O Futuro da Educação em Portugal: Tendências e Oportunidades
Um estudo de reflexão prospectiva
Director e Coordenador do Estudo: Roberto Carneiro
Coordenadores Adjuntos: João Caraça e Mª Emília São Pedro

 

Relatório internacional sobre competências

fonte - Público - Dezembro de 2001

Relatórios

Nacional 

Internacional

Dez por Cento dos Alunos Portugueses Aos 15 Anos Têm Dificuldades em Perceber o Que Lêem
Por ANDREIA SANCHES
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

É o maior estudo internacional sobre as competência dos alunos de 15 anos em três domínios: literacia em leitura, matemática e científica. Portugal está no pelotão dos mais fracos, longe das médias da OCDE. E mesmo os estudantes mais competentes são piores do que os melhores da maior parte dos países. Só Lisboa e Vale do Tejo consegue uma "performance" em leitura que compete com a da OCDE.

Metade dos alunos portugueses com 15 anos de idade tem níveis de literacia em leitura muito baixos. No espaço da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o país só se sai melhor do que o México e o Luxemburgo, ficando alinhado com o desempenho médio da Alemanha e da Grécia. Na literacia científica, só o México e o Luxemburgos são piores. Em matemática, Portugal, Polónia, Itália, Grécia e Luxemburgo partilham o penúltimo lugar, à frente também do México. Não é surpreendente, mas o investimento que nos últimos anos o Estado tem feito na educação poderia fazer acreditar que melhores "performances" seriam possíveis, tendo em conta o que se passou noutros Estados da OCDE (como a Irlanda) que, há alguns anos, tinham resultados semelhantes aos portugueses.

O mais preocupante é que dez por cento dos jovens em Portugal não conseguem sequer atingir o valor mínimo de literacia em leitura (a média da OCDE é 6 por cento), ficando abaixo do nível 1. Tecnicamente, podem saber ler mas não são capazes de realizar tarefas simples propostas no âmbito do PISA ("Programme for International Student Assessment"), um mega-estudo internacional sobre as competências dos jovens nascidos em 1985. Portugal integra assim - com a Grécia, o Luxemburgo e a Alemanha, por exemplo - um grupo onde uma percentagem preocupante de rapazes e raparigas terá grandes dificuldades de integração no mercado de trabalho ou em qualquer esquema de educação e formação ao longo da vida.

Absolutamente determinante nos resultados parece ser o ano de escolaridade frequentado pelos jovens. É que os desempenhos médios dos alunos de 15 anos portugueses que frequentam o 10º e 11º anos são muito melhores, ao ponto de, nalgumas áreas, chegarem a superar a média correspondente ao espaço da OCDE. O problema são os outros, os que aos 15 anos frequentam entre o 5º e o 9º ano - uma fatia ainda considerável que vem provar, uma vez mais, que ficar para trás um ou mais anos, no percurso escolar, pode condenar ao insucesso.

No total, 32 países entraram nesta primeira fase do PISA - um estudo que se destaca de outros projectos internacionais sobretudo porque pretende aferir até que ponto é que os jovens conseguem usar os seus conhecimentos e competências para resolver desafios da vida real. De três em três anos, serão recolhidos novos dados. No ano passado, cerca de 265 mil alunos (4600 portugueses) foram chamados a submeter-se ao primeiro "exame" especial que técnicos e representantes dos governos elaboraram e testaram. Desta vez, a literacia em leitura foi o domínio de eleição - dois terços das questões colocadas versavam competências nesta área, pelo que é este o domínio mais rico em análise e cruzamento de variáveis.

Os piores entre os piores

O relatório do PISA faz mais do que listar países a partir das médias dos resultados de cada um - diz a OCDE que essa análise pode servir para aferir a qualidade das escolas e dos sistema educativos, mas não dá o retrato completo das dificuldades ou pontos fortes de cada grupo de estudantes. E é quando se afina a análise que alguns aspectos voltam a acentuar a modéstia dos desempenhos portugueses.

Desde logo, se dividirmos o grupo de alunos portugueses que prestou provas e analisarmos os que tiveram resultados mais fracos nos três domínios de literacia testados, chega-se à conclusão que os piores alunos lusos têm classificações ainda mais baixas do que os piores da OCDE - diferenças na casa dos 30 pontos.

A questão seguinte é, inevitavelmente: e como é que se comportam os alunos portugueses mais "brilhantes", quando comparados com a "nata" do espaço da OCDE? Na verdade, brilham pouco. Os jovens portugueses com maiores níveis de literacia em leitura, ciências ou matemática são, em média, piores do que os colegas com melhor desempenho nos restantes países.

Os especialistas tentaram também perceber se um país que apresenta uma percentagem elevada de alunos com maus resultados está "condenado" a ter poucos jovens com um desempenho próximo da excelência. Para se chegar a uma conclusão: não é sempre assim. Esta não é uma questão de somenos importância: "Atendendo a que uma média elevada na performance dos alunos de 15 anos faz prever a existência de uma força de trabalho altamente qualificada, os países com estes níveis de desempenho terão, a curto prazo, uma vantagem económica e social considerável", como sublinha a OCDE.

E uma vez mais a análise não favorece o quadro português. Entre 15 e 18 por cento dos alunos da Austrália, Canadá, Finlândia, Nova Zelândia e Reino Unido conseguiram um desempenho máximo. Por outro lado, qualquer um destes países apresenta uma pequena percentagem de jovens com literacia em leituria abaixo de 1. Já a Alemanha, com uma percentagem de alunos no nível 1 ou menos 1 em leitura que ronda os 23 por cento (não muito longe dos 27 por cento portugueses), consegue ter 9 por cento de jovens no nível 5. Em Portugal, são apenas 4 por cento, o mesmo valor apresentado pela Espanha. A OCDE não esconde as desvantagens destes resultados no que diz respeito à competitividade de um país.

