Estágio Reflexo
Alcino Simões Nov 97

Orientar  Para  Formar

Estágio   em  Matemática

Alcino  Simões

Conferência para professores  

Introdução

Funções do Formador

Atitudes do formador

Organização do Núcleo de Estágio

Actividades do Formador

Actividades dos Estagiários  

Avaliação De Estagiários

Introdução

Bem vindos ao útero da nação!

             O que é um bom formador de professores?
             Como dinamizar e promover espírito de equipa e de trabalho num grupo de professores?
             Como incentivar o trabalho e cooperação de um estagiário?
             Quais são as funções do formador? Quando e de que forma deve intervir? O que deve ser apresentado para discussão/actividade a um estagiário? Como apresentar?

            Cada vez são exigidas mais funções ao professor para as quais ele tem de responder oportunamente e em consciência. Um professor não é apenas um transmissor de informação, mas antes de mais deverá ser um excelente comunicador.
             É pertinente que os novos professores de matemática sejam cada vez melhores. Assim, um novo professor de matemática deverá ter uma orientação personalizada e originária em alicerces de trabalho, de cooperação e de honestidade.

            Tenho sido formador pedagógico de estagiários de matemática desde o ano lectivo 1995/96 na Escola Secundária de Figueiró dos Vinhos. Os estagiários são alunos do curso de Ensino de Matemática do Departamento de matemática da F.C.T.U.C. da Universidade de Coimbra. O estágio Pedagógico tem a duração de um ano e corresponde ao quinto (e último) ano do curso de matemática. Cada estagiário é professor da disciplina de matemática em duas turmas de anos de escolaridade distintos. O formador é professor apenas em duas turmas.
 
            Os textos seguintes resultam de uma reflexão acerca do desempenho da função de formador de professores. Não foi feito um estudo exaustivo acerca deste tema. Mas resulta da minha experiência, das muitas conversas com professores e de algumas (poucas) recolhas bibliográficas.
Alguns textos, nomeadamente os “Dez mandamentos para professores” de George Polya, são analisados para fomentar a discussão das estratégias e actividades para os núcleos de estágio. São apresentadas algumas reflexões sobre as funções do formador, os objectivos da formação, as actividades na escola, a organização do núcleo de estágio, as observação de aulas, os processos, os meios de avaliação e os materiais de apoio.

 Funções do Formador  

 

            Normalmente, um formador não teve a preparação para um desempenho adequado deste papel. Assim, terá que ser o próprio a procurar informação e formação nesta área, junto das universidades, outros professores, livros ou acções de formação.
             E tem que de encontrar algumas respostas, mais ou menos satisfatórias para as muitas questões que urge responder.
            Que características gostaríamos de ver num formador?
            Quais são as funções do formador?
            O formador forma personalidades?
            O que é exigido ao formador?
            Quais são as obrigações do formador?

             O formador é o líder natural do núcleo de estágio, queira-se ou não. Assim como o professor deverá ser capaz de incentivar os alunos, também o formador deverá ser capaz de criar um empenho honesto no estagiário.
            Para ser formador não basta ter conhecimentos da didáctica, da legislação do sistema educativo e dos procedimentos usuais num ambiente escolar. Também precisa de saber conhecer os estagiários nas suas mais diversas facetas e, no momento oportuno, intervir habilidosamente para melhorar os seus desempenhos.
 
