“Se
se quiser falar ao coração dos homens, há que se contar uma história.
Dessas onde não faltem animais, ou deuses e muita fantasia. Porque é assim
– suave e docemente que se despertam consciências.”
Jean
de La Fontaine
Literatura infantil
Referência ao estudo de Magalhães,A.M ;
Alcada,I.. Literatura infantil,,espelho da alma, espelho do mundo. Revista
ICALP,vol.20 e 21,Julho -Outubro de 1990,111-123.
Contar histórias foi, é
e será sempre uma necessidade profunda do ser humano. As pessoas
não podem viver sem fazer o relato mais ou menos pormenorizado
do que lhes aconteceu ou o que pensam ter-lhes acontecido Para o
comum dos mortais a vida tornar-se-ia um pesadelo insuportável
se não dispusessem de um ouvido atento e amigo a quem recorrer
nas horas boas e nas horas más.
Os que se tornaram
escritores de certo modo não têm esse problema. Podem falar de
si, das suas experiências, do que desejaram ou imaginaram em
noites de delírio, amassar a realidade mais próxima com a
fantasia mais distante, inventar histórias, criar personagens ao
sabor do capricho ou da vontade. Seja o que for que escrevam
acabara por ser lido por alguém.
Os livros surgem
portanto em resposta a uma necessidade de quem produz, embora a
existência de público ávido, interessado, ansioso, seja
estimulante.
(…) Os livros de histórias
são uma necessidade de quem escreve ou de quem lê?
O autor pode permitir-se
tudo?
Há ou não há temas
interditos?
Deve procurar uma
linguagem simples?
O adulto conseguirá
dirigir-se às crianças se escrever ao sabor da sua imaginação?
Se o texto tiver
qualidade literária só por isso e acessível a grandes e
pequenos?
As características
próprias do público infantil devem ou não servir de referência
ao escritor?
Os autores que utilizam
essas referências fazem obras menores?
Será sequer legítimo
falar de literatura infantil?
(…) Existe uma
literatura infantil, pelo menos, desde o século XVIII.
(...) O talento literário não se confunde com o dom de
comunicar com as crianças Só consegue empatia profunda com os
mais novos quem tiver um talento específico para o fazer, o que
não se aplica, como é óbvio, apenas a quem escreve histórias.
A IDADE DE
OURO DA LITERATURA INFANTIL
No século XIX surgiram
obras, destinadas a crianças, que se tornaram best sellers mundiais e ultrapassaram
a barreira do tempo. Ainda hoje são lidas ou pelo menos
adaptadas para a Banda Desenhada, Desenhos Animados, Cinema.
Andersen, Dickens, Condessa de Segur, Julio Verne, Lewis Carroll, Mark
Twain, Johanna Spyri, com a sua “Heidi “, Stevensen, De Amicis,
que fez chorar gerações sucessivas sobre as páginas do “coração
“,Luisa May Alcott, Collodi cujo boneco de madeira, a quem deu o
nome de Pinoquio, continua vivo e de boa saúde, sem poder mentir
nunca por causa do nariz.
(…)Em plena Revolução
Francesa, por exemplo, quando se fez a reforma da instituição
pública, em 1801, as autoridades recensearam todas as crianças
de idades compreendidas entre os sete e os onze anos
para terem uma ideia acerca do número de escolas que era
necessário construir. As contas foram feitas ignorando a metade
feminina da população! E em meados do século, quinze mil
comunas francesas ainda não dispunham de escola primária.
Na mesma época em
Portugal a maioria das crianças de ambos os sexos não era
alfabetizada, pois considerava-se suficiente para os que se
dedicavam a trabalhos rústicos e fabris, o ensino oral do
catecismo ministrado pelos párocos, aos domingos, à tarde, na
igreja. Ribeiro Sanches deixara escrito nas suas “Cartas sobre a
educação da mocidade “que a instrução generalizada não tinha
qualquer vantagem e só contribuía para desviar as pessoas dos
seus ofícios manuais.
Para quem escreviam,
portanto, aqueles magníficos escritores?
A resposta e simples:
escreviam para uma minoria privilegiada que tinha acesso aos
livros. Os pequenos aristocratas e os filhos da alta burguesia.
HANS
CHRISTIAN ANDERSEN E SOFIA-CONDESSA DE SÉGUR
Os escritores do século
XIX produziram as suas obras porum impulso criador, com
uma intenção educativa e para um determinada assistência embora
cada um pudesse imaginar o universo infantil de acordo com as
suas experiências pessoais, não há dúvida, que os leitores
faziam parte de um grupo restrito: os “socialmente felizes “.
