APONTAMENTOS SOBRE A HISTÓRIA DA EVOLUÇÃO DA LÍNGUA


Guilherme Ribeiro


MORFOLOGIA HISTÓRICA


      I. OS NOMES:

      Os CASOS:

      O Latim exprime as funções sintácticas através de flexões, denominadas desinências casuais. As línguas novilatinas, por seu lado, exprimem as funções sintácticas por meio de elementos prepositivos: Um segmento de frase como «O livro de/do Pedro» tem como correspondente no Latim Vulgar «Libru de Petru» e no Latim Clássico «Liber Petri».

      No Latim literário existem tantas flexões ou desinências casuais quantas as funções sintácticas que uma dada palavra pode ocupar na cadeia da frase. Atentemos, a título de exemplo, na correspondência seguinte:

  FUNÇÕES   PORTUGUÊS   LATIM
  Sujeito   pedro   petrus
  compl. restritivo   de pedro   petri
  objecto indirecto   a pedro   petro
  objecto directo   pedro   petrum
  vocativo   ó pedro   petre
  compl. circunstancial, adjunto adverbial   com pedro   cum petro

      Estas desinências são conhecidas por casos. E como se pode observar, o Latim Clássico apresenta seis casos, cada um deles correspondendo a uma função específica:

                  a) Nominativo: função de Sujeito e Predicativo do Sujeito;

                  b) Genitivo: função de Complemento Determinativo, Complemento Restritivo;

                  c) Dativo: função de Objecto Indirecto;

                  d) Acusativo: função de Objecto Directo e Predicativo do Objecto Directo;

                  e) Vocativo: função de Vocativo;

                  f) Ablativo: função de Complemento Circunstancial, Adjunto Adverbial.

      A linguagem popular, por uma questão de facilidade, foi reduzindo essas flexões casuais, de forma a que o Latim vulgar acabaria por apresentar apenas dois casos: o Nominativo e o Acusativo. Aliás, sendo mais rigorosos, podemos mesmo dizer que apenas restou o Acusativo, o qual, com a tendência do Latim vulgar para eliminar as desinências casuais confundiu-se com o Nominativo (disciplus / discipulum __ discipulu).

      Se expressões há que podem suscitar alguma ambiguidade __ como: pro salutem; sine curam; cum conjugem suam; etc. __ outras há em que as preposições que, no Latim Culto, regiam ablativo, passaram, no Latim Vulgar, a reger acusativo: cum filios suos; ex litteras; cum collegas; cum heredes; cum nepotes; etc.

      Sem entrarmos em mais pormenores acerca do que contribuiu para a perda das declinações latinas, diremos que a grande maioria nomes da l´ngua portuguesa tem por étimo o acusativo latino __ o que equivale a dizer que o acusativo corresponde ao caso etimológico.

      Mas isto não significa que não haja vestígios de outros casos:

      __ Do Nominativo: os nomes próprios como: Deus, Cícero, César, Nero, Júpiter, Jesus, Carlos, etc. As palavras eruditas como: sóror, serpe, virgo, ladro, etc.. Os pronomes pessoais do caso recto: eu, tu, ele, nós, vós. Os demonstrativos: este, esse, aquele.

      __ Do Genitivo: a palavras compostas: terremoto (terrae + motu); aqueduto (aquae + duto); jurisprudência (juris + prudentia); uxoricida (uxoris + cida).

      Além disso, o Genitivo em -ICI deu origem a alguns patronímicos portugueses: Fernandici > Fernandez > Fernandes (Filho de Fernando); Soarici > Soarez > Soares (Filho de Soeiro); etc.

; e a alguns topónimos: Guimarães (Vimaranis), Esposende (Spanusindi), Mondim (Mondini), etc.

      __ Do DATIVO: crucifixo (cruci + fixu); mim (mihi); ti (tibi); si (sibi); lhe (illi).

      __ Do Ablativo: agora (hac hora); fidedigno (fide + dignu); talvez (tali + vice); topónimos como: Chaves (Flaviis), Sagres (Sacris); etc.

      II. OS VERBOS

      As terminações dos infinitivos latinos eram as seguintes:

                  1ª Conjugação: em -ARE, como «amare»;

                  2ª Conjugação: em -ERE (E breve), como «torrere»;

                  3ª Conjugação: em -ERE (E longo), como «fidere»;

                  4ª Conjugação: em -IRE, como «salire».

      Como a diferença entre a as terminações da segunda e a da terceira conjugações incide apenas sobre a quantidade das vogais (breve / longa), e como esta oposição quantitativa acabara por perder-se, a segunda conjugação absorveu a maioria dos verbos da terceira. Daí que a língua portuguesa apresente apenas três terminações infinitivas: -AR, -ER e -IR.

      Há, no entanto, que ter em atenção que, dentro da própria língua portuguesa, houve mudança de conjungação, como se pode observar por estes dois exemplos:

__ cadere (E longo) > cadere (E breve) > caer (arc.) > cair;

__ corrigere (E longo) > corrigere (E breve) > correger (arc.) > corrigir.

      VERBOS ANÓMALOS

      O verbo ESSE transformou-se em ESSERE. O português SER não vem de ESSERE mas sim de SEDERE que, originariamente, significava "Estar sentado".

      O verbo POSSE deu POTERE (E breve), donde em português PODER.

      Os verbos compostos de FERRE, passando geralmente para a quarta conjugação latina, deram em português a terminação em -IR:

                  conferre > conferire > conferir;

                  diferre > differire > diferir;

                  afferre > afferire > aferir;

                  praeferre > praferire > preferir;

                  referre > referire > referir.

      Mas os verbos sufferre (> sufferrere)e offerre (> offerescere) deram, respectivamente, sofrer e oferecer.


INTRODUÇÃO
-- ÍNDICE GERAL -- LÍNGUA LATINA -- FORMAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA -- LÍNGUAS ROMÂNICAS -- NOÇÕES ELEMENTARES DE FONÉTICA -- OS METAPLASMOS (FENÓMENOS FONÉTICOS) -- VOCALISMO -- CONSONANTISMO -- FORMAS DIVERGENTES E FORMAS CONVERGENTES -- PERIODIZAÇÃO DA EVOLUÇÃO DA LÍNGUA -- MORFOLOGIA HISTÓRICA -- FORMAÇÃO DO VOCABULÁRIO -- ARCAÍSMOS -- BIBLIOGRAFIA --