Formador e Estagiários

             O formador transmite diversos tipos de informação. Mas o objectivo maior é formar na consciência do estagiário um determinado modelo de conduta, um esquema para futuros comportamentos na vida profissional.
            Cada vez são exigidas mais funções ao professor. E ele tem de responder oportunamente e em consciência. Um professor não é apenas um transmissor de informação, mas antes de mais deverá ser um excelente comunicador. Deve estar preparado para se relacionar com todos os elementos da comunidade  educativa (alunos, encarregados de educação, funcionários auxiliares educativos,  membros dos órgãos autárquicos, empresários, ...).  E deve estar minimamente preparado para reagir convenientemente a todas as sugestões e reacções que provêem das mais diversas origens (pessoas, livros, legislação, comunicados, televisão, rádio, internet, ...).
            Vivemos numa sociedade em que o homem vai alcançando um nível cada vez mais elevado de desenvolvimento intelectual e de desempenho. As crianças são constantemente estimuladas pelos media. Os professores de hoje utilizam estratégias e materiais que serão considerados ridículos ou desnecessários daqui a vinte ou trinta anos.
             É pertinente que os novos professores de matemática sejam cada vez melhores. Assim, um novo professor de matemática deverá ter uma orientação personalizada e originária em alicerces de trabalho, de cooperação e de honestidade.
            O formador ensina um estagiário e não a multidão. Tem em consideração as suas capacidades, interesses, personalidade, motivações e empenho.
            Assim como um professor terá que saber ensinar um aluno, também um formador terá que saber orientar um estagiário.
            O formador é o elo de ligação privilegiado do estagiário com toda a comunidade educativa. As informações são compiladas e sintetizadas para o estagiário. O formador auxilia nas relações:
                                  Escola  --------------- Universidade
                                  Núcleo --------------- Órgãos da escola
                                  Saber teórico ------- Saber prático
                                  Estagiários ---------- Outros professores
                                  Estagiários ---------- Alunos
                                  Estagiários ---------- Grupo de Matemática

  Formador e a Comunidade

  Atitudes do Formador  

 

            O formador assume atitudes com vista a atingir um fim último: o sucesso do estagiário. Mas por vezes não é fácil resolver algumas dificuldades. Surgem frequentemente questões da didáctica, problemas de disciplina, incorrecções de pedagogia,  necessidades de desenvolver actividades, ...
            Para que nunca fique indeciso acerca do que é ou não importante, deve-se partir do zero. Isto é, o estagiário nada sabe sobre o complexo sistema educativo (que é quase corresponde à verdade). Tudo deve ser discutido. Tudo deve ser apresentado. Deixar ao acaso, ou à espontaneidade do estagiário pode acarretar frustrações.
            Como motivar os estagiários? O formador terá que mostrar toda a sua sabedoria e destreza diplomática para orientar o estagiário no caminho do sucesso.
            O formador pode não ser “o maior”. Surgem situações que nunca confrontou ou nunca reflectiu. Neste caso o formador pede esclarecimentos, informa-se e reflecte para posteriormente poder apresentar sugestões adequadas.
            O formador tem que ser humilde em reconhecer comportamentos incorrectas. E assim servir de exemplo. Por outro lado, estes comportamentos servem de contra-exemplo para os estagiários.
             Todo o trabalho do estagiário deve ser centrado no pensamento de que “Eu trabalho para os alunos. Quero que eles saibam mais e melhor.”
            A seguir estão algumas atitudes que o formador pode assumir.

Primeiro dar. Depois exigir.
Promover o trabalho de equipa e boas relações entre os estagiários.
Motivar e entusiasmar os estagiários, valorizando o empenho e a iniciativa.
Incentivar a investigação pedagógica, favorecendo a progressão.
Criticar construtivamente as aulas assistidas. Registar as observações em grelhas de avaliação
Reconhecer quando se engana.

Servir de exemplo ou de modelo.
Servir de contra-exemplo a nível das atitudes.
Procurar informação sobre tudo.
Promover a criatividade.
Permitir a utilização de diversos materiais, independentemente da sua origem ou originalidade.
Respeitar e valorizar o estagiário como pessoa e como professor.
Responsabilizar o estagiário.
Actuar imediatamente após ter sido solicitado ou ter detectado.
Estar sempre disponível.
Ser aberto a críticas.
Permitir a espontânea e livre discussão.
Favorecer a implementação de metodologias activas e/ou inovadoras.
Valorizar e fazer valorizar atitudes e valores consignadas nos objectivos pedagógicos.

