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Ass. Pais EB 2/3 Florbela Espanca

Ass. Pais EB1 e JI - Esmoriz
Ass. Pais EB1 e JI - Cortegaça


PATRONA

POETISA FLORBELA ESPANCA - (1894 – 1930)

Muito poucos são os habitantes de Esmoriz que têm conhecimento da passagem de Florbela Espanca por esta terra (1925). Durante pouco mais de dois anos aqui viveu nos lugares da Casela e Estrada Nova, na casa do médico Mário Lage. Ainda menos são as pessoas vivas que tiveram a felicidade de conviver com ela - ou simplesmente tiveram a oportunidade de lhe falar, uma vez que Florbela Espanca era uma pessoa muito reservada, pelo que pouco convivia. No entanto, os vizinhos sabiam que aquela senhora fazia traduções e os industriais da época falavam dela nas suas viagens de comboio: diziam que havia uma poetisa na terra.

Casa de Florbela Espanca em Esmoriz

I- DADOS BIOGRÁFICOS

Florbela de Alma Conceição Espanca, nasceu em Vila Viçosa no ano de 1894. Em 1917, concluiu em Évora, com óptimas classificações, o curso liceal, matriculando-se em seguida na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Publicou pouco depois os primeiros livros de versos.

Florbela Espanca

De temperamento ardente, foi bastante infeliz nas relações sentimentais e os desgostos da vida familiar depressa vieram amargurar-lhe os dias já bem negros. Para esquecer tamanhos tormentos, fazia versos e tomava estupefacientes. Morreu em Matosinhos na noite de 7 para 8 de Dezembro de 1930, bem tristemente, segundo se crê.

A causa da morte de Florbela tem sido motivo de estudo para vários dos seus biógrafos, ocupando parte significativa das obras a seu respeito.

As opiniões dividem-se, e mesmo alguns dos seus mais incisivos estudiosos, como Rui Guedes ou Agustina Bessa Luís contrapõem diversos argumentos que justificariam poder falar-se de suicídio premeditado, (recorrendo nomeadamente a excertos da sua obra, do seu diário ou à correspondência enviada pela poetisa) a outros, que apontam para o facto de se ter tratado de um acidente ou simplesmente, do culminar das doenças que afectavam a poetisa. Maria Alexandrina e António Freire recusam liminarmente a hipótese de suicídio, baseando-se no gravíssimo estado emocional e físico de Florbela.

Suicídio premeditado?

Na opinião de alguns estudiosos, o desejo de morrer de Florbela está claramente expresso na sua obra, no modo como aborda constantemente o tema da morte, quase que parecendo persegui-la. Seria a consumação de uma fuga, fuga a um amor, fuga à vida e aos sofrimentos que lhe traz. Além disso, seria uma saída fiel aos preceitos românticos. Há, inclusive, a ideia de que na sua obra estaria enunciado uma espécie de programa de despedida. Este seria uma espécie de adeus prolongado de Florbela à vida, um constante apelo à morte, e é recorrente, quer no Diário , quer nas Cartas vindas a público, quer, sobretudo em poemas de tom mórbido, como «Deixai Entrar a Morte» :

Deixai Entrar a Morte

Deixai entrar a Morte, a Iluminada,
A que vem para mim, pra me levar.
Abri todas as portas par em par
Com asas a bater em revoada.

Que sou eu neste mundo? A deserdada,
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar
E que, ao abri-las, não encontrou nada!

Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste?
Entre agonias e em dores tamanhas
Pra que foi, dize lá, que me trouxeste


Dentro de ti?... Pra que eu tivesse sido
Somente o fruto amargo das entranhas
Dum lírio que em má hora foi nascido!...

Para Florbela, a morte tinha, aparentemente, um significado algo incomum: era a libertação do sofrimento em que vivia, e, ao mesmo tempo, um consolo para as desgraças e o passaporte para o infinito, o absoluto, que tanto desejava alcançar. Era também, e acima de tudo, o regresso ao encontro com o seu irmão morto, Apeles, o meio de o conseguir reencontrar.