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A Comparação
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

É a segunda vez que Portugal participa num estudo internacional sobre avaliação de leitura. A primeira foi em 1991 e foram avaliados alunos do 9º ano (o que corresponde mais ou menos à população abrangida pelo PISA). Os portugueses obtiveram resultados ligeiramente acima da média internacional. Será que os alunos do 9º ano pioraram? Segundo o Ministério da Educação, não. A verdade é que no início dos anos 90 a taxa real de escolarização no 9º ano era de 53 por cento e actualmente supera os 90. A média dos alunos foi, pois, "significativamente afectada pelo alargamento da escolaridade a muitos mais jovens"

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Lisboa e Vale do Tejo Ultrapassa a Média
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

Os 32 países participantes no PISA comprometeram-se, para já, a elaborar um relatório nacional "para contextualizar os dados". Foi o que fez Portugal. Um documento ontem apresentado em conferência de imprensa, em Lisboa, da autoria do Gabinete de Avaliação Educacional, confirma o que outros trabalhos - nomeadamente os resultados nacionais dos exames nacionais do 12º ano - já tinham revelado: que há grandes diferenças regionais. Isto ao ponto de os jovens de Lisboa e Vale do Tejo chegarem a obter resultados superiores em média aos do espaço da OCDE - o que aconteceu na literacia em leitura.

Globalmente, as "performances" mais fracas estão, sobretudo, nas ilhas, Alentejo e Algarve. Sobre a heterogeneidade regional encontrada diz o relatório português que é uma das "situações problemáticas para as quais urge encontrar soluções". A.S

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Escalas da Literacia em Leitura
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

Nos testes do PISA, os estudantes entraram em contacto com vários tipos de textos, a partir dos quais tinham de demonstrar três tipos de competências: a capacidade para extrair e recuperar determinada informação, para interpretar aquilo que liam e para reflectir e/ou avaliar sobre o conteúdo do texto. O que estava em causa era, exclusivamente, a capacidade de ler e gerir informação, pelo que erros ortográficos ou gramaticais nas respostas não foram considerados pelos avaliadores.

Nível 5 - estão neste nível os alunos que atingiram mais de 625 pontos nos testes do PISA. São capazes de realizar tarefas sofisticadas. Por exemplo: encontrar e gerir informação difícil de encontrar em textos que não lhes são familiares e avaliar de forma crítica essa informação.

Nível 4 - (entre 553 e 625 pontos). Estes alunos são capazes de realizar tarefas de leitura difíceis, localizar informação implícita ou construir significados a partir de subtilezas de linguagem.

Nível 3 - (entre 481 e 552 pontos). Neste nível, os alunos estão aptos a realizar tarefas com complexidade moderada. São capazes, por exemplo, de estabelecer relações entre diferentes partes de um texto e relacioná-lo com um conhecimento familiar e quotidiano.

Nível 2 - Os jovens (que obtiveram entre 408 e 480 pontos) são capazes de realizar tarefas básicas de leitura que envolvem a localização simples de informação num texto. Conseguem usar informação exterior a esse texto para compreendê-lo melhor.

Nível 1 - (entre 335 e 407 pontos). São capazes de realizar apenas tarefas de leitura simples, como a identificação do tema principal de um texto e a simples conexão com o conhecimento do quotidiano.

Menos de 1 - (menos de 335 pontos) Estes alunos não são capazes de realizar as tarefas mais básicas propostas pelo PISA. Isto não significa a ausência de competências de literacia: a maior parte destes alunos tecnicamente sabe ler e cerca de metade até consegue realizar um décimo das tarefas propostas pelo PISA. São alunos em risco, quer no que diz respeito à sua transição para o mercado de trabalho, quer quanto à capacidade de poderem vir a usufruir de outras aprendizagens ao longo da vida.

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P&R
O Que É o PISA?

Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

Que tipo de estudo é o PISA?

O "Programme for International Student Assessment", mais conhecido por PISA, é o maior estudo internacional e sistemático feito sobre as competências e conhecimentos de jovens com 15 anos de idade em três áreas distintas. O estudo foi coordenado pelos governos dos países participantes, através da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico)

O que é que se pretende testar?

O PISA cobre três domínios: literacia em leitura, literacia matemática e literacia científica. Ao contrário do que acontece noutros estudos internacionais, não pretende testar conteúdos escolares. Tudo está feito para poder apurar até que ponto é que, concluída a escolaridade obrigatória, os jovens estão preparados para enfrentar os desafios do futuro, têm capacidade para continuar a aprender ao longo da vida e conseguem analisar, argumentar e exprimir as suas ideias.

A primeira "leva" de testes ocorreu em Abril de 2000 e os resultados são agora divulgados. De três em três anos, haverá novos testes e novos resultados. Em cada "ciclo de avaliação", os testes aprofundam mais uma determinada área, sendo-lhe dedicada dois terços das perguntas feitas aos alunos. Neste que foi o arranque do programa, o domínio de eleição foi a leitura - é por isso que só neste domínio é que se dividiram os alunos em níveis de literacia de 1 a 5. Em 2003, será a matemática e em 2006 a literacia científica.

Quem participou nesta primeira fase?