C.Andersen (1805-1875)e
a Condessa de Segur (1799- 1874)representam na mesma época duas
tendências da literatura infantil que se mantiveram ate aos
nossos dias e que poderíamos classificar chamando a uma
“sobretudo literária “e a outra “sobretudo para crianças “.
C.Andersen e a Condessa
de Segur curiosamente têm muito em comum. Ambos revelaram um
notável poder de comunicação com os mais novos. A intenção
educativa e patente nos livros de um e de outro. Qualquer
deles retrata um universo que conhece bem. Mas a atitude que
assumem e completamente diferente!
C.Andersen pertencia a
um meio paupérrimo e supersticioso. A sua infância foi triste,
cheia de carências, porque o pai morreu cedo, a mãe era
alcoólica, a irmã prostituta. Aos catorze anos partiu para
Copenhaga em busca do futuro cheio de glória que lhe vaticinara
uma bruxa. Não se enganou, a mulher! No entanto o percurso foi
longo, lento, difícil. C. Andersen passou fome e sujeitou-se aos
trabalhos mais variados e mesquinhos até que a roda da fortuna
virou graças a um protector altamente colocado. Os biógrafos que
se ocuparam de Andersen chamam sempre a atenção para o facto de
ele ter mantido a maior simpatia e carinho pelos desgraçados e
oprimidos, apesar do sucesso. Na verdade é sobre esses que
escreve. Dificilmente se encontraria alguém mais pobre do que
A Menina dos Fósforos, mais triste do que a Sereiazinha,
mais desafortunado que O Soldadinhode Chumbo .Mas
não é para os infelizes que escreve! Se o fizesse, um
homem bom e sensível como era, não resistiria a inventar outrashistórias. Quem se lembraria de entreter pequenos mendigos
levando-lhes personagens cujo destino e morrer de frio e de
fome?
Andersen quis chamar a
atenção das crianças felizes para os problemas dos outros. Mas
se escolheu esta via e porque lhe dava prazer. Na sua prosa
cristalina, simples, comovente, sente-se um certo deleite do
próprio autor, que página após página fala para si, da criança
que foi.
Com a Condessa de Segur
dá-se exactamente o contrário. Embora Os Desastres de Sofia
contenham elementos autobiográficos, a escritora esquece-se
de si própria e escreve não só para educar mas, sobretudo, para
distrair as crianças.
As suas narrativas são
sempre ligeiras. Mesmo quando trata assuntos sérios o peso da
alegria é maior que o da tristeza. E de uma maneira geral tudo
acaba bem. O corcundinha cura-se. O capitão de Rosbourg regressa
são e salvo do naufrágio …
No entanto a vida da
Condessa de Segur, ao contrário do que aconteceu a C.Andersen,
não foi uma grande aventura com final feliz!
(…)A Condessa de Segur
fala do mundo que conhece. A maior parte das suas personagens
vive em palácios, tem criados e carruagens, passa o Verão no
campo e o Inverno em Paris. Entre a aristocracia, entre aqueles
que os servem há problemas diversos de saúde, de falta de
carinho, de solidão e morte. Mas ao sofrimento a escritora
contrapõe constantemente cenas cómicas, alegres e dá às suas
histórias um desfecho que deixa o público dormir descansado.
C.Andersen dirige-se às crianças mas não se esquece de si. Sofia
de Segur esquece-se de si sempre que necessário para agradar as
crianças. Talvez por isso, enquanto a obra dele nunca foi
questionada pelos críticos, que são adultos, a obra dela
tornou-se polémica e foi alvo de discussões acaloradas entre os
que eram evidentemente contra ou a favor. Mas as crianças, que
não se dão ao trabalho de discutir e se limitam a ler o que lhes
agrada e a por de lado o que lhes desagrada, continuaram durante
cem anos a mergulhar sozinhas e por puro prazer nos livros que
Segur escreveu, apesar de aquele mundo de palácios, criados,
carruagens se ir tornando longínquo.
LITERATURA
INFANTIL – ESPELHO DO MUNDO
Alem do talento e das
opções individuais, a literatura infantil reflecte com clareza e
nitidez a época a que pertence. Excepção feita aos contos
tradicionais, que não só não surgiram para entreter crianças
como ocupam um lugar à parte que não cabe aqui tratar, cada
história e um espelho do momento em que surgiu.