 


Florbela Espanca com o irmão

Sobretudo na fase final, os acontecimentos exteriores, como a viagem de Guido Battelli, e os interiores, nomeadamente a perda de capacidades, poderiam agitá-la excessivamente, aumentar o potencial de auto-destruição, e conduzir ao suicídio.

A possibilidade de suicídio é igualmente aceitável, se atendermos ao que Florbela confessou à sua amiga de infância Milburges Ferreira, a Buja, dias antes de falecer: Se passar do dia dos meus anos, morrerei de velha . Foi, aliás, às amigas que Florbela deixou algumas disposições especiais no seu testamento, que, para tanto, teve de alterar dias antes de falecer.

Foi também entre os amigos que, no dia anterior à morte de Florbela, correram supostos rumores de que esta estaria à beira da morte, rumores que Mário Lage, o terceiro marido da poetisa, também espalhou depois do funeral. Acresce que esses rumores se firmaram com base na coincidência de que Florbela se matou a 8 de Dezembro, dia do seu aniversário e do seu primeiro casamento. Por outro lado, a atitude de Lage não deixa de ser curiosa: após terem encontrado a poetisa morta no quarto, onde se tinha fechado no dia anterior, (pedindo que não a incomodassem até ao dia seguinte), o marido conseguiu manter uma espantosa lucidez, localizando rapidamente os amigos de Florbela para os informar do ocorrido. Mais a mais, é estranho que um médico permita que alguém viva rodeado de barbitúricos, quando sofre de uma neurose e já, por duas vezes, se tentou suicidar, a última das quais dois meses antes.

Referência ainda à declaração de óbito da poetisa, que, embora indique como causa da morte o edema pulmonar de que sofria, foi assinada por um carpinteiro.

Por último, há que ter em conta a hipótese sugerida por Agustina Bessa Luís de que Florbela se teria suicidado, em virtude de estar novamente apaixonada, possivelmente por Ângelo César, a quem dedica os seus últimos sonetos, como «Quem Sabe?».

Acidente?

Em primeiro lugar, a neurose de que a poetisa sofria agravou-se significativamente nos últimos meses da sua vida, provocando comportamentos estranhos que escandalizaram a família do marido, Mário Lage, em cuja casa vivia na altura. Além disso, foi-lhe diagnosticada uma apendicite, que faz com que Florbela se arrependa da sua natureza amante e ambiciosa, sentindo-se culpada do todas as polémicas que se geraram em seu torno. Em terceiro lugar, um edema pulmonar (talvez derivado de hipertensão provocada por algum anti-depressivo), descoberto pouco antes da morte, debilitou ainda mais o seu estado de saúde, agravado com um tratamento errado, baseado em refeições pequenas e demasiado repouso.

De facto, é possível que se tenha tratado de um acidente, motivado pela mistura de drogas muito fortes com certos alimentos, ou pela ingestão excessiva de Veronal, que Florbela passou a usar em 1930. Era um sonorífero extremamente forte, usado ao tempo, e particularmente nocivo para doentes pulmonares ou cardíacos, o que era o caso de Florbela. Provavelmente, a associação deste remédio com o tabaco que Florbela fumava constantemente, numa altura em que quase não consegue suportar a neurose, poderá ter ajudado a precipitar a sua morte.

No entanto, não deixa de ser verdade que os dois frascos de Veronal encontrados de baixo da cama da poetisa, completamente vazios, depois da sua morte, podiam ter sido tomados com a intenção premeditada de suicídio.

Por outro lado, há também a considerar o facto de que se aproximava a data da publicação de «Charneca em Flor», esperada pela poetisa com manifesta ansiedade, a par da anestesia e sofrimento prolongados em que Florbela vivia, em virtude da constante ingestão de soníferos, e que impediriam que tivesse um mínimo de vontade de se suicidar. A este respeito, Agustina Bessa Luís cita, inclusivamente, psicólogos da área do suicídio, que consideravam esse acto pouco provável, no caso de Florbela. (Agustina Bessa Luís, «A Vida e a Obra de Florbela Espanca»).

