebastião
a falar convosco e a mostrar-vos a sua auto-biografia.
No livro, Serra Mãe, que foi o primeiro
que ele editou, encontramos um capítulo a que ele deu o nome de
"Poemas de Amor". Esse capítulo abre com um poema que ele
dedicou à sua mãe e a que chamou:
PEQUENO POEMA
Quando nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...
Não é lindo? Quem melhor do que ele e
de uma maneira tão linda poderia falar do seu nascimento?
Depois... o menino foi crescendo e também
ele disse de si, num Poema do "Itinerário Paralelo" e que se
intitula
O MENINO GRANDE
Também eu, também eu,
joguei às escondidas, fiz baloiços,
tive bolas, berlindes,
papagaios,
automóveis de corda,
cavalinhos...
Depois cresci,
tornei-me do tamanho que hoje
tenho,
os brinquedos perdi-os, os meus
bibes
deixaram de servir-me.
Mas nem tudo se foi:
ficou-me,
dos tempos de menino,
esta alegria ingénua
perante as coisas novas
e esta vontade de brincar.
Vida!
não me venhas roubar o meu
tesouro:
não te importes que eu ria,
que eu salte como dantes.
E se eu riscar os muros
ou quebrar algum vidro
ralha, ralha comigo, mas de
manso...
(Eu tinha um bibe azul...
Tinha berlindes,
tinha bolas, cavalos,
papagaios...
A minha Mãe ralhava assim como
quem beija...
E quantas vezes eu, só pra
ouvi-la
ralhar, parti os vidros da
janela
e desenhei bonecos na parede...)
Vida!, ralha também,
ralha, se eu te fizer maldades,
mas de manso,
como se fosse ainda a minha Mãe...
Com 22 anos escreveu ele um poema,
"Carta de Guia", também do "Itinerário Paralelo"
que mais parece o Prefácio da sua Auto-biografia. Vou lê-lo se não se
importam.
CARTA DE GUIA
Mesmo com este calor eu quero
ir.
Aos tropeções, aos bordos, de
qualquer maneira,
porque há pessoas que estão à
minha espera
e que nasceram pra eu me
importar com elas.
Há vinte e dois anos que estou
a falar de mim
e hei-de falar de mim a vida
inteira:
tanta coisa que eu tenho para
dizer,
e passar ao papel!
A anatomia da minha alma,
principalmente,
que há-de ficar escrita,
pra que vejam como é esquisito
um homem por dentro.
Mas agora, neste momento,
e noutros iguaizinhos a este,
ponho de parte o binóculo com
que me espreito
e graças ao qual tudo o que em
mim é pequeno me parece grande
e vou prà frente, apesar do
calor,
apesar de ir como um bêbado.
Há mãos estendidas, lábios
secos.
Casas aonde o Sol tem pudor de
entrar, de tão infectas.
Aonde Deus taparia o nariz, se
chegasse à porta.
Quando as palavras são como
pensos de linho,
não há nada melhor para a
alma, feita de carne em chaga de um homem.
Por isso é que vou indiferente
a este calor de Junho.
O binóculo fica à espera.
Eu fico à espera.
Largo barcos e redes,
não aconteça que os outros
todos que estão à minha espera
tenham morrido já, quando eu
chegar,
ou já não tenham ouvidos para
as minhas palavras,
nem lábios que percebam
a frescura de água que eu
levar...
Mas antes dos 22 anos o Sebastião
escreveu outros Poemas que dizem muito dele. É preciso é lê-los com
alma e tentar compreendê-los. Por exemplo, no livro "Serra Mãe"
nós encontramos muitos Poemas que dizem muito da sua luta interior
sobre a existência de Deus.
Ouçamos o poema com que abre o livro,
escrito aos vinte anos. A este poema ele não deu título, abriu o livro
com ele e é tudo.
A corda tensa que eu sou.
o Senhor Deus é quem
a faz vibrar...
Ai linda longa melodia
imensa!...
... Por mim os dedos passa Deus
e então
já sou apenas Som e não
se sabe mais da corda tensa...
