Formação de Professores
?? e Alcino Simões Jul 98

Texto de Apoio

A V A L I A R  ?

 

Reflexão subordinado ao tema Currículo e Didáctica da Matemática

Avaliar? O quê? Quando? Onde? Quem? Como?

 

 A V A L I A Ç Ã O

 

            Vou abordar o tema da avaliação de alunos de uma forma quase empírica. O texto que se segue não é universal nem pretende ser verdadeiro. Antes transmite uma visão pessoal, localizada no tempo e de acordo com a minha experiência educativa. São reflexões sobre a necessidade e utilidade da avaliação no processo ensino-aprendizagem.

 

Porque avaliamos? Para que haja acção.

            O Homem vive avaliando tudo o que observa. E o aluno é conduzido por toda a comunidade para agir bem para que possa ter um "bom" resultado da avaliação.

            A vontade de aprender é inata. A capacidade de aprender é inata. A socialização induz algumas atitudes que maximizam e outras que condicionam a vontade de aprender. Assim, a aprendizagem passa a depender do conhecimento de que existe uma avaliação feita por alguém, de algum modo e em algum momento (nem que seja efectuada por um ente ideal e/ou num momento longínquo). O ciclo acção - avaliação - (in)satisfação conduz as aprendizagens.

            Por isto, supõe-se que a avaliação é o melhor instrumento para favorecer a aprendizagem. Actuar sob alguma coerção é natural. O aluno tem a predisposição de aprender porque sabe que vai ter uma avaliação e quer que ela seja positiva. Há o medo generalizado de que se o Homem não tem o conhecimento de que existe alguma avaliação então não desenvolverá a acção correspondente.

            Quem me impôs a tarefa de escrever uma "reflexão" sabia do que acabei de referir. E ainda bem. Porque só assim escrevo estas páginas que me dão algum prazer.

 

O que é avaliar? Elaborar um juízo de valor, qualitativo ou quantitativo, sobre uma acção.
                                Boa pergunta!

 

O que avaliamos? Toda a acção dos alunos.

            A avaliação é feita a partir de conteúdos curriculares (leccionados pelo professor ou pré-requeridos) e de conteúdos comportamentais (sugeridos pelo professor ou pressupostos pela comunidade).

            Toda a acção do aluno é avaliável. Com escalas e registos mais ou menos adequados é possível avaliar a cooperação, a confiança, a responsabilidade, a participação, a utilização da matemática, o raciocínio, a comunicação, o cálculo, a aquisição de conceitos, a compreensão de conceitos, a aplicação de conceitos, a análise de conceitos e a resolução de problemas.

 

Como avaliamos? Com métodos e escalas.

            O livro/lei "Matemática Programas 10º, 11º e 12º anos" indica claramente que a avaliação é sistemática e essencialmente formativa. O professor conduz o aluno a concretizar os objectivos do programa a nível de valores/ atitudes, capacidades/ aptidões e conhecimentos, avaliando os correspondentes objectivos.

            A avaliação formativa permite avaliar em todos os momentos lectivos. Cada movimento do aluno é observável pelo professor que o avalia imediatamente e de forma construtiva.

            A questionação e outros métodos interactivos professor-aluno permitem efectuar diariamente avaliações dos alunos. A questionação do professor promove a resposta do aluno. E a reacção do professor pode ser a correspondente avaliação (quando diz "muito bem", "diz de outra maneira", "não é bem isso que eu perguntei", ...). Depois da aula o professor regista os resultados das avaliações dos alunos. Assim, também são avaliações as observações orais ou escritas do professor sobre o desempenho do aluno.

            Para registar as avaliações pode ser usada uma notação conveniente e com informação qualitativa, por exemplo,

T = TPC ® To = não fez T_ = errado T± = com incorrecções T+= correcto .

C = comportamento; P = participação oral; Q = Chamada ao quadro; V = trabalho voluntário; CD = caderno diário ; A = assiduidade ; Pj= projecto.

            No sistema de ensino secundário português toma-se como norma a avaliação de testes escritos terem um peso final entre 80% a 100%. Uma Justificação compreensível é de que a resolução de um teste escrito resulta da execução de conjunto de actividades comportamentais, ou seja, num teste escrito avalia-se directamente objectivos curriculares e avalia-se indirectamente os objectivos comportamentais. Assim, se as atitudes e capacidades do aluno são consideradas em parte da avaliação final do aluno, então está-se a avaliar duplamente em detrimento dos conteúdos disciplinares.

