Alcino Simões Mai 2004 |
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O conhecimento existe na cabeça de cada humano. Para que quem questiona (o inquiridor) possa obter a informação que pretende, deverá formular a questão de uma forma precisa. Principalmente, quando não tem oportunidade para reformular a questão, de modo a obter a informação que pretende (ver nota 1 no final).
Para além da questão, o inquirido vai fornecer uma resposta dependendo de vários factores e parâmetros, nomeadamente: tempo; ambiente; concentração; interesse; âmbito, objecto, objectivo e destino da informação questionada; características do questionador em relação ao inquirido.
Cada palavra de uma questão é pluri-significativa, podendo o realce de uma palavra ou a paragem no meio da frase da questão induzir resposta totalmente distintas.
A minha preocupação foi reflectir sobre a importância para quem vai responder, da primeira palavra que aparece numa questão.
Claro que esta influência é minúscula. Mas acredito que possa ser determinante nas respostas, quando existem muitas questões mal formuladas. Ou ainda, pode ser a pequena "pedra de toque" dependente do contexto de quem vai responder. Existirá um tipo de questão mais susceptível de fuga ou distorção da informação que o inquirido possui?
A seguir apresento um exemplo e uma interpretação:
>>> Exemplo
- se a frase começa com === então o inquirido vai pensar
... o inquirido vai agir
>>> Os seus pensamentos obtiveram um contributo por ter assistido à televisão?
- Sujeito passivo === questão retorcida obriga o inquirido a pensar no sujeito
passivo, voltar atrás ao sujeito activo, destacar-se para pensar na acção do
verbo que está no meio da frase; parece-lhe que o inquiridor quer saber outra
coisa para além do que está a perguntar
... responde de acordo com a personalidade do entrevistador e do ambiente onde
está.
>>> A assistência à televisão contribuiu para os seus pensamentos ?
- Sujeito activo === questão direccionada mas o verbo está no meio da frase o
que ainda obriga o inquirido a afastar-se; vê-se mais a si a assistir televisão
dos do que os contributos que possa ter tido
... responde de acordo com aquilo que tem sentido quando viu televisão.
>>> Quais foram os contributos para os seus pensamentos por ter assistido à
televisão?
- Quantificador === questão curiosa para o inquirido; questão tipo escola
primária parece induzir inocência do inquiridor; sugere liberdade de resposta
... tenta ser honesto na resposta, de acordo com o seu contexto
>>> Tem contributos para os seus pensamentos por ter assistido à televisão?
- Verbo do sujeito === questão directa faz o inquirido pensar que se estão a
intrometer na vida dele
... vai evitar respostas que não sejam eticamente correctas ou vai dar a
resposta que o inquiridor espera ouvir
>>> Indique os contributos para os seus pensamentos por ter assistido à
televisão?
- Verbo imperativo === questão obriga o inquirido, o que se pode tornar
desagradável; um inquirido em situação inferior hierarquicamente, em relação ao
inquiridor, sente a obrigação de responder o mais correctamente possível
... responde de acordo com o contexto, a natureza da informação e a
disponibilidade do inquirido
>>> Por ter assistido à televisão, quais foram os contributos para os seus
pensamentos ?
- Contexto === questão preparatória mostra âmbito e expõe uma curiosidade no que
se pretende do inquirido, que fica agarrado ao contexto fornecido ("Por ter
assistido à televisão")
... responde com maior rigor
Penso que este último formato é o mais adequado para que o inquirido forneça as
respostas mais fidedignas e verosímeis. Parece ser a mais agradável para o
inquirido.
O modelo de comunicação de Jakobson poderá apoiar esta
reflexão (funções e valores da linguagem num acto discursivo)
Penso que as questões formuladas com verbos na 3ª pessoa obriga o inquirido a
afastar-se do objecto e analisar-se.
O tempo verbal na questão que se torna mais difícil para o
inquirido responder é o presente. É um tempo incerto, o que obriga o inquirido a
avaliar-se naquele instante (o que é difícil, logo desmotivante para o
inquirido)
Nota 1: o livro seguinte aborda de uma forma muito agradável
a problemática da questionação numa investigação.
Foddy, William. (1996 [1993]). Como Perguntar, teoria e prática
da construção de perguntas em entrevistas e questionários. (Trad. de Campos, L.).
Oeiras: Celta Editora.
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Daquilo que pensou ... O que apetece dizer? |
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Comentários:
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Nota 2: Estas palavras apenas foram possíveis com os contributos de conversações com alguns amigos, de quem estou agradecido. Nomeadamente, Teresa Agostinho, Carla Cunha, Carlos Patrício, Ana Louro
Simões, Alcino. (1998-200?, Mai 2004). Formulação
de uma questão. Folha do alcino.
http://www.prof2000.pt/users/folhalcino/ideias/comunica/formulaquestao.htm
alcinosimoes@yahoo.com