São 32 países, 28 dos quais membros da OCDE. Na apresentação dos resultados, no entanto, a Holanda não consta da lista ordenada de países, porque a amostra foi considerada pouco fiável.

Qual é a metodologia?

Testes de caneta e papel, para serem feitos em duas horas, foram aplicados a grupos entre 4500 e 10 mil alunos em cada país. No total, foram 265 mil os jovens envolvidos. Os testes foram feitos nas respectivas escolas. Foram ainda distribuídos dois questionários: um para ser preenchido pelos directores dos estabelecimentos de ensino; outro aos próprios alunos testados, para recolha de informação de "background".

Quantos alunos fizeram os testes em Portugal?

Cerca de 4600 alunos de 148 escolas "representativas" da realidade nacional.

No que é que consistem os testes do PISA?

Os testes são uma mistura de perguntas de escolha múltipla com outras que prevêem que os jovens construam as suas próprias respostas. Os enunciados das questões remetem sempre para situações da vida real. A ideia é saber se os jovens têm uma relação inteligente com aquilo que fazem e não qual o seu nível académico.

Para que é que servem estes resultados?

Segundo a OCDE, o que se pretende é traçar o perfil dos estudantes que terminam a escolaridade obrigatória, perceber as causas e consequências dos resultados, de forma a fornecer indicadores às escolas, professores e decisores políticos que possam servir de base de trabalho. Sendo esses indicadores internacionais, e aceites pelos governos que participaram, será mais fácil o diálogo e a colaboração entre eles.

A.S.

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Jovens com Maiores Dificuldades a Matemática e Ciências
Por ISABEL LEIRIA
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

Tal como em leitura, os resultados são considerados "preocupantes"

Mais do que na leitura, é na literacia matemática e na literacia científica que os alunos portugueses de 15 anos mais perdem na comparação com os seus parceiros da OCDE. Em ambos casos, apenas sete dos 32 países avaliados registaram um desempenho tão baixo ou pior do que Portugal. Apesar de estas serem competências que não mereceram uma análise tão aprofundada como a leitura - isso acontecerá nos próximos dois estudos do PISA (Programme for International Student Assessment) -, os resultados apurados são, para já, tidos como "deveras modestos" e "preocupantes".

Nas duas literacias, os resultados médios dos alunos portugueses são claramente inferiores à média da OCDE. No caso da matemática, Portugal afasta-se 46 pontos do valor médio de referência (500). Na Europa, Itália, Letónia, Polónia, Grécia e Luxemburgo apresentaram resultados semelhantes. Já a ciências Portugal fica 41 pontos aquém da média, estando ao mesmo nível do Liechtenstein, Grécia, Rússia e Letónia. Pior só o Luxemburgo, México e Brasil.

Igualmente negativo é o facto de tanto os melhores como os piores alunos portugueses (entendidos como aqueles cujos resultados se concentram nos dois extremos da escala) terem classificações inferiores à média da OCDE nestes mesmos segmentos da população. Por exemplo, nos testes de literacia matemática, o valor máximo obtido pelos 25 por cento de alunos lusos com pior desempenho é de 392. Na OCDE, essa classificação média ascende aos 435 pontos. O mesmo acontece com os melhores estudantes: o "mais fraco" dos melhores 25 por cento dos estudantes portugueses alcança uma nota de 520, enquanto a média na OCDE é de 571.

Outra diferença detectada prende-se com o sexo dos estudantes, sendo evidente uma clara supremacia dos rapazes no que respeita às competências matemáticas. Em 15 dos 32 países analisados, eles apresentam resultados médios significativamente superiores aos das raparigas. Portugal acompanha a tendência, ainda que não seja um dos países onde as diferenças mais se fazem sentir. No domínio das ciências, o sexo já não parece ter qualquer relação, já que as diferenças encontradas são pequenas e indicam ora uma maior apetência das alunas, ora dos rapazes. Em Portugal, a supremacia das raparigas não é estatisticamente significativa

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Tarefas de Leitura Que Impliquem Grande Rigor Dificultam a Vida Aos Portugueses
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

Raparigas mais competentes

Uma pequena história, um diagrama, um formulário - são apenas exemplos de textos que foram apresentados aos alunos de 15 anos na parte do teste do PISA que pretendia aferir os níveis de literacia em leitura. Na espaço da OCDE, seis em cada dez jovens conseguiram situar-se no nível 3 ou mais. Em Portugal, aconteceu apenas com 48 por cento. E mais de um quarto dos alunos situa-se no nível 1 ou menos 1. Mas uma análise dos resultados por item testado revela "nuances" que estas médias globais não desvendam: desde logo, que os alunos portugueses não se dão bem com textos informativos extensos, em que as respostas exigem grande precisão. Esta é uma das tarefas onde os lusos se afastam ainda mais dos valores médios da OCDE.

Em compensação, obtêm globalmente um maior sucesso relativo quando o texto proposto é uma narrativa e se lhes pede que interpretem e reflictam sobre o conteúdo, "o que apela para conhecimentos prévios do sujeito". Em poucas palavras: o que implica uso de maior rigor penaliza os portugueses - mas também os gregos, os mexicanos e os espanhóis; se os textos forem dramáticos (por exemplo, um excerto de uma peça de teatro), também será certo que o resultado será pior. O relatório português, elaborado pelo Gabinete de Avaliação Educacional (Gave), não aprofunda muito as razões desta situação, mas tudo indica que está ligada às práticas de leitura dos alunos e de ensino de leitura nas escolas portuguesas.