Finalmente, não foi pedida para o enterro da poetisa qualquer disposição eclesiástica, o que era quase impossível naquele tempo se houvesse suspeita de suicídio.

II- OBRAS

Livro de Mágoas (1919),

Livro de Sóror Saudade (1923),

Charneca em Flor (1930),

Reliquae (1931),

A Máscara do Destino e Dominó Negro (contos).

Os primeiros livros de Florbela Espanca não despertaram a atenção dos críticos e ficaram nas livrarias quase esquecidos do grande público. Em 1930, porém, um admirador da poetisa, o professor italiano Guido Bátelli, editou Charneca em Flor e toda a gente se penitenciou de não ter dado mais cedo pelo extraordinário valor de Florbela. Logo após a sua morte, uma comissão de senhoras resolveu erigir-lhe um monumento em Évora e todos os jornais e revistas começaram a elogiá-la. Daí para diante, os seus livros venderam-se a vapor.

E assim ficou consagrada a infeliz mulher, que foi uma das mais inspiradas cultoras das musas que em Portugal houve.

III- OS TEMAS

1. A dor e a ansiedade

Florbela Espanca parece-se muito com Antero. Ambos procuraram no mundo a felicidade com que sonharam, e em vão. Todavia , a dor de Antero é metafísica, é uma dor que se preocupa com problemas transcendentes: a razão das coisas, o destino das coisas, o futuro de tudo, sobretudo o futuro. Florbela preocupa-se mais com o presente, com o que é terreno e lhe pode causar gozo e dar alegria, com o amor sensível, principalmente com o amor. Quer dizer: a Antero doeu-lhe a inteligência; a Florbela, o coração.

a) Um temperamento vulcânico.

Nas poesias de Florbela encontra-se uma intensa vibração erótica feminina. É uma egotista sui generis, que não oculta flagrantes indícios de narcisismo.

Às vezes, grita, pletórica de histerismo:

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar! Aqui... Além...
Mais este e aquele e outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém.

Outras vezes — quem o havia de dizer? — este tumultuar de paixões acalma e ela desejaria encontrar o seu paraíso perdido e queria então:


ser a moça mais linda do povoado;
pisar sempre contente o mesmo trilho;
ver descer sobre o ninho aconchegado
a benção do Senhor em cada filho;

............

ser pura como a água da cisterna;
ter confiança numa vida eterna,
quando descer à terra da verdade.

 

b) A solidão.

A poetisa queixa-se a miúdo de estar só. Não foi de facto compreendida. Convenceu-se de que o mundo teria de ser à sua volta um arraial festivo, quando ele não passa afinal de um vale de lágrimas. Quis que os outros se sujeitassem aos seus caprichos e volubilidades, mas ninguém lhe podia aturar os nervos e a altivez. Isolou-se então cada vez mais:

Altiva e couraçada de desdém,
vivo sozinha em meu castelo: a dor!
Passa por ele a luz de todo o amor...
E nunca em meu castelo entrou alguém!

...........

Neste triste convento aonde eu moro,
noites e dias rezo e grito e choro,
e ninguém ouve... ninguém vê ...ninguém!

 

Mas esta solidão resulta de se não sentir amada:

Vejo-me triste, abandonada e só
bem como um cão sem dono e que o procura,
mais pobre e desprezada do que Jó
a caminhar na via da amargura!

Judeu errante que a ninguém faz dó!
Minh'alma triste, dolorida e escura,
minh'alma sem amor é cinza e pó,
vaga roubada ao Mar da Desventura!

 

c) O desespero.

Não tardou muito que Florbela, cada vez mais só, se desse conta de que procurava inutilmente a felicidade na terra. Um após outro, todos os sonhos se lhe desfaziam nas mãos como bolas de sabão. E cansou-se de esperar por melhores dias:

Maria das Quimeras, que fim deste
às flores de oiro e azul que a sol bordaste,
aos sonhos tresloucados que fizeste?

Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?...
Aonde estão os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?

d) O regresso ao nada.