 

Para quem avaliamos? Todos.

 

Quais são as dificuldades da avaliação? Falta de tempo para avaliar e para saber avaliar.

            Um professor não é um Deus. Cada vez se exige mais competências e actividades do professor quer seja dentro ou fora da sala de aula. Não é possível efectuar numa turma todas as metodologias e pedagogias necessárias para desenvolver cada aluno.

            A auto-avaliação e a hetero-avaliação são difíceis de promover de forma sistemática. Uma das razões é que a avaliação ainda é vista como uma imposição do poder do professor (será uma herança dos poderes absolutistas que quase sempre existiram em Portugal?). As sociedades actuais não pretendem apenas que os seus elementos saibam cumprir; Espera-se também que cada pessoa seja capaz de inovar, comunicar e interagir. Neste sentido, promover a auto-avaliação e a hetero-avaliação desenvolve a responsabilidade de cada um perante todos. A auto-avaliação sistemática aplicada a todos os objectivos do programa de matemática permite que cada aluno identifique a avaliação final como o resultado do seu empenho.

            Na página treze do "Matemática Programas 10º, 11º e 12º anos" afirma que "cerca de metade" da avaliação "seja feita usando outros instrumentos que não testes clássicos". No entanto não quantifica o peso de cada elemento da avaliação. isto poderá conduzir a discrepâncias nas avaliações entre os professores de matemática e entre as disciplinas.

            Uma das dificuldades da avaliação é a construção e utilização de escalas adequadas para a avaliação dos objectivos comportamentais. Porque não há registos e/ou escalas suficientemente correctas, concisas e fáceis de utilizar.

            Não há tempo para promover os processos que conduzem à avaliação formativa e sistemática de todos os alunos numa aula.

            Não há tempo para registar por escrito todas as avaliações formativas da aula. Normalmente o professor memoriza-as, construindo ao longo do tempo uma síntese descritiva e qualitativa das avaliações a cada aluno.

            Não há unanimidade na ponderação de cada parcela na avaliação final.

 

Como melhorar a avaliação? Torná-la mais explicita, concisa e democrática.

            No inicio do ano lectivo definir o peso na avaliação final dos conteúdos curriculares e dos conteúdos comportamentais.

            Desenvolver a auto-avaliação e a hetero-avaliação.

            Utilizar escalas de avaliação comportamental suficientemente abrangentes e sintéticas.

            Utilizar frequentemente expressões orais e escritas que emitem juízos de valor sobre o desempenho de cada aluno.

            Em cada questão de um teste escrito aplicar uma cotação para cada raciocínio.

            Mostrar aos alunos todas as avaliações.

 

Consequências da avaliação? Homogeneizar comportamentos, promover conhecimento.

            Um aluno estuda para que a sua avaliação seja satisfatória. Assim, a avaliação provoca o movimento e o pensamento dos alunos, desenvolvendo as relações entre os alunos e com o saber instituído.

            Os objectivos do ensino poderão ser alterados pelas avaliações efectuadas.

            A avaliação diferencia os alunos desde aqueles que nada fazem até aqueles tudo sabem.

            Quando se pergunta por uma avaliação apenas se está interessado no resultado final. Perde-se o conhecimento da acção que conduziu aquele resultado. Assim, a avaliação não espelha o desempenho do aluno.

            Infelizmente a avaliação é um factor marcante de exclusão para muitas pessoas, porque não são criadas condições para que cada um possa ser um "ás" numa certa especialidade para que estaria vocacionada.

            A avaliação de alunos permite a organização da sociedade. Definindo quem pode desempenhar uma ou outra função.

            Muito ainda ficou por dizer e explicar. Certamente terei outras oportunidades de reflectir sobre a avaliação e sobre as suas características.

Simões, Alcino. (1998-200?). Avaliar?. Folha do alcino. http://www.prof2000.pt/users/folhalcino/formar/outros/avaliar.htm
alcinosimoes@yahoo.com

 

_   |^|^|^|   _