APONTAMENTOS SOBRE A HISTÓRIA DA EVOLUÇÃO DA LÍNGUA


Guilherme Ribeiro


ARCAÍSMOS


      

      Por arcaísmos entende-se as palavras ou expressões que, embora usadas numa determinada época, acabaram por, com o decorrer do tempo, serem substituídas por outras de sentido idêntico e, ou perderam totalmente o seu campo de referência. devido às transformações que se foram operando no campo científico-tecnológico, na organização social, nas ideologias, etc.

      CAUSAS DA ARCAIZAÇÃO DOS VOCÁBULOS:

      1. O desaparecimento de instituições, a mudança de costumes e de de objectos, tornaram o uso os termos que lhes correspondiam inusitado: alcaide, bucelário, catapulta, feudal, suserano, vassalo, etc.

      2. Substituição de termos por outros de significado idêntico: asinha por depressa; arteirice por astúcia; punçante por pungente; etc.

      3. Introdução de expressões eufemísticas: concubina por manceba; parir por dar à luz; tratante por negociante; feder por cheirar mal; etc.

      4. Sentido especial dado a certos vocábulos, como: físico = médico; manha = dote de espírito; etc.

      Os arcaísmos podem ser encontrados a diversos níveis: na fonética, no léxico, na morfologis e na sintaxe.

      a) ARCAÍSMOS Lexicais:

                  __ abondo = suficiente;

                  __ asinha = depressa;

                  __ cafuso = por acaso;

                  __ coita = aflição, pena, dor;

                  __ ande = daí;

                  __ chus = mais;

                  __ filhar = tomar;

                  __ leixar = deixar;

                  __ nado = nascido;

                  __ palmeirim = peregrino;

                  __ sages = prudente;

                  __ vianda = carne;

                  __ velas = sentinelas;

                   __ etc;

      b) ARCAÍSMOS FONÉTICOS:

      1) O moderno ditongo -ão era outrora representado por -om: amarom, divisom, etc.

      2) O hiato era frequente, vindo posteriormente a sofrer crase ou alargamento: seer (hoje ser); poboo (hoje povo); creo ( hoje creio); fea (hoje feia); etc.

      3) O sufixo -vel apresentava as formas -vil ou -bil: terribil (= terrível); amávil (= amável); etc.

      4) Preservava-se a nasalização do -n- intervocálico, que depois viera a desaparecer: l~ua (lua); ~ua (uma); etc.

      c)ARCAÍSMOS MORFOLÓGICOS:

      1) O nomes terminados em -or, -ol, -ês, -ote, eram considerados uniformes em género: "mia senhor"; "mulher espanhol"; «a nossa português e casta lingoagem» (António da Cruz e Silva);

      2) Algumas palavras tinham género gramatical diverso no Português arcaico:

      __ eram femininos: fim, mar, mapa, planeta, cometa;

      __ eram masculinos: tribo, coragem, linguagem.

      3) O particípio passado da segunda conjugaão era em -udo: perdudo (perdido); temudo (temido) etc.

      d) ARCAÍSMOS SINTÁCTICOS:

      1) emprego de duas negativas proverbiais: «Ninguém non sabia»;

      2) Emprego de «ome» como pronome indefinido (=> a alguém; a gente; idêntico ao "on" francês): «Ome non podia mostrar...»;

      3) Uso de "cujo" como interrogativo: «Cuja é esta glória?»;

      4) Abundância de pleonasmos: «Oje en este dia»; «Boas bondades»; etc.;

      5) Períodos extensos, colocação livre de palavras na frase e pouca acentuação (esta geralmente utilizada em casos que suscitavam ambiguidade de sentido).


INTRODUÇÃO
-- ÍNDICE GERAL -- LÍNGUA LATINA -- FORMAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA -- LÍNGUAS ROMÂNICAS -- NOÇÕES ELEMENTARES DE FONÉTICA -- OS METAPLASMOS (FENÓMENOS FONÉTICOS) -- VOCALISMO -- CONSONANTISMO -- FORMAS DIVERGENTES E FORMAS CONVERGENTES -- PERIODIZAÇÃO DA EVOLUÇÃO DA LÍNGUA -- MORFOLOGIA HISTÓRICA -- FORMAÇÃO DO VOCABULÁRIO -- ARCAÍSMOS -- BIBLIOGRAFIA --