Mas antes deste ele tinha escrito um,
que também faz parte da "Serra-Mãe" e tem como título
"Harpa", aquela Harpa de Deus que sentia nele, mas que também
sentia fugir e esta luta causava-lhe sofrimento e no sofrimento escrevia
os poemas. Mas vamos ler a "Harpa 5" para entendermos melhor a
luta íntima do homem aonde a fé crescia como cresciam os matos da
Serra aonde tudo isto se passava.
HARPA
Olha, Senhor!,
o indigno cantor que Tu fadaste
e se não pode erguer
à sua própria altura!...
- Virgem das minhas mãos, a
Harpa acende
novos brilhos no Sol, traduz em
cor
a saudade dos sons que não
desprende...
Tu a fizeste, Deus!, para os
meus dedos;
a glória do Teu gesto criador
Tu a quiseste partilhar
na glória quase igual de o
entender.
E foi com Teu amor que
retesaste as cordas,
com Teu amor as afinaste
e me chamaste
à tarefa sublime de tangê-las.
E eu sinto o Frémito,
Senhor!
Sinto o sopro que Tu me
inoculaste
ao dar-me a Tua bênção.
Dentro de mim é Som: o eco
longo
de uma nota sem fim e sem começo.
Mas só cá dentro o Frémito
ressoa...
Que não consegue minha mão,
que o lodo fez e o lodo maculou,
passar à Harpa a Grande Vibração.
- Vem lavar-me, Senhor!, no
azul do Mar.
Filtra a minha impureza na
limpidez do Teu olhar,
a luz clara que entornas pelos
montes da minha Serra verde.
Deixa outro cantar meu próprio
Canto,
e seja eu somente, assim
purificado
e liberto do corpo, enfim, mais
uma corda
na Harpa que me tinhas
destinado.
Ai o cantor indigno que
fadaste!...
Ai que a Grande Vibração,
se o não redimes,
estéril morrerá...
- Que eu seja apenas Som que
um outro cante
e, na renúncia de mim,
igual a mim um dia me alevante!...
O tempo foi passando, nem sequer foram
anos, e aos 20 anos o Sebastião dizia, no seu poema
"Claridade", também da Serra Mãe o que era a sua vida.
CLARIDADE
De minha vida não sei
senão que sou feliz.
Lá o que fui ou fiz
antes de ser o que sou,
ai!, tudo me passou:
só sei que sou feliz.
E que me importa a cor
das águas que passaram?
Estas águas me bastam
que vão correndo agora.
Fosse o que fosse, a minha
passada vida incerta
(feliz ou desgraçada),
foi uma porta aberta
pra esta vida clara.
Por isso eu a bendigo,
a minha vida ida.
Talvez as rosas nela
tivessem bem mais cor,
o Sol mais Luz e Amor,
e música mais bela
a viração, então;
mais verde fosse o Mar...
- Mas que vale o que foi,
se, quanto vejo ou provo,
tem tudo um gosto
novo?...
Se nada cansa ou dói?...
Se as rosas, para mim,
nasceram mesmo agora,
e as aves e o Mar?...
Se o Sol aconteceu
ao mesmo tempo que eu
olhei à minha roda
e vi o meu presente
a ser-me a vida toda?...
Ora eu tenho consciência de que os jovens
não suportam um recital de Poesia muito prolongado e já li 6 poemas;
muitos mais eu poderia ler aonde o Sebastião se retrata tal como era, não
só da Serra Mãe como nos outros livros que são sete ao todo. Cinco de
poesia, dois de prosa.
Vou ler-vos alguns trechos do "Diário"
aonde vocês poderão ver como era o Sebastião como homem e como
professor:
Janeiro 12
«O que eu quero principalmente é
que vivam felizes».
Não lhes disse talvez estas palavras,
mas foi isto o que eu quis dizer. No sumário, pus assim: «Conversa
amena com os rapazes». E pedi, mais que tudo, uma coisa que eu costumo
pedir aos meus alunos: lealdade. Lealdade para comigo, e lealdade de
cada um para cada outro. Lealdade que não se limita a não enganar o
professor ou o companheiro: lealdade activa, que nos leva, por exemplo,
a contar abertamente os nossos pontos fracos ou a rir só quando temos
vontade (e então rir mesmo, porque não é lealdade deixar então de
rir) ou a não ajudar falsamente o companheiro.
