APONTAMENTOS SOBRE A HISTÓRIA DA EVOLUÇÃO DA LÍNGUA


Guilherme Ribeiro


VOCALISMO


      Por VOCALISMO entende-se a evolução dos fonemas vocálicos, na sua passagem do latim para o português.

      __ No Latim Clássico apresentava cinco vogais: a, e, i, o e u. Estas, segundo a quantidade, podiam ser breves ou longas. E a estas diferenças de quantidade encontrava-se também associada uma diferença de timbre. Assim:

e i o u (longas) : eram abertas;

e i o u (breves) : eram fechadas

          O a (a, a __ breve ou longo), tinha sempre o mesmo timbre.

      No Latim Vulgar, a oposição quantitativa acabou por desaparecer, passando as vogais a distinguirem-se apenas pelo timbre, isto é, em abertas e fechadas. Entretanto, em quase toda a Roménia, o i aberto confundiu-se com o e fechado e o u aberto confundiu-se com o o fechado. Por isso, as dez vogais do Latim Clássico (cinco breves e cinco longas) reduziram-se, no Latim Vulgar a sete:

                  a (longo) ....................................... a

                  a (breve) ....................................... a

                  e (longo) ....................................... e (aberto)

                  e (breve) ....................................... e (fechado

                  i (longo) ....................................... e (fechado)

                  i (breve) ....................................... i

                  o (longo) ....................................... o (aberto)

                  o (breve) ....................................... o (fechado)

                  u (longo) ....................................... o (fechado)

                  u (breve) ....................................... u

      O Português, tendo na sua origem uma fase evolutiva do Latim Vulgar, conservou dele os mesmo timbres vocálicos, além do acento tónico:

    Latim clássico     Latim Vulgar     Português
  a (longo) e a (breve)     a     a
  e (longo)     e (aberto)     é
  e (breve) e i (longo)     e (fechado)     ê
  i (breve)     i     i
  o (longo)     o (aberto)     ó
  o (breve) e u (longo)     o (fechado)     ô
  u (breve)     u     u
    10 vogais     7 vogais     7 vogais

I. VOGAIS TÓNICAS:

      As vogais tónicas da Língua Portuguesa sofreram as alterações semelhantes às que caracterizam o Latim Vulgar.

      As vogais tónicas, pela persistência da sua tonicidade, mantiveram-se:

                  a >: á ....... aquam > água

                  a >: a ....... pacem > paz

                  e >: é ....... nebulam > névoa

                  e >: ê ....... secretum > segredo

                  i >: ê ....... ille > ele

                  i >: i ....... rivum > rio

                  o >: ó ....... rotam > roda

                  o >: ô ....... saporem > sabor

                  u >: ô ....... lucrum > logro

                  u >: u ....... securum > seguro

      As excepções a esta correspondência vocálica justificam-se por causas fonéticas, analógicas, ou pela introdução de palavras eruditas na língua.

II.VOGAIS ÁTONAS

      1. PRETÓNICAS. __ Se as vogais átonas antecedem a sílaba tónica denominam-se de pretónicas. Estas podem, segundo a posição em que aparecem na palavra, dividir-se em:

      1.1. PRETÓNICAS INICIAIS. __ quando se encontram em início de palavra. Estas ora permaneceram, ora desapareceram por aférese:

                  amicu > amigo (permaneceu)

                  acutu > agudo (permaneceu)

                  episcopu > bispo (sofreu aférese)

                  acume > gume (sofreu aférese)

      1.2. PRETÓNICAS MEDIAIS. __ Geralmente, o processo de evolução condenou-as ao desaparecimento, através da síncope:

                  bonitate > bondade

                  honorare > honrar

                  computare > contar

      2. POSTÓNICAS. __ Se as vogais átonas se encontram após a sílaba tónica, denominam-se postónicas. Estas podem, segundo a posição em que aparecem na palavra, dividir-se em:

