folha do alcino
p o e m a r
alcino simoes Set95

 

 

 

 

 

 

Uma pedra no sapato

Uma pedra no sapato.

Um inconveniente.

Eu ando descalço.
E tenho calos.
E tenho suor.
E tenho uma pedra no sapato.

Eu ando pisando as ervas.
Eu ando pisando as formigas.
Que pensarão elas após a minha passagem?
Vão refilar pelo tremor de terra que eu causo ...
Vão juntar-se para ir ao funeral das que morreram ...
Vão continuar a trabalhar ...

Eu ando pisando as ervas.
Eu ando pisando as pedras.
E tenho uma pedra no sapato.

Não é muito grande.
E é reboliça deslizando de dedo para dedo.
Eu tenho uma pedra no sapato.

Vou andando devagar pelo carreiro.
O cheiro do azevinho alegra-me.

Uma pedra grande aparece-me à frente.
Não sei de onde vêm.
Será que caiu ali, só porque eu aqui passo?
É estranho que não tenha liquens agarrados ...
Cinzenta e multiforme, entre dois arbustos aparecem à minha frente ...

Ao lado, duas borboletas brincam.
Passo ao lado delas e subo para cima da pedra.
De cima dela a paisagem é diferente,
mais baixa e espaçosa.

 

Continuo a andar com uma pedra ...
no sapato.
... Uma pedra no sapato ...

Terei que a tirar, a qualquer momento.
Não posso continuar com a estranha sensação
que ela causa ora a um dedo ora ao outro.

Não posso continuar a suportar a sua existência.
Prefiro continuar sem a ter,
nem que, por bem,
ela me faça sentir que por fora está do meu corpo.

Apesar de tudo, a pedra no sapato é minha.
Eu não pedi que ela ali ficasse.

Mas é minha porque ninguém a virá confiscar, suponho que não seja preciso.

É minha porque está entre os meus dedos.
É minha e eu não a quero.
É minha e eu sinto-a.
É minha ...

 

Tenho uma pedra no sapato.
E é minha.

 

Agora o carreiro tem menos ervas.

 

Talvez porque encontrei encruzilhadas atrás.
Que pena!

As ervas no carreiro são sempre agradáveis.
Não penso em voltar atrás.

Mas agora é certo que o carreiro não é tão agradável.

De vez em vez aparecem raizes grossas que atravessam o carreiro.

Certamente provocadas pelo fluir
nervoso e precipitado das águas do inverno
que agora finda.

Por acaso tenho sede,
mas não posso sequer pensar nisso!
Pois mais sede teria!

Na última curva do carreiro havia um pequeno charco em que eu poderia ter bebido.

Mas tenho de continuar.

Continuo com a pedra no sapato
que me faz apressar o passo.

Não quero agora parar
apesar de ter uma pedra no sapato.


 

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