«Não sou, junto de vós, mais do que
um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem,
do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já esqueci.
Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não : falar
delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no comboio e no jardim e
onde quer que nos encontremos».
Não acabei sem lhes fazer notar que «a
aula é nossa». Que a todos cabe o direito de falar, desde que fale um
de cada vez e não corte a palavra ao que está com ela.
Janeiro, 17
Verdade seja dita: não tenho muitas
queixas a fazer do destino. E aqui no estágio, além do mais, encontrei
uma varanda linda. Linda porque Lisboa é linda e vê-se metade dela da
varanda da sala 19. Uma vez subi a um quarto andar onde mora um tipógrafo;
ia com gana de lhe comer os fígados, porque me andava a enganar desde
que o livro entrara na oficina. Pois recebeu-me, lá no alto, um Sol
magnífico a cair sobre Lisboa: isto tudo visto por uma pequena janela.
Adeus, fúrias, adeus, palavras como punhais! Basta uma janela para me
fazer feliz e foi o que me aconteceu também, quando cheguei à sala 19.
Era o Castelo, era o Tejo, era a cidade de mármore e granito (como
dizem) a espreitar para dentro da aula. Vai, que fiz eu? Como queria
tomar o pulso aos rapazes em matéria de escrita, propus-lhes aquele
tema. "Da varanda da nossa aula" podia ser muito bem ser o título
da redacção; mas também podia ser outro à vontade do freguês. O que
eles escrevessem servia para eu ver como escreviam, como viam e como
imaginavam. À maneira de preparação, disse-lhes: "Suponham que
está aqui uma chávena da China. Vocês têm de escrever a partir dela
e podem fazê-lo contando que ela tem este ou aquele feitio, esta ou
aquela cor, um desenho que representa isto ou aquilo e tem a asa do lado
esquerdo. Mas também não dizer nenhuma destas coisas e imaginar, com
os olhos nela, uma coisa passada na China: chinesinhos de rabicho, arroz
comido com pauzinhos, sei lá o quê! Ou fantasiar um chá das cinco em
que serviu aquela chávena; quem estava nesse chá, o que disse, o que
se passou durante essa hora. Posto o que, vão à janela um bocadinho,
olhem, voltem, sentem-se e escrevam o que quiserem, com o título ou
subtítulo "Da varanda da nossa aula".
Os rapazes, feito o honesto barulho de
correrem à varanda, atiraram-se à obra. Eu fui pacatamente olhar
Lisboa, porque quero começar a fazer-lhes sentir que eles não devem
copiar.
Fevereiro, 16
A aula passada ao papel fica sempre
mesquinha. A aula de Português acontece, como atrás ficou dito em
letras grandes; mas acontece lá, acontece na sala 19 e não aqui,
neste papel aos rectângulozinhos. Depois, eu não sei inventar nem
doirar; e há uns tempos para cá nem sei reproduzir - ando doente da mão.
Por tudo isto é que são uma caricatura das aulas as linhas que ficam
neste caderno. Não que as aulas sejam excelentes; - apesar da confiança
em mim, e até do arzinho de vaidade que às vezes pareço ter e não
sei reprimir, sinto que me faltam muitas qualidades; sabe-me a pouco, cá
dentro, tudo o que faço, e bem vistas as coisas não tenho vaidade
nenhuma. Tenho para mim que o vaidoso só o é verdadeiramente se está
convencido de que é um ás naquilo de que é vaidoso; ora eu não estou
convencido; aparento por vezes que o estou, levado por um demónio que
eu não sou capaz de afogar. Eu só estou convencido de que tenho em mim
algumas qualidades, graças às quais não é desonestamente que sou
professor; e estou convencido também de que há mil outros que não têm
estas qualidades, ao mesmo tempo que há outros ainda que têm, além
das minhas, aquelas que me fazem falta. O que me absolve é que tenho o
bom propósito de ir melhorando e de chegar um dia (se o espírito se não
acovardar com o tempo...) em que serei quase um bom professor; é
justamente nesse dia que morrerei: quando for quase um bom professor.
Março, 9
O poeta beija tudo, graças a Deus...