Outro dado curioso é o facto de Portugal ser um dos países onde a diferença entre o desempenho das raparigas e dos rapazes é evidente. Elas são leitoras mais competentes do que eles, conseguindo em média mais 25 pontos nos itens de leitura. Na OCDE, a diferença média ronda os 32 pontos. E em todos os países analisados a percentagem de rapazes que se situam no nível 1 ou menos 1 na escala de literacia em leitura é sempre superior à das raparigas. O facto de as raparigas lerem por prazer com bastante mais frequência do que os rapazes pode ser uma das causas para que assim seja.

O que distingue os competentes?

A relação entre os resultados no PISA no domínio da leitura e o perfil pessoal do alunos é também bastante evidente. Em Portugal, os estudantes que foram testados fizeram um teste de rapidez de leitura. Para além disso, e tal como os seus colegas de outros países, tiveram de preencher um questionário onde se lhes pedia que explicitassem as suas estratégias de estudo. Estão motivados? São perseverantes? Recorrem muito à memória? Definem o que devem estudar antes de começar? - são apenas exemplos de perguntas para as quais a OCDE queria respostas.

Os alunos com um nível de literacia igual ou superior a 4 distinguem-se por várias coisas: lêem mais rapidamente, têm um sentimento de pertença à escola, interessam-se pela leitura, têm uma boa imagem académica de si próprios, têm algumas estratégias de estudo. Esforço e perseverança são assinalados por estes jovens como essenciais para o desempenho escolar. Já a memorização é mais utilizada pelos alunos com piores desempenhos.

Posto isto, "é fundamental que a escola proporcione aos estudantes a tomada de consciência da existência de diferentes estratégias de estudo e aprendizagem", alerta o Gave. É igualmente "importante que os alunos se sintam na escola como fazendo parte integrante da instituição e que reconheçam a necessidade do esforço e da perseverança para serem bem sucedidos". É que, pelos menos aparentemente, isso faz muita diferença.

Curiosamente, as notas que os professores de português deram aos alunos testados no âmbito do PISA têm pouco a ver com os resultados que estes vieram a obter nos testes de literacia. O Gave conclui que isso quer dizer que "o que é apreciado na avaliação que se faz nas nossas escolas tem pouco a ver com as competências implicadas" no PISA.

A.S.

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Outros Dados
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

Japão e Coreia são os países com melhores resultados na literacia matemática e científica. Os alunos da Finlândia são os melhores na literacia em leitura.

23 por cento das raparigas e 40 por cento dos rapazes da OCDE afirmam que não lêem nada para além daquilo a que são obrigados na escola. Mas Portugal, bem como outros países com níveis de literacia "modestos", apresenta índices de leitura muito superiores. Apenas 8,3 e 29 por cento, respectivamente, afirmam não ler por prazer. 17 por cento das portuguesas e 25 por cento das finlandesas dizem que lêem entre uma e duas horas por dia. A média internacional é 13 por cento.

A OCDE considera que "os fracos resultados que, globalmente, os rapazes apresentam a nível internacional são um desafio para os decisores políticos que devem, cada vez mais, prestar atenção às disparidades entre os sexos". É que mesmo em disciplinas, como a matemática, onde em média os rapazes são melhores, eles representam sempre uma fatia maior do bolo dos jovens com níveis muito baixos de literacia. Ou seja, é o facto de haver rapazes brilhantes que faz com que a média masculina suba nalguns casos.

Na Grécia, Hungria, Reino Unido, Austrália ou Portugal passam-se mais trabalhos de casa aos alunos do que a média da OCDE. Nestes casos, os alunos que por regra cumprem os deveres têm melhores desempenhos em leitura.

Países como a Bélgica, Alemanha ou Hungria apresentam grandes disparidades de resultados dos alunos de escola para escola, mas poucas diferenças entre o desempenho dos de uma mesma escola (o que pode indiciar, por exemplo, a existência de mecanismos de selecção por parte dos estabelecimentos). Em Portugal, as diferenças entre escolas estão dentro da média; contudo, há disparidades significativas dentro do mesmo estabelecimento, o que leva a crer que nas salas de aulas convivem alunos muito bons com outros muito fracos.

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Médias dos Resultados no Teste de Leitura
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

Finlândia 546

Canadá 534

Nova Zelândia 529

Austrália 528

Irlanda 527

Coreia do Sul 525

Reino Unido 523

Japão 522

Suécia 516

Áustria 507

Bélgica 507

Islândia 507

França 505

Noruega 505

Estados Unidos 504

Dinamarca 497

Suíça 494

Espanha 493

Rep. Checa 492

Itália 487

Alemanha 484

Hungria 480

Polónia 479

Grécia 474

Portugal 470

México 422

Média 500

 

Média dos Resultados no Teste de Matemática
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

Japão 557

Coreia do Sul 547

Nova Zelândia 537

Finlândia 536

Austrália 533

Canadá 533

Suíça 529

Reino Unido 529

Bélgica 520

França 517

Áustria 515

Dinamarca 514

Islândia 514

Suécia 510

Irlanda 503

Noruega 499

Rep. Checa 498

Estados Unidos 493

Alemanha 490

Hungria 488

Espanha 476

Polónia 470

Itália 457

Portugal 454

Grécia 447

Luxemburgo 446

México 387

Média 500

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Média dos Resultados no Teste de Ciências
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

