ZÉ JASMIM
Escolhe a opção certa para cada questão.
Só uma vez Zé Jasmim se esqueceu da sua habitual prudência. Foi num domingo, e no campo desportivo jogava-se uma importante partida de futebol. Zé Jasmim não era grande entusiasta, mas o jogo pouco a pouco foi-lhe aquecendo o sangue. A certa altura a equipa da terra, impelida pelos gritos fogosos dos seus apoiantes, passou ao ataque. (Eu não sei muito bem o que significa "passar ao ataque", porque não
conheço o jogo de futebol: são coisas que Zé Jasmim me contou com estas palavras, mas vocês decerto compreenderão, se forem leitores de jornais desportivos.)
- Força! Força! - gritavam portanto os adeptos.
- Força! - gritou também o Zé Jasmim com toda a sua voz.
Precisamente nessa altura a ala direita estava a passar a bola ao avançado-centro: mas a bola, a meia altura, todos a viram desviar-se, empurrada por uma força invisível, e enfiar-se na baliza adversária passando por entre as pernas do guarda-redes.
- Golo! - gritou a multidão.
- Que tiro! - comentava alguém. - Viram como foi disparado? Calculado ao milímetro. Aquele tem um pé de ouro.
Mas Zé Jasmim, voltando a si, percebeu que tinha armado uma das boas. "Não há dúvida", pensou ele, "o golo marquei-o eu, com a voz. Tenho de estar calado senão aonde vai acabar o desporto? Pelo contrário: tenho de marcar um golo também pela outra parte para ficarem iguais."
Com efeito, na segunda parte apresentou-se uma ocasião favorável. Enquanto os jogadores adversários passavam à ofensiva, Zé Jasmim lançou um grito e meteu a bola na baliza dos seus conterrâneos. Tinha o coração destroçado, e percebe-se muito bem. Mesmo passados tantos anos, ao contar-me esse episódio Zé Jasmim acrescentava:
- Preferia cortar um dedo a marcar aquele golo, mas tinha de fazê-lo.
- Outro no teu lugar teria feito ganhar a equipa do seu coração.
Outro sim, mas Zé Jasmim não: era leal, sincero como a água límpida.
Gianni Rodari, Zé Jasmim na Terra dos Aldrabões