E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade... E diz assim:
"É preciso saber olhar..." E pode ser, em qualquer idade, ingénuo
como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os
homens feitos... E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma
flor que está por detrás... E perde tempo (ganha tempo...) a namorar
uma ovelha... E comove-se com cousas de nada: um pássaro que canta, uma
mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou
desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de Sol depois de um dia
chuvoso... E acha que tudo é importante... E pega no braço dos homens
que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim... E reparou
que os homens estavam tristes... E escreveu uns versos que começam
desta maneira: "O segredo é amar..."
Também no Diário ele fala um bocadinho
no Sebastião rapazinho de doze, treze anos e talvez possam aproveitar
alguma coisa do que ele conta com toda a simplicidade:
"Eu tinha doze, treze anos e era
um diabo. Nessa altura, ainda na minha aldeia me chamavam o "Chinês",
porque eu era um chinês escrito e pintado. Já tinha escrito os
primeiros versos - uma História de Portugal - porque isso foi aos dez
anos. Os alunos do 5º ano eram já homens e metiam-se comigo, porque eu
era espevitado e refilão: em paga, dava-lhes um pontapé nas canelas.
Passaram então o primeiro "Texas-Jack" - e com que entusiasmo
eu li as suas aventuras de salvador de aflitos, com que ternura amei o
"Tornado", seu cavalo, e chorei a morte heróica de "Tumper"!
Onde havia uma injustiça a punir, um necessitado a socorrer, lá
aparecia "Texas-Jack" e posso gabar-me de escrever sem erros.
Um dia o professor de Moral "roubou-me" três que eu estava a
ler. Foi provavelmente nessa aula que eu, convencidíssimo primeiro e
espantado depois com o riso dos meus camaradas, respondi ao Padre Mário:
"O sexto mandamento? Amar a mulher do próximo". O
"furto" revoltou-me e continuei a ler. Fiz-me comerciante:
cada folheto custava oito tostões, eu lia-o e vendia-o por cinco; e era
assim que a colecção me ia toda passando debaixo dos olhos. Assim, e
com a segunda modalidade: a certa altura vendi à comissão: o Zeca
Barreto tinha muitos e não tinha "jeito para o negócio";
fizemos então o contrato de os vender eu a cinco tostões e de ficar
dois e meio para cada um. E por tudo isto recusei o cigarro.
Apetecia-me, lá isso é verdade: mas um masso "Paris"
representava três "Texas-Jack"; heroicamete desdenhava os
oferecimentos ou aceitava cigarros que me davam para os dar aos
companheiros.
Quando vejo, pendurados à porta de
certas papelarias, os "Texas-Jack" da minha infância, sinto
uma ternura imensa. Uma ternura que é por eles e por mim. Uma ternura
que eu ofenderia se dissesse na aula: "Proibido o Texas-Jack".
E que a lei me perdoe..."
O Sebastião foi professor em Setúbal
antes de escrever o Diário que foi escrito quando fez o estágio na
Escola Veiga Beirão em Lisboa, nos anos 48/49 e 49/50, mas os alunos
para ele não ficaram esquecidos, acompanhavam-no no seu coração de
escola para escola. Está no diário uma prova do que estou a dizer e
que vou ler:
"Lembro agora a primeira vez
que, em Setúbal, a meio do ano, me julguei forçado a pôr fora da aula
um aluno: fiquei tão doente que parti o giz que tinha nas mãos e já não
fui capaz de continuar a aula. Esse desgosto era sobretudo um desgosto
de coração. O de hoje é diferente: o Fosco saiu, porque fez barulho -
e fez barulho, porque a aula lhe não interessou - e não lhe interessou
"talvez", porque ela não tinha interesse nenhum - e quem
devia ir para a rua era eu.
"Faz-me tanto mal e tanto bem dar
uma aula má".