Coreia do Sul 552

Japão 550

Finlândia 538

Reino Unido 532

Canadá 529

Nova Zelândia 528

Austrália 528

Áustria 519

Irlanda 513

Suécia 512

Rep. Checa 511

França 500

Noruega 500

Estados Unidos 499

Hungria 496

Islândia 496

Bélgica 496

Suíça 496

Espanha 491

Alemanha 487

Polónia 483

Dinamarca 481

Itália 478

Grécia 461

Portugal 459

Luxemburgo 443

México 422

Média 500

 

Desempenho dos Alunos Portugueses Aquém dos Investimentos Realizados
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

De uma maneira geral, os alunos dos países de maiores recursos económicos revelam melhores desempenhos nos testes do PISA. No entanto, há quem com pouco dinheiro consiga capitalizar ao máximo o investimento feito e há quem, tendo em conta a despesa realizada, não obtenha os resultados esperados. É o caso de Portugal, onde as competências demonstradas pelos alunos de 15 anos ficam abaixo do que seria possível, atendendo às verbas investidas pelo país na educação.

Já a Irlanda e a Coreia do Sul são exemplos de grande eficácia, uma vez que, assumindo uma despesa por estudante inferior a Portugal, não só conseguem registar melhores resultados, como atingem desempenhos francamente acima do expectável. E são vários os casos em que países com indicadores económicos com valores próximos acabam por apresentar desempenhos médios (nos três domínios avaliados) muito díspares. Veja-se a situação do Reino Unido e da Alemanha: despendem praticamente o mesmo em educação e, enquanto o primeiro se coloca bem acima da média da OCDE, os alunos alemães revelam um nível de competências abaixo desse valor.

Os autores do estudo concluíram ainda que os investimentos mais volumosos não correspondem, no entanto, aos melhores desempenhos. A Áustria, os Estados Unidos e a Dinamarca são os países que mais gastam com os seus alunos mas não foram eles os que tiveram os melhores resultados nos testes do PISA, ainda que se situem acima ou na média da OCDE.

I.L.

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O Bom Estudante É Filho de "Boas Famílias"
Por BÁRBARA WONG
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

Acesso à cultura é importante

Contexto familiar influencia os resultados dos alunos, conclui o estudo

Aos estudantes de 15 anos o PISA perguntou tudo: o que fazem os pais, a sua escolaridade, que bens culturais têm em casa e quais os haveres familiares. Tudo isto porque os resultados em literacia, matemática e ciências podem não dever-se apenas às capacidades de estudo dos miúdos, mas também aos seus antecedentes familiares e ao ambiente que vivem em casa. Aliás, o PISA chega mesmo à conclusão que os factores sócio-económicos têm impacto nos resultados dos alunos. "A análise demonstra que as diferenças de desempenho dos estudantes nos vários países que participam no PISA não desaparece quando são tidos em conta os antecedentes familiares", diz o relatório.

São vários os factores que podem determinar o melhor desempenho dos jovens. Por exemplo, o estatuto profissional dos pais influencia ou não os resultados dos alunos? Depende. Na maior parte dos países, sim; ou seja, os estudantes cujos pais são quadros superiores - médicos, professores universitários ou magistrados - têm melhores resultados do que os filhos dos pequenos agricultores, mecânicos, taxistas, camionistas ou metalúrgicos. A profissão dos pais pode influenciá-los a aspirar a mais - logo, estudam porque sabem que esse é o meio para atingir os seus fins, aponta o relatório.

Na maioria dos países, a distância que separa os que têm bons resultados e são filhos de quadros superiores dos que têm piores resultados e são filhos de pais com estatuto profissional mais baixo é significativa. No entanto, existem estados, como a Coreia do Sul e a Finlândia, em que os alunos com os piores resultados estão ao mesmo nível daqueles que têm melhores resultados nos restantes países. O facto de a Coreia do Sul ser um país onde existe uma forte cultura para o sucesso pode ser uma das explicações.

E o nível de riqueza dos progenitores pode contribuir ou não para o sucesso escolar? Sim. Na prática, os filhos das famílias mais ricas tendem a sair-se melhor. No entanto, este factor tem menos peso do que a profissão dos pais. Por exemplo, nos países nórdicos, na Áustria, Bélgica, Itália e Japão, o nível de riqueza não tem grande influência nos resultados. No Japão, por exemplo, os estudantes "mais pobres" têm melhores resultados, nas três áreas avaliadas, do que os "mais ricos" de muitos países.

Bom relacionamento em casa pode ser determinante

O PISA perguntou ainda aos estudantes se tinham acesso à cultura, literatura, poesia e arte. Se em casa havia livros, quadros e com que frequência assistiam a espectáculos. São os miúdos que mais acesso têm à cultura que se dão melhor nos domínios avaliados - um factor que se reflecte mais nos resultados do que a riqueza dos pais.

Para além dos bens materiais, existem outras variáveis, como a interacção com os pais, que podem influenciar os resultados. Conversar com os filhos sobre política, cultura, sobre qualquer coisa, preocuparem-se em saber como estão, pode ser um meio de contribuir para o sucesso escolar. O PISA confirma que um bom relacionamento em casa pode ser determinante para melhores resultados. No caso português, o ambiente familiar é relevante para as aprendizagens dos alunos, mais do que os recursos económicos.

E quem são os estudantes com piores resultados? O relatório conclui que são os jovens oriundos de famílias monoparentais. É o que acontece no Reino Unido e nos EUA. No primeiro caso, no entanto, os resultados são superiores à média da OCDE. Neste ponto, o PISA alerta para a necessidade de as escolas interagirem com as famílias monoparentais, apoiando-as. Outros alunos com desempenhos mais fracos são os filhos de imigrantes, para quem a língua da escola não é a materna e que têm mais dificuldade em responder aos testes.

