Nascida por volta do século VII a. C., no «Latium» (Lácio), a formação da Língua Latina medeia entre a fundação de Roma e a queda do Império Romano do Ocidente.
Este idioma acabou por absorver os demais falares itálicos e tornar-se o língua nacional do Império Romano. Porém, como acontece com todas as línguas, este idioma carecia de uniformidade. Ao lado dos escritores e literatos, rigorosos na aplicação dos preceitos gramaticais, o povo usava a língua de forma mais despreocupada.
Seja como for, será errado considerar Latim Urbanus e Latim Vulgaris como duas línguas diferentes. Do mesmo modo que não será correcto estabelecer-se entre estas duas denominações uma diferenciação assente na oposição entre língua escrita e língua falada, uma vez que ambas eram utilizadas quer por escrito, quer oralmente.
Os próprios Romanos distinguiam já sermo urbanus (linguagem culta) de sermo vulgaris ou sermo plebeius (linguagem popular ou corrente). Cícero, nas suas Cartas, além de empregar certos vulgarismos, comprazia-se com o uso da linguagem da vida quotidiana (cotidianis verbis). E também Catulo e Petrónio deram foros de literário ao latim vulgar.
Nesta perspectiva, em relação à Língua Latina, costuma distinguir-se duas modalidades de uma mesma língua, embora marcadas por características diferenciadoras
A título exemplificativo, vejamos agora algumas diferenças entre o Latim Clássico e Latim Vulgar:
O Latim Vulgar (sermo vulgaris, sermo usualis ou sermo plebeius), como linguagem coloquial, quotidiana, corrente, e tendente para a simplificação, apresentava algumas características peculiares:
1) Ao nível fonético, nota-se uma forte tendência por parte do povo para evitar as palavras proparoxítonas (Esdrúxulas), pronunciando-as como proxítonas (graves):
| LATIM CLÁSSICO | LATIM VULGAR | PORTUGUÊS |
| álacrem | alácre | alegre |
| cáthedram | cathédra | cadeira |
| pónere | ponére | pôr |
| condúcere | conducére | conduzir |
Ao nível fonético, o Latim Vulgar caracteriza-se sobretudo pelo facto de evitar as palavras pronunciadas como proparoxítonas.
2) Ao nível lexical, predomina o uso de vocábulos mais caracteristicamente populares e afectivos com sufixos diminutivos:
__ «Ignis», que significava fogo, foi substitído por «focu», este com o sentido de fogo doméstico;
__ «Equus», termo usado no Latim Clássico para cavalo, nunca fora utilizado pelo povo, que o substituira por «caballu»;
__ «Auris» foi substituído pela forma diminutiva «auricula», termo de onde proveio orelha; etc.
Cícero empregara vários diminutivos (febricula, nauseola, etc), mas ´´e em Catulo e Petrónio que eles mais abundam: amiculus (amiguinho), asellus (burrico), occellulus (olhinho), basiolum (beijinho), etc.
As línguas românicas fizeram, não raramente, derivar alguns dos seus vocábulos de formas diminutivas, sobretudo de carácter popular:
___ linteolum > lenzuelo (ital.), lenzuelo (esp.), linceul (fr.), lençol (port.); ___ Sorella > sorella (ital.: irmã); ___ Fratellus > fratello (ital.: irmão); etc.Igualmente característico da língua falada é o que Nyrop denomina de cacofonia. Este fenómeno consiste na utilização de termos pejorativos, mas com sentido afectivo, carinhoso: canalha, para designar crianças pequenas; doidinha, tontinha; etc.. No português persiste ainda essa mesma noção de carinho associada aos diminutivos: mulherzinha, filhinho, segredinho, pastorinho, criancinha, etc.
Conclui-se que o Latim Vulgar manifesta tendência para o emprego de palavras mais populares e preferência pelo uso de sufixos diminutivos.