O mundo transforma-se. A
literatura infantil não tem outro remédio senão transformar-se
também. Voluntariamente ou não, cada autor acaba por fazer eco
dos valores, ideologias, modos de vida, formas de encarar a
educação e a infância. Estes aspectos por vezes transparecem até
nos títulos de livros ou de colecções. Quem se atreveria hoje a
chamar a uma colecção Biblioteca das Raparigas, complementar de
outra, a Biblioteca dos Rapazes? Nos anos quarenta, no entanto,
era legitimo, correcto e correspondia a ideia que se tinha do
que era educar.
Recuando até ao final do
século XIX, vamos encontrar uma série de obras cujo título
contem uma mensagem inequívoca e subjacente: em 1882, Maria
Amália Vaz de Carvalho publica os “Contos para os Nossos Filhos
“.Em 1897,Ana de Castro e Osório dirige uma colecção chamada
“Para os Nossos Filhos “. E em 1907,Virginia de Castro e Almeida
e responsável pela Biblioteca para os Meus Filhos.
As mulheres portuguesas
ousam finalmente produzir obras literárias e assiná-las. Mas tem
o cuidado de lembrar que embora possuindo talentos, não se
distraíram da sua missão primordial: ser mãe. Escreveram sim,
mas para os filhos!
ENID
BLYTON
Enid Blyton representa
na literatura infantil um sucesso sem precedentes porque o seu
trabalho foi uma novidade absoluta. Depois da Segunda Guerra
Mundial a escolarização das massas tornara-se uma realidade. A
maioria dos potenciais consumidores de livros pertence agora a
classe média. O seu modo de vida, a sua maneira de estar no
mundo e outra. Para as crianças o tempo passa a ser repartido
entre o período das aulas e o período das férias. Rapazes e
raparigas ganham autonomia.
Convivem longe dos pais,
deslocam-se sozinhos, passeiam de bicicleta, participam em
acampamentos. Os modelos rígidos vão desaparecendo. Já não há
adultos que só têm virtudes ou que só têm defeitos. Vai-se
reconhecendo o direito a personalidade individual. Assim, o pai
pode ser distraído e ausente sem ser um monstro. A rapariga pode
gritar bem alto que preferia ser rapaz, usar calções e cabelo
curto sem que a sua atitude seja criticada. O cinema, a
televisao, a publicidade, jogam com as emoções, criam o gesto
pelo inesperado, pelo suspense.
Enid Blyton aceitou o
mundo e as crianças tais como eram naquela época e escreveu “Os
Cinco “. Da mesma forma que outros antes dela, optou pelo tipo
de prosa que classificamos de sobretudo para crianças. E fê-lo
da maneira mais radical pois o apagamento da autora e completo!
Nada do que escreve deixa transparecer coisa alguma a seu
respeito. Nem sequer as vivências de infância, posto que Enid
Blyton nasceu em 1899!
A colecção “Os Cinco”
tornou-se rapidamente um sucesso mundial e E.Blyton foi ocupar o
terceiro lugar entre os mais traduzidos logo atrás de Agatha
Christie e Shakespeare.
Os números fabulosos que
a tiragem de cada livro atingiu chamaram a atenção dos
críticos. Muitos insurgiram-se contra esse novo género literário
a que se deu o nome de “policiais Infantis” .Acusam-nos de
desabituar a criança do esforço intelectual, de reforçar o gesto
pelo fácil e estereotipado. Contrapõem-lhes a qualidade e o
valor dos clássicos.
Esquecem-se de que o
mundo ali retratado, nos clássicos, desapareceu. Que o ritmo da
vida interior e exterior se alterou profundamente. Que a
linguagem agora é outra. Com ou sem policiais infantis, poucas
crianças da segunda metade do século XX conseguiriam ler os
clássicos. Aderem a trama narrativa das aventuras de
Pinóquio, mas não à obra de Collodi. O pequeno herói de
madeira se permaneceu foi nos ecrãs, desenhado por Walt Disney.
O mesmo se passou com Alice no País das Maravilhas. Heidi
reviveu pela mão hábil dos desenhadores japoneses. As meninas
exemplares ainda brincam, mas é nos quadradinhos da Banda
Desenhada. Várias actrizes, entre as quais Elizabeth Taylor,
deram cara às Mulherzinhas, de Luisa May Alcot. Julio
Verne faz vibrar a juventude em álbuns coloridos ou no cinema.
Última actualização:
quinta-feira, 16 de Junho de 2005