RODA VINTE E OITO
Escolhe a opção certa para cada questão.
Quando a gente começa a ter pernas para dar uma volta inteira aos pedais de uma bicicleta, o que apetece é montarmo-nos nela e pedalar depressa, cada vez mais depressa, cada vez com mais força até termos quase a certeza de que somos pássaros.
Olhamos sempre em frente, tomamos decisões à velocidade da luz e não podemos hesitar. Se o fizermos o resultado é mais que sabido: um tombo, um braço esfolado, um joelho a pingar sangue, a pele a arder, e por vezes um sorrisinho amarelo se há alguém a ver a nossa azelhice.
Quem é que não tem uma história para contar com uma bicicleta metida no enredo?
O meu pai tinha uma bicicleta, roda 28, muito antiga, muito pesada e muito resistente. Nesse tempo ter uma bicicleta era um luxo. Para ir à feira da vila não era preciso fazer a caminhada. Só era necessário pôr os pés nos pedais e fazê-los dar voltas. E nos sítios em que os caminhos eram muito a pique ou estavam cheios de pedregulhos ou buracos andava-se com ela à mão. Eu fartava-me de namorar a bicicleta, mas o meu pai, por causa das tentações, mal chegava a casa, a primeira coisa que fazia era esvaziar o ar que havia nos pneus. E eu suspirava.
Mas uma vez (há sempre uma vez, como toda a gente sabe...) o meu pai chegou a casa e esqueceu-se de tirar o ar aos pneus. E eu, sem dar satisfações a ninguém, na tarde do dia seguinte, que calhou num domingo, peguei na bicicleta e levei-a para o adro da igreja, que era planinho e avantajado em tamanho.
Comecei as aulas de equilíbrio com a moçarada da aldeia a correr atrás de mim. Cai-não cai, cai-não cai (e às vezes caía...), aprendi num instantinho a guiar a bicicleta. Ainda não era capaz de fazer um oito muito apertado e sem pôr o pé no chão, mas a andar sempre em frente estava a ficar um ás.
Envaidecido com a sabedoria, resolvi deixar o largo e pedalei com toda a força em direcção à rua empedrada que atravessava a aldeia.
Lá ia eu a pedalar com toda a força, e a descer, muito senhor do meu papel, quando ao fim de uma curva apertada vi uma galinha choca, com uma ninhada de pintainhos atrás, a atravessar a rua...
Alarmado, comecei a gritar: "Fujam, senão eu mato-vos! Fujam, seus palermas!"
Toquei a campainha, tirei os pés dos pedais, apertei os travões com toda a força - e levantei voo. Aterrei à beira do cancelo da cozinha do Manuel Bigodes.
A bicicleta estava intacta e os palermas dos pintos lá continuaram atrás da mãe, piu-piu-piu, como se nada tivesse acontecido.
Eu é que fiquei com os cotovelos numa lástima. E claro que nesse dia houve em minha casa sermão e missa cantada!
António Mota, O Lobisomem