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PRENDAS DE NATAL

Eu dava aulas numa escola perdida na serra.
Era uma escola pobre, faltava-lhe quase tudo.
Tinha carteiras velhas e quadro rachado.
Tinha buracos no soalho e ratazanas nos armários.
Não havia água canalizada nem luz eléctrica.
Em algumas janelas pusemos cartões a servir de vidros.
No Inverno os dias às vezes eram tão frios, tão gelados, que as nossas mãos ficavam roxas. E ninguém podia escrever.
Eu queixava-me dos pés, sempre gelados. Não havia braseira que os aquecesse.
E o que é uma braseira para cinquenta pés pequeninos, mais dois, muito maiores?!

Um dia, cheirava já a Natal, a Luísa pôs um embrulhinho de jornal, muito bem atado com um cordel, em cima da velha secretária.
- É para si, professor!
Claro que logo quisemos saber que presente era aquele!
Desfiz os nós e as laçadas do cordel. Desembrulhei o jornal muito devagarinho...
E que vimos?
Um par de meias!
- São de lã... Foi a minha avó que as fez com agulhas de arame!
- Ó Luísa... mas a lã é tão cara...
E eu palpava aquelas meias brancas, macias, quentinhas.
- Não custou nada. Quem deu a lã foi a minha ovelha Mariquinhas!
Confesso que logo ali as calcei. E os meus pés apressaram-se a agradecer:
à Mariquinhas, que criou a lã;
ao pai da Luísa, que fez as agulhas;
à avó, que tricotou as meias.

Dias depois, naquela escola perdida na serra coberta de neve, havia vinte e seis pares de meias de lã, brancas, macias e quentinhas.
Cinquenta e dois pés que já não se queixavam com tanto frio.


António Mota, Abada de Histórias