Organização do Núcleo de Estágio

 

             A parte mais difícil da organização é saber propor ou impor regras que permitam um bom desempenho. Mas também é necessário saber mudá-las.
            Como organizar um núcleo de estágio?
            Como dirigir os trabalhos com os estagiários?
            Como relacionar os órgãos da escola com os estagiários?

  Actividades do Formador  

 

            O formador faz e favorece actividades no núcleo e na escola.
            Que tipo de materiais são possíveis de desenvolver com os estagiários?
            Quais são as actividades que podem e devem ser promovidas?
 

Preparar o Ano Escolar

No primeiro mês

Durante o ano

E ainda...
             O formador poderá promover reuniões com outros formadores da escola para
                        - trocarem opiniões,
                        - discutirem estratégias de dinamização e organização dos núcleos de estágio,
                        - preparar actividades para todos os estagiários realizarem em interdisciplinaridade.
            Os formadores podem promover Seminários de Trabalho Inter-Estágios onde são dinamizados alguns temas essenciais (indisciplina, avaliação, área-escola, funções do professor, funções da escola, utilização de acetatos, ...). Estes Seminários têm a duração de no mínimo duas horas preenchidas com textos e participação dos presentes, sob a coordenação dos formadores ou de um núcleo de estágio. Eventualmente poderão ser convidados outros professores que estejam mais envolvidos no tema abordado, de forma a tornar os seminários mais proveitosos.

 Actividades dos Estagiários  

 

Na Sala de Aula

            O professor também é um actor. E preocupa-se com muitos pormenores tal como um actor. A motivação dos alunos é tão importante no processo ensino-aprendizagem que, por vezes, o professor tem de assumir o papel de actor, para enfatizar a matéria a abordar.
            Os estagiários deverão leccionar aulas diversificadas, tanto a nível das estratégias (exposição, exercícios, trabalho de grupo, trabalho de investigação, ...), como dos materiais utilizados (acetatos, fichas, arames, livro adoptado,
            Polya apresenta um método que pretende desenvolver no aluno a criatividade e a auto-formação.
            Imre Lakatos apresenta um modelo de trabalho para a sala de aula “Lógica da descoberta matemática”(Hersh p 275-280).
            O que faz e como faz um professor na sala de aula? O professor deve fazer com que o aluno goste de matemática antes de aprender matemática. E isto passa pela motivação dos alunos e pelas estratégias utilizadas.
            A matemática também surge da realidade. Mas há problemas e problemas:
                    Uma gota mais uma gota é uma gota;
                    Uma Mona Lisa custa 1 milhão de contos. Quanto custa duas Mona Lisa?
                    Um pintor pinta uma sala num dia. Outro pintor pinta duas salas num dia. Quanto tempo demorarão os dois homens a pintar aquela sala?
         O estagiário deve sentir que é o professor da turma e que é ele o responsável pela aula.
 

Na Escola

            Apoiar alunos com dificuldades educativas (A.P.A.)
            Dinamização de concursos ou provas de matemática (Matemática-a-pé).
            Organização de jantares e convívios de professores.
            Organização  (preparação, vigilância, correcção, ...) das Olimpíadas de Matemática.
            Elaboração de cartazes de curiosidades ou a nível curricular.
            Construção e divulgação de um jornal de matemática.
            Organização de uma visita de estudo.
            Organização de um clube (de matemática, de fotografia, de rádio, ...).  

Avaliação De Estagiários

 