O objectivo da política pública de educação é providenciar oportunidades iguais para todos os estudantes, de maneira a que todos consigam oportunidades semelhantes. Um objectivo que é difícil de alcançar quando o contexto familiar tem tanto peso nalguns países, avança o relatório. O futuro é óbvio: serão os alunos com mais dificuldades que terão menos oportunidades de emprego.

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A Própria Escola Também Pode Influenciar Os Resultados
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

Também a escola onde o aluno estuda pode influenciar os seus resultados. O PISA demonstra que dois alunos com um contexto familiar semelhante, se frequentarem duas escolas diferentes - uma boa e outra má - tendem a ter resultados distintos. No entanto, o PISA observou que os estudantes mais favorecidos frequentam as escolas com mais recursos e professores mais qualificados, bom ambiente e disciplina. Do outro lado, estão os alunos com estatuto económico-social mais baixo, que andam em escolas com menos recursos, mas que também não têm por hábito utilizar os equipamentos existentes.

Em muitos países, as escolas não têm autonomia, mas o PISA considera que a descentralização pode ser um caminho a seguir para obter melhores resultados. E isto vale mesmo para os estabelecimentos de ensino com menos recursos ou que recebem os miúdos mais pobres. Segundo o estudo, verifica-se que os desempenhos são melhores nas escolas que têm liberdade para inovar, em que os professores se comprometem em ensinar, são exigentes e conseguem um bom relacionamento com os alunos. B.W.

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EDITORIAL
A Nossa Tragédia

Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

Mais uma vez, a nudez crua da verdade: os alunos portugueses com 15 anos são dos pior preparados da OCDE. No conjunto das três áreas avaliadas - literacia em leitura, matemática e ciências -, só o México ficou sistematicamente atrás de Portugal.

Como disse o ministro da Educação, estes resultados não surpreendem - mas não era isso que ele devia constatar. O que devia sublinhar é como são inquietantes. E não se desculpar com "a carga histórica, social, política e educativa" do "país que temos". Tudo isso já nós sabemos - o que precisamos de saber é como é que vamos ultrapassar o pior dos nossos atrasos.

Talvez muitos portugueses não tenham ainda entendido, mas no mundo em que vivemos a riqueza dos países, o bem estar dos seus povos, não brota de poços de petróleo, minas de diamantes ou outras benesses da natureza. A riqueza e a pobreza das nações é uma função directa da sua capacidade de trabalhar, de criar, de inventar, de se organizar, e isso só é possível com uma população que sabe ler, escrever e contar - bem.

Ora é aqui que reside a nossa tragédia. Não é em possuirmos um produto interno bruto que é apenas uma fracção da média da União Europeia, nem é em irmos perder os fundos dentro de meia dúzia de anos: é em este estudo comprovar que os jovens que por essa altura estarão a chegar ao mercado de trabalho vão saber menos e estar pior preparados do que todos os nossos vizinhos e concorrentes.

Os dados revelados ontem, na sua crueza, querem dizer que de pouco valem as previsões dos economistas sobre quanto anos levaremos a ser tão ricos como os nossos parceiros europeus: eles mostram que o mais provável é o abismo entre Portugal e a Europa crescer, não diminuir. Não há milagres económicos quando não há competências para os protagonizar - e não falamos de "cérebros", falamos da capacidade para o mais banal dos trabalhadores exercer com diligência e vontade de aprender e evoluir mesmo a mais simples das tarefas.

Importa pois saber porque estamos onde estamos - e como podemos sair deste poço onde mal penetra a luz. O estudo da OCDE tem muitos elementos que ajudam a pensar.

De imediato salta à vista que o problema português não é um problema de recursos. Portugal gasta, por cada aluno, mais do que boa parte dos países com que nos comparamos, e obtém resultados bem piores. O que quer dizer que desperdiça. O que quer dizer que podia gastar menos e saber mais, como a Irlanda e a Coreia. Fazer aumentar as despesas em Educação, como foi bandeira inicial da actual maioria, não é solução: é mais importante saber gastar melhor o muito que já se gasta.

O estudo também mostra a importância dos ambientes familiares. Distingue ricos de pobres, mas pouco: separa sobretudo ambientes familiares estáveis onde se valoriza o estudo de ambientes familiares desfeitos onde se pratica o desenrascanso. O estudo é particularmente duro para com as famílias monoparentais: em quase todos os países os alunos provenientes de tais famílias têm piores resultados do que os seus colegas, o que os condena a futuros mais difíceis e com rendimentos mais baixos.

A qualidade das escolas também é importante. O estudo sublinha a importância das boas escolas, valoriza aquelas que são capazes de utilizarem, de forma competente, graus progressivos de autonomia e, sobretudo, elogia as que praticam a exigência e acreditam na disciplina.

Face a este relatório, o ministro Júlio Pedrosa considerou ser importante ver como países cujos resultados, há poucos anos, eram semelhantes aos portugueses, foram capazes de dar o salto, e referiu-se em especial à Finlândia e à Irlanda. É uma boa ideia, já que poder-se-á reparar, por exemplo, que nesses países o grau de autonomia das escolas é maior, a disciplina dentro da escola também, tal como maior é o empenhamento profissional dos professores. Já as escolas, fisicamente, nem são melhores, nem piores, do que as nossas.