Ontem estive em Setúbal. O Manuel, meu
aluno o ano passado, a quem eu não desamparei desde que soube que
descera de nível do último período de 47-48 para o primeiro de 48-49,
e me escreveu quatro vezes para a Veiga Beirão a queixar-se de que
estava "à beira dum abismo" (que era a falta de
vontade), vem confirmar coisas que eu disse a propósito de ladrões. Se
se tem castigado o Manuel, ou se se tem abandonado o Manuel ao seu
castigo, o Manuel era um Homem ao Mar. As más tendências que há dois
anos fizeram dele um péssimo aluno e que o ano passado persistiram de
tal modo no primeiro período que por duas vezes foi suspenso, teriam
vingado abertamente. Amparando-o, aconselhando-o, obtendo do meu
Director (o melhor Director do mundo, não desfazendo) que o absolvesse
da segunda suspensão, levei-o, e levou-se ele próprio, principalmente,
a ser o melhor da turma - 18 em Português, no 3º período. E este ano,
pelo mesmo processo, subiu ele de 12 valores e de mau comportamento para
bom comportamento com 16 valores. Não há rapazes maus. Há falta de
boa vontade, de amor, da nossa parte. Quantos (Deus me perdoe!) não
terei eu já abandonado?
Uma das coisas que terão valido ao
Manuel foi ele ter sentido junto de si a presença do Lodovico. Logo que
ele me escreveu, convidei o Ludovico a escrever-se com ele; e embora a
correspondência não tenha sido muito intensa, o facto de trocar
impressões e travar amizade com um rapaz que ele sabia bom aluno, há-de
tê-lo estimulado."
Era assim o Sebastião Professor, levava
os alunos no coração mas não era para os guardar avaramente para ele
com as suas qualidades ou fraquezas, era para pôr todos a comunicar uns
com os outros numa interajuda. Aqui podíamos ler mais um poema,"A
Meus Irmãos".
Outra passagem do Diário que diz muito de
como era o Sebastião melhor do que eu, porque é com palavras dele, é
a descrição simples, como se estivesse a pensar, duma viagem que fez
ao Minho. Vou lê-la para vos aguçar a vontade de lerem as obras dele.
"Cá vim do Mondego mais uma vez
- do Mondego mais uma vez seco, como se a água lhe tivesse ficado toda
nos versos de Camões e de António e na alma dos choupos.
A viagenzita foi jeitosa. Vinham no
compartimento duas raparigas que souberam ser gente. Ser gente, cá para
mim, é confraternizar, é falar com o vizinho, é não ser um estranho.
Triste coisa esta que acontece tanta vez nos comboios: cada um a
fechar-se numa solidão antipática, que seria hostil se não fosse
acanhada, tímida. Oito horas de viagem, que podiam ser um mundo de
acontecimentos, de descobertas, de ternura, a não serem mais que um
grande vazio, um pano escuro, uma vida morta. Cá por mim gosto de
viajar sozinho, que é para povoar a minha solidão da paisagem que vou
vendo e para conhecer mais gente que mereça a pena. Faço o possível
por meter-me com os outros, mas não é uma aproximação de tagarela,
uma aproximação de "fera": quero é descobrir o coração
dos que vão comigo, senti-lo bater. Andamos no mundo quase todos como
se fôssemos desconhecidos: quero Amor, quero a mesa aberta, quero
sinceridade e o abraço. Quero estar à mesa do pobre sem ser por
atitude calculada, antes porque o coração mo pede; quero estar à mesa
do rico à minha vontade. Quando o pobre não percebeu isto, eu saí; saí
quando o rico não percebeu isto.
Eis porque a cidade às vezes me faz
impressão: na aldeia a gente dá os bons dias a quem passa; a gente
sabe quem está doente e empresta um termómetro e empresta o que for
preciso, todos falamos com todos... todos nos importamos com todos, as
caras são todas conhecidas.
Já na cidade não é assim: depois de
dois ou três amigos do coração, há o exército dos amigos de café e
das pessoas que a profissão nos obriga a conhecer: o resto do povo
e mesmo todos os que não são os amigos do coração, estão longe de nós,
não convivem verdadeiramente connosco. Eu queria que se pedisse uma
informação a um polícia ("onde fica tal rua?"), a um
sujeito que passa ("é capaz de me dizer as horas?"), ao
empregado de uma loja, ao médico, ao preto do Cais do Sodré - como
quem fala a um irmão, convivendo, amando, e não como quem procura na
lista o número de um telefone.
... Ao arrancar do comboio, voltei-me
para a companheira que primeiro entrara e disse: "Peço perdão
antecipadamente de todo o barulho que viermos a fazer".
