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Um conto por
                           Filipe Tavares

 

O César um rapaz que gostava muito de livros… um dia, encontrou lá em casa um livro muito grosso, cheirando a velho, com muito pó na estante do pai… interrogou-se do que trataria … nunca o tinha visto lá em casa. Intrigado na sua curiosidade passou os olhos como quem lê o livro todo  num instante sem nada ler e viu que as letras eram muito pequenas e tinha uns desenhos um pouco esquisitos de vez em quando, mas nada se comparava aos livros de banda desenhada que tinha no seu armário! Quis começar pelo princípio, assim descobriu o nome do livro "Bíblia Sagrada" já tinha sido escrito em 1940… é mesmo velho! —pensou ele— mas pegando na sua lupa de investigador numa folha em branco onde rabiscava e fazia uns desenhos enquanto lia.

Cada parágrafo que lia maravilhava-se com a narração do autor ao contar a criação do mundo… chamou-lhe atenção enquanto lia que existiam uns números entre as palavras, pensou ser algum código secreto, rabiscou na sua folha os seus enigmas para que à noite quando o pai chegasse lhe perguntar…

De repente parou! tinha acabado de ler o número 2 grande que tinha 25 números pequenos falava de um grande jardim chamado Éden onde Deus —César já tinha ouvido falar desse senhor lá na escola mas não sabia muito bem quem era—colocou o homem e o que o espantou mais foi a criação da mulher através de uma das costelas do homem, na verdade ele já tinha feito soldadinhos de barro… e plasticina, mas eles nunca davam um passo sozinhos mas como já tinha ouvido falar das fadas com as suas varinhas mágicas e dos duendes… talvez deus também fosse um desses duendes que fazem maravilhas, mas não percebeu porquê que a mulher tinha sido feita através de uma das costelas do homem…

Resolveu ficar por ali pois já estava cansado de ler aquelas letrinhas tão pequeninas. E quando o pai chegasse perguntar-lhe-ia o que era aquele livro e o porquê que aquele ser tinha criado o Adão através do barro a Eva a partir da costela de Adão.

Eram quatro horas da tarde e o césar estava impaciente que o pai chegasse. Faltava apenas uma hora… foi brincar com a sua plasticina e fez um boneco o mais perfeito que conseguiu e colocou-o junto ao livro grosso para mostrar ao pai…

Finalmente acabava de entrar aquela figura alta e sorridente com a sua pasta de trabalho na mão e as chaves do carro na outra. O césar correu para os seus braços já com um sorriso já conhecido pelo pai… —já sei que queres que eu te conte uma história…—disse o pai abraçando-o com força.

Na verdade o nosso amigo César tinha 10  anos mas adorava ouvir as histórias do pai… eram sempre as melhores.

Quase sempre chorava ou perdia-se a rir com os episódios que o pai ia contando.

Naquele dia o césar estava impaciente e o pai já notara … mas depois de comer qualquer coisa foi sentar-se na sala ao pé do césar…

Diz lá o que descobriste hoje?

César pegando no boneco contou ao pai o livro que encontrara, dizendo-lhe que lhe tirara um quilo de pó, e que tinha lido 56 números pequenos… o pai riu-se e começou a contar-lhe:

César, pegando no boneco, contou ao pai o livro que encontrara, dizendo-lhe que lhe tirara um quilo de pó, e que tinha lido 56 números pequenos… o pai riu-se e começou a contar-lhe:

— Grande aventureiro que tu hoje foste e que grandes descobertas desvendaste tu… na verdade esse livro, do qual tu tiraste um quilo de pó foi o primeiro livro a ser impresso; lembras-te da história dos livros que te contei na semana passada? Na verdade, "A Bíblia Sagrada" é um conjunto de livros; ora abre e vê, esses nomes não são capítulos, são livros independentes com a sua história que um povo, e um povo muito especial, reuniu num só.

— Pai, e porquê?