Daqui resulta, de novo, o factor humano e institucional. A Portugal não falta dinheiro, apenas sobram desculpas (a que propósito, por exemplo, é o que o ministro falou de Rendimento Mínimo Garantido para comentar as dificuldades da educação?). A Portugal também não faltam meios nem professores, sobram é muitos anos de "eduquês" laxista e pouco exigente.

Daí a nossa tragédia: atrasados na nossa riqueza relativa, estamos ainda mais atrasados na capacidade para, trabalhando, recuperar tal atraso.

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Reacções pelo Mundo
Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2001

Espanha

"Alunos espanhóis do ensino secundário entre os piores dos países desenvolvidos" é o título do "El País", num artigo que dá conta de como os espanhóis têm mais dificuldades do que a média da OCDE em resolver problemas da vida real que impliquem conhecimentos em leitura, matemática e ciências. A Espanha tem 16 por cento dos alunos no nível 1 ou abaixo em literacia em leitura (em Portugal são 27 por cento). Conclui o "El Mundo": em Espanha, os jovens de 15 anos "não se destacam propriamente pelas suas capacidades intelectuais".

França

Em 1994, um estudo da OCDE revelou que 40 por cento dos jovens franceses eram iletrados. Caiu o Carmo e a Trindade porque o Governo francês contestou os resultados. O episódio é recordado na edição de ontem do "Le Monde", no artigo sobre o PISA. Desta vez, não há razões de queixa: não só o Governo acha que o PISA é mais bem feito, como os resultados indicam que a França está dentro da média ou até acima do desempenho dos alunos da OCDE.

Itália

Mais um país que o PISA colocou abaixo da média da OCDE. Resultado, para o "La Repubblica": "Estudantes italianos chumbam em leitura, matemática e ciências". E continua: "afundam-se" quando lêem, "sofrem" se têm de resolver problemas de matemática. É "uma catástrofe?". Os especialistas contactados afirmam que nem tanto e lembram que a Itália só começou a apostar na escolarização nos anos 70.

Estados Unidos

"Inaceitáveis". Foi assim que os responsáveis norte-americanos reagiram aos resultados obtidos pelos alunos do país. No "ranking" internacional, os EUA aparecem com classificações sempre dentro da média da OCDE, seja na leitura, matemática ou ciências, mas têm 14 países à sua frente. Para Rod Paige, secretário da Educação, em declarações à CNN.com e ao "The New York Times", estar apenas dentro da média é uma infelicidade: "Na economia global, os países que estão à nossa frente competem connosco. Estar dentro da média não chega".

Austrália

O "The Daily Telegraph" australiano afirma, orgulhoso: "Os nossos alunos são os segundos melhores do mundo". Para além de conquistarem o segundo lugar nos testes de literacia em leitura e matemática, o grupo dos melhores alunos australianos tem resultados tão bons que são, provavelmente, melhores do que os bons dos outros países. O diário lembra, no entanto, que nem tudo são rosas e sublinha as enormes disparidades na leitura entre rapazes e raparigas.

Reino Unido

"O século XXI exige mais", declarou a ministra da Educação, Estelle Morris, à BBC. Os resultados não desagradam aos responsáveis - em ciências, por exemplo, o Reino Unido aparece nos cinco primeiros lugares - que os atribuem às reformas na educação que têm sido levadas a cabo nos últimos anos. Contudo, acham que há que fazer melhor, nomeadamente para minimizar os efeitos sócio-económicos no desempenho dos alunos.

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Ministro da Educação Diz Que Os Resultados Não Surpreendem
Por ISABEL LEIRIA
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

Alargamento da taxa de escolarização apontado como indissociável do "modesto" desempenho português

Todos as avaliações já feitas apontavam para as fragilidades dos alunos portugueses e, por isso, os resultados daquele que é o mais recente e mais abrangente estudo internacional não surpreenderam o ministro da Educação, Júlio Pedrosa. "Não há aqui nenhuma surpresa especial, mas a confirmação de informações que já tínhamos e que têm de ser levadas a sério", comentou Pedrosa, durante a apresentação oficial do PISA (Programme for International Student Assessment), ontem no Ministério da Educação, em Lisboa.

Reconhecendo que o desempenho médio dos alunos portugueses é, "de uma forma geral, modesto" e que "não satisfaz", Pedrosa ressalvou, no entanto, que, para além de causas relacionadas com a "forma como se trabalha", muito se deve ao "país que temos". "Este é um factor decisivo. A carga histórica, social, política, educativa é algo que temos de suportar", sublinhou.

Mas, para além de um passado de atrasos, são também constrangimentos do nosso tempo que dificultam o sucesso dos alunos. Por exemplo, o alargamento da taxa de escolarização. "Não é impunemente que se associa a atribuição do Rendimento Mínimo Garantido à frequência escolar. É isso que se deve fazer, mas temos de assumir a responsabilidade que estes meninos não têm as mesmas condições para progredir". A estas condicionantes junta-se ainda a influência dos factores exteriores à escola - o estudo comprova a importância dos mais variados indicadores sócio-económicos e culturais - no desempenho dos alunos.

E se a informação agora tornada pública sugere algumas pistas sobre as áreas que mais problemas levantam aos alunos portugueses, o ministro da Educação aproveitou a ocasião para referir uma série de medidas já em curso: do Estudo Acompanhado introduzido pela reorganização curricular do ensino básico em vigor ou a reformulação de programas do ensino secundário. Depois, continuou Pedrosa, é preciso analisar o que fez com que países que apresentavam, até há pouco tempo, resultados semelhantes aos portugueses - como a Finlândia e a Irlanda - assumam agora resultados francamente acima da média da OCDE.