Nunca uma viagem foi tão alegre. As
pequenas eram moças como nós e partilhavam comigo da crença de que não
deve haver desconhecidos..."
Parece-me que já estou a maçar muito
mas como nas entrevistas todos têm mostrado interesse em saber como era
o Sebastião como professor, como amigo, vou ler-vos o que ele registou
no Diário, para não se esquecer, porque o Diário foi escrito sem
intenção de publicar, tanto assim que quando acabou o estágio, ele
queria oferecê-lo, o manuscrito, ao seu orientador do estágio que
naquele tempo se chamava Metodólogo. Eu que tinha acompanhado o
nascimento do Diário, que o tinha lido todo à medida que ia sendo
escrito, opus-me e propus ao Sebastião copiá-lo todo e ele ofereceu
essa cópia ao Metodólogo. Ele concordou: eu fiz um manuscrito de todo
o Diário e ele ofereceu o original. Mas eu estava a dizer-vos que ia
ler uma passagem do Diário que diz muito de como o Sebastião era.
"Largo do Carmo, duas e meia da
tarde. "Que é do Barradas? Porque diabo tem o Barradas
faltado?" - "O Barradas parece que anda desnorteado.
Também já faltou a Geografia e a Francês. Coisas de namoro que acabou
e o deixaram assim..." - Mas onde está ele? Digam-me, que é isso
que é servi-lo. Digam-me tudo". - "Está ali numa taberna a
jogar aos bonecos. Está lá sempre. Parece que anda maluco: calcule que
vendeu o livro de Geografia por 7$50 para no outro dia comprá-lo de
novo por 20$00. Anda maluco."
O caso era mais grave do que se
afigurava. Fui até à taberna, de onde vinha a sair o Barradas. Fiz-me
encontrado. - "Estava ali a ver o jogo". - "E por que
é que tens faltado?" - "Por causa de não ter o caderno em
dia" - "Mentira, Barradas. Eu peço o caderno raramente e não
ralho por isso: só lamento. Anda cá". Travei-lhe o braço e fomos
conversando até ao elevador de Santa Justa. Fiz-lhe ver o perigo em que
andava. A boa hora em que estava ainda em evitá-lo. O natural que é
uma pessoa perder a cabeça - e o natural que também é ver isso a
tempo e reagir; e a redução a zero de uns dias passados mal passados,
desde que o presente, por vontade nossa, seja limpo. E mais: - "Tu,
Barradas, alegraste-me a mim, a teus pais, a ti próprio no segundo período;
foste um homenzinho; tiveste, 17 valores em Francês e 17 em Português,
mas não é isso que vale porque podia ser injusto; podias valer isso
mesmo e eu não tê-lo visto e ter-te dado 10; o que vale é a satisfação
que tu sentiste por teres cumprido. Se amanhã fizeres um exame de
consciência, que resposta te dará ela a esta pergunta: Eu tenho
procedido bem? Como devo a mim próprio e aos que acreditam em mim?
Ouve, Barradas: Eu não te peço que me faças confissões; só tenho
pena que tenhas mentido a um professor que não mente - pelo menos não
mente aos alunos. Se quiseres e quando quiseres, quando precisares,
abre-te comigo, procura-me, escreve-me, como queiras; não vejas em mim
uma pessoa mais velha - aliás, pouco mais velho sou do que tu. E adeus.
Tenho confiança em ti e tenho a certeza de que estes dias desnorteados
depressa serão esquecidos".
O Barradas tinha as lágrimas nos olhos.
Eu falara-lhe com uma voz pequenina, que não ralhou nunca. Disse-lhe
que tenho confiança nele e tenho mesmo. O Amor converte os pecadores,
quanto mais o Barradas, que é um rapazinho manso e bom!
Primeira lei: acreditar no aluno. Se o
campo é bom e se a semente é bem lançada, até uma inicial vontade de
enganar a contraria, agindo no espírito do aluno a nossa boa fé. E
depois há o ficar ou não ficar tranquila a nossa consciência.
Supunhamos, fora da escola, que um homem me diz: "Venho a pé do
Algarve à procura de trabalho. Estou morto de cansaço e de fome e
gastei os últimos cobres. Tenho vergonha de pedir esmola".