A solidão, o desespero, o desengano levaram-na ao desejo da morte:

Morte, minha senhora Dona Morte,
............
fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

A morte não lhe seria tão dura, se, para além dela, visse Deus. Acreditaria em Deus? Fala nEle a cada passo. Chega mesmo a formular algumas preces:

Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza...

 

Diz até que o procurou:

Quem me dirá, se lá no alto, o céu
também é para o mau, para o perjuro?
Para onde vai a alma que morreu?...
Queria encontrar Deus! Tanto o procuro!

 

2. O seu Alentejo

Poucos escritores souberam retratar tão fielmente como Florbela Espanca a alma da planície alentejana. É que a planície, com a infinidade de seres que nela se movimentam, incarnou na sua personalidade.

Começou por senti-la:

Fumo beijando o colmo dos casais...
Serenidade idílica das fontes
e a voz dos rouxinóis nos salgueirais...

Tranquilidade... calma... anoitecer...
Num êxtase eu escuto pelos montes
o coração das pedras a bater...

Passou depois a comparar-se com as árvores:

A planície é um brasido... e, torturadas,
as árvores sangrentas, revoltadas,
gritam a Deus a bênção duma fonte!

Arvores, não choreis! Olhai e vede:
— Também ando a gritar, morta de sede,
pedindo a Deus a minha gota de água!

Viu ainda que as pessoas, os animais e as coisas se interpenetram em metempsicose e panteísmo:

Toda esta noite o rouxinol chorou,
gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma do rouxinol, alma de gente,
tu és talvez alguém que se finou.

...............

Toda a noite choraste... e eu chorei
talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
que ninguém é mais triste do que nós!

Finalmente a poetisa quase se confunde com a terra, com as ervas, com as árvores, num panteísmo pampsiquista onde há vestígios nítidos de Eça e Antero:

Vejo-me asa no ar, erva no chão,
oiço-me gota de água a rir na fonte...
...............
E de bruços na terra penso e cismo
que, neste meu ardente panteísmo,
nos meus sentidos postos e absortos

nas coisas luminosas deste mundo,
a minha alma é o túmulo profundo
onde dormem, sorrindo, os deuses mortos.

IV- ESTÉTICA E ESTILO

Florbela Espanca cultivou o soneto com rara perícia. Dentro desta modalidade estrófica, não obstante a condensação de pensamento a que obriga, sente-se perfeitamente à vontade.

•  O amor à terra natal e a maneira como a evoca segredam-nos baixinho que aprendeu a lição de Garrett.

•  A ansiedade e o desespero que manifesta fazem-nos lembrar o pessimismo e, num passo ou noutro, o existencialismo absurdista do após-guerra 1914-1918. Reparemos nestes versos:

Queria tanto saber porque sou Eu! ...
Quem me enjeitou neste caminho escuro?

E ainda nestes:

Quem nos deu asas para andar de rastos?
Quem nos deu olhos para ver os astros,
sem nos dar braços para os alcançar?

O vocabulário em que insiste é tétrico e doloroso: ciprestes, poentes de agonia, brasido, sol escaldante, mar de mágoa, só, abandonada, morte, crepúsculo, noite.

•  A perfeição formal, o vigor de inspiração, a linguagem frequentemente animada de prosopopeias e a plástica verbal aproximam-na muito da estética parnasiana. O mesmo se nota na tendência manifesta de unir o abstracto ao concreto («as asas louras da ilusão», «hora dos mágicos cansaços»).

•  Recorre abertamente a motivos e símbolos de carácter acentuadamente feminino, como olhos, mãos.

Estátua de Florbela Espanca no Parque dos Poetas, em Oeiras, (2003)




Escultura de Florbela Espanca inaugurada no dia 6 de Setembro de 2010

Autoria - Atelier de Escultura (Grupo de estágio de Educação Visual 2009/2010)


"Da minha janela" - Painel de azulejos da poetisa Florbela Espanca inaugurado no dia 5 de Setembro de 2011
Autoria - Grupo de Educação Visual/Núcleo de Estágio (ano lectivo 2010/2011)

Agrupamento de Escolas Florbela Espanca
Rua Florbela Espanca, 360
3885-454 Esmoriz