Análise crítica do 1º número do Jornal "O Moscardo"

da Escola Secundária de Estarreja

O jornal "O Moscardo" da Escola Secundária de Estarreja, teve a sua primeira edição no 2º período do ano lectivo 1998/99.

Foi uma proposta da comissão executiva instaladora acolhida com entusiasmo pelo "Clube dos Direitos Humanos", coordenado pelo Departamento de Ciências Humanas (grupos de Filosofia e E.M.R.C.). Assim, o jornal enquadrou-se no âmbito das actividades do clube, enquanto meio informativo, formativo e apelativo congregador dos objectivos do clube e das suas actividades.

Neste contexto, pode dizer-se que o princípio norteador deste jornal foi a causa dos Direitos Humanos, como aliás o editorial deste seu primeiro número assume e explícita.

Quanto aos objectivos, é também o editorial a defini-los claramente: mudar atitudes quanto ao modo como se olha para a questão dos direitos humanos – sensibilizando, denunciando e apelando; promover uma educação claramente consistente e informada por valores; lançar os alicerces de uma escola viva, promotora da tríade liberdade, responsabilidade, solidariedade; fazer do jornal um espaço de comunicação aberta, lugar de diálogo e convívio que espelhe a diferença e faz dela potencialidade para produzir inovação; lutar contra o marasmo, a apatia e a indiferença; dar asas à criatividade e à imaginação descobrindo valores escondidos e dar voz a verdades ocultas e a acontecimentos que importa não esquecer.

Dado que o público-alvo é fundamentalmente constituído por alunos do ensino secundário (embora se dirija, naturalmente a toda a comunidade escolar e ao meio envolvente) que se encontram na idade da constituição concreta da cidadania, o papel de "O Moscardo" parece-me pertinente e perfeitamente enquadrado nos objectivos do ensino secundário. Creio que o papel da escola também é formar alunos críticos, intervenientes, solidários e responsáveis. O espírito humanista, ético e universalista do jornal parece-me totalmente apropriado para a criação de uma geração mais coesa e mais altruísta. Não penso que se um jornal escolar "agarrar" uma causa se torne mais restrito e redutor – quando essa causa é, claro, a causa da defesa de todos na sua singularidade e pluralismo; muito pelo contrário. Isto dá ao jornal e aos seus conteúdos, um horizonte de sentido, uma matriz e um fio condutor.

O nome do jornal, não sendo no meu entender esteticamente atraente nem sequer uma originalidade, resultou da escolha da responsável pelo clube em reunião com alunos. A razão de ser é, naturalmente, o estilo crítico e interpelativo que o jornal assume à imagem daquele que pela primeira vez teve este cognome – o filósofo Sócrates. Pareceu-me interessante que, por que nem todos conhecem Sócrates, ou não associariam facilmente o nome do jornal e o filósofo, existisse, na última página um artigo de uma aluna do 11º ano a explicar e fundamentar o facto: trata-se do artigo "Porquê Moscardo?". Aproveita-se para clarificar a identidade do jornal, informando e formando ao mesmo tempo. Creio que é rigoroso e educativo!

A periodicidade de "O Moscardo", não tendo datas muito rígidas, é de três números por ano lectivo o que se coaduna com a organização do ano escolar e não sobrecarrega alunos e professores.

Responsáveis por esta tarefa foram desde o início os coordenador e sub-coordenador do clube dos direitos humanos, colaborando nela activamente os restantes professores dos grupos referidos e os alunos sócios do clube.

No entanto este primeiro número revela uma colaboração bastante alargada de alunos dos diversos níveis de ensino e da alguns professores que só não participaram mais para dar prioridade aos alunos, estimulando-os e apoiando-os). Para que um trabalho de amadores não fosse feito de demasiado amadorismo, o jornal teve a colaboração fundamental de um professor da área de informática – que se encarregou da "montagem" e do grafismo" e o aconselhamento avisado de um professor director de um jornal local. Mesmo assim, neste primeiro número ainda se revelam algumas falhas na imagem e na forma do jornal que a impressão (feita em Oliveira de Azeméis, pela "Voz de Azeméis") não supriu devidamente. Neste aspecto, o 2º número revelou-se muito melhor.