Supunhamos que eu digo: "Se se não importa, eu dou-lhe alguns
escudos. Não é esmola, nem é talvez "dar" a palavra
que devia empregar, porque isto é um empréstimo: amanhã posso eu
precisar e outro me há-de socorrer; me há-de pagar a dívida que o
senhor contraiu comigo". Pois bem: "Tu és um trouxa" -
poderão dizer. Foste no conto do vigário e o homem ri-se de ti,
enquanto come o teu dinheiro". E que me importa? Prefiro
arriscar-me a "ser levado" a arriscar-me a deixar um homem
morrer de fome. Sou levado, mas fico lavado. O que me enganou é que não.
Na escola é o mesmo: antes ser levado do que arriscar-me a ser cruel, a
ofender, a estragar. Mais uma vez o aviso de alguns: "Cuidado com o
aluno!" e o meu aviso "Cuidado com o aluno!".
O Tadeu chegou-se junto de mim e disse
numa voz nervosa, cortada de soluços: - "Fui eu".
Mansamente falei-lhe: - "Com
certeza?" - "Não, senhor! Mas eles dizem que fui eu e eu
aceito: não quero que a turma inteira seja castigada".
Beijei-o. Falei demoradamente com ele,
com a ternura que ele merecia. À saída da aula vi a Gumersinda, uma
das raparigas com que falo e que estimo aqui na Escola, e disse-lhe: -
"Aperte a mão a este menino, que é um homem". Ela também o
beijou (já é uma mulherzinha e ele tem doze anos).
No pátio, disse aos moços (que são os
de Francês): - "Não foi o Tadeu".
Para muitos deles o professor foi
"levado...".
Embora não pareça, a campainha já
tocou: são horas, portanto, de começar a aula."
Mais outro testemunho e do Diário não
leio mais nada, mas como vim para dar a conhecer o Sebastião seria
imperdoável se não lesse estas duas:
"O que era bom era dar sempre
aulas como a de hoje! Vir da aula tão feliz que tivesse precisão de
gritar ao primeiro desconhecido: - "Sabe? Dei hoje a melhor aula, a
aula mais linda da minha vida!" Quis, ao entrar na Sala dos
Professores, gritar isto mesmo ao Senhor Director - Mas não fui capaz,
talvez por ele estar acompanhado; e foi pena, porque tenho a certeza de
que ele compreenderia o meu contentamento, me sorriria com a bondade e
delicadeza de alma que lhe são próprias. Assim, vim pelo Alecrim
abaixo a contá-lo só a mim: "Que linda aula! Que linda aula! Que
linda aula!" E foi no vapor que não pude resistir: - "Sabe?
Dei hoje a melhor aula, a mais linda aula da minha vida!" Quase
desconhecida, a mimosa menina que me ouviu com simpatia; vira-a apenas
uma vez, falara com ela apenas dois minutos; mas ficámos amigos, porque
dias como o de hoje são dias grandes.
Mas é difícil referir tim-tim por
tim-tim como a aula se passou. Talvez bastasse dizer que o tartamudo e
rouco falava com facilidade e tinha a voz clara; que os irrequietos
estavam sossegadinhos e suspensos, de grandes olhos abertos para a
novidade; pareceu-me que o Ludovico os tinha vermelhos; tenho a certeza
de que todos estavam felizes como eu".
Parece-me que já vai bastante longe a
minha exposição e ainda não disse da missa nem a metade.
Todos os livros têm os seus segredos,
muitos poemas têm as suas histórias mas ficaríamos aqui todo o dia e
noite.
Podíamos combinar uma coisa se estivessem
de acordo. Vocês vão ler a obra do Sebastião, não de empreitada, mas
um livro de cada vez. Pode ser lido em grupo. As dúvidas que
encontrarem, que serão muitas, desde a morte que aparece em tantos
poemas, como a interpretação política que algumas pessoas encontram
em certos poemas, vocês vão anotando.
Depois combinamos uma tarde, eu venho aqui
à Escola, vocês põem as vossas questões e eu respondo ao que souber.
Isto até acabar a Obra.
Agora para terminar, tal como comecei com o
que ele disse do seu nascimento, vou terminar com o que ele disse sobre
a sua morte.
