Marcas de Africanidade

                        Não é descabido afirmar que a primeira marca de africanidade surge no título Luuanda com a duplicação da letra “u”. Esta particularidade pode ser entendida como uma conotação histórica, já que a pronúncia primitiva da palavra “Luanda” implicou que inicialmente se escrevesse com duas letras “u”, passando mais tarde a “Loanda” e só depois se passou à grafia “Luanda”. A carga histórica faz-se, de facto, sentir, talvez para sugerir que a parte da cidade onde se vão movimentar as personagens não se identifica com “a Luanda” dos colonizadores. Pode, deste modo, simbolizar a outra face da cidade, constituída, essencialmente, por musseques (zonas da periferia); daí as três “estórias” funcionarem como contributos sociológicos para nos traçar uma cidade marcada profundamente por contrastes sociais e temo-los presentes na estória em causa : os miseráveis, os medianos e os poderosos. A repetição insistente da letra “u” incute-nos no ouvido um eco, um grito de dor, sugerindo a voz do povo luandense  e angolano em geral. Este aspecto ecóico é uma característica das falas kimbundas e , portanto, uma marca de africanização linguística.

                        As "adulterações" do português – padrão, que se vão tornar invariantes, vão aparecer com mais insistência em Luuanda, mas reportemos-nos à estória em causa, onde podemos observar a oscilação quanto ao emprego dos modos conjuntivo e indicativo. Geralmente elimina-se o primeiro, mesmo em casos em que este modo é obrigatório em português- padrão:

                        exemplo – “Gostava muito de Delfina, queria mesmo ela sabia todas coisas da vida dele...”.

                        Surge-nos o uso particular de alguns verbos com alteração da sua significação; por exemplo a oscilação entre “ter” e “haver”: “Tinha mais de dois meses a chuva não caía”.

                        É também uma constante, o uso de formas verbais compostas, inadmissíveis pela gramática portuguesa ( exemplos :”...Trabalho estou procurar todos os dias.” ; “ E ele estava rir, estava dizer sim senhor, era filho de João Ferreira...”.

                        Surge, frequentemente, o apagamento de certos elementos relacionais da superfície da frase, como é o caso da conjunção integrante e de alguns pronomes relativos :

                        exemplos  - Tinha mais de dois meses a chuva não caía”; “... os vizinhos ouviram-lhe resmungar talvez nem dois dias iam passar sem a chuva cair.”.

                        O desaparecimento de elos sintácticos provoca-nos a sensação de estarmos perante uma escrita “saltitante” que irá permitir a Luandino o assumir da função de “griot” ( contador de estórias) moderno. Há como que uma teatralização que permite a substituição de elementos relacionais, e essa realidade transpõe-se  para a escrita. Luandino transmite para os seus textos um carácter de oralidade; está sempre presente um aspecto conversacionista.

                        O complemento directo quando expresso  por um substantivo, na maior parte dos casos, segue a sintaxe do português – padrão. No entanto, quando o complemento directo aparece sob a forma de pronome não surgem os pronomes o, a, os, as, com função sintáctica de complemento directo,  mas ,sim, lhe  e lhes, que , no português – padrão, são usados com função de complemento indirecto  . Podemo-lo verificar nos seguintes exemplos : “Quando vavó adiantou sentir esses calores muito quentes (...), os vizinhos ouviram-lhe resmungar(...)”; “cozinhou aquelas batatas, comeu-lhes todas.”.

                        Vários aspectos verbais são, muitas vezes, expressos por um verbo no tempo principal seguido de infinitivo sem preposição :

                        exemplo : “Era meio-dia já quase quando começou ficar mais manso”, “Vavó Xíxi(...) continuou varrer a água no pequeno quintal.”.

                        O complemento indirecto também pode aparecer regido com a preposição “em”, como poderemos verificar neste exemplo : “Toda a gente deu razão em vavó”.

                        Detectamos , também o uso de palavras formadas por justaposição : “cadavez você ia lhe ajudar” com o sentido de “talvez”; “ O melhor é mesmo aproveitar hoje, cadavez quem sabe?...”.

                        As comparações surgem com frequência nestes termos : o verbo parecer juntamente com o ser :

                        exemplos – “O musseque nessa hora parecia era uma sanzala...” e “ De manhã só mesmo uma caneca parecia era água”.

                        Há um uso frequente de pleonasmos, no caso concreto do exemplo, reitera-se o complemento indirecto : “... me arreou-me não sei porquê...?”.

                        Da consulta incompleta que fizemos, recolhemos alguns kimbundismos que referiremos de seguida :

                        Musseques  - Bairros ou aglomerações de moradores de classes economicamente menos privilegiadas , nos arredores de uma cidade.

                        Mangonha – preguiça.

                        Cacimba –cova ou poço destinado a receber água filtrada por terrenos adjacentes, para ser, posteriormente, utilizada por povoações.// Nevoeiro denso que se forma em algumas zonas de África, à noite.

                        Muxoxo – beijo carícia ou qualquer manifestação de carícia; gracejo// som produzido com a línguas no céu da boca e por vezes acompanhado da interjeição Ah!, para exprimir desdém, desprezo, contrariedade...

                        Matete – papa de farinha de mandioca ou de milho.

                        Quisende – praga.

                        Tugi – nada.

                        Maca – zanga.

                        Muringue – bilha de água.

                        Cassanda -  branca

                        Bassula – tareia.

Maximbombo –autocarro.

...