— Calma, este livro conta a vida de um povo na sua relação com Deus… —Quem é Deus?, perguntou repentinamente o César; essa é uma pergunta que dava outra história, mas para saberes quem é Deus, eu faço-te uma pergunta, quando estás sozinho, ou quando estás triste, … quando estás alegre e sentado no colo da tua mãe ou do meu qual é a pessoa que mais desejas que esteja ao teu lado? — …humm, …é o pai e a mãe… respondeu o garoto, intrigado. Deus é a pessoa que nos criou, e que por isso, cada um de nós quando o descobre deseja estar nos seus braços, ele é o nosso Pai, e fez tudo o que conheces e o que ainda não descobriste para a tua felicidade.

— Então todos gostam dele… eu também quero conhecê-lo!… quando podes convidá-lo a vir cá a casa? … para Ele brincar comigo…

O pai sorriu carinhosamente e disse: —Ele está sempre contigo. Está no teu coração. Foi ele que te ensinou a gostar do papá e da mamã. Ele é amor, Ele está sempre contigo. Mas queres que te conte a história do teu livro ou não?!…

Pois neste livro  tu encontras a vida de um povo ao longo de muitos anos, quando ainda não havia livros e eles aprendiam tudo ouvindo os pais deles e os seus avós. Deus fez com este povo uma Aliança e depois fez com todos os homens, quando  enviou o seu filho e este morreu por amor de todos… calma, nada de perguntas, olha que eu faço-te cócegas… espera. Eu sei que isto é um bocadinho complicado mas temos muitos dias para tu ouvires novas histórias…

— Pai, Deus fez mesmo tudo o que existe em sete dias, como está aqui escrito?…

— Lembras-te do livro que a mamã ofereceu ao padrinho, que tu escondeste e que quando leste uma página ficaste todo contente porque as frases tinham o mesmo som… e as palavras quase que pareciam música ao ler… e aquele poema sobre os animais! As palavras não queriam dizer o significado normal que tinham "… a zebra na sua manta de retalhos, riscada…" pois este texto que tu lês-te, sobre a criação do mundo, também é uma poesia em que o escritor descreve poeticamente como é que Deus teria criado tudo. Ele faz isso olhando para a natureza, e vê a imensidão dos céus, o mar, a terra , o dia e a noite, animais e plantas…  Ao dizer que foi em sete dias, era para dizer a todos os que depois lerem o texto, que Deus, sendo Deus, trabalhou seis dias e contemplou a sua obra no sétimo dia, também todos os homens devem trabalhar durante os seis dias da semana e devem descansar, agradecer a Deus o dom da Vida, a capacidade de trabalhar que tiveram, devem estar com a sua família …. Podemos dizer que é a partir daqui que o homem começa a contar os dias de semana a semana … já pensaste o que seria o pai não ter um fim de semana para brincar contigo… ficavas triste… não ficavas?…

— Como sabes tudo isso?… é mesmo verdade… e porque é que Deus criou a mulher da costela do homem, … do …

— Adão… — disse o pai enquanto o César procurava o nome no pesado livro — César achas que o papá e a mamã gostam muito um do outro? — Claro, andam sempre a brincar juntos, e também brincam comigo.  O Pai disse-lhe — Já há muitos anos que o homem descobriu que a sua felicidade estava no amor. E neste texto que tu leste, o escritor escreve poeticamente expondo os seus sentimentos. Naquele tempo a mulher ainda não era vista com os mesmos direitos que o homem, e o autor discordava desta opinião; para ele o homem e a mulher são iguais; nenhum é mais importante que o outro. achavas que estava bem se eu não ajudasse a mamã, ou se a mamã não ajudasse o papá? …

Pois este escritor quis dizer que o homem e a mulher são da mesma matéria osso dos meus ossos, carne da minha carne, além disso queria dizer, ao escrever que a mulher tinha sido criada a partir de uma costela do homem, que, sendo as costelas que protegem o coração, são elas que estão mais próximas deste e, por isso, a relação que deve existir entre o homem e a mulher deve ser uma relação de amizade e de amor. Nunca deve ser de escravidão ou de guerra…

O nosso César, depois daquele dia tão agitado em que tinha sido herói, tinha feito um homem de plasticina, tinha tirado um quilo de pó daquele livro pesado e com letras muitos pequenas… acabou por adormecer no colo do pai com o boneco de plasticina numa das mãos. E começou a sonhar com Deus, como seria interessante brincar com ele, estar sempre a seu lado…

FT Maio 1998

 

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