De resto, nem tudo é negro no que respeita às competências demonstradas pelos estudantes de 15 anos. Uma grande percentagem de alunos portugueses que com esta idade estão no 10º ano e os que estudam na área da Direcção Regional de Educação de Lisboa obtêm resultados idênticos ou mesmo superiores à média da OCDE, exemplificou o ministro.

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Percentagem de Alunos em Cada Um dos Níveis de Literacia em Leitura
Domingo, 9 de Dezembro de 2001

Rapazes

Abaixo do nível 1

8

Nível 1

14.2

Nível 2

23.3

Nível 3 

27.9

Nível 4

19.4

 Nível 

57.2

Raparigas

Abaixo do nível 1

3.7

Nível 1

9.3

Nível 2

 20 

Nível 3 

29.6 

Nível 4

25.4 

 Nível 

11.9

      

Nota: Os alunos no nível 1 só realizam tarefas de leitura muito básicas; no nível 5 são capazes de tarefas sofisticadas.

Fonte: Pisa/OCDE

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Prova Escrita
Resultados Miseráveis a Milhões de Custo

Por SANTANA CASTILHO
Público - Sábado, 15 de Dezembro de 2001

O PISA - Programme for International Student Assessment - divulgou mais um relatório dos estudos que, sistematicamente, produz sobre as competências adquiridas por estudantes de vários países. Entre os 32 tratados, estamos no nosso lugar cativo: a cauda.

A imprensa, designadamente este jornal, ocupou-se profusamente da divulgação dos resultados, dissecando ainda o significado dos indicadores e das correlações estabelecidas. Ocorre-me acrescentar algumas reflexões.

A questão essencial da política educativa, pela qual o Governo é obviamente responsável por interposto ministro da Educação, seria, a propósito da divulgação deste libelo acusatório à sua ineficácia, dizer-nos o que tenciona fazer para ultrapassar o mais hipotecante de todos os atrasos do país: a impreparação da sua juventude. Lamentavelmente, o que vimos respigado pela comunicação social, das declarações do ministro da Educação, foram redundâncias, lamúrias de que estamos saturados e sinais sérios de incapacidade de fazer o que é preciso.

Dizer que "não há aqui nenhuma surpresa especial, mas a confirmação de informações que já tínhamos e que têm de ser levadas a sério" é redundante e muito pobre para ministro. Qual seria a alternativa? Levar a brincar?

Retomar o estafado discurso da esquerda inoperante, tentando desculpar-se com "a carga histórica, social, política e educativa" do "país que temos" continua a ser pobre e próprio dos ministros que, para nosso azar, temos tido. Teria antes apreciado a coragem de denunciar a falência dos colegas que o antecederam ou compreendido, no mínimo, o silêncio diplomático da corporação dos "boys". É que 27 anos de tal lamúria são saturantes.

Mas, definitivamente derrotante e indutor de incapacidade foi assistir à invocação de iniciativas, que ampliarão o desastre, como instrumentos de correcção do mesmo. O ministro da Educação referiu concretamente as reformas curriculares dos ensinos secundário e básico e o "Estudo Acompanhado", por esta última instituído, como contribuições para a inversão da situação. Nada de mais errado. São tão-só as últimas produções de 27 anos de laxismo e de experiências pedagógicas absolutamente tontas. A leitura dos preâmbulos dos decretos-leis que as instituem patenteia a retoma cíclica de velhos problemas como se eles fossem novos e atacados, então, pela primeira vez. É um repegar patético de missões, ignorando o fracasso sucessivo de outras idênticas, anteriormente assumidas com as mesmíssimas parangonas preambulares.

A Educação em Portugal vive de modas, como a alta costura. Por pano de fundo, a mesma futilidade. Tome-se o ensino da Matemática como exemplo. O ensino baseado no treino repetitivo de processos foi vilipendiado pelas teorias da chamada Matemática Moderna, que endeusou a teoria dos conjuntos e o pensamento abstracto. Mas a preponderância das suas teses foi passageira, dando lugar a uma tendência de regresso ao passado, logo destronada em favor do anglo-saxónico "problem solving". Seguiu-se a abordagem "contextualizante", dominada pela preocupação de utilizar as realidades diárias como veículo pedagógico por excelência. Sem paixões e com senso comum, já o meu velho professor de instrução primária, incapaz de debitar duas linhas de discurso pedagógico sob a égide de qualquer destes modismos, os utilizava a todos para me ensinar a fazer contas.

O nosso drama é não serem reconhecíveis, nas práticas gestionárias vigentes, nenhuns sinais de orientação para a eficácia. À explosão da procura social da educação e à mudança da filosofia e dos objectivos do sistema, que se sucederam à "revolução dos cravos", não correspondeu qualquer visão estratégica que determinasse processos gestionários eficazes ou, pelo menos, minimamente capazes de responder à nova lógica, como os anteriores respondiam à que então vigorava. Os últimos 27 anos foram de rotundo laxismo.

A análise previsional não se faz, ou quando se faz não se aplica. As decisões são casuísticas e desprovidas de medidas preparatórias que lhes assegurem o êxito. Como consequência, resulta o estrondoso falhanço de todas as reformas, decididas sem previsão de consequências nem garantia de meios, ridicularizadas pelas discrepâncias patentes entre a grandiloquência dos objectivos e a miséria das realizações.

A profissionalização da gestão educacional e a sua orientação para a eficácia é o primeiro e o mais determinante problema para obstar a resultados miseráveis a milhões de custo.