3) Ao nível morfológico, nota-se uma tendência natural para o uso de formas analíticas, que funcionam, em alguns casos, como marcas de expressividade:
__ Através do emprego de demonstrativos e do numeral «unus». Enquanto no Latim Clássico se dizia, por exemplo, «liber», no Latim Vulgar era recorrente dizer-se «illu libru» ou «unu libru» (> o livro; um livro);
__ Pelo uso de formas analíticas nos graus dos adjectivos. Assim, enquanto o Latim Clássico formava os comparativos e superlativos de forma sintética, por meio de sufixos, o Latim corrente dava preferência às formas analíticas, através do uso de advérbios antepostos ao adjectivo: à forma do comparativo no Latim Clássico «dulcior», sucedia no Latim Vulgar «plus / magis dulce» (mais doce); a forma clássica do superlativo «dulcissimus»; tinha como correspondente, no Latim Vulgar, «multu dulce» (muito doce);
__ Mediante o uso de formas analíticas na voz passiva: o presente do indicativo passivo do verbo «amare» era no Latim Clássico «amor», e no Latim Vulgar «amatus sum».
Sintetizando, ao nível morfológico, e em oposição ao que acontece com o Latim Clássico, o Latim corrente revela forte tendência para o emprego de formas analíticas, que se manifestam no uso dos artigos, nos graus dos adjectivos e na voz passiva do infectum.
4) Ao nível sintáctico, verifica-se no Latim Vulgar o incremento do uso das preposições com a consequente redução das desinências de caso, das quais o Latim Clássico se servia para determinar as funções sintácticas.
Tomando como exemplo a palavra "livro", verificaríamos o seguinte:
__ Com a função de sujeito, apresentava na forma clássica «liber» (isto é, a desinência de nominativo), enquanto o Latim Vulgar usava, para a mesma função, «illu / unu libru»;
__ Com função de complemento restritivo (do livro), o Latim Clássico empregava a forma do genitivo «libri», e o Latim corrente utilizaria «de libru»;
__ No campo sintáctico é frequente a tendência do Latim Vulgar para o analitismo, no que se refere à construção das orações subordinadas infinitivas. Estas podem, na língua portuguesa apresentar duas estruturas: seja de forma reduzida de infinitivo, como se constata por frases como «O povo diz ser a Terra redonda»; seja através da forma desenvolvida pela inclusão da conjunção integrante (que) « O povo diz que a Terra é redonda». E o mesmo se passava no Latim: enquanto o Latim Clássico preferia a forma infinitiva, «Vulgus dicit terram esse rotundam», o Latim corrente tendia para a utilização da forma desenvolvida, «Vulgus dicit quod terra est rotunda»;
__ Um outro aspecto prende-se com o uso das desinências para expressão das funções sintácticas. Assim, no Latim literário as desinências ou casos constituiam indicação da função sintáctica que a palavra possuia na frase, o que permitia uma grande liberdade quanto à disposição dos termos pela cadeia sintagmática. Uma frase como «Deus ama o homem» poderia apresentar vários encadeamentos: «Deus hominem diligit», ou «Hominem diligit Deus», ou «Diligit Deus hominem», ou «Hominem Deus diligit». O Latim Vulgar, por seu lado, eliminando essas desinências casuais, recorria a uma ordem directa mais fixa (sujeito, predicado, complementos), dado que a própria ordem dos elementos frásicos ajuda a determinar as funções que os mesmos contêm na frase: «Deus diligit hominem».
Em suma, ao nível sintáctico, o Latim Vulgar, diferenciando-se do Latim Clássico, manifesta tendência para o uso de formas analíticas, pela introdução de preposições, artigos, pronomes, redução dos casos, e pela preferência na utilização das orações substantivas desenvolvidas.
__ Igualmente característico da linguagem corrente é o gosto pelo concreto: mulier (mulher) em vez de uxor (esposa); siccus em vez de sitiens (estar seco, ter sede, estar sedento, estar sequioso); etc.
Além do Latim Literário e do Latim Vulgar, existem outras duas modalidades:
a) O Baixo-Latim, falado pelos Padres da Igreja da Idade Média, que, pretendendo atingir a formação moral dos seus fiéis, estavam mais preocupados em fazer-se entender do que em exibir discursos eloquentes.
b) O Latim Bárbaro, exclusivamente escrito, era a língua dos copistas da Idade Média. A designação de bárbaro devia-se ao facto de terem sido introduzidos nesta modalidade linguística vocábulos próprios dos falares romances e provinciais.