Quanto à estrutura do jornal, tem 10 páginas – o que para um jornal escolar não me parece nem pouco nem maçudo – sendo a primeira e a última a cores – tornando-o mais atraente e motivante. Todas as páginas têm ilustrações tornando mais leve e fluida a leitura e, nos artigos de opinião, os alunos "dão a cara" com fotografias tipo passe o que eu entendo que serve para mostrar que as tomadas de posição devem ter rosto e nome e que cada um deve assumir as suas opiniões, responsabilizando-se por elas. È uma atitude pedagógica para os leitores.

A organização dos artigos, faz-se dentro de temas ou colunas, a saber: "Em destaque" (para realçar actividades ou acontecimentos mais relevantes no momento da edição); "Importa não esquecer" ( a defesa mais explícita dos direitos humanos); "Eles dão o máximo" ( com entrevistas a alunos que se destacam em tarefas extra escolares, nomeadamente no desporto); "Acontecimentos" (para ir noticiando o que está a acontecer ou aconteceu); "Janela Aberta" ( com artigos de opinião séria e fundamentada sobre várias questões); "Sabia que...?" ( dando informações várias e breves ); "Picadelas" (com críticas mordazes e irónicas às mais diversas situações e muito viradas para o interior da escola); por fim, o "Imaginarium" ( como espaço lúdico e criativo).

Os títulos dos diferentes espaços – que aparecem em fim de primeira página com a indicação das páginas em que se encontram –fogem à vulgaridade, são sugestivos, criativos e suficientemente abrangentes, pela sua diversidade, permitindo também, ordenar as mensagens de acordo com o seu teor, permitindo ao leitor não se dispersar nem confundir com ambiguidades e incoerências na sequência dos diferentes artigos.

Analisando mais atentamente o aspecto formal verifico haver demasiada publicidade (só a primeira página não tem) a firmas, empresas, casas comerciais e instituições. Na verdade o jornal vive disso, ou melhor, essa publicidade é paga e serve para custear a impressão do jornal porque a escola, essa nunca tem dinheiro (!). Só que me parece que o mundo pragmático da publicidade e do marketing não se coaduna bem com a função educativa.

Quanto à natureza dos conteúdos é a seguinte: duas entrevistas (uma ao Presidente da C.E.I. e outra a uma aluna desportista); três textos a justificar a identidade e função do jornal (o editorial na primeira página a definir-lhe o carácter, um artigo da C.E.I. a justificar a importância do jornal na página dois e um artigo sobre a razão do nome do jornal na última);uma montagem com cartazes de 1974/75 sobre a realidade sócio-política, a fazer o número 25 (dado que o jornal saiu pouco antes da comemoração dos 25 anos do 25 de Abril), devidamente legendada, na primeira página, e com o título "Importa não esquecer"; dois artigos de "picadelas"; uma banda desenhada (não original) e três pequenos textos estilo charada humurístico-metafórica; nove notícias de acontecimentos já passados e três de eventos a realizar; um texto sobre metodologias de estudo; dois artigos breves sobre factos escolares e locais; por fim, quatro artigos de opinião.

Os textos são, fundamentalmente, oriundos dos alunos do ensino secundário – só três são assinados por professores e um pela psicóloga da escola.

A apreciação que posso fazer aos conteúdos é positiva, dado que também é o primeiro jornal. A maior parte dos textos de opinião é madura e crítica, clara e bem fundamentada. O artigos de informação sobre matérias e temas rigorosos e criativos mas, algumas notícias propriamente ditas são demasiado carregadas de juízos de valor, misturando-se factos e opiniões como se fosse a mesma coisa. Talvez se deva pedir aos alunos para refazerem os textos depois de identificarem as suas afirmações subjectivas. No entanto, é certo que se eles lerem jornais nacionais de renome também verificam que o jornalismo se faz cada vez mais de apreciações valorativas e pessoais e, ainda mais grave, quando muitas vezes têm a pretensão de serem verdades absolutas. Também o espaço lúdico e criativo me parece pobre pois não há nada original não se mostrando que os alunos desta escola são capazes de ver a vida com uns olhos mais artísticos e imaginativos. é preciso estimulá-los para o sonho e para a fantasia pois só demonstram serem sérios e lúcidos (o que já não é pouco, entenda-se).

O balanço parece-me bastante positivo e "O Moscardo" dá uma imagem séria mas jovial, empenhada mas não instrumentalizada, plural mas não dispersa, crítica mas não inconsequente e, o mais importante, não é "asséptico" mas defende uma causa, a mais justa e universal das causas – a da dignidade humana. Com todos os defeitos técnicos, é um jornal com alma! Creio que isso até deveria ser um primeiro requisito deontológico de um jornal escolar.