Uma
pedra no sapato.
Um
inconveniente.
Eu
ando descalço.
E
tenho calos.
E
tenho suor.
E
tenho uma pedra no sapato.
Eu
ando pisando as ervas.
Eu
ando pisando as formigas.
Que
pensarão elas após a minha passagem?
Vão
refilar pelo tremor de terra que eu causo ...
Vão
juntar-se para ir ao funeral das que morreram ...
Vão
continuar a trabalhar ...
Eu
ando pisando as ervas.
Eu
ando pisando as pedras.
E
tenho uma pedra no sapato.
Não
é muito grande.
E
é reboliça deslizando de dedo para dedo.
Eu
tenho uma pedra no sapato.
Vou
andando devagar pelo carreiro.
O
cheiro do azevinho alegra-me.
Uma
pedra grande aparece-me à frente.
Não
sei de onde vêm.
Será
que caiu ali, só porque eu aqui passo?
É
estranho que não tenha liquens agarrados ...
Cinzenta
e multiforme, entre dois arbustos aparecem à minha frente ...
Ao
lado, duas borboletas brincam.
Passo
ao lado delas e subo para cima da pedra.
De
cima dela a paisagem é diferente,
mais baixa e espaçosa.
Continuo
a andar com uma pedra ...
no sapato.
...
Uma pedra no sapato ...
Terei
que a tirar, a qualquer momento.
Não
posso continuar com a estranha sensação
que ela causa ora a um dedo ora ao outro.
Não
posso continuar a suportar a sua existência.
Prefiro
continuar sem a ter,
nem que, por bem,
ela me faça sentir que por fora está do meu
corpo.
Apesar
de tudo, a pedra no sapato é minha.
Eu
não pedi que ela ali ficasse.
Mas
é minha porque ninguém a virá confiscar, suponho que não seja preciso.
É
minha porque está entre os meus dedos.
É
minha e eu não a quero.
É
minha e eu sinto-a.
É
minha ...
Tenho
uma pedra no sapato.
E
é minha.
Agora
o carreiro tem menos ervas.
Talvez
porque encontrei encruzilhadas atrás.
Que
pena!
As
ervas no carreiro são sempre agradáveis.
Não
penso em voltar atrás.
Mas
agora é certo que o carreiro não é tão agradável.
De
vez em vez aparecem raizes grossas que atravessam o carreiro.
Certamente
provocadas pelo fluir
nervoso e precipitado das águas do inverno
que agora finda.
Por
acaso tenho sede,
mas não posso sequer pensar nisso!
Pois mais sede teria!
Na
última curva do carreiro havia um pequeno charco em que eu poderia ter bebido.
Mas
tenho de continuar.
Continuo
com a pedra no sapato
que me faz apressar o passo.
Não
quero agora parar
apesar de ter uma pedra no sapato.