      2.1. POSTÓNICAS MEDIAIS. __ No interior de palavra, em posição adjacente à tónica, acabaram por desaparecer, por meio de síncope:

                  viride > verde

                  lepore > lebre

                  opera > obra

      2.2. POSTÓNICAS FINAIS. __ Em posição final, as vogais i e u das palavras latinas passaram a e e o, respectivamente:

                  vivi > vive

                  vesti > veste

                  campu > campo

                  libru > livro

      2.2.1. Quando a vogal postónica é precedida de uma consoante que pode formar sílaba com a vogal anterior, sofre geralmente apócope:

                  male > mal

                  bene > bem

                  amare > amar

                  cruce > cruze > cruz

      2.2.2. As vogais a e e, em posição postónica final, mantiveram-se inalteráveis:

                  aqua > água

                  Cicero > Cícero

III. DITONGOS

      No Latim Clássico havia três ditongos: ae, au, oe.

       Porém, o Latim Vulgar apresentava tendência para reduzir esses ditongos a vogais simples.

      Na passagem para o português temos:

      __ae > é:

                  caelu > céu

      __au > ou ou au:

                   audace > audaz

                   aula > aula

                   tauro > touro

      __oe > ê/é:

                   poena > pena

                   foeno > feno

      __O ditongo ou alterna com o ditongo oi, sem que seja explicável foneticamente:

                   ouro e oiro

                   touro e toiro

                   louro e loiro

                   cousa e coisa

      Isto significa que a língua portuguesa possui dois ditongos de origem latina: au e ou (oi).

      Contudo, é fácil constatar que a língua portuguesa apresenta mais ditongos. O aparecimento destes dever-se-á à fase evolutiva dos romances (falares de origem românica).

      CAUSAS DA DITONGAÇÃO:

      A formação dos ditongos terá resultado de determinados fenómenos fonéticos:

      A. DITONGOS ORAIS:

      1. Por síncope da consoante intervocálica:

                  vanitate > vaidade

                  vadi (t) > vai

      2. Por vocalização (transformação de uma consoante em vogal):

                  nocte > noite

                  regnu > reino

      3. Por hipértese (transposição de um fonema de uma sílaba para outra):

                  rabia > raiva

                  capio > caibo

      4. Por alargamento (epêntese __ adição de um fonema em interior de palavra __de uma semivogal para desfazer o hiato):

                  arena > area > areia

                  credo > creo > creio

      5. Por oclusão (fechamento ou abrandamento do timbre das vogais e e o, passando, respectivamente, a i e u):

                  malo > mao > mau

                  velo > veo > véu

                  amatis > amades > amaes > amais

      B. DITONGOS NASAIS

      __ DITONGO -ÃO:

      O ditongo final -ão, do português moderno representa as formas do português arcaico -am, -ã, -õ, correspondentes às terminações latinas -anu, -ane, -one, -udine, -ant, -unt:

                  veranu > verão

                  paganu > pagão

                  pane > pão

                  cane > cão

                  oratione > oração

                  ratione > razão

                  multitudine > multidão

                  solitudine > solidão

                  dant > dão

                  sunt > são

IV. HIATOS

      A Língua Portuguesa apresenta, desde a sua fase arcaica, forte tendência para evitar os hiatos.

      Por via de regra, os hiatos desfazem-se:

      1. Por meio da Crase (redução de duas vogais iguais a uma só):

                  vedere > veer > ver

                  ponere > poor > pôr

      2. Através da oclusão (fechamento do timbre das vogais e e o, passando, respectivamente, a i e u):

                  caelo > ceo > céu

                  ego > eo > eu

      3. Por alargamento (acrescentamento de uma semivogal epentética):

                  pleno > cheo > cheio

                  freno > freo > freio


INTRODUÇÃO
-- ÍNDICE GERAL -- LÍNGUA LATINA -- FORMAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA -- LÍNGUAS ROMÂNICAS -- NOÇÕES ELEMENTARES DE FONÉTICA -- OS METAPLASMOS (FENÓMENOS FONÉTICOS) -- VOCALISMO -- CONSONANTISMO -- FORMAS DIVERGENTES E FORMAS CONVERGENTES -- PERIODIZAÇÃO DA EVOLUÇÃO DA LÍNGUA -- MORFOLOGIA HISTÓRICA -- FORMAÇÃO DO VOCABULÁRIO -- ARCAÍSMOS -- BIBLIOGRAFIA --