             É o momento mais esperado. Os estagiários estão apreensivos com a classificação final do estágio pois sabem que poderá influenciar a vida posterior.
             A avaliação dos estagiários é contínua. Durante todo o ano o formador vai apresentado críticas e sugestões de forma a que o estagiário possa melhorar o seu desempenho. Estas avaliações são essencialmente qualitativas.
            Um formador vê-se obrigado a avaliar sistematicamente os seus próprios métodos de ensino. E, de alguma forma, a avaliação dos estagiários pode estar dependente do desempenho do orientador.
             Eventualmente o formador apresentará uma avaliação qualitativa (e quantitativa?) no final do primeiro semestre. A avaliação deverá ser devidamente ponderada tendo em atenção as características de personalidade e o desempenho dos estagiários. Um resultado francamente positivo poderá favorecer o desleixo ou um maior entusiasmo. Uma avaliação muito baixa poderá causar revoltas ou, pelo contrário, maior empenho. A própria estratégia que se utiliza para se apresentar a avaliação poderá ser determinante para os desempenhos posteriores.
             Qual o peso relativo a atribuir a cada parâmetro na avaliação final do estagiário? Qual deve assumir o maior peso? As aulas? Ou as outras actividades?
 

Nas aulas

            Os professores assistentes de uma aula entram e saem da sala quando os alunos. Durante a aula permanecem em silêncio e prestam toda a atenção aos diversos pormenores. Por princípio, o orientador não deve intervir durante uma aula assistida. Pois qualquer intervenção, mostrará aos alunos que o seu professor não sabe ou que não “manda”. O silêncio dos professores assistentes mostra ainda que respeitam o professor observado, perante os alunos e perante os estagiários.
            Na reunião de análise das aulas assistidas, podem ser assumidas algumas abordagens. O primeiro a falar é o estagiário que leccionou, depois os outros estagiários e por fim o formador. Qualquer um pode intervir e questionar outros, em qualquer momento. O Formador tece algumas considerações que o estagiário, e depois os outros, comentam.
             Sobre o processo de conduzir estas reuniões, podem ser seguidas diferentes opções. O formador apresenta alguns tópicos que deverão ser desenvolvidos. O formador discute de acordo com os objectivos da aula a atingir. A discussão inicia-se depois do formador apresentar a avaliação que efectuou à aula assistida.
             No início do ano lectivo, o formador pode não discutir todos os comportamentos (ou objectivos) que observou nas aulas assistidas. Pode-se começar por discutir apenas os aspectos relacionados com a postura do professor e da gestão do tempo e dos materiais utilizados.             Progressivamente serão discutidos todos os outros objectivos e comportamentos.
             Qualquer estratégia de condução destas reuniões, deve ter como fim último o aperfeiçoamento do estagiário.
             Em cada aula assistida, o estagiário apresenta uma planificação onde constem: ano; turma; conteúdo; unidade temática; sumário; pré-requisitos; objectivos; estratégias; desenvolvimento.
             Uma aula deve conter uma introdução, o desenvolvimento, as conclusões, os exercícios e os eventuais TPC.
 

Na escola

             Tem-se em conta todos as actividades desenvolvidas ao longo do ano e a forma como os estagiários se empenharam.

 Exercícios  

1    Apresentar um plano anual de trabalho do formador onde estarão referidos os objectivos, os conteúdos, as actividades, as estratégias e os materiais a utilizar.
 

2 Analisar os “Dez mandamentos para professores”  do anexo A e reflectir sobre a sua influência na formação de professores.
 

   Elaborar uma lista ordenada e comentada, para o formador utilizar durante o ano, sobre:
- actividades extracurriculares que o estagiário pode desenvolver ou promover;
- legislação;
- temas pedagógicos;
- materiais e instrumentos pedagógicos;
- estratégias para a sala de aula.
 

4 Reflectir sobre a estratégia de avaliação (de aulas, ao longo do ano e final) dos estagiários e construir um esquema conceptual.
 

5 Reflectir sobre a estratégia de actuação do formador nas reuniões com estagiários de forma a criar um clima descontraído e de trabalho.
 

6 Partindo das fichas e material de apoio, referidas no anexo B, apresentar críticas e verificar se:
  - são úteis;
  - são práticas;
  - estão completas;
  - são explicitas;
  - têm boa apresentação.
 

7 Analisar criticamente os textos apresentados.
 
 

Simões, Alcino (1997). Registos de orientação de professores. http://www.prof2000.pt/users/folhalcino/formar/estagio/estagio/
alcinosimoes@yahoo.com

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