ELEGIA
Quero morrer ao Poente,
pra que a luz que se esbate
e se funde no verde das ramadas
seja eu a morrer-me
lentamente...
Quero morrer a essa hora
mansa,
pra que a Noite depois, quando
vier
embalar as estevas e beber
os branquíssimos sonhos do
folhado,
pra que a Noite seja o meu cadáver
perfumado...
pra que as Estrelas
sejam bicadas de abutres
no meu cadáver...
Quero morrer ao Poente,
quero que a Noite seja o meu cadáver,
pra que, depois o leve tremular
do Ar,
pra que o nocturno aceno
pleno
de Ritmo e som do Ar,
seja o meu coração vibrando
ainda,
a não poder-se conformar
com a Senhora Morte que o deixou
amortalhado em Luar...
Quero morrer à hora do
Poente,
à minha hora tranquila...
Que não saiba ninguém, quando
no Céu
brilhar a primeira Estrela,
se a luz crepuscular, em mim,
num êxtase, morreu,
ou se fui eu
que o espírito nela diluí,
pra ir morrer nos lábios
descorados
de uma crinça doente...
Quero morrer ao Poente,
confusamente ouvindo os dobres
de finados
que há-de o Vento gemer nos
magoados
lírios do campo...
As minhas esperanças
são lenços brancos acenando
de um cais distante, mais
distante
de cada vez que me espreito...
São lenços dizendo adeus
ao navio que se demora,
quase não singra, enleado
na saudade dos seus...
Ai que eu as não sei
contar,
as minhas esperanças
mortas!...
- Pois como podem ser elas
que ao barco fazem sinais,
se eu afinal não parti,
se eu é que aceno,
com lenços brancos, do
cais?...
ELEGIA PARA A MINHA CAMPA
Agora, só,
que é o meu corpo terra
confundida
na terra desta Serra minha Mãe;
agora, só,
a minha voz que sempre cantou
mal
ao Céu se eleva...
Agora, só,
que no ventre da Serra minha mãe
repousa
meu corpo de Poeta,
de Poeta mudo em vida, por
ausente
do ventre maternal os nove
meses;
agora, só, claríssima se eleva
a minha voz-louvor,
a minha voz-carícia a minha Mãe,
ao Céu...
Agora, só,
que os meus lábios são terra
de onde nascem
as moitas de folhado e de
alecrim,
a minha voz saudosa de cantar
se elevará
até aonde o Céu tem cor e fim.
Se elevará a minha voz, perfume
desprendido, suavíssimo, dos
matos
que surgiram de mim...
Agora, só,
que sou terra na terra
misturada,
que a minha voz é voz de
rosmaninho,
eu poderei tratar por tu
a meu Irmão Frei Agostinho...
Agora, só, a meu Irmão,
que comigo nasceu naquele Dia
em que ao Céu se entregou,
ébria de Sol e Maresia,
nossa Mãe Serra...
Mas o Sebastião era muito alegre e
eu não quero deixar este ar fúnebre depois de ter falado algumas
coisas dele, por isso vou terminar com um Poema que diz muito dele e de
que ele gostava muito.
CANÇÃO DA FELICIDADE
... Pois à minha vida
nada lhe faltava.
Minha taça estava
toda ela cheia.
Nem fazia ideia
que pudesse haver
mais algum prazer
que aquele que eu tinha.
Pela manhãzinha
pela tarde quente,
ninguém mais contente
pela rua andava.
As mãos, se as fechava,
as mãos, se as abria,
tudo quanto havia
tudo havia nelas.
Não pedia Estrelas,
não pedia flores,
não pedia amores,
porque os tinha já.
Que de enigmas há!
Como a Vida tem
coisas que a ninguém
passam p’la cabeça!
Antes que me esqueça
deixem-me contar:
hoje fui passear,
manhãzinha ainda,
e vi a mais linda
de todas as rosas:
pétalas sedosas,
vermelhas, brilhantes...
E eu, que tinha dantes
quanto me bastava,
nada me faltava
para ser feliz,
eu, que nunca quis
mais do que me deu
o favor do Céu
e o da humana gente,
fiquei tão contente
como se essa rosa
fosse misteriosa
flor que eu desejasse;
como se andasse
à procura dela
por faltar